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segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

A realidade, comovida, agradece mas fica no mesmo sítio. (Mário Cesariny)



A realidade, comovida, agradece
mas fica no mesmo sítio
(daqui ninguém me tira)
chamado paisagem

[…]

Ela sabe que os pintores
os escritores
e quem morre
não gostam da realidade
querem-na para um bocado
não se lhe chegam muito pode sufocar

Mário Cesariny,
Poema VII de “A Cidade Queimada”, in Titânia e a Cidade Queimada (excerto),
Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1977, pág. 92 e seg.

domingo, 25 de outubro de 2009

Shibumi


Li uma vez, há muitos anos, um livro com o título Shibumi. Era de um autor do qual nunca ouvira falar e que dava pelo estranho nome de Trevanian. O personagem principal, Nicholai Hel, órfão, é educado por um general japonês e costumavam jogar Go juntos (um jogo japonês de estratégia). Quando finalmente, passados anos, Nicholai ganha ao general, ele decide mandá-lo completar a sua instrução com um famoso professor de Go, chamado Otake-san. E informa Nicholai de que o futuro mestre possui a qualidade do shibumi. Nicholai, estranho ao conceito, pergunta ao general o que é o shibumi e então o general explica, e aqui cito o livro: “… o shibumi tem a ver com um grande requinte subjacente a aparências vulgares. É uma afirmação tão exacta, que não é ousada, tão vibrante que não precisa de ser bela, tão verdadeira que não tem de ser real. … Um silêncio eloquente. Na conduta, trata-se de humildade sem modéstia. Na arte, onde o shibumi assume a forma de sabi, quer dizer uma simplicidade elegante, uma parcimónia articulada. Na filosofia, onde o shibumi aparece como wabi, significa uma tranquilidade espiritual que não é passiva; trata-se de existir sem a ansiedade da vivência. E na personalidade de um indivíduo é… autoridade sem domínio.”
No final, o general oferece a Nicholai uma caixa de sândalo embrulhada num pano cru e Nicholai “fez uma vénia de agradecimento e pegou no embrulho com grande ternura; não expressou a sua gratidão com palavras inúteis. Era o seu primeiro acto consciente de shibumi.
Apresento de seguida algumas imagens do Japão que, para mim, representam o shibumi. O shibumi é visível na natureza, à superfície do caos, e tem a qualidade de nos alegrar o coração quando o descobrimos. O shibumi existe também, por vezes, nas relações humanas, nas mais marcantes obras de arte, num rosto que dorme, nos arranjos florais do Ikebana, no sussurrar do vento nos bambús ou na preparação de uma refeição. Na realidade, podemos ir ao encontro do shibumi em todo o lado.


Fotografia de Sylvester Adams

Fotografia de Frank Carter

Fotografia de Frank Carter

Edmond Jabès: Sobre o deserto


Não se pode falar do deserto como de uma paisagem, pois ele é, apesar da sua variedade, ausência de paisagem. Essa ausência concede-lhe a sua realidade. Não se pode falar do deserto como de um lugar; pois ele é, também, um não lugar; o não-lugar de um lugar ou o lugar de um não-lugar. Não se pode pretender que o deserto seja uma distância, porque ele é, ao mesmo tempo, real distância e não-distância absoluta por causa da sua ausência de marcas. Ele tem, como limites, os quatro horizontes, sendo o que os liga e os separa. Ele é a sua própria separação onde se torna lugar aberto; abertura do lugar. Não se pode pretender que o deserto seja o vazio, o nada. Não se pode, tampouco, pretender que ele seja o fim, uma vez que ele é, igualmente, o começo.

Edmond Jabès in Un étranger, avec, sous le bras, un livre de petit format, Paris, Editions Gallimard, 1989, p. 107-8

Fotografia National Geographic: padrões de erosão no deserto entre o Nilo e o Mar Vermelho.