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terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

As ideias políticas do Buda: o governante e o governo justos

“No tempo em que o Buda vivia havia, como hoje, soberanos que governavam injustamente os seus Estados. Levantavam impostos excessivos e infligiam castigos cruéis. O povo era oprimido e explorado, torturado e perseguido. O Buda ficava profundamente comovido com estes tratamentos desumanos. O Dhammapadatthakatha conta que ele focou então a sua atenção no problema do bom governo. As suas ideia devem ser apreciadas no contexto social, económico e político do seu tempo. Ele mostrou como todo um país podia tornar-se corrupto, degenerado e infeliz quando os chefes do governo, ou seja, rei, ministros e funcionários, se tornam eles mesmos corruptos e injustos. Para que um país seja feliz deve ter um governo justo. Os princípios deste governo justo são expostos pelo Buda no seu ensinamento sobre os “Dez Deveres do Rei” (Dasa-raja-dhamma), tal qual é dado nos Jataka.
Bem entendido, a palavra “rei” (Raja) de outrora deve ser substituída hoje pela palavra “governo”. Por conseguinte, os “Dez Deveres do Rei” aplicam-se agora a todos aqueles que participam no governo, chefe de Estado, ministros, chefes políticos, membros do corpo legislativo e funcionários de administração.
1. O primeiro destes dez deveres é a liberalidade, a generosidade, a caridade (dana). O soberano não deve ter avidez nem apego pela riqueza e pela propriedade, mas deve dispor delas para o bem-estar do povo.
2. Um carácter moral elevado (sila). Ele não deve jamais destruir a vida, enganar, roubar, explorar os outros, cometer adultério, dizer coisas falsas ou tomar bebidas inebriantes. Isto é, ele deve pelo menos observar os Cinco Preceitos do laico.
3. Sacrificar tudo pelo bem do povo (pariccaga). Ele deve estar pronto a sacrificar o seu conforto, o seu nome e o seu renome, e mesmo a sua vida, pelo interesse do povo.
4. Honestidade e integridade (ajjava). Ele deve estar livre de medo ou de favor no exercício dos seus deveres; deve ser sincero nas suas intenções e não deve enganar o público.
5. Amabilidade e afabilidade (maddava). Ele deve ter um temperamento doce.
6. Austeridade nos seus hábitos (tapa). Ele deve levar uma vida simples e não deve entregar-se ao luxo. Deve estar na posse de si mesmo.
7. Ausência de ódio, má-vontade, inimizade (akkodha). Não deve guardar rancor a ninguém.
8. Não-violência (avihimsa), o que significa que deve não somente não fazer mal a ninguém, mas também que deve esforçar-se por fazer reinar a paz evitando e impedindo a guerra e todas as coisas que impliquem violência e destruição da vida.
9. Paciência, perdão, tolerância, compreensão (khanti). Ele deve ser capaz de suportar as provas, as dificuldades e os insultos sem se enfurecer.
10. Não-oposição, não-obstrução (avirodha). Isto é, ele não deve opor-se à vontade popular, não contrariar nenhuma medida favorável ao bem-estar do povo. Noutros termos, ele deve manter-se em harmonia com o povo.
É inútil dizer quão feliz seria um país governado por homens que possuíssem estas qualidades. E não é todavia uma Utopia pois houve no passado reis como Asoka na Índia que estabeleceram os seus reinos sobre o fundamento destas ideias”

- Walpola Rahula, L’enseignement du Bouddha selon les textes les plus anciens, Paris, Éditions du Seuil, 1978, pp.118-119.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

"[...] os políticos não são melhores nem piores do que o permitem as condições gerais da mentalidade portuguesa"

[Sobre a "Seara Nova"] "Não comunga ela no sofisma de que são os políticos os únicos culpados da nossa situação. A verdade é que os políticos não são melhores nem piores do que o permitem as condições gerais da mentalidade portuguesa. Todo o país tem de aceitar a responsabilidade que lhe cabe; todo o país, e em especial a sua élite. A vida política duma nação é, em grande parte, o reflexo da sua vida intelectual, dos seus movimentos de ideias, das aspirações mais profundas do seu escol" - Raul Proença, "Apresentação da «Seara Nova»"

