sábado, 8 de janeiro de 2011

"Será, por exemplo, mais grave casar-se do que entrar no eléctrico?"




"Acha você que temos de estabelecer distinções entre os momentos graves e os não graves da vida? Será, por exemplo, mais grave casar-se do que entrar no eléctrico? […] Todos os nossos actos podem ser igualmente graves e só porque são actos: tudo é consequência de tudo, nenhum elemento se perde nesta máquina do mundo; tudo o que façamos se reflecte no que vem, é já mesmo o que vem. Como havemos de dizer que tal acção é grave, séria, que outra o não é?"

- Agostinho da Silva, Sete Cartas a um Jovem Filósofo [1945], in Textos e Ensaios Filosóficos I, p. 243.

3 comentários:

MeTheOros disse...

Na verdade, do "ponto" de vista "holónico", isto é, "de onde" se apreendesse/apreenda a totalidade/infinidade de todos os actos, acções, consequências e efeitos ocorridos (e não ocorridos, também, por via dos actos que ocorreram), desse "ponto" de vista insituável todos os actos são simplesmente ocorrências, sequências de interacções, tensões ou fusões, etc.

E, porque de nenhum se pode dizer que seja mais importante ou grave ou relevante (porque de nenhum sabemos, ou podemos saber, todas as infindas consequências), de nenhum pode dizer-se que seja menos grave ou importante ou significativo.

É sempre do minúsculo "ponto" de vista nosso (e a nós, egocentrada ou egocentricamente referente) que nos é lícito (e é lícito) afirmar que um acto, e não outro, nos é mais importante e mais grave do que outro.

Porque só a um ser dotado de consciência é tal dado, ainda que ilusória ou imperfeitamente.

Mas não é precisamente o ser imperfeição que a si busca perfeição, que faz a glória do homem?

MeTheOros disse...

Adenda (em monólogo meteórico):

Quanto à pergunta feita por Agostinho.
(É mais ou menos grave tê-la ele feito, ou poder não a ter feito?)

Pode não ser mais grave casar-se do que entrar num eléctrico se, por hipótese, o casamento for no próprio eléctrico.

Inversamente, se se for de eléctrico para casar e ele avariar, pode ser grave, mas não é coisa irremediável.

Nenhuma coisa é "i-remediável". Irremediável é o que fazemos com as coisas que (nos) acontecem, em consequência do que fazemos, ou não fazemos, com o que sentimos e pensamos.

Até "é já mesmo o que vem" o que nunca virá.

Fausta disse...
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