segunda-feira, 1 de novembro de 2010

"[...] e Mona Lisa lhe sorria de toda a eternidade para toda a eternidade e o salvava da vida e o salvava da morte"



"Durante cerca de três anos Leonardo esboçou, desenhou, coloriu, retocou o retrato de Mona Lisa, era preciso que nele se fixassem as horas de encanto magnífico e que o retrato fosse o retrato dos dois, o da mulher a que Leonardo revelara uma existência que lhe parecia para sempre recusada e a do artista que finalmente amara, com o amor mais puro, mais belo, mais feliz, o amor que se dá e não exige, o amor que é ainda uma criação de arte e apurando o amado, elevando-o acima de si mesmo, completa o criador, lhe dá a plena consciência da sua grandeza e, com ela, a coragem que se não dobrará ante nenhum obstáculo, a compreensão mais ampla de toda a nobreza, de toda a profundidade da vida, a plena aceitação de todo o sacrifício que for necessário fazer para que a vida se cumpra, se realize, se complete. Tudo quanto foi difícil serviu, todo o sofrimento lhe deu sensibilidade para este momento supremo, toda a solidão lhe afirmou o sentido de convivência, de humanidade, de simpatia sem o qual o amor de Mona Lisa teria sido impossível. Já nem podia distinguir entre a arte e a vida, entre a realidade e o sonho; o que pintava não ia ficando como que fora da sua alma, apreensível como espectáculo à maneira do que sucedera com a Ceia e as Madonas; o quadro era um momento da vida, penetrava-lhe no espírito, dava-lhe amplitude, finura, e uma radiosa exaltação que nunca sentira e que era a mais perfeita, a mais completa felicidade que poderia imaginar; quando Mona Lisa saía ficava a saudade da hora que tão breve passara e como que a impressão de que ela nunca mais poderia voltar: tão perfeita, tão completa, como era possível que de novo se reunissem todos os elementos que a tinham revestido de tão puro encanto? Mas ela tornava, sentava-se diante do pintor, cruzava as mãos no regaço ou sobre o bordo de um tamborete e bastava um movimento ligeiro de lábios, um volver de olhos, a silenciosa, tranquila beleza daquelas mãos cheias e finas, inteligentes e sensuais, para que já não houvesse a lembrança da hora que passara: o presente o tomava todo em si, o próprio tempo se libertava do quadro que o prendia e Mona Lisa lhe sorria de toda a eternidade para toda a eternidade e o salvava da vida e o salvava da morte"

- Agostinho da Silva, Vida de Leonardo da Vinci [sem data], in Biografias III, pp.211-212.

2 comentários:

Rodrigo Passos disse...

gostei daqui!

Kunzang Dorje disse...

"Já nem podia distinguir entre a arte e a vida, entre a realidade e o sonho; o que pintava não ia ficando como que fora da sua alma, apreensível como espectáculo à maneira do que sucedera com a Ceia e as Madonas" - dionisíaco! Parece um coro que nos aniquila e nos leva ao sagrado.