O objectivo do verdadeiro político [...] é tornar a política desnecessária, e cada vez mais necessária a arte"

"O fim, em meu entender, é instaurar uma sociedade em que tudo seja arte, e nada seja política. O objectivo do verdadeiro político (se não estou em erro) é tornar a política desnecessária, e cada vez mais necessária a arte" - António Sérgio

quinta-feira, 19 de abril de 2012

"Necessitamos desesperadamente de algo diferente"



“As incríveis e avassaladoras mudanças do final do século XX e do início do século XXI obrigaram a alterações dramáticas e, por vezes, revolucionárias, em quase todos os campos da actividade humana – excepto um: a política. Naquele que é um dos fóruns mais cruciais, as instituições e os hábitos adquiridos em vários momentos anteriores têm perdurado, mesmo à medida que a sua eficácia se vai revelando cada vez menos evidente. Por outro lado, vão-se acumulando as provas de que estes organismos e regras herdados são cada vez mais incapazes de compreender e arbitrar as forças que agora giram à nossa volta.
Necessitamos desesperadamente de algo diferente”
- Carne Ross, A Revolução Sem Líder, Lisboa, Bertrand, 2012, p.27.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

"Ousar falar de política desmontando os seus fundamentos, em toda a sua complexidade, e com os segredos que comportam, chega a ser perigoso"



"Falar de política é e mantém-se difícil porque o político nunca joga só. O que o político diz de si próprio está cheio de mentiras, de dissimulações. Ousar falar de política desmontando os seus fundamentos, em toda a sua complexidade, e com os segredos que comportam, chega a ser perigoso. A cidade, todas as cidades, a sociedade, todas as sociedades, não toleram que se fale delas lucidamente, radicalmente, desvelando ao máximo possível os mecanismos em marcha, assim como o seu imaginário, também ele limitado. Fazer isso não de um ponto de vista particular, não privilegiando um partido, seja ele qual for, dificilmente é suportável. O inimigo é mais fácil de situar:partidos e Estados combatem-no e tendem a eliminá-lo, brutal ou pacificamente. Aquele que não é amigo nem inimigo de um dos sistemas em vigor ou da estrutura global da colectividade, aquele que não pode ser classificado segundo as rubricas políticas admitidas, mas que perscruta em profundidade o maciço social-político fortemente fissurado e as construções que o povoam, só pode ser sacrificado, duma ou de outra maneira. Ninguém deve fazer abalar ou desestabilizar o consenso geral e os desvios autorizados, que caracterizam os extremos, o centro, os sonhos anarquizantes. Aquele que ousa "atacar" todas as frentes sem excepção, desmantelar todos os poderes e seus funcionamentos, vê-se afastado. [...] O descodificador do político e das regras que o sustentam faz o seu trabalho porque o que se lhe impõe e o anima é mais forte do que o silêncio ou o discurso balofo. Toda a tradição ocidental - não parece que outras tradições escapem a este mesmo destino - , de Heraclito a Heidegger, não ousa pôr em questão os fundamentos e últimas consequências do conjunto no qual as diferentes épocas vivem e que é qualificado de política. Heraclito não ousa pôr em questão a polis e Heidegger fica à sombra do político e do Estado, o que não o impede de pertinentemente esclarecer não o Estado, mas a tecno-estrutura"
- Kostas Axelos (1924-2010), Cartas a um jovem pensador, Vila Nova de Gaia, Estratégias Criativas, 1997, pp.63-64.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

"A política de homens novos, insatisfeitos com o trabalho das anteriores gerações, não pode deixar de ser revolucionária (...)"



