"Não nos arriscamos também a uma mesma morte, se muito longe penetrarmos no outro mundo? Quem sai vivo de ter visto Deus face a face? - o ponto último, o mais profundo desta viagem. O outro mundo mata"
- Dalila Pereira da Costa, "Os Sonhos".
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quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
quarta-feira, 7 de abril de 2010
"Viver é fazer de conta que não há morte"
"Viver é fazer algo a despeito da evidente futilidade de tudo. Viver é portanto tentar negar a futilidade evidente de tudo. E por que é evidente essa futilidade? Pela morte. Viver é tentar negar a morte. Viver é fazer de conta que não há morte. Mas há. Não é isto espantoso?"
- Vilém Flusser, "O tema exclusivo", in "Da religiosidade".
- Vilém Flusser, "O tema exclusivo", in "Da religiosidade".
terça-feira, 30 de março de 2010
sexta-feira, 30 de outubro de 2009
"O Mercador de Quimeras”
Foto: "Derradeira condição", de José d'Almeida e Maria Flores
O Velho residia num antro penhascoso, entre paredes caóticas de gruta e pilares com aparência de tubos sonoros, que parecia repercutirem como num órgão ciclópico os rumores confusos das entranhas da Terra. Havia lá dentro uma tonalidade etérea de firmamento e pedras preciosas engastadas na rocha, que cintilavam ao redor da cabeça do Velho em sistemas de constelações.
Tinha esta a face sulcada pela charrua dos milénios, animada por uns olhos singrados de órbitas de astros que reflectiam mundos longínquos e crepitavam no tracejar implacável e constante de eternas cosmogonias. Estranho ao tempo, jazia impassível e solitário no seu antro, assente sobre um trípode, agitando os dedos com o movimento permanente de quem torce os fios de uma roca invisível, a gerar e a diluir existências, tendo os pés apoiados sobre as armilas de uma esfera. Ao alto, um morcego enorme abria o sobrecéu das asas, suspenso das estalactites do tecto.
À beira do antro, passava o caminho das peregrinações que o Homem vinha percorrendo desde o limiar da História, longa e penosa via-sacra intervalada de montanhas abruptas e de fundas torrentes, de áridos desertos e de cidades tentaculares. Era ali a estação distribuidora das sinas fiadas pelo Velho na sua roca invisível, princípio e termo de encruzilhadas onde se marcava a cada qual na fronte o selo de luz ou sombra que havia de acompanhá-lo na sua rota.
Todos paravam ao chegar ali, atraídos inexoravelmente pelo interior da gruta em cujo chão se viam estranhas figuras de múltiplas matérias, barro ou marfim, bronze ou oiro, dispostas em socalcos à semelhança de uma tenda de mercador. Semelhantes no aspecto e várias no semblante, olhavam, com seus olhos vítreos, obstinadamente, fitando cada uma delas um ponto no espaço, cada uma orientada pela força intrínseca do seu magnetismo polar.
Eram as Quimeras, semelhantes, sim, no aspecto, mas diversas no olhar que em umas era fluido e azulado como a ondulação silenciosa dos espaços planetários, em outras tinha a profundidade glauca e densa da imobilidade submarina, em outras era penetrante e metálico como lâminas arremessadas, em outras envolvente e veludoso como uma carícia de luar, em outras ainda recolhido e triste como uma meditação dolorosa pendida sobre uma urna cinerária. E o que havia de singular é que o olhar do Velho, na sua alheada e altiva magnificência, era o espelho facetado que reflectia todos os outros olhares resumindo-lhes as aspirações e brilho como se eles fossem as emanações gémeas da sempiterna claridade em regresso à sua fonte originária.
João Barreira, do conto “O Mercador de Quimeras”, in “A Rota do Bergantim e Outras Alegorias”, Edições Ática, Lisboa, 1947, págs 99-101.
"Não mais queremos sonho apenas sonhado, mas a vida em sonho transformada [,] à própria morte vencendo pela vida em que a mudarmos " - Agostinho da Silva
[…] outro tempo
Ao nosso vai seguir-se, o em que ao Povo
Redimiremos todos, à miséria
Expulsando dos corpos e das almas,
À terra libertando e aos donos dela
Mais livres os fazendo, por não terem
A posse que os possui, e o mundo inteiro
Revelando a quem tem passado a vida
No não mais que viver a repetida
Morte que dia a dia lhe é o dia.
…………………………………………………..
A todos os do mundo um canto novo,
Que música será bem mais celeste
Que a de esferas fingidas, pois das almas.
Triunfante virá: não mais queremos
Sonho apenas sonhado, mas a vida
Em sonho transformada, nós aos deuses
Unidos para sempre, à própria Morte
Vencendo pela Vida em que a mudarmos.
Agostinho da Silva, ”Exortação à Portuguesa Língua”,
in revista “Nova Renascença”, Porto, 1982, nº 7, pág. 222 e seg.
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