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segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Entrevista de Paulo Borges à revista "Pessoal", de Nov. 2011, sobre "Mindfulness"/meditação nas empresas

1. O “mindfulness” procura que o indivíduo se foque no momento presente e abandone o estado de “piloto automático”. É possível aplicar este objectivo às empresas? Em que termos e com que resultados?

A prática de “mindfulness”, a atenção plena ao que fazemos a cada instante, baseada em métodos milenares de meditação oriental, mas sem qualquer aspecto religioso, está a ser difundida em todo o mundo, com resultados cientificamente comprovados em laboratórios nos EUA, como o prestigiado MIT. Procuram-na não só os indivíduos, como via para uma maior saúde psicossomática, mas também cada vez mais instituições onde as pessoas estão sujeitas a condições adversas, como hospitais e prisões, ou de grande exigência em termos de trabalho e de relações humanas, como escolas e empresas. Empresas como a Mitsubishi e a Sanyo, entre muitas outras, na Europa, nos EUA, no Brasil e no Japão, já introduziram a prática de “mindfulness”.
Os resultados nas empresas são claros: melhoria da saúde dos funcionários e redução do absentismo por doença; melhoria das relações humanas, reforço do espírito de equipa e maior capacidade de gerir e solucionar conflitos; maior satisfação no trabalho e aumento da produtividade; redução do stress, maior concentração e criatividade.

2. Aconselharia as nossas empresas a oferecerem programas de mindfulness aos seus trabalhadores? Em que moldes é que acha que isso poderia ser feito?

Aconselho vivamente e já tenho sido contactado nesse sentido. O que tenho feito e que sugiro é que se facultem cursos de introdução à prática de “mindfulness” em cada empresa e que depois se constitua um grupo de prática regular orientada por um formador qualificado.

3. Os tempos conturbados e de crise económico-financeira que vivemos provocam desânimo e desmotivação nas pessoas. O “mindfulness” pode ser uma ajuda para inverter esta situação?

Certamente. Estou convicto, por 30 anos de prática e pelo que tenho visto nos praticantes regulares, mesmo recentes, que “mindfulness” é uma das vias para sairmos da actual crise civilizacional. Quando a mente deixa de lado preocupações com o passado e o futuro e foca a atenção na respiração e no aqui e agora, deixamos de nos identificar com pensamentos e emoções que nos fazem ver tudo negro e sem saída. A mente recupera a serenidade e criatividade naturais, há mais energia e as soluções surgem.

4. E relativamente à gestão do stress, também poderá ser útil?

O stress vem de se estar a fazer uma coisa pensando em mil outras ao mesmo tempo, em particular no que temos que fazer no futuro, o que só aumenta a ansiedade e nos impede de fazer bem o que temos em mãos no presente. A prática de “mindfulness”, focando-nos no que estamos a fazer e numa coisa de cada vez, suprime o stress e permite desempenhar melhor e com mais rapidez qualquer tarefa.

5. Um dos temas mais relevantes para a Gestão dos Recursos Humanos é a liderança. Não será contraproducente um líder adoptar uma das regras de “mindfulness” que aconselha a não pensar “estou em A como é que chego a B, mas antes estando em A chego a B”?

Não creio e a prova é haver cada vez mais líderes interessados em “mindfulness”. Por um lado, porque nos ajuda a pôr de lado hábitos e automatismos mentais compulsivos, tornando a mente mais criativa. Estando plenamente em A, mais facilmente intuo como chegar a B, sem repetir o modo como cheguei a A, que pode não se adequar a B. Por outro, porque “mindfulness” é inseparável de uma ética do desenvolvimento sustentável ao serviço da felicidade e do bem-comum e isso é hoje cada vez mais um factor de crescimento das empresas, de motivação dos funcionários e da sua apreciação pelo público.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Alternativas para o estado do mundo - unir meditação, política e economia

Vivemos numa era de incertezas e perplexidades. O sonho de progresso da humanidade desde a Revolução Industrial converte-se num pesadelo e o paradigma da nossa civilização entra em colapso, com a ameaça de uma catástrofe ecológica e o sofrimento crescente de homens e animais. Uns vêem a única solução na espiritualidade, outros na política e na economia. Porque não uni-las, coisa que nunca foi tentado à escala global? Porque não investir numa nova geração de políticos e homens de acção que façam da meditação laica, enquanto treino mental para só pensarem no bem de todos, o seu alimento quotidiano e constante? Não será o momento de introduzir exercícios meditativos, que tornem a mente calma, lúcida e sensível, sem qualquer acrescento religioso, em todas as esferas da nossa existência, desde a saúde e a educação à vida empresarial e política? Sinceramente, não vejo outra solução e alternativa para a crescente barbárie em que já nos encontramos.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Dia 19, 21.30, em Barcelos: "Mente, meditação e despertar da consciência", apresentação da Cultura ENTRE Culturas 2 e de "Descobrir Buda"




