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domingo, 10 de março de 2013

“Quiçás o paradoxo mais radical do diálogo inter-religioso seja ter que se ir despojados da pretensão de absoluto do Absoluto que se proclama"

“Quiçás o paradoxo mais radical do diálogo inter-religioso seja ter que se ir despojados da pretensão de absoluto do Absoluto que se proclama. Se não for assim, cada grupo chega como idólatra, havendo confundido a Ultimidade com a imagem que nos fazemos dela, à qual não queremos, não podemos ou não sabemos renunciar. O diálogo inter-religioso põe a manifesto o absurdo de querer apossar-se do Fundo que funda o real. Se não se chega despojado ao diálogo, apenas se é portador de si mesmo: das próprias seguranças e ideologia ou, simplesmente, dos próprios hábitos, costumes ou obsessões”

- Javier Melloni, Hacia un Tiempo de Síntesis, Barcelona, Fragmenta Editorial, 2011, p.67.


sábado, 9 de junho de 2012

"Sobre o Diálogo Inter-Religioso", por Anselmo Borges

A questão do diálogo inter-religioso volta constantemente, também por causa da paz. Actualmente, a religião mais perseguida é o cristianismo. Para esse diálogo, há pressupostos essenciais. 1. Religioso e Sagrado não se identificam. Trata-se de realidades distintas: religioso diz respeito ao pólo subjectivo, isto é, ao movimento de transcendimento e entrega confiada por parte das pessoas religiosas ao pólo objectivo, que é o Sagrado ou Mistério, a que todas as religiões estão referidas, configurando-o a seu modo. 2. Questão decisiva é a da revelação. A pergunta é: como sabem os crentes que Deus falou? Mediante certas características - por exemplo, a contingência radical, a morte e o protesto contra ela, a esperança para lá da morte, a exigência de sentido último -, a própria realidade, sempre ambígua, mostra-se ao crente co-implicando a Presença do Divino como seu fundamento e sentido últimos. Como escreve A. Torres Queiruga, "não se interpreta o mundo de uma determinada maneira porque se é crente ou ateu, mas é-se crente ou ateu porque a fé ou a não crença aparecem ao crente e ao ateu, respectivamente, como a melhor maneira de interpretar o mundo comum". 3. A leitura dos livros sagrados não pode ser de modo nenhum literal, mas histórico-crítica. Por outro lado, se toda a religião tem como ponto de partida e de "definição" esta pergunta essencial: o quê ou quem traz libertação e salvação?, a libertação-salvação total é que constitui o fio hermenêutico decisivo para a interpretação correcta dos livros sagrados na sua verdade final. Só a esta luz é que eles são verdadeiros. 4. Condição essencial para a paz é a separação da(s) Igreja(s) e do Estado. Só mediante a neutralidade religiosa do Estado, é possível a garantia da liberdade religiosa de todos os cidadãos sem discriminação. Mas a laicidade não significa de modo nenhum que o Estado e a(s) Igreja(s) não possam e devam colaborar. O diálogo inter-religioso assenta em quatro pilares fundamentais. 1. Todas as religiões, desde que não só não se oponham ao Humanum, mas, pelo contrário, o afirmem e promovam, são reveladas e verdadeiras. Desde sempre Deus procura manifestar-se e comunicar-se a todos. Assim, em todas as religiões há presença de revelação e, portanto, de verdade e santidade. Precisamente porque todas são reveladas, mas no quadro de interpretações humanas, todas são também simultaneamente verdadeiras e falsas, precisando de autocrítica. 2. As religiões são manifestações e encarnações da relação de Deus com o homem e do homem com Deus. Elas estão referidas, isto é, em relação com o Absoluto, mas elas próprias não são o Absoluto. O Absoluto não pode ser possuído ou dominado pelo homem. Quando o homem fala de Deus, está sempre a falar do Deus dito por ele e não, embora referido a ele, do Deus em si mesmo. 3. Se as religiões não são o Absoluto, embora referidas a ele, as pessoas religiosas devem dialogar para melhor se aproximarem do Mistério divino absoluto já presente em cada religião, mas sempre transcendente a cada uma e a todas. 4. Paradoxalmente, o quarto pilar afirma que do diálogo inter-religioso fazem parte também os agnósticos e os ateus, pois o que, antes de mais, nos vincula a todos é a humanidade, concluindo-se, assim, que os agnósticos e os ateus são aqueles que, por estarem "de fora", talvez melhor possam aperceber-se da inumanidade, superstição e idolatria, que tantas vezes afectam as religiões históricas. Antes de sermos crentes ou não crentes, estamos vinculados pela humanidade comum e é pela sua realização plena em todos os homens e mulheres que devemos estar unidos. Critério essencial da verdade de uma religião é, pois, o seu compromisso com os direitos humanos e a realização plena do ser humano. O respeito pelo outro, crente ou ateu, e a salvaguarda da criação, não são algo acrescentado à religião, mas suas exigências intrínsecas. - Anselmo Borges

