quarta-feira, 27 de julho de 2011

"Não é mais uma revista, é uma NOVA revista" - apresentação da ENTRE 3 por Miguel Real



FNAC/CHIADO – 26 – 7 - 2011
Apresentação de “ENTRE”, 3

Agradeço fortemente à direcção da revista, sobretudo a Paulo Borges e a Luís Reys o convite para apresentar “Cultura ENTRE Culturas”, acrescido do prazer de estar sentado ao lado de um estudioso e ficcionista que tanto admiro como o António Cândido Franco e de um editor que também há muito admiro, o dr. Baptista Lopes da “Âncora Editora”.

Como os três números publicados o evidenciam, “ENTRE” é uma NOVA revista de cultura. Não é mais uma revista, é uma NOVA revista, questionando possibilidades até agora desconhecidas do pensamento português, não a partir de um enfoque predeterminado, mas a partir do “Não-Lugar, “convertendo fronteiras em pontos de passagem, termos em mediações, limites em limiares” ” (nº 1, primavera-verão de 2010, texto de “Apresentação”).

Assim, NOVO, no caso de “ENTRE”, não significa a novidade que atrai a curiosidade, ou a originalidade académica, que atrai o espírito hermenêutico no interior de um mesmo modelo de pensamento. Não! Repete-se: - traz o novo, não a novidade. A novidade é a aparência nova do antigo, é o já sabido vestido de outras roupagens, outros métodos, outros conceitos, outra ideologia; o novo é violento, rompe com consensos, impõe-se pela força da argumentação, dá um outro e diferente sentido aos textos antigos e obriga os livros já firmados, as histórias do pensamento, a reverem os seus capítulos."

NOVO, no caso de “ENTRE”, significa um pensamento raramente pensado, uma visão ou teoria nunca socialmente aceite, uma concepção nunca levada a sério no campo da prática, sempre remetida até para o campo da marginalidade poética ou mística.
Dito de outro modo, NOVO, no caso de “ENTRE”, significa entreabrir uma porta para um OUTRO LUGAR, expressamente diferente do nosso lugar, isto é, significa abrir a porta do futuro e dar como efectiva a possibilidade de uma outra maneira de pensar e viver:

1. – pensar e viver sem a cristalização em blocos culturais identitários;
2. – pensar e viver sem favorecer um dos pólos da tensão metafísica entre ser e não-ser, entre bem e mal, matéria e espírito, corpo e alma, sujeito e objecto;
3. – pensar e viver sem a oposição cristalizada entre Ocidente e Oriente;
4. – pensar e viver libertando-nos dos cadáveres que 2 500 anos de civilização europeia nos penduraram nos ombros, que nos prendem ao passado, não nos deixam caminhar, arrastando-nos para uma terra repleta de campas fúnebres onde havia outrora o que exaltava a vida – as árvores, os rios, os animais, as crianças, os homens generosos;
5. – pensar e viver sem a clivagem maléfica entre vida e ser, existência humana e existência natural, harmonizando de novo homem e natureza.

“ENTRE” é a certeza de que esse outro lugar, outro mundo, outra vida – é possível, basta estar já a ser pensada hoje para ser possível no futuro; se hoje é sentida como necessária, no futuro tornar-se-á realidade. Como os 5 “Propósitos” de “ENTRE” reclamam no primeiro número – e como tudo o que o Paulo Borges e o Luiz Reys fazem – a revista consiste no anúncio da possibilidade de uma nova existência, hoje apenas “entre”vista, no futuro certamente experienciada e vivida diariamente.

Neste sentido, “ENTRE” corta com a retórica encomiástica do passado cultural de Portugal – os seus artigos sobre autores do passado são enquadrados numa visão de futuro segundo o novo modelo civilizacional – ser “vário”, ser uno e múltiplo ao mesmo tempo, ser nada e tudo simultaneamente, não estar preso à rocha da terra ou ao barco do mar, estar “entre” terra e mar, porventura na desordenada e caótica espuma da rebentação, não saber do norte e do sul e inventar nomadamente o caminho em cada curva da estrada.

O primeiro número dava-nos conta, afinal, de que “ENTRE” era, pelas suas propostas e propósitos, insituável: não era académica nem plebeia, não era neutra nem testemunha de um projecto intercultural subsidiado pela Comunidade Europeia, não louvaminhava o passado e abria-se a um futuro ainda vazio, que ambicionava preencher, auto-descobrindo-se dia a dia.

Como preencher um vazio com um conteúdo que ainda não existe? – ESTE O GRANDE, GRANDE PROBLEMA DE “ENTRE”.

