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domingo, 10 de março de 2013

"[...] a Saudade é irmã da Eternidade”



“Pois tudo, tudo há-de passar, enfim.
O homem, o próprio mundo passará,
Mas a Saudade é irmã da Eternidade”

- Teixeira de Pascoaes, “Marânus”, 1911.


sábado, 9 de março de 2013

"[...] como esquecer que a Saudade segundo Pascoaes é a quinta-essência do erotismo?"

“Desta «Divina Saudade», menos entidade «metafísica» de nebuloso sentido que «Eva toda em flor – como esquecer que a Saudade segundo Pascoaes é a quinta-essência do erotismo? - , será o poema Marânus a epopeia elegíaca ou o romance metafísico e bucólico, hino incomparável à beleza terrestre confrontada com o tempo e a morte e vencendo-os do interior pela aspiração infinita de que é símbolo para o amante que a contempla, a cria e por ela é criado. […] Não há na nossa literatura poema mais perturbador e incandescente, poema do Desejo como forma da existência buscando desde a Origem novas formas para se encarnar em vão e nessa busca criando o que não existe e por fim o verbo escuro em que se redime da sua própria insatisfação. É a esse verbo escuro que Pascoaes chamou com nome nosso imemorial Saudade, pondo nele nova substância, a do mesmo Desejo transfigurado pela consciência da sua imperfeição divinamente criadora. Nunca esse verbo escuro resplandeceu nas trevas com mais luminosa evidência que nas páginas, hoje ainda como ocultas, deste canto único onde o Inferno e o Paraíso de que somos feitos misturam o seu fogo e a sua água eternos”

- Eduardo Lourenço, prefácio a Teixeira de Pascoaes, Marânus, Lisboa, Assírio & Alvim, 1990, p.XII.


sábado, 3 de março de 2012

Excerto de um texto sobre mística e saudade em Dalila Pereira da Costa, em homenagem a uma Amiga que deixou esta percepção do mundo




"Sem podermos aprofundar aqui a teoria daliliana da saudade e estender o nosso estudo às restantes obras onde a continua, parece-nos óbvio que a sua matriz e contornos fundamentais residem e radicam nesse “instante de ouro” de plenitude não pensada nem desejada, mas vivida, génese de um saber de experiência feito [1], pois, interrogamo-nos, de que mais e em última instância se poderá ter saudade? Sem esse conhecimento experimental, da possibilidade de abolição da percepção habitual da realidade, socialmente legitimada como normal, mas também sem o não menos experimental conhecimento da sua fugacidade no retorno à percepção dualista e opositiva de si, do mundo e do divino, não se compreende tudo o que brota da tentativa, sempre tortuosa e difícil, de o expressar, ao longo de quase quatro décadas. Sem esse duplo conhecimento experimental também não se compreende a teoria da saudade como a união na cisão que tende à reunião de todas as polaridades do real (ou da sua percepção) e à superação de si mesma na identidade reencontrada. Enquanto tal, ela parece ser o nome que assume, na tradição galaico-portuguesa, a única alternativa à perene errância da constitutiva fuga para a frente do homem e do mundo históricos (cf. Peter Sloterdijk, Welfremdheit), na sempre frustrada e sempre reiterada recusa da plenitude que sempre traz consigo porque a cada instante plenamente se lhe oferece. Desta mais nobre saudade, como alma do mundo e potência psicopompa e iniciática, tem sido e continuará Dalila a ser a nossa mais nobre guardiã".

- excerto de “[…] eu era o Outro”. Experiência Mística e Saudade em Dalila Pereira da Costa", publicado em Actas do III Colóquio Luso-Galaico sobre a Saudade - Em Homenagem a Dalila Pereira da Costa. Zéfiro, 2009.

[1] O ouro é tradicional e reconhecidamente um potente símbolo do incondicionado. Falando-nos do “ser de ouro”, também no contexto de uma experiência vivida e narrada, William Desmond fala-nos do kairos como esse “momento culminante do ser” e diz-nos: “Muitas vezes somos tomados por momentos de inteireza, em que uma inocência e uma alegria elementares são despertadas. Nessa perspectiva, a Idade de Ouro não precisa ser uma evasão do tempo, mas a atenção-plena mítica, memorial de uma presença qualitativa: temos de contemplar o mundo, agora, existente, partilhando a perfeição, manifestando algo inexprimivelmente bom” – William Desmond, A Filosofia e seus Outros – Modos do ser e do pensar, São Paulo, Edições Loyola, 2000, p.458; cf. também pp.450-463.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Da saudade como peso, pêsame e pesadelo