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

"Não vos amarreis exclusivamente a nenhum credo em particular"



"Não vos amarreis exclusivamente a nenhum credo em particular, ao ponto de não acreditardes em todos os outros, pois perdereis muito do bem e não conseguireis reconhecer a verdadeira natureza das coisas. Deus, o omnipresente e o omnipotente, não é limitado por nenhum credo, porque diz: «Para onde quer que vos voltais, vereis a face de Alá». Todos louvam aquilo em que acreditam; o seu deus é o seu próprio ser e, ao louvá-lo, louvam-se a si próprios. Consequentemente censuram os credos dos outros, o que não fariam se fossem justos, mas a sua aversão resulta da ignorância"
- Ibn al-Arabi.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

"A voz mais alta é a do burro, diz o Alcorão com perspicácia."

Entre os muçulmanos e não muçulmanos existe ignorância e má interpretação do signifcado do islamismo. Os não muçulmanos, como o ignoram e interpretam mal, receiam-no. Imaginam que é uma ameaça aos seus valores fundamentais. A fantasia, a conjectura e os estereótipos ocupam o lugar dos factos e da realidade. Os muçulmanos também têm as suas ideias erradas. Também eles reagem ao ódio e receio dos não muçulmanos, criando uma espécie de postura defensiva dentro da sua sociedade e gerando um clima combativo baseado num discurso militante de atribuição de responsabilidades a conspirações do exterior.

No meio deste clima quente e de mal-entendidos, as vozes dos homens e das mulheres com vidas simples e ideias de paz e tolerância deixam de ser ouvidas. Continuam lá, mas raramente se ouvem. E isso acontece pois, por natureza, os media não lhes dão hipótese de se manifestarem. Preferem pessoas de vozes mais sonantes e são essas pessoas que parecem fazer parte da sua agenda; são elas que causam as controvérsias e os debates entre muçulmanos e não muçulmanos. Os bons muçulmanos não conseguem escapar ao seu destino. O Alcorão limitou-lhes sempre os movimentos. A voz mais alta é a do burro, diz o Alcorão com perspicácia.

Akbar S. Ahmed, O Islão, 2002, Betrand Editora, Lisboa, p.279

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Conceptos Vigentes - Lo que importa es la verdad


1/10/2010
Tito Reséndez Treviño

1°- CONVERSACIÓN.- Lo que ustedes amables lectores van a repasar en seguida, es la conversación sostenida por el teólogo brasileño Leonardo Boff y el Dalai Lama, aclarando que el primero es uno de los renovadores de la Teología de la Liberación.

Esta fue la plática, comentada posteriormente por don Leonardo:

“En el intervalo de una mesa redonda sobre religión y paz entre los pueblos, en la cual participaba el Dalai Lama y un servidor, maliciosamente, más también con interés teológico, le pregunté en mi inglés defectuoso”:

“Santidad, cuál es la mejor religión?” Your holiness, what’s the best religion?

Esperaba que dijera: “El budismo tibetano” o las religiones orientales, mucho más antiguas que el cristianismo...”

El Dalai Lama hizo una pequeña pausa, sonrió, me miró fijamente a los ojos, lo que me desconcertó un poco porque yo sabía la malicia contenida en la pregunta.

Y afirmó:

La mejor religión es la que te aproxima más a Dios, al infinito.
Es aquella que te hace mejor.

Para salir de la perplejidad delante de tan sabia respuesta, pregunté:

“¿Qué es lo que me hace mejor?” Aquello que te hace más compasivo, más sensible, más amoroso, más humanitario, más responsable, más ético...

La religión que consiga hacer eso de ti es la mejor religión.

Callé, maravillado y hasta los días de hoy estoy rumiando su respuesta sabia e irrefutable.

No me interesa amigo tu religión o si tienes o no tienes religión. Lo que realmente me importa es tu conducta delante de tu semejante, de tu familia, de tu trabajo, de tu comunidad, delante del mundo.

