domingo, 22 de novembro de 2009

Sonha-se-me o tempo e a memória

A Maria Sarmento, por nos sabermos vivos e unos.

Sonha-se-me o tempo e a memória, o espaço breve dos dias, de todos esses dias que foram lugar de tempo, de imensidão, de vício, de tremenda apatia pelas águas claras, na visão de pessoas e lugares. Como éramos ingénuos a pensar que era ali que começava a diferença… Como éramos simples ao olharmos as realidades com mãos de vagar… Como éramos crentes ao acreditarmos que os deuses tinham novos rostos e a nossa cegueira outra luz!...

Que é das memórias, que é dos vícios, que é dos instintos que sempre se nos segredaram nos dias e se prolongaram nos gestos, mesmo os menos nítidos, os desafiadores de sistemas e orgulhos, tanto quanto de realidades e presenças?!... Quantas vezes corremos de mãos dadas a caminho do nada, que era a realidade que se nos colocava à frente, e sorríamos quando nos apercebíamos que o lugar desse nada era o lugar da realidade onde procurávamos a razão e o mito?!…

Isso, isso mesmo. Que é do tempo e da memória que deixámos há muito tempo e nos entristece a recordar? Como se tivéssemos tempo de ter tempo!... Que a luz seja sempre o que nos anima as mãos e não tanto o que nos anima o olhar.
Mesmo na saudade!

3 comentários:

Donis de Frol Guilhade disse...

"Como se tivéssemos tempo de ter tempo!"

Eis o bisturi que nos sulca e rasga a ínfima veleidade, eis o carrilhão que nos desperta soneiras baldaquinas e não permite que nos azambuemos nos encalacrados comprazimentos no sublime.

(O sublime é o que nem no instante cabe. Onde caberemos então nós?)

"Que a luz seja sempre o que nos anima as mãos e não tanto o que nos anima o olhar" - eis o que importa: ser vida nas mãos, em seu mesmo limite de arquipélago, de serem gesto dum sempre alhures delas.

Como se, precisamente, a cegueira fosse delas...



(Saudando Pedro Alvites, por isto, e por tudo: fraternalmente)

Maria Sarmento disse...

Pois, tenho que, grata, desejar que se nos sonhe em tempo e memória um labirinto e uma visitação.

É nas mãos que poisam, como em ramos, as aves dos sonhos. Também no olhar...Nos dedos enrolamos os fios de luz de construtores de asas e de fugas para o tempo para o qual já não temos tempo...

Entre o nascer e o morrer, há a Vida. O acto de nascer é como se fosse o de acordar. São os frutos da luz que animam as mãos e a arquitectura do labirinto e da fuga: arte e criação do que nos é sonho de liberdade. Em Saudade, que é flor eterna, e doura sobre o tempo.

Grata pelas mãos do olhar.

Pedro Alvites disse...

Saúdo o Donis e a Maria pelos seus gestos de mão e pelos seus tempos de olhar. Aqui, espero, nos encontraremos mais vezes.

Com um abraço fraternal.