“Temos todos experiência – pessoal e social – de que a saudade pesa. Mais do que em muitos corações palpitantes de vida, é no imaginário cardiológico de alguns, apostados em mistificar passado, presente e futuro, que a saudade se anicha como pêsame nos roteiros da história. Não se trata de mero acidente idiossincrásico, respeitável como todas as delicadezas patéticas, mesmo que não partilhadas; trata-se da exacerbação, exploração e distorsão de um sentimento humano apoteoticamente alcandorado a destinação de raça e a promessa de nublados porvires. Pode descambar em pesadelo.
Importa, por isso, sopesar a saudade”

– José BARATA-MOURA, “Peso, pêsame, pesadelo – para um sopesamento (não saudosista) da saudade”, in Estudos de Filosofia Portuguesa, Lisboa, Editorial Caminho, 1998, p.197.

terça-feira, 19 de julho de 2011

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Do Exílio Saudoso... (Algumas re(flexões)

O vir a ser é que é o fundamento da Saudade. O sentimento nostálgico de algo que não é mais, não tem a sua origem no depois da Origem, tão só no antes que é a ignota Origem desse Tudo-nada. Deus é um efeito, tal como a Saudade, não a causa. Deus é uma ausência para si mesmo. Estará Deus, então, enganado em si mesmo? Erro que, por contágio dual, o homem sente, quando pensa existir separado da sua sombra saudosa.

Das causas e dos efeitos, o Homem, criatura caída no intervalo, no entre ilimitado de si mesmo, nada sabe e de tudo se esquece, dissolvido no que crê ser a realidade de tudo. Como quem caminhasse no deserto, na distância profunda entre a luz que crê existir e a sombra que dela provém, o homem caminha até ao esquecimento e à quietude da indiferença e da descrença, revolvendo na areia imensa que deixa atrás e depois de si, o não-lugar de onde caiu em luz arrefecida. Caminha só. Os profundos sulcos na areia são pó de outros e longínquos desertos iluminados de sombra fugidia. O claro-escuro das nuvens que contempla, entre as árvores de um bosque, em busca de uma Árvore que ainda não nasceu. Que nunca houve nascida. Caminha nascido de uma lembrança de si, uma Saudade transcendida de si e de Deus.

Antes da palavra e do pensamento, antes mesmo da ideia de uma palavra e de um pensamento. Fundo exílio que à razão escapa, como se quiséssemos parar o Sol que, entre as árvores, entre o fluxo das ondas de luz (para usar a mesma metáfora do bosque), com a mão vazia da sua incompletude radical, o homem sonha, na dualidade e multiplicidade da sua ilusória face. A sua mátria original.

Pascoaes caminha pela montanha. Na sua cabeça arde uma terrível pedra. Uma terrível perda. Arde nesse exílio a esperança de um regresso. Mas o tempo nasce com o mundo e a criança segura na mão uma mão-cheia de areia do deserto e aí encontra o tempo. Nesse esquecimento de si, dentro do sonho do mundo original criado pelo encontro saudoso do instante. Fica aí, iluminada pela sombra. O exílio é não encontrar esse entre em parte alguma, a não ser no sonho de o ter vivido. Sonho esquecido, ardente, vivido.

Aí a luz é vertical, e o homem reflexo desaparecido de si no mundo. Recolhe a si o em si velado de tudo. Eis o Homem desfeito em esperança! Vêem-no os poetas e saúdam-no as fontes, os rios e o mar, apelo de todas as águas matriciais que se fundem numa paz que não sendo deste mundo nele se desfaz em ondas de luz difusa. No horizonte, um dedo esticado aponta ao oriente do Oriente, de uma pátria terrível e abismada fonte.

Para a morte não há caminho de regresso. É Encontro. A vida é antes do tempo. A Saudade é futuro visionado. Espectro exilado do ser. Esperança florida, presença ausente. Em tudo flore o exílio saudoso. É tudo, sendo nada. É um entre nada, entificado em outro. Uma cabeleira em chamas, a beleza do seu olhar constelado. Além-Deus!

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Ondas

D. S. Merezhkovskii
Retrato de I. Repin (1900)
Oh! Se eu fosse como vós, ó ondas,
Livres e desapaixonadas,
Frias e cheias de eterno resplendor!
Não sois vós mais felizes do que eu?

