quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

"Que se despeça da vida eterna quem não a viva já aqui"



Para o Luiz Reys

"Antes mencionámos o terceiro olho, este terceiro órgão ou faculdade, que nos abre a uma dimensão da realidade que transcende o conhecimento que possamos adquirir através da mente e dos sentidos. Sem um silêncio dos sentidos e da mente esta faculdade permanece atrofiada e então a vida - a experiência da vida, anterior à sua expressão em diferentes actividades: a vida em sua profundidade - escapa-nos; a participação na plenitude cósmica - juntamente com Deuses e demónios - passa-nos desapercebida. Então as nossas vidas, privadas da sua fonte, tornam-se pobres, tristes, medíocres. Para dominar esta miséria recorremos a uma multidão de coisas que a edulcorem, que a enriqueçam, que lhe dêem um sentido, uma relevância, uma dignidade. E identificamo-nos com essa multidão de coisas; esgotamo-nos nessa actividade incessante. E esquecemo-nos que dão maior glória a Deus a flor, o lírio, o passarinho (Mateus, VI, 26-28), que todos os nossos afãs, pressas e carreiras. Suspiramos por outra vida quando não vivemos a vida. Algo disse Jesus sobre a vida eterna que nos prometia agora. Que se despeça da vida eterna, veio a dizer Simeão, o Novo Teológo, quem não a viva já aqui"

- Raimon Panikkar, Iconos del Misterio. La experiencia de Dios, Barcelona, Ediciones Península, 2001, 3ª edição, corrigida e aumentada, pp.44-45.

1 comentário:

MeTheOros disse...

Felizardo, esse Luiz Reys, que tem direito a dedicatória (e tudo!) em post, por estas paragens.
Só a mim ninguém me dedica nadinha.
Isso é, talvez, porque sou um tão grande nadíssimo.

P.S.
Esse Simeão Novo Teólogo, entretanto, não era parvo, não senhor. Era até o contrário de parvo, o que não é exactamente o que vulgo supomos: bobos e loucos (em Cristo, ou talvez nem tanto) são outra sorte de tolos.

E o tolo, o pobre tolo de Pascoaes, bem, esse é, diz ele:

"Um ser real e imaginário, um esqueleto e uma sombra; e entre a sombra e o esqueleto medeia um lugar neutro, que permite a coexistência da realidade, que é esqueleto, e da sombra, que é um sonho reduzido à sua última expressão transcendente e fabulosa".

Re-cito e recito aqui: a "realidade, que é esqueleto e a sombra que é..."!

Por isso, certamente, Pascoaes era tão magro, e nós nos supomos tão cheínhos: de tanto nada que, de tanto não eterno atafulhados, nisso em nós se "despede a vida [...] que não viv[emos] já aqui".

(Isto não foi nada comigo mas, ainda assim, daqui envio um forte abraço a Paulo Borges. Gostava de ter um Amigo assim!)