Estarei no dia 19, 6ª feira, pelas 21.30, no Auditório da Câmara Municipal de Barcelos, para uma conferência com o tema "Mente, meditação e despertar da consciência: a redescoberta de um intemporal paradigma". Na mesma ocasião apresentarei o nº2 da revista Cultura ENTRE Culturas, bem como o meu último livro: Descobrir Buda (Lisboa, Âncora Editora, 2010). O evento integra-se no Ciclo de Conferências "Consciência e Religião: perspectivas" e a entrada é livre.

sábado, 14 de agosto de 2010

Excerto de um texto de Matthieu Ricard a sair no nº2 da Cultura ENTRE Culturas

Os meditantes experientes possuem a capacidade de gerar estados mentais precisos, direccionados, firmes e duradouros. As experiências demonstraram, nomeadamente, que a zona do cérebro associada a determinadas emoções, como a compaixão, por exemplo, apresentava uma actividade consideravelmente maior nas pessoas que tinham uma longa experiência meditativa. Estas descobertas indicam que as qualidades humanas podem ser deliberadamente cultivadas mediante um treino mental. Outras experiências científicas igualmente demonstraram que não é necessário ser um praticante altamente exercitado para beneficiar dos efeitos da meditação, e que vinte minutos de prática diária contribuem significativamente para a redução da ansiedade e do stress, da tendência para a cólera (cujos efeitos nefastos para a saúde estão já claramente reconhecidos) ou dos riscos de recaída em caso de depressão grave. Oito semanas de meditação sobre a consciência plena (do tipo Mindful Based Stress Reduction), praticando cerca de trinta minutos por dia, dão azo a um notável reforço do sistema imunitário, das capacidades de atenção, à diminuição da tensão arterial nos indivíduos hipertensos e à aceleração da cura da psoríase.

O que é indispensável na prática não é meditar durante períodos longos, mas sim fazê-lo com regularidade. Se o cérebro é regularmente solicitado, bastam cerca de trinta dias para constatar que se começam a modificar as funções neuronais.

O estudo da influência dos estados mentais sobre a saúde, outrora considerado fantasioso, faz, cada vez mais, a actualidade da investigação científica.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

“O que tu és, eu sou ! / E tu, tu és o que eu sou ! / Eu sou o Céu, tu és a Terra ! / Tu és a Estrofe, eu sou a Melodia !”

(fórmula ritual do casamento védico)



Qual o sentido espiritual da união sexual? Duas dicas da Índia:

“Neste mundo, o resultado do amor é não haver mais que um só pensamento. Quando o amor deixa diferentes os pensamentos (de cada um), é como se houvesse a união de dois cadáveres” - "Centúria da Paixão Amorosa" (tratado erótico indiano);

“Quando o pensamento não é reabsorvido no acto amoroso e na concentração yógica (samadhi), de que serve o recolhimento (dhyana) ? De que serve o acto amoroso ?” - "Sarngadharapaddhati".

domingo, 25 de julho de 2010

"A união da quietude e do movimento"

"Quaisquer tipos de pensamentos que surjam, sem os suprimir, reconheçam de onde emergem e onde se dissolvem; e permaneçam focados enquanto observam a sua natureza. Fazendo isto, por fim o movimento dos pensamentos cessa e há quietude... De cada vez que observarem a natureza de quaisquer pensamentos que surjam, eles desvanecer-se-ão por si mesmos e a seguir uma vacuidade aparece. Do mesmo modo, se também examinarem a mente quando ela permanece sem movimento, verão uma vacuidade não obscurecida, clara e vívida, sem qualquer diferença entre o primeiro e o último estado. Isso é bem conhecido entre os praticantes de meditação e chama-se "a união da quietude e do movimento"

- Panchen Lozang Chökyi Gyaltsen (1570-1662, Tibete).

sábado, 24 de julho de 2010

Quem somos quando nada fazemos mas estamos presentes?