Que a felicidade é efémera, vós não sabeis...
Com saudade, vejo o belo livre e frio que há em vós:
Em toda a minha vida de amor e dever,
Carrego humildemente os grilhões dos Santos.

Porquê a jovialidade e felicidade do vosso sorriso?
Porquê os grilhões fardos carregados por mim?
Oh!, preciso da vossa frieza imperturbável,
Do vosso sorriso livre, da vossa beleza eterna.

Como é difícil suportar o jugo da humildade!,
Ir para vós e em vós descansar
Só, simplesmente só e viver o instante,
Para depois, sem respirar, adormecer para sempre!

Oh, não me importar mais
Com mulher, Deus, Pátria
Viver a alegria, a vida,
E morrer nos salpicos de espuma resplandecente!...

Todavia não sinto desapego:
Amo a Pátria, amo Deus,
Amo o meu amor e em nome da felicidade
A amargura humildemente aguento.

Temo o dever, inquieta-me o amor,
Para viver livremente sou fraco demais...
Oh, será que a liberdade é impossível,
e o homem é escravo até morrer?

Dmitrii Merezhkovskii (1866-1941)

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Toska - Saudade - Duhkha

"Se eu escrevesse um diário, registaria constantemente as seguintes palavras: «Tudo me é estranho, sinto-me fragmentado, sempre, sempre aquela "тоска" pelo outro, pelo que me transcende.» Toda a minha existência é "тоска" pelo transcendente." - Nicolai Berdiaev

Tоска, em cirílico - Toska, em latim, é uma palavra de origem eslava e significa dor, tristeza, inquietação, limitação, restrinção, inquietação. Talvez, de alguma forma, "toska" esteja relacionada com "saudade". Segundo Berdiaev, toska é um sentimento direccionado para o mundo transcendente e é acompanhado por um sentimento de vazio, insignificância, perecibilidade do mundo em que nos encontramos. Toska erradia a solidão sentida pelo homem face ao transcendente, solidão essa derivada da experiência da ausência do divino. Toska é um sentimento Entre pois jaz entre o abismo do não-ser (nada niilista) e o transcendente divino. Assim, se toska é desespero, toska também é esperança, salvação.

Tal como "toska", a "saudade" não tem origem nas línguas indo-europeias. Talvez a palavra sânscrita que mais se assemelhe a "toska" e a "saudade" seja "duhkha" que significa impermanência, transitório, dor física, insatisfação, medo, mal-estar, medo de perder, insegurança, estar dividido, partido ao meio, separado de algo.

O homem sente-se separado, fragmentado, só, angustiado, dividido. É a condição humana que toma consciência da sua perecibilidade. A morte. Todavia, esta consciência pode ser um catalizador para uma busca escatológica - Sehnsucht - a busca do Ser. Como buscar? Como encontrar um caminho para trilhar? Podem a religião, a arte, a ciência ou a filosofia encontrar soluções que apaziguem o sofrimento inerente à condição humana? Devemos crer ou ter fé? Devemos acreditar ou experenciar essa Saúde obscurecida que jaz em todos nós? Devemos saber ou saborear?

Crente é pouco sê-te Deus
e para o nada que é tudo
inventa caminhos teus
- Agostinho da Silva

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

O Homem e o Violoncelo

Um corpo pousado no colo do homem, violoncelo, espigão ligado à terra, voluta-céu, o homem precisa de um arco-alma para o tocar, para lhe ouvir a voz, a alma do violoncelo é de abeto, perfeita, perfeitamente posicionada, aguarda o movimento do corpo macio, vibração transmitida ao fundo da luz, as cordas enroladas em prata anseiam as crinas de cavalo do arco de pau-brasil adormecido, não pode tocar-lhe com os dedos, o homem, com os dedos pode apenas tocar-lhe no pescoço, a mão acaricia a voluta e cai, o corpo precisa do arco, o arco precisa da alma do homem para existir, o homem não consegue despertar o arco, que lhe pende da mão, inerte. Só, tão só, o homem agarra o violoncelo e chora, nú.