No primeiro número, “ENTRE” namora o futuro através de artigos de Paulo Borges, Paulo Feitais, Carlos Silva, Raimon Pannikar, Hans Küng, Jean-Yves Leloup, François Jullien e Vilém Flusser – autores heterodoxos ao pensamento europeu normalizado – todos eles fazem explodir a actual cultura materialista e consumista europeia, apontando outros caminhos, que, de certo modo, são – também – os caminhos da “ENTRE”.

No segundo número, a procura de caminho continua – mas o solo torna-se mais consistente: a “vacuidade” assume-se como menos densa: artigos de Paulo Borges sobre Pessoa, Amon Pinho, Rui Lopo, Carlos João Correia, mas também Matthieu Ricard, Françoise Bonardel, Khyentse Rinpoche, Longchenpa, Rumi – e a grande conclusão sintetizada nos “Nove sutras sobre a paz” do falecido Raimon Pannikar – sobretudo o primeiro, muito premente ao espírito dos “Propósitos” da “ENTRE”: “Paz é a participação na harmonia do ritmo do ser”. Eis aqui o vazio do futuro a ser preenchido: a paz reside na harmonia do espírito da Terra, eis um grande, grande propósito orientador, capaz de tornar a nossa civilização às avessas.

Finalmente, o terceiro número, onde se aponta não um TEMA, como o 1º (“Que diálogo entre culturas?”) e como o 2º (“Encontro Ocidente – Oriente”) e mais um EXEMPLO: a vida e obra de Fernando Pessoa como um dos portugueses que, no nosso passado, viveu todos os tempos, e, não tendo tido biografia, viveu todas as maneiras de vida, todas as sensibilidades e racionalidades, postando-se, menos aqui ou além, e mais “ENTRE”. Pessoa, diferente de Pascoaes (António Cândido Franco), Pessoa exprimindo na poesia uma vivência da consciência diferente da redução transcendental da consciência de Husserl, apontando para a existência de um plano da experiência superadora da cisão sujeito – objecto (Paulo Borges), Pessoa e a Saudade “do presente (Bruno Béu), Pessoa e a superação da consciência temporalizada (António Faria), os espantosos artigos de Raquel Nobre Guerra e Luiz Pires dos Reys sobre a “surrealidade” em Pessoa e António Maria Lisboa, os estudos sobre a perspectiva de Pessoa e as culturas muçulmana e oriental, a questão da dupla autoria do Livro do Desassossego de Bernardo Soares e Vicente Guedes, os escritos filosóficos inéditos de Pessoa tematizados por Nuno Ribeiro segundo a sua conhecida tese defendida no livro Fernando Pessoa e Nietzsche: o pensamento da pluralidade, e mais Pessoa, mais Pessoa, mais Pessoa…

Ou seja, o nº 3 de “ENTRE” não só apresenta a vida e obra de Fernando Pessoa como um EXEMPLO de possibilidade de vida que rompe com o paradigma civilizacional fundado na cisão sujeito – objecto, como presta à cultura portuguesa um grande, grande favor, registando um óptimo dossier sobre a obra de Pessoa.

Muito obrigado.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Uns crescem estrelas, outros viram sapos
O eucalipto nasce de uma bola pequena
Há quem ganhe a forma de uma mulher.

Entre a galinha e o ovo,
aos que a sorte foi companheira,
nascem com tempo até morrer
Mudam de forma até envelhecer.
Aos que a sorte foi inimiga,
nascem com fome e morrem com ela
Mudam de forma antes de envelhecer.


No intervalo da nossa existência,
testemunhamos a vida.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

"Nós não viemos a este mundo: viemos dele, como as folhas de uma árvore"

"Nós não viemos a este mundo: viemos dele, como as folhas de uma árvore. Tal como o oceano produz ondas, o universo produz pessoas. Cada indivíduo é uma expressão de todo o reino da natureza, uma acção singular do universo total. Raramente este facto é, se é que alguma vez chega a ser, sentido pela maioria dos indivíduos"

- Alan Watts, O Livro do Tabu.

Mulher

fosse ela de pedra
seria teu amor esculpido
em cada um dos teus beijos
fosse ela eterna
de pedra seria
teu amor perdido
em cada despedida

Ah, se ela fosse a noiva
que te senta ao colo
e abriga teu corpo
sem medo
serias o jovem poeta,
feliz com a  descoberta.