"Em termos do sentimento individual de quem somos, a maioria de nós identifica-se fortemente com os papéis que desempenhamos na vida quotidiana, por exemplo, pais, esposos, filhos, estudantes ou pessoas numa certa profissão. Tais papéis são importantes e eles definem-nos nas nossas inter-relações sociais. Mas, tirando as nossas relações específicas com outras pessoas e os tipos de actividades em que nos envolvemos regularmente, o que fica? Quem somos nós quando nos sentamos calmamente nos nossos quartos, nada fazendo mas estando presentes?"

- B. Alan Wallace, Mind in the Balance. Meditation in Science, Buddhism and Christianity, Columbia University Press, 2009.

terça-feira, 6 de julho de 2010

A "política" da meditação

A atividade ‘política’ que é meditar
Se podemos alcançar estado desperto não-dual e não-conceitual na meditação, estamos engajados em uma profunda atividade “política”, mesmo que possamos perder essa consciência nos períodos em que não estamos formalmente meditando (o estado desperto de Buda na pós-meditação é o mesmo durante a meditação).

Meditar em estado desperto não-dual e não-conceitual, que é meditar no dharmadatu, imediatamente começa a destruir de modo sistemático em nós a estrutura da consciência dualista com todos os obscurecimentos cognitivos e emoções aflitivas auxiliares. Do ponto de vista da dualidade, já que essa consciência dualista também envolve outros seres sencientes, que são o outro pólo da nossa dualidade, nossa atividade em dissolver essa consciência tem um impacto profundo neles também.

Enquanto nossa meditação não-dualista e não-conceitual está purificando nossos próprios obscurecimentos e aflições, e assim transformando nossa vivência pessoal dos outros, ela também se torna uma faísca da atividade de Buda para esses outros. Assim que nossa meditação se torna eficaz, a atitude dos outros em relação a nós começa a mudar, e eles mesmos começam a se voltar para dentro para procurar com mais consciência entre as coisas de suas mentes e vidas por soluções espirituais para os problemas.

E assim que o poder de nossa meditação aumenta, esse efeito alcança círculos concêntricos cada vez maiores de seres sencientes com quem temos interdependência cármica, que hoje nesta era incluem não apenas nossos mais próximos amigos, parentes, colegas de trabalho e da comunidade, mas também qualquer ser a quem estejamos conectados através de toda a interface de nossas vidas.

Khenchen Thrangu Rinpoche (Tibete, 1933 ~)
“The Ninth Karmapa’s Ocean of Definitive Meaning”
(Dharma Quote of The Week – Snow Lion, 24/06/2010)

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Meditação e Ciência

Na sequência dos encontros “Mente e Vida”, realizados anualmente, desde 1985, entre o actual Dalai Lama e um grupo de cientistas ocidentais, foram feitas experiências recentes, no Massachusetts Institute of Technology (MIT), com um grupo de praticantes experientes de meditação no budismo tibetano, com 15 a 40 anos de prática, e um grupo de controlo de estudantes voluntários, praticantes apenas durante uma semana. Foram escolhidos quatro tipos de meditação: 1 – o amor e a compaixão universais e imparciais; 2 – a atenção focada num único objecto, de forma clara, calma e estável, sem torpor ou agitação mental; 3 – a presença aberta, em que a mente está consciente e atenta, mas sem se focar em nenhum objecto particular; 4 – a visualização de imagens mentais. Enquanto alternavam repetidas vezes períodos neutrais de trinta segundos com períodos de noventa segundos em cada um desses estados meditativos, os praticantes foram submetidos a electro-encefalogramas, que permitem captar alterações na actividade cerebral em milésimos de segundos, e a imagens de ressonância magnética funcional, que dão uma localização rigorosa da actividade cerebral.

Os resultados mostraram espectaculares diferenças entre os praticantes experientes e os noviços, que provam a plasticidade do cérebro e a possibilidade de transformar e desenvolver o seu funcionamento mediante a prática regular da meditação. Por exemplo, na meditação sobre o amor e a compaixão, houve um aumento da actividade cerebral de alta-frequência, as chamadas “ondas gama”, “de um tipo nunca antes relatado na literatura científica”, nas palavras de Richard Davidson, coordenador da experiência. A actividade cerebral concentrou-se também no córtex pré-frontal esquerdo, a sede de emoções positivas, indutoras de bem-estar, como alegria, entusiasmo e altruísmo. Outras constatações, nos praticantes experientes, foram a capacidade de regular voluntariamente a sua actividade mental, concentrando-se exclusivamente numa tarefa, sem distracções; a identificação de emoções universais em rostos que aparecem num ecrã durante um quinto de segundo, mostrando um superior poder de empatia; e a inédita e espantosa neutralização do reflexo do susto, mesmo perante o disparo de uma arma: uma vez que esse reflexo depende da predisposição para o medo, a raiva e a repugnância, os resultados sugerem "um nível de serenidade emocional impressionante”.