Pintura de Wayne Roberts, Austrália

domingo, 17 de janeiro de 2010

A Saudade

India 2005 - "Namasté! " - Fotografia de Teresa Lamas Serra

Pois que a saudade vence a irreversibilidade do tempo e a distância do espaço, efectua a síntese, ou mais a união do espaço e do tempo, anulando sua aparente diferença e desunião: e anulando-os finalmente como forças terrenas.
Se quisermos apontar na espiritualidade mundial outro princípio semelhante e inserto numa dada filosofia, lembremos o ioga na filosofia indiana. A saudade é, tal o ioga, na sua vera tradução, união. E ambos como dimensões específicas de duas grandes espiritualidades mundiais; situadas, uma num extremo atlântico da Europa, outra no centro da Ásia. E duas formas diferentes que tomou o mito da reintegração, o que está primordialmente na saudade e no ioga. E ambos como disciplinas de ascese, visando a perfeição do ser e estar no mundo, num estado de consciência superior.
Digamos ainda que a saudade, tal como o ioga, é uma experiencia metafísica e um método do homem ultrapassar seus próprios limites.
E ambos uma via tradicional da sua cultura, abrindo novas e insuspeitas perspectivas e possibilidades ao ser humano. Oposta no espaço terreno ao ioga na Índia, a saudade demonstra-se semelhantemente como meio de libertação do humano à medida cósmica. Mas, notável diferença, a saudade, pelo homem português, levou esse princípio à sua manifestação na História pela Descoberta da terra e do céu. Embora haja também no ioga esta dimensão cósmica, ela não se projectou num acto histórico realizado efectivamente na realidade. Na introversão da alma indiana e não-vontade de intervenção no mundo alheio, mas voluntariamente limitando-se sobre si, não houve essa outra projecção no plano histórico, tal como a nação portuguesa; uma concepção espiritual traduzida extrovertidamente num feito à medida universal, abrindo novo ciclo, a Idade Moderna.
Dizíamos que a saudade e o ioga, são duas vias tradicionais de suas culturas, pois ambos detendo raízes duma outra cultura arcaica, de povos indígenas, antecedendo a vinda dos indo-europeus: na Índia, dravidianos, na Galécia, lígures. Heranças pré-arianas, tal como seu culto comum da Grande-Mãe (…)

COSTA, Dalila Pereira da – As Margens Sacralizadas do Douro através de vários Cultos. Lello Editores, 2006, p.101.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Leonardo Coimbra (1883-1936) - O Criacionismo

Fundador e Professor da 1ª Faculdade de Letras do Porto. Formado em Matemática e Filosofia. Grande sensibilidade literária e poética. Deputado. Duas vezes Ministro da Educação.

Faz uma hermenêutica sobre todos os pensadores seus contemporâneos (Antero, Bruno, Pascoaes, Junqueiro), mas afasta-se de todos eles.

Até 1923, tenta unir o pensamento libertário com o Criacionismo. Depois, aproxima-se cada vez mais do Cristianismo, até aderir ao catolicismo pouco tempo antes de morrer em acidente de viação. Passagem de livre pensador a cristão ortodoxo.

Nele, o Homem é fundamentalmente um ser saudoso: uma saudade imanente e transcendente. Uma nostalgia da realidade, onde o Amor é a nota de Unidade com Deus. Quanto mais Amor mais consciência. A matéria não é senão o soro do espírito. Há vários níveis de amor e de consciência.

O homem vive com saudade do Paraíso (o Mito do Génesis). É saudoso de um estado em que a sua consciência ainda não se tinha precipitado para a exterioridade e materialidade. Uma saudade metafísica.

O Criacionismo:
A realidade é sempre pensamento. A realidade está sempre a ser determinada. A actividade mental vai determinando a realidade. O espírito determina-se a si próprio na medida em que vai determinando a realidade.

(Cf. Paulo Borges, Aulas de Filosofia em Portugal I, Apontamentos).

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Deus, em Antero de Quental (1842-1890)

Há um Deus misterioso que só parcelarmente se revela a quem o quer estudar:
Sócrates - Dentro do homem está um Deus desconhecido
Cristo - Dentro do homem está o Reino dos Céus
Lutero - Dentro do homem está Deus. O Homem é um Deus que se ignora.
Robespierre - Revelação de Deus através de valores humanistas.
Hegel - Revelação de Deus através da ideia.
Moisés, Maomé, Cristo - Profetas que revelam Deus, mas todos revelam apenas um aspecto parcelar do Absoluto

O homem, ele próprio, está mais perto do divino do que as formas através das quais O representa. Em vez de procurar Deus nos céus, o homem deve procurá-lo no seu interior.

A Existência humana é privilegiada porque é nela que mais se manifesta a essência divina.
A Saudade é uma aspiração a uma relação mais plena com o deus desconhecido que cada um trás em si.

No fundo da consciência está aquilo que procuramos fora. Dormitando, em movimento mudo, mas murmurando sempre. Jeová, Brama, Sabaoth, Alá, Cristo. O homem não deseja mais do que aquilo que já há em si.