Recordemos:

El Universo es el eco de nuestras acciones y nuestros pensamientos.
La Ley de Acción y Reacción no es exclusiva de la Física.
Es también de las relaciones humanas.
Si yo actúo con el bien, recibiré el bien. Si actúo con el mal, recibiré el mal.
Aquello que nuestros abuelos nos dijeron es la más pura verdad:
“Tendrás siempre el doble de aquello que desees a los otros”.
Ser feliz no es cuestión de destino. Es cuestión de elección.
Cuida tus Pensamientos porque se volverán Palabras.
Cuida tus Palabras porque se volverán Actos.
Cuida tus Actos porque se harán Costumbre.
Cuida tus Costumbres porque forjarán tu Carácter.
Cuida tu Carácter porque formará tu Destino.
Y tu Destino será tu Vida.
No hay religión más elevada que la Verdad

Buen fin de semana y acuérdese, sea católico, protestante ó de cualquier otra religión, lo único es la VERDAD, porque ahí está el GRAN ARQUITECTO DEL UNIVERSO...

fonte: http://www.eldiariodevictoria.com.mx/?c=141&a=20138

domingo, 3 de outubro de 2010

Al-Biruni


Nascido por volta de 973, na região de Khwarezmia iraniana, ele levaria a cabo uma actividade de observação científica que seria muito útil para a elaboração de calendários e da cronologia das nações. Mas foi a sua obra sobre a Índia (Kitab al-Hind), finalizada por volta de 1030, que lhe trouxe grande notoriedade. Foi o primeiro a falar claramente da epopeia guerreira de Mahabharata, tal como se pode constatar nesta passagem retirada do Livro da Índia: «É uma obra particularmente venerada pelos hindus. Eles procuram que encontremos aí tudo o que está nas outras obra, para além de outras informações que não podem ser encontradas em mais lugar nenhum. Este livro, o Maha-Bharata, organizado por Vyasa, filho de Parashara, durante a grande guerra entre os [Pandava] filhos de Pandu, e os de Kuru». A seguir, o leitor pode ler a descrição detalhada das dezoito partes que constituem o Mahabharata. Al-Biruni morreu por volta de 1050, sem dúvida, na sua terra natal de Khwarezmia.
O caso de Al-Biruni é exemplar. Eis um sábio completo, versado no enciclopedismo, que provou a necessidade de aprender o sânscrito e o hinduísmo, que traduziu obras sânscritas para árabe e as suas próprias obras para o sânscrito. Chamado respeitosamente AlUstad, «o Professor», Al-Biruni tanto era sábio no domínio dos idiomas e da religião, como no domínio da geometria euclidiana, da filosofia e da astronomia. No seu Livro da Índia, Al-Biruni faz referência à total imparcialidade que todo o bom historiador deve ter: «Foi para isso que escrevi este Livro da Índia, sem difamar pessoas que têm crenças contrárias às nossas e sem me esquecer de citar as suas próprias palavras. Se o que eles crêem ser a sua verdade difere da nossa, mesmo parecendo ela abominável para os muçulmanos, que assim seja! Apenas direi: "É nisto que os hindus acreditam e é esta a sua forma de ver!" » (p.42).

Malek Chebel, O Islão Explicado, 2010, Europa-América, Mem Martins, pp.127-128

sábado, 2 de outubro de 2010

Rabi'a al-Adawaiyya


O Islão tem com Rabi'a al-Adawaiyya, uma mística de Baçorá, antiga Basra, o equivalente exacto de Teresa d'Ávila. Esta mulher surpreendente, de uma beleza física reconhecida, viveu uma ascese exemplar, a ponto de ter sido considerada um exemplo maior na maior parte das ordens do seu tempo e de se ter afirmado como benfeitora da sua cidade. Poetisa, desprezava os bens materiais e não vivia senão em nome da sua vontade inabalável de querer unir-se a Deus ou de querer estar na sua companhia (uns). Pela sua sinceridade, a sua força pela paixão mística (mahabba) conquistou um lugar na História. Assinala-se, sobretudo, a forte tónica mística dos seus poemas que celebravam a entrega de si, a privação e o isolamento. Sendo o Oriente sensível aos prodígios, diz-se que o seu brilho espiritual era tão poderoso que minorava a ausência das velas Ainda actualmente, no Cairo e noutras cidades muçulmanas, o culto de Rabi'a al-Adawuiyya continua vivo. Permanece como um símbolo solitário e uma representação delicada da emoção mística.