Perante este quadro, não admira que o Dalai Lama tenha aberto, em 2005, os trabalhos do Neuroscience, o mais prestigiado congresso de neurocientistas do mundo, em Washington. E que se fale hoje da meditação budista como alternativa ao Prozac. Segundo declarações recentes do biólogo Eric Lander, membro do Projeto Genoma Humano, numa conferência no MIT: "Não é inconcebível que, dentro de 20 anos, as autoridades americanas de saúde recomendem 60 minutos de exercício mental cinco vezes por semana".

Bibliografia: Daniel Goleman, Emoções Destrutivas e como dominá-las. Um diálogo científico com o Dalai Lama, Lisboa, Temas e Debates, 2005; Paulo Borges / Carlos João Correia / Matthieu Ricard, O Budismo e a Natureza da Mente, Lisboa, Mundos Paralelos, 2005.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

sábado, 24 de outubro de 2009

"Um corpo de saudade com alma de espuma" (atman e anatman) - estados de consciência, meditação, saudade e libertação

"PROSA DE FÉRIAS"

"A praia pequena, formando uma baía pequeníssima, excluída do mundo por dois promontórios em miniatura, era, naquelas férias de três dias, o meu retiro de mim mesmo. Descia-se para a praia por uma escada tosca, que começava, em cima, em escada de madeira, e a meio se tornava em recorte de degraus na rocha, com corrimão de ferro ferrugento. E, sempre que eu descia a escada velha, e sobretudo da pedra aos pés para baixo, saía da minha própria existência, encontrando-me.
Dizem os ocultistas, ou alguns deles, que há momentos supremos da alma em que ela recorda, com a emoção ou com parte da memória, um momento, ou um aspecto, ou uma sombra, de uma encarnação anterior. E então, como regressa a um tempo que está mais próximo que o seu presente da origem e do começo das coisas, sente, em certo modo, uma infância e uma libertação.
Dir-se-ia que, descendo aquela escada pouco usada agora, e entrando lentamente na praia pequena sempre deserta, eu empregava um processo mágico para me encontrar mais próximo da mónada que sou. Certos modos e feições da minha vida quotidiana - representados no meu ser constante por desejos, repugnâncias, preocupações - sumiam-se de mim como emboscados da ronda, apagavam-se nas sombras até se não perceber o que eram, e eu atingia um estado de distância íntima em que se me tornava difícil lembrar-me de ontem, ou conhecer como meu o ser que em mim está vivo todos os dias. As minhas emoções de constantemente, os meus hábitos regularmente irregulares, as minhas falas com outros, as minhas adaptações à constituição social do mundo - tudo isto me parecia coisas lidas algures, páginas inertes de uma biografia impressa, pormenores de um romance qualquer, naqueles capítulos intervalares que lemos pensando em outra coisa, e o fio da narrativa se esbambeia até cobrejar pelo chão.
Então, na praia rumorosa só das ondas próprias, ou do vento que passava alto, como um grande avião inexistente, entregava-me a uma espécie de sonhos - coisas informes e suaves, maravilhas da impressão profunda, sem imagens, sem emoções, limpas como o céu e as águas, e soando, como as volutas desrendando-se do mar alçante do fundo de uma grande verdade; tremulamente de um azul oblíquo ao longe, esverdeando na chegada com transparências de outros tons verde-sujos, e, depois de quebrar, chiando, os mil braços desfeitos, e os desalongar em areia amorenada e espuma desbabada, congregando em si todas as ressacas, os regressos à liberdade de origem, as saudades divinas, as memórias, como esta que informemente me não doía, de um estado anterior, ou feliz por bom ou por outro, um corpo de saudade com alma de espuma, o repouso, a morte, o tudo ou nada que cerca como um grande mar a ilha de náufragos que é a vida.
E eu dormia sem sono, desviado já do que via sentir, crepúsculo de mim mesmo, som de água entre árvores, calma dos grandes rios, frescura das tardes tristes, lento arfar do peito branco do sono de infância da contemplação."

-Bernardo Soares, Livro do Desassossego, Assírio & Alvim (2006), pp.188-189.