quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Espírito Santo, Tao e Zen segundo Agostinho da Silva

"[...] pouco se fez quanto a teologia do Espírito Santo, em si própria, e nas ligações que parecem existir com atitudes como as do Tao ou as do Zen; talvez, neste ponto, o puro estudo teológico levasse a entender melhor a facilidade e a fecundidade das ligações dos portugueses dos Descobrimentos com as civilizações do Oriente e desse a base de partida para que realmente se unissem as duas formas de comportamento no mundo"

– Agostinho da Silva, “Notas para uma posição ideológica e pragmática da Universidade de Brasília” [1964-1965], in Dispersos, p.245.

1 comentário:

MeTheOros disse...

Eu creio que "para que realmente se [unam] as duas formas de comportamento no mundo", como diz Agostinho da Silva, não será o que "quanto a teologia do Espírito Santo" se fez ou "faça de estudo teológico" do Espírito Santo, que mais importa.

O Espírito Santo (ou outro) não se deixa "estudar", pois é intrinsecamente fugidio à posse que o teologizar ou algum inteligir sempre implicam, pois ele ou Ele - são, no limite, o mesmo- é antes o que está entre os fios dum tecido, do que a sua tessitura; é antes o co-nex(ã)o que há entre algo e alguma coisa do que a ligação que nisso se estabeleça; é antes o corte duma paradoxal e incompreensível lâmina sem espessura, que corta os cortes entre as coisas e os seres, do que a espessura duma lâmina que estabelece fronteiras, ainda quando de diálogo, de boa co-existência ou até de união.

Importa pois, quanto a isto, sobretudo o que se faça em nós mesmos, no pormos em relação de equilíbrio as duas metades do cérebro, no sentido de dar harmonia ao uso desproporcionado
(eu ia a dizer, des-propositado) de uma das metades em detrimento da outra. É isso que - seja a ocidente, seja a oriente - nos particulariza, de-fine e de-limita por igual.

Feito isso, em nós, será indiferente chamá-lo Espírito Santo, Tao, Zen, ou o que seja.

Pois não serão "atitudes", e seu intrínseco limite e perfil, mas um estar de haver ser que é um haver estar sendo para um ser de estar havendo.

Fica-nos, e bem, o sempre desafio de "entender melhor a facilidade e a fecundidade das ligações dos portugueses": as dos Descobrimentos que houve (por igual, a Oriente e a Ocidente, é bom lembrar) ou as dos ainda a haver por toda a parte - e sobremaneira dentro de nós.

O equilíbrio e harmonia entre as duas "metades" de/em nós acarretarão plasmação de equilíbrio e harmonia onde quer que estejamos.

Aí, não seremos já lugar de estudo teológico algum, mas talvez sejamos lugar de um qualquer caso de estudo. Como Agostinho da Silva, aliás.