A santificação é a plena realização do indivíduo. É um Deus que se revela permanentemente, como se fosse um progresso constante, sem que nunca mais esse progresso acabe. O homem como o descobridor dos mundos encobertos do espírito.

As revoluções, os cultos, os mitos, tudo são apenas manifestações do princípio interior essencial. Civilizações e Impérios se fazem para sermos Homem um pouco mais.

in, Antero de Quental, Filosofia, Univ. dos Açores: Editorial Comunicação.
cf. Paulo Borges, Filosofia em Portugal I, apontamentos.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

EnTre os pioneiros de uma Filosofia da Saudade

"Os Portugueses são mais saudosos que outros povos, o que permite um sentimento único de Amor e Ausência - os pais da Saudade."
D. Francisco Manuel de Melo

"A saudade provém do coração, não provém do entendimento. É um bem que se padece e um mal que se deseja. Amarga e doce, triste e alegre. Na saudade fundem-se os contrários."
D. Duarte

domingo, 25 de outubro de 2009

Que significa a visão e enigma de Zaratustra?

Liberto do anão que lhe pesava sobre os ombros, o qual, proclama, não conhece e não pode suportar o seu “pensamento abissal (abgründlichen Gedanken)”, Zaratustra detém-se junto de um portal (Torweg, que também significa literalmente “portão louco”), em cujo frontão está inscrito o nome “instante”, onde “se reúnem dois caminhos” frontalmente opostos, que ninguém ainda seguiu “até ao fim”: um estende-se para trás, o outro para diante e ambos duram uma eternidade. Formula então perguntas que simultaneamente se respondem: “Se alguém, todavia, seguisse por um destes caminhos, sem parar e até ao fim, julgas […] que […] se oporiam sempre?”. Contemplando o caminho eterno que se estende para trás, não deverá tudo o que é capaz de correr já o haver percorrido pelo menos uma vez? E não deverá tudo o que pode suceder já haver assim sucedido? Se tudo já foi, não devem também aquele portal, a aranha que rasteja ao luar, o luar, Zaratustra e o anão já haver existido? E não estará tudo tão intimamente interligado que aquele instante não arraste atrás de si todas as coisas futuras, incluindo a si mesmo? Não deverá tudo o que pode correr ter de percorrer uma vez mais o longo caminho que se estende para diante? Não será assim necessário que Zaratustra, o anão e todos percorram esse “longo e temível” caminho futuro e do passado regressem àquele instante?

Ao dizer isto, Zaratustra falava “em voz cada vez mais baixa”, com medo dos seus “próprios pensamentos e da sua oculta intenção”, quando ouve uivar um cão. Tudo se desvanece e encontra-se só perante um jovem pastor que se contorce, com o rosto desfigurado pela repugnância e pelo terror, pois uma forte cobra negra se lhe introduziu na boca, mordendo-lhe a garganta. Começa a puxar pela serpente, sem sucesso, até que uma voz grita pela sua boca: “Morde! Morde! / Arranca-lhe a cabeça! Morde!”. Ao gritar, “espanto, ódio, nojo, piedade”, tudo o que em si “trazia de melhor e de pior”, de si jorrava “num único grito”. Aqui Zaratustra interrompe a narrativa para pedir a todos, “exploradores” e “aventureiros” ou não, que lhe decifrem o enigma daquela visão” que é simultaneamente “previsão”: “Que vi então em imagem? E qual é o que deve chegar um dia?”; “Quem é o homem em cuja garganta se introduzirá assim o que há de mais negro e de mais pesado no mundo?”

Retomando a narrativa, o pastor morde firmemente a cabeça da serpente e cospe-a para longe, levantando-se “com um salto”. Já não é então pastor nem homem: “transformado, transfigurado (iluminado?), ria”, ria como nenhum homem o fez na terra. E o capítulo termina com a confissão:

“Ó meus irmãos! Ouvi um riso que não era um riso humano, e agora devora-me uma sede, uma saudade (Sehnsucht) que nada aplacará.
A minha saudade (Sehnsucht) daquele riso devora-me; oh!, como posso tolerar ainda a vida! E como tolerar agora a morte!”