TORMENTA

se eu soubesse
deixar explodir
tudo o que eu não sei
e sequer
dou conta que sinto
meu corpo caia
sem peso
no peso do teu
fossem as estrelas
a luz de cada abraço
esquecido pelo caminho
teus doces lábios
nos meus
vazio que anseio
tormenta diária

" [...] a greater reality than reality itself"

"An enormous, formidable, allness of life, where were not consciousness in the human sense, but a feeling all vague, all dark, nothing like the feeling of a self, - as a shadow of consciousness yet possessing in its lifeless perennity of living a greater reality than reality itself"

- Fernando Pessoa, "The dream of Buddha" (excerto inédito).

terça-feira, 19 de julho de 2011

A memória de antes de existir é o mais íntimo segredo da saudade.

A memória de antes de existir é o mais íntimo segredo da saudade. Na verdade ninguém é deste mundo, sem que o seja de outro.

"A coisa mais antiga de que me lembro é uma tarde de Primavera em que eu talvez ainda não tivesse nascido"




"A coisa mais antiga de que me lembro é uma tarde de Primavera em que eu talvez ainda não tivesse nascido. Pelo menos não me lembro de estar ali - só me lembro da claridade difusa daquele quarto em que a Primavera entrava. Uma calma infinita poisava sobre as coisas - como se fosse o princípio do mundo e tudo estivesse ainda intocado"

- Sophia de Mello Breyner Andresen (inédito do espólio)

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Convite para "O Teatro da Vacuidade ou a impossibilidade de ser eu"



"Neste livro pensam-se com e a partir de Fernando Pessoa alguns dos temas com ele comungados: a experiência da vida como teatro heteronímico; a ficcional (im)possibilidade do(s) eu(s) e do mundo como i-lusão ou jogo criador; o vislumbre do entre-ser, isso que (não) há entre uma coisa e outra, consoante a revista Cultura ENTRE Culturas; estados não conceptuais nem intencionais de consciência; os sentidos múltiplos de Portugal, Lusofonia e Quinto Império, na linha de Uma Visão Armilar do Mundo. Pessoa redescoberto pela filosofia, também em diálogo com António Machado, Jorge Luis Borges e Emil Cioran"

sábado, 16 de julho de 2011

Tudo certo

Tomar banho de sol, só
até ao meio-dia
e ao fim da tarde, uma Avé Maria

Consultar o médico
confiando irremediavelmente em nós
pulsar, de intuição pura

Condicionar o ar e desligar
tomar refresco
até não se constipar

Compor o corpo, marchar
a estudar as leis da Física
e aplicar, um Pai Nosso

Fortalecer o corpo para lutar
pela paz, por ti
como um filho de Ghandi

Rebentar de boa ação, redenção
Redentor de mil e um e-vento
como pôr fim ao sofrimento

Ou ficar toda a semana
debaixo da figueira com Gautama, islâmico
o Encoberto cabalista de sempre

Não há morte para a alma
invisíveis alados por todos os lados
a estudar se atingem bons resultados

Não é mais a criação
dos deuses, do que uma boa ideia
adornada por palavras certas

E, por fim, voltando ao principio
acautelando uma boa briga
para descanso geral da barriga

Também ao mundo não virá mal
se dermos meio a que Portugal, revele
esse infinito espírito santo


Luis Santos


P.S.: Com votos de bons resultados para o Seminário "Aflições" budistas e "pecados" cristãos.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Country 2011

Dia de lúcido momento,
Época desta cegueira
Da mais branca neblina.

Todos os poetas se transcendem de humanismo,
Todos os audazes se concebem decadentes,
A vitória abstracta mundialmente falando,
E a derrota constante é um lugar abençoado.

Peso português na roda universal,
Carregando a vida pelas chagas de Cristo,
Arrasta em segredo o engenho capital,
Detective dos mares, reformado imprevisto.

De outrora esqueceu-se actual,
Povo de virtudes abismais,
Se de momento é hipnótico banal,
Verdade vindoura esquecerá Portugal.

Ilustre reacção imprescindível,
O rei morreu e África engrandeceu,
Se o conjunto suor tropeça e o rei não vem,
Aii de nós nostalgia, rainha o império é teu.

Diogo Correia
10/06/2011
Dia de Portugal
Hoje a palavra é um excesso indesejado.
No meu silêncio existe uma resposta amiga, generosa e compassiva.

Quando o meu inverno se for, serei de novo a primavera.
É assim a natureza.
não andei de camelo,
banhei-me no mar egeu
e fui tida como turca

Ao verbo respondi
com um sorriso
desconcertados
devolveram-me outro

em Londres, calei a fala
em Bodrum, inventei o silêncio
dona e senhora
da palavra esquecida
nunca pronunciada

entre turcos e ingleses
balbuciei a existência

no regresso
dei-te um beijo
em pensamento
ainda não deste por ele