segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Uma corda por cima do Real - Presenças saudosas

No jardim entra-se por um fio de luz. Uma corda por cima do abismo há-de achar-nos o rosto: uma feição acima da nossa mesma altura. Há-de haver pássaros, porque os havia antes, entre as dobras do tempo. Abro essa seda e essa sede que, desdobrada, é um mar acetinado e azul, chão e céu da nossa insaciávlel sede de voar. Fecho todos os buracos da luz com um grito escuro. Escrevo na folha do jardim as viagens que a lua faz, empurrada pelas nuvens, a quererem sair da moldura, como o cavalo do pintor. O Poeta leva consigo as penas para lá do rio, para lá da montanha, entre margens onde dormem as luas, e as brisas são puros cristais na noite da saudação.Lugares de sombras adormecidas, à espera do corpo de luz. Cansados olhos de sonhar. O futuro é o passado que amanhece - oiço o Poeta dizer. E dou um salto que me entreolha de nenhum lugar. Sobe-se ao céu por uma escada de luz. As fogueiras ardem para lá do tempo que está e do que foi. Em Saudade, olho, como se cegasse, a copa das árvores e os anjos que sobrevoam o Real. Espectros ardem enquanto o trapezista vestido de Arlequim, deixa cair uma bola na relva do jardim. No jardim perde-se o olhar e a nudez no gesto de varrer as folhas, a alma curvada das paisagens que correm do distante bosque para a pérola dos olhos. A tristeza é um dédalo a tecer as asas dos cisnes. O cisne é a morte cantada, a visão orante dos flamingos, no coração da densa selva. África é uma oração, um nódulo no peito, lusa paixão do oiro. A argonauta lembrança de um jardim mais-que-perfeito. Percorro o jardim e, ao centro dos olhos chego, ali onde a tristeza é um dédalo a tecer as asas dos cisnes. Na mão seguro o livro sagrado: um verbo em sombra: um livro de novas Saudades: ... vagueio ao luar no meu jardim. Um jardim de Saudade. Ergo – tal como o poeta do Marão - no ar o cálice da Realidade e levanto-a em sonho, para que se desfaça nos olhos do Poeta. Disse-o nas palavras que me ferem o peito em pranto: Que foi a minha vida? Um facho que acendi, nas trevas, para ver a morte! E morro aos pés desta verdade como se Cristo fosse última corda por cima do abismo onde toda a humanidade se revê. Como se não houvesse amanhã ajoelho e choro, lembro o poeta e acendo uma luz, qual facho ardente a limpar todas as sombras coladas ao muro e ao limoeiro reverdecido do olhar. E o meu canto aclara os medos. Como se o colo da Mãe fosse um novo e vivo oceano onde se miram os rostos perdidos dos futuros argonautas. Havia um jardim como um sonho, aberto às luas de diferentes faces na mesma face da chuva. Como quem lavra e semeia o que foi semente que se bebe no futuro: invertida campânula, derramando deus na infinita presença do mundo.
A Deus só pertence o meu fantasma. Vivo nele em Saudade.

2 comentários:

Donis de Frol Guilhade disse...

Este texto calou muito em mim.
Não digo que demasiado, que o não há: digo, sim, que calou no extremo de sentir e do sentido:
"Morro aos pés desta verdade".

soantes disse...

É forte, Maria. Se o Pascoaes te conhecesse chamava-te Maria da Saudade...