- Fragmento da comunicação "O Eterno Retorno em Friedrich Nietzsche e Raul Proença", a apresentar no dia 29 de Outubro, no Colóquio "Proença, Cortesão, Sérgio e o grupo "Seara Nova"", que decorre de 28-30 de Outubro no Anf. III da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

sábado, 24 de outubro de 2009

Não deixa de ser uma enorme vaidade



Não deixa de ser uma enorme vaidade imaginar que estamos despertos no meio dos que dormem. A nossa vaidade leva-nos a inventar estrelas ardentes que atiramos aos outros, sabendo que entre eles não há um único capaz de segurar uma estrela com a ponta do dedo mindinho. Imaginamos que estamos despertos, mas nenhum de nós tem um sorriso na cara, aquele sorriso mistura de dentes e riso, amor e humildade, dos que enterrados na carne chegaram finalmente à raíz e dela beberam a primeira água-luz perfumada e limpa. Se nem o sorriso temos, muito menos temos asas ou sabemos criar estrelas, nem tratámos de quebrar os ossos, rasgar veias e artérias, dilacerar órgãos e romper a carne e trepar pela raíz acima, desfeitos e nús, em pleno vôo, nem parámos a meio, por compaixão, nem mesmo nos sentámos então de pernas cruzadas a rir, de nós e dos outros. E se mesmo assim, algum de entre nós tivesse passado por tudo isto, teria fingido dormir de novo, com um só olho aberto, à espera dos seus irmãos?


Escultura: Sleeping Muse, de Constantin Brancusi (1876 - 1957), Roménia


"Um corpo de saudade com alma de espuma" (atman e anatman) - estados de consciência, meditação, saudade e libertação

"PROSA DE FÉRIAS"

"A praia pequena, formando uma baía pequeníssima, excluída do mundo por dois promontórios em miniatura, era, naquelas férias de três dias, o meu retiro de mim mesmo. Descia-se para a praia por uma escada tosca, que começava, em cima, em escada de madeira, e a meio se tornava em recorte de degraus na rocha, com corrimão de ferro ferrugento. E, sempre que eu descia a escada velha, e sobretudo da pedra aos pés para baixo, saía da minha própria existência, encontrando-me.
Dizem os ocultistas, ou alguns deles, que há momentos supremos da alma em que ela recorda, com a emoção ou com parte da memória, um momento, ou um aspecto, ou uma sombra, de uma encarnação anterior. E então, como regressa a um tempo que está mais próximo que o seu presente da origem e do começo das coisas, sente, em certo modo, uma infância e uma libertação.
Dir-se-ia que, descendo aquela escada pouco usada agora, e entrando lentamente na praia pequena sempre deserta, eu empregava um processo mágico para me encontrar mais próximo da mónada que sou. Certos modos e feições da minha vida quotidiana - representados no meu ser constante por desejos, repugnâncias, preocupações - sumiam-se de mim como emboscados da ronda, apagavam-se nas sombras até se não perceber o que eram, e eu atingia um estado de distância íntima em que se me tornava difícil lembrar-me de ontem, ou conhecer como meu o ser que em mim está vivo todos os dias. As minhas emoções de constantemente, os meus hábitos regularmente irregulares, as minhas falas com outros, as minhas adaptações à constituição social do mundo - tudo isto me parecia coisas lidas algures, páginas inertes de uma biografia impressa, pormenores de um romance qualquer, naqueles capítulos intervalares que lemos pensando em outra coisa, e o fio da narrativa se esbambeia até cobrejar pelo chão.
Então, na praia rumorosa só das ondas próprias, ou do vento que passava alto, como um grande avião inexistente, entregava-me a uma espécie de sonhos - coisas informes e suaves, maravilhas da impressão profunda, sem imagens, sem emoções, limpas como o céu e as águas, e soando, como as volutas desrendando-se do mar alçante do fundo de uma grande verdade; tremulamente de um azul oblíquo ao longe, esverdeando na chegada com transparências de outros tons verde-sujos, e, depois de quebrar, chiando, os mil braços desfeitos, e os desalongar em areia amorenada e espuma desbabada, congregando em si todas as ressacas, os regressos à liberdade de origem, as saudades divinas, as memórias, como esta que informemente me não doía, de um estado anterior, ou feliz por bom ou por outro, um corpo de saudade com alma de espuma, o repouso, a morte, o tudo ou nada que cerca como um grande mar a ilha de náufragos que é a vida.
E eu dormia sem sono, desviado já do que via sentir, crepúsculo de mim mesmo, som de água entre árvores, calma dos grandes rios, frescura das tardes tristes, lento arfar do peito branco do sono de infância da contemplação."

-Bernardo Soares, Livro do Desassossego, Assírio & Alvim (2006), pp.188-189.