Malek Chebel, O Islão Explicado, 2010, Europa-América, Mem Martins, pp.110-111

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Só no Infinito o finito encontra a sua verdade


Para o homem religioso, a realidade não se esgota na sua imediatidade empírica: para a sua compreensão adequada, a realidade mesma aparece-lhe como incluindo uma Presença que não se vê em si mesma, mas implicada no que se vê. Mediante certas características - a contingência radical, a morte e o protesto contra ela, a exigência de sentido -, a própria realidade se mostra implicando essa Presença sagrada, divina, como seu fundamento e sentido últimos.
Neste quadro, é decisiva a experiência da contingência radical do mundo, de cada homem e cada mulher, mas, como escreveu R. Panikkar, precisamente assim: contigência deriva do latim  cum-tangere, com o sentido de que "tocamos (tangere) os nossos limites" e o "ilimitado toca-nos (cum-tangere) tangencialmente: só no Infinito o finito encontra a sua verdade.

Anselmo Borges, Religião e Diálogo Inter-religioso, 2010, Imprensa da Universidade de Coimbra, pp.37-38

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

"Trata os outros como gostarias que te tratassem"

Alguns aspectos da ética podem justamente ser considerados universais, ou praticamente universais. A reciprocidade, pelo menos, parece ser comum a todos os sistemas éticos. A noção de reciprocidade pode ter servido de base à «regra de ouro» - trata os outros como gostarias que te tratassem -, que eleva a ideia de reciprocidade a um princípio distinto não necessariamente relacionado com o modo como alguém nos tratou no passado. A regra de ouro encontra-se - com diferentes formulações - numa grande variedade de culturas e ensinamentos religiosos, incluindo, numa ordem aproximadamente cronológica, os de Zoroastro, Confúcio, Mahavira, no «Levítico», em Hillel, Jesus, Maomé, Kant e muitos outros. Na última década assistiu-se a uma tentativa de redacção de uma «Declaração de Uma Ética Mundial», uma afirmação de principios que são universalmente aceites em todas as culturas. Este projecto teve início num encontro conhecido como «Parlamento das Religiões do Mundo» - mais estritamente falando, o Segundo Parlamento das Religiões do Mundo, pois este reuniu-se em Chicago em 1993, um século depois da sua primeira reunião. Circulam actualmente diferentes versões da declaração. Uma delas, redigida pelo teólogo Hans Kung e aprovada pelo Segundo Parlamento das Religiões do Mundo, principia com uma exigência fundamental de que «todo o ser humano seja tratado humanamente». Tornando esta exigência mais precisa, refere-se a regra de ouro como «norma irrevogável e incondicional aplicável a todas as áreas da vida». Leonard Swidler, que preside ao Centro para a Ética Mundial, na Universidade de Temple, em Filadélfia, publicou uma versão revista deste documento que considera a própria regra de ouro a regra fundamental da ética.

Peter Singer, Um Só Mundo, 2004, Gradiva, Lisboa, pp.196-197

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Annual Muslim Day Parade Aims To Promote Interfaith Dialogue


28/9/2010

Hundreds of Muslim New Yorkers gathered in Manhattan yesterday for a parade promoting understanding and cooperation between faiths.


The 25th Annual Muslim Day Parade marched down Madison Avenue.

Many Muslims said they made a special effort to come this year amid controversy surrounding the planned Islamic cultural center and mosque near the World Trade Center site.

Organizers say it was a celebration of peace and blessings but also time for Muslims to speak out and protect their rights.

"Stop lying down. The time has come to stand up,” said Muslim Day Parade Chairman Dr. Shafi Bezar. “You stand up and protect your rights."

"We just came here to clarify that we are the average people like everybody else and we are just practicing our religion,” said one parade-goer. “And our religion has the same message as the other religions."

"We are just trying to show that we are a good community to the New Yorkers and everywhere,” said another.

The day's celebrations also included prayer and a bazaar with food, clothing and books from around the world.

fonte: http://manhattan.ny1.com/content/top_stories/126128/annual-muslim-day-parade-aims-to-promote-interfaith-dialogue

domingo, 26 de setembro de 2010

"Já estamos no Reino: a eternidade é agora."