"A política de homens novos, insatisfeitos com o trabalho das anteriores gerações, não pode deixar de ser revolucionária, isto é, criadora de melhor ordem social. Restauradora ou conservadora nunca poderá ser, não só porque tal política é inaceitável por consciências verdadeiramente moças mas sobretudo porque lhe falta digno objecto de restauração ou conservação"
- Álvaro Ribeiro, "Política" (1930), in Dispersos e Inéditos, I (1921-1953), Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 2004, p.75.

quinta-feira, 17 de março de 2011

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

"Peregrinação às Fontes", um grande livro de Lanza del Vasto



"Não compreenderemos nada da política de Gandhi, se ignorarmos que a finalidade da sua política não é uma vitória política mas espiritual"

- Lanza del Vasto, Peregrinação às Fontes, Águas Santas, Edições Sempre-Em-Pé, 2010, p.117.

Um grande livro sobre a peregrinação de Lanza del Vasto à Índia e o encontro com Gandhi, finalmente publicado em Portugal, na excelente tradução de Helena Langrouva, graças à subscrição de vários amigos.

sábado, 18 de dezembro de 2010

"...mudar o Estado"

"O problema dos políticos é o de mudarem o governo: o meu é o de mudar o Estado. Contam eles com o voto ou a revolução. Conto eu com o curso da História e a minha vocação e o meu esforço de estar para além dela" – Agostinho da Silva, Cortina 1 (inédito).

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Alternativas para o estado do mundo - unir meditação, política e economia

Vivemos numa era de incertezas e perplexidades. O sonho de progresso da humanidade desde a Revolução Industrial converte-se num pesadelo e o paradigma da nossa civilização entra em colapso, com a ameaça de uma catástrofe ecológica e o sofrimento crescente de homens e animais. Uns vêem a única solução na espiritualidade, outros na política e na economia. Porque não uni-las, coisa que nunca foi tentado à escala global? Porque não investir numa nova geração de políticos e homens de acção que façam da meditação laica, enquanto treino mental para só pensarem no bem de todos, o seu alimento quotidiano e constante? Não será o momento de introduzir exercícios meditativos, que tornem a mente calma, lúcida e sensível, sem qualquer acrescento religioso, em todas as esferas da nossa existência, desde a saúde e a educação à vida empresarial e política? Sinceramente, não vejo outra solução e alternativa para a crescente barbárie em que já nos encontramos.

Muito problema se tenta resolver por meio da política: a chave, no entanto, a tem a santidade"

- Agostinho da Silva, Pensamento à Solta, in Textos e Ensaios Filosóficos II, p.152.

terça-feira, 6 de julho de 2010

A "política" da meditação

A atividade ‘política’ que é meditar
Se podemos alcançar estado desperto não-dual e não-conceitual na meditação, estamos engajados em uma profunda atividade “política”, mesmo que possamos perder essa consciência nos períodos em que não estamos formalmente meditando (o estado desperto de Buda na pós-meditação é o mesmo durante a meditação).

Meditar em estado desperto não-dual e não-conceitual, que é meditar no dharmadatu, imediatamente começa a destruir de modo sistemático em nós a estrutura da consciência dualista com todos os obscurecimentos cognitivos e emoções aflitivas auxiliares. Do ponto de vista da dualidade, já que essa consciência dualista também envolve outros seres sencientes, que são o outro pólo da nossa dualidade, nossa atividade em dissolver essa consciência tem um impacto profundo neles também.

Enquanto nossa meditação não-dualista e não-conceitual está purificando nossos próprios obscurecimentos e aflições, e assim transformando nossa vivência pessoal dos outros, ela também se torna uma faísca da atividade de Buda para esses outros. Assim que nossa meditação se torna eficaz, a atitude dos outros em relação a nós começa a mudar, e eles mesmos começam a se voltar para dentro para procurar com mais consciência entre as coisas de suas mentes e vidas por soluções espirituais para os problemas.

E assim que o poder de nossa meditação aumenta, esse efeito alcança círculos concêntricos cada vez maiores de seres sencientes com quem temos interdependência cármica, que hoje nesta era incluem não apenas nossos mais próximos amigos, parentes, colegas de trabalho e da comunidade, mas também qualquer ser a quem estejamos conectados através de toda a interface de nossas vidas.

Khenchen Thrangu Rinpoche (Tibete, 1933 ~)
“The Ninth Karmapa’s Ocean of Definitive Meaning”
(Dharma Quote of The Week – Snow Lion, 24/06/2010)