André Comte-Sponville

Comte-Sponville faz o elenco das razões que o levam a não crer em Deus, sendo uma das principais a existência do mal: como é que Deus é compatível com tanta maldade e sofrimento no mundo? Mas afirma-se espiritual - prefere a expressão espiritualidade a religiosidade, porque a religião está vinculada em princípio a religiões institucionalizadas -, no quadro de um certo tipo de experiência mística, feito de evidência, de plenitude, silêncio, experiência oceânica, simplicidade, eternidade... Quando falta Deus, há "a plenitude do que é, que não é um Deus, nem um sujeito". Há o Todo, pouco importando os nomes: o ilimitado (Anaximandro), o devir (Heraclito), o ser (Parménides), o Tao (Lao-tsé), a natureza (Lucrécio, Espinosa), o mundo ("o conjunto de tudo o que acontece": Wittgenstein), o real "sem sujeito nem fim" (Althusser), o presente ou o silêncio (Krishnamurti) - "o absoluto em acto e sem pessoa".

Quando não há Deus que nos salva, que é a espiritualidade? "É a nossa relação finita com o infinito ou a imensidade, a nossa experiência temporal da eternidade, o nosso acesso relativo ao absoluto". O que faz viver não é a esperança, mas o amor; o que liberta não é a fé, mas a verdade. "Já estamos no Reino: a eternidade é agora".

Anselmo Borges, Religião e Diálogo Inter-religioso, 2010, Imprensa da Universidade de Coimbra, pp.54-55

terça-feira, 14 de setembro de 2010

"(...) o melhor que pode fazer é tornar-se uma personalidade dupla."

A humanidade ressequiu por causa das religiões que o ensinam permanentemente a opor-se à natureza. E como não é possível opor-se à natureza, o melhor que pode fazer é tornar-se uma personalidade dupla. No portão da frente da casa você é cristão, você é hindu, você é muçulmano, está a mostrar uma mácara ao mundo, uma cara falsa. E na porta das traseiras é natural. Daí que comece a sentir uma luta no seu coração.

Osho, A Conspiração de Deus, 2010, Editora Pergaminho, Lisboa, pp.225-226

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

"É nocivo tentar discutir, com base na filosofia ou na metafísica, se uma religião é melhor que outra."

Penso algumas vezes que a religião é como um medicamento para o espírito humano. Não podemos realmente avaliar se um remédio é eficaz independentemente da utilização e da condição específica do doente. Não podemos dizer que o remédio é excelente devido a este ou àquele ingrediente. Se deixarmos de fora o doente e o efeito que o remédio tem nele isso deixa praticamente de ter sentido. O que tem sentido é dizer que no caso de tal doente com tal doença esse remédio é o mais eficaz. Em relação às tradições religiosas é o mesmo: podemos dizer que tal tradição é a mais eficaz para tal indivíduo. É nocivo tentar discutir, com base na filosofia ou na metafísica, se uma religião é melhor que outra. O importante é que seja eficaz para cada caso.

Sua Santidade O Dalai Lama, Ética para o Novo Milénio, 2000, Editorial Presença, Lisboa, pp.164-165

sábado, 13 de março de 2010

"Ulisses e Abraão", um artigo de Anselmo Borges no DN de hoje

Um artigo no espírito da nova revista Cultura ENTRE Culturas, publicado por um distinto membro do seu Conselho de Direcção:

"Pode discutir-se, mas é sugestiva, a comparação feita pelo célebre filósofo E. Levinas entre Ulisses e Abraão como figuras paradigmáticas da relação com o outro.

Ulisses, depois da Guerra de Tróia, de volta a casa, vive a aventura de encontros múltiplos com outros, experiências variadas. Travou combates, enfrentou obstáculos sem fim, conheceu o diferente. Coberto de vitórias e glória, regressa. Mas, chegado a casa, mesmo disfarçado, "diferente" do Ulisses que partira, é ainda o "mesmo", que o seu cão, pelo faro, e Penélope, pelo amor, reconhecem. Ulisses representa o herói do regresso, que contactou com o diferente apenas para, num mundo domesticado e assimilado, o reduzir ao mesmo.

Abraão ouviu uma voz que o chamava, e partiu da sua terra, para nunca mais voltar. A sua viagem vai na direcção do novo, do não familiar, do diferente, do Outro. Ninguém o espera num regresso ao ponto de partida. Há só uma palavra de promessa que o chama para um futuro sempre mais adiante. Abraão ouve, caminha, transcende. A sua identidade transfigura-se a cada passo, é processual, histórica. Rompe com o passado, e o seu êxodo vai no sentido de um futuro imprevisível e novo.

A identidade não é estática, fixa, determinada de uma vez para sempre. Claro que cada um, cada uma é ele, ela, de modo único e intransferível - a experiência suma desse viver-se cada um como único e irrepetível dá-se frente à morte, na angústia do confronto com a possibilidade do nada e da aniquilação do eu: "ai que me roubam o meu eu!", clamava Unamuno -, mas fazemo-nos uns aos outros, de tal modo que ser e ser em relação coincidem. Por isso, a identidade faz-se, desfaz-se, refaz-se e, em sociedades complexas e abertas, ela será cada vez mais compósita e planetária, com tudo o que isso significa de enriquecimento e ao mesmo tempo de complexidades e possíveis rupturas.

É, portanto, preciso pensar a unidade na diferença e a diferença na unidade. A unidade sem diferença é a mesmidade morta, mas a diferença sem unidade é o caos sem sentido. O mesmo se deve dizer da identidade: ser si mesmo na relação, mas sem se deixar absorver pelo outro.

Descartes acentuou o primado da subjectividade, do eu, contrapondo-lhe Levinas, em antítese, o primado da alteridade, do tu. Mas, afinal, se não se pode prescindir da alteridade, caindo no perigo do solipsismo, também é necessário evitar a tentação daquela afirmação do outro que parece prescindir do eu, caindo numa espécie de alterismo. Como escreveu M. Moreno Villa, a verdade não se encontra nem no solipsismo nem no alterismo, mas na subjectividade e na alteridade, "afirmadas ambas simultaneamente no círculo ontológico interpessoal".

Há várias imagens para esta afirmação simultânea da identidade e da diferença. Por exemplo, na música - o famoso compositor e dirigente de orquestra Daniel Barenboim apresenta precisamente a música como a grande imagem do que deve ser o diálogo intercultural -, há múltiplos instrumentos (de corda, de percussão, de sopro, podendo a orquestra ser ainda acompanhada por um coro de vozes) - e, de todos juntos, até em contraponto, resulta uma sinfonia: a unidade de diferentes. Num tecido, há múltiplos fios, que se entretecem de diferentes modos, configurando uma unidade. Numa rede - e cada vez mais é preciso pensar em rede -, há múltiplos nós. Ora, os nós, que significam a identidade própria, só existem precisamente na rede, de tal modo que não há rede sem os nós nem os nós sem a rede.

Num mundo global cada vez mais multicultural e multirreligioso, é urgente repensar a identidade sempre a caminho, no quadro de múltiplas pertenças, e, para lá do multiculturalismo e do multirreligioso, que sublinham o "multi", avançar para o diálogo intercultural e inter-religioso, sublinhando o prefixo "inter", que implica um caminho de interacções múltiplas, sendo a identidade mais uma meta do que um ponto de partida, num horizonte que sempre se desloca na medida em que se marcha para ele. O seu símbolo é mais Abraão do que Ulisses".

Publicado em:
arevistaentre.blogspot.com

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Hans Küng, colaborador da ENTRE, sobre o diálogo inter-religioso, a ética global e a Igreja Católica



O Professor e controverso teólogo Hans Küng fala sobre a necessidade do diálogo inter-religioso e de uma ética global para a paz mundial, bem como sobre a situação da Igreja Católica. Hans Küng honra o número 1 da revista ENTRE com um inédito que já nos enviou.

arevistaentre.blogspot.com

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

"Cada religião é a única verdadeira..."

"Cada religião é a única verdadeira, ou seja, no momento em que nela pensamos é necessário prestar-lhe tamanha atenção como se não houvesse outra coisa; do mesmo modo cada paisagem, cada quadro, cada poema, etc., é o único que é belo. A "síntese" das religiões implica uma qualidade de atenção inferior"

- Simone Weil, Cahier VI, Oeuvres, Paris, Gallimard, 1999, p.848.

Não posso deixar de fazer deste reparo um reparo às tendências sincretistas de algum Fernando Pessoa e de algum Agostinho da Silva, que passa a meio caminho entre elas e o fundamentalismo dogmático da crença numa única religião verdadeira. Não parece possível seguir uma qualquer via religiosa ou mesmo espiritual sem uma dedicação e concentração totais, sabendo e aceitando ao mesmo tempo que outros podem e devem fazer o mesmo com outras vias religiosas e espirituais. Isto é algo a não esquecer no actual diálogo inter-religioso, que muitas vezes tende aos sincretismos fáceis e moles.