sábado, 21 de novembro de 2009

A princesa e o orfebre, de Rumi.


A Isabel Santiago, este conto fiado da memória.

Havia uma vez um rei que tinha uma formosa filha, luz dos seus olhos, esperança viva do seu coração, que subitamente caiu doente. Toda a corte sentiu um súbito obscurecimento, como se uma negra nuvem ocultasse o sol do gozo e o entendimento. O rei procurou os melhores médicos da corte e do reino mas sem resultados. O estado da princesa piorava, o seu pulso latejava irregular, o seu rosto perdia cor e a sua vida parecia fugir, inane e melancólica. Os doutores contemplavam impotentes o seu estado: poções, ervas e filtros pareciam acrescentar a doença da princesa.
Aquela noite o rei compreendeu que em todo esse tempo tinha confiado unicamente nos seus esforços e nos dos seus médicos, esquecendo-se de dizer: Insh'Allah!. Se Deus o quiser! Quando o homem esquece a fonte da generosidade volta-se estéril e impotente. O rei, ajoelhado, chorando como uma criança pediu perdão com toda a sinceridade do seu coração. Essa mesma noite recebeu um visitante num sonho quem lhe anunciu que no dia seguinte apareceria um médico na corte, venerável ancião de cabelos de neve. Devia recebê-lo e facilitar-lhe tudo o que pedisse.
E assim foi. O rei, inquieto, olhava desde o seu palácio os caminhos tentando distinguir um viajeiro insigne. E ali apareceu, tal e como tinha sido anunciado, o velho físico dos sonhos, dos sonhos... de um rei. Gentilmente foi recebido e, sem mais cerimónias, pediu que se lhe levasse perante a princesa. Houve uma hesitação pelo que parecia um exceso de precipitação e os cortesãos clamaram ao céu quando o médico pediu ficar só com a princesa. O rei aceitou a condição do ancião mas podia sentir os murmúrios de desaprovação que o rodeava. O velho médico sorria com gentileza e graça, e o seu vivo olhar parecia desterrar qualquer dúvida. Ele simplesmente olhou para os murmuradores e eles sentiram que tinham que calar-se. Quando unm homem é realmente um homem não precisa explicar-se muito.
A princesa estava inconsciente no seu leito. O médico, na sua solidão, podia distinguir a pesar da sua doença, a beleza das suas facções. O sábio começou a falar suavemente, com a sua grave voz, com uma cadência envolvente e serena. Os olhos da princesa abriram-se mas a sua lassidão não a abandonava. Um médico mais, pensou! Tomando o seu pulso o médico começou a lhe fazer diversas perguntas sobre a sua vida, a sua infância, as suas viagens. Subitamente quando menciounou a cidade de Samarcanda o médico notou como o coração da princesa se acelerava. Comprendeu, então, que tinha que seguir essa pista. Falou dos bairros da cidade, dos seu lugares, dos seus homens e mulheres até que desvelou o segredo. A princesa estava fortemente apaixonada de um orfebre de Samarcanda.
O sábio convenceu ao rei de que era absolutamente necessário que o orfebre fosse trazido à corte. Com dor de coração, mas confiado na recuperação da sua flha o rei enviou uma carta solicitando a presença do orfebre no seu palácio.
O orfebre, estimulado pela codícia, acudiu rapidamente abandonando a sua mulher e os seus filhos.
A princesa e o orfebre viveram uma paixão intensa. A princesa recuperou a saúde e o orfebre começou a mostrar a sua verdadeiras qualidades: tratava ao rei com arrogância, mostrava actitudes indolentes e era um déspota com os servidores. O rei era infeliz e chamou ao velho sábio:

- Que podemos fazer, ó velho amigo! Que desgraça assola ao meu reino?. Como posso entregar a minha filha a um meio homem, criado na baixeza e na insolência, na petulância vulgar? Não sou responsável da triste situação da minha filha? Ajuda-me, amigo.

- Tudo tem o seu tempo para alcançar a maturidade. É o momento da medicina, disse o sábio enigmaticamente.

A partir de então o sábio começou a introduzir na bebida do orfebre uns pós que começaram a ter uns estranhos efeitos. A cada dia que passava o orfebre perdia o seu cabelo, envelhecia e o seu carácter piorava, voltando-se colérico e obsessivo. A princesa começou a rejeitá-lo primeiro e a sentir nojo mais tarde. Finalmente o orfebre foi deixado às portas do palácio como um mendigo, pelos caminhos do mundo.
O ancião, pelo contrario, sofreu uma estranha transformação. Cada dia era mais novo, os seus cabelos recuperaram o negro azulado e os seus olhos profundos iluminavam de jovialidade e vida o interior dos seres. A princesa reparou nele e apaixonou-se “do velho”, mas desta vez sentindo o despertar do profundo amor que emanava do sábio como uma estranha força da natureza. O sábio desposou a princesa e o rei foi imensamente feliz até o resto dos seus dias.

E acaba Rumi:

O amor que é só pelo corpo não é amor, é uma vergonha
Se a história te parece cruel em algum ponto reflecte bem e pensa que os actos de Deus estão além da crítica humana.

3 comentários:

José António Lozano disse...

Trata-se do conto que inicia o Masnavi. Como não tenho aqui uma bela versão de um músico turco que também é sufi tive que contá-lo "fiado da memória". Grande abraço.

Isabel disse...

…neste dia, digo-te, José, fui reler a narrativa. Contar-ma outra vez, ser nela um pouco como o homem que na imagem se aproxima na barcarola, na canoa, para ouvir o que chega do bosque. José queria agradecer a forma como pões no diálogo não o teu discurso, mas o discurso mais longínquo, como se fosses um ser polifónico, aquela voz que passa escutando outras e as reverte em melodias para os mil e um dias de trabalhos e ofícios. Ouvir-te contar as narrativas não me liberta da morte, também o não quero e dela nada temo, mas torna-me imanente ao mundo. Porque como a princesa, temos as pulsações fracas que não nos impulsionam em certos dias em que a “accedia” nos toca se calhar por sermos apenas ocidentais. Uma narrativa é uma forma de sabedoria, muito mais valiosa do que todos os médicos que nos trazem a visão do objecto que podemos tomar para saciar a fome da vontade insatisfeita e incontrolável. A narrativa é uma sabedoria antiga que, precisamente, nos aproxima do imemorial, do que está como uma forma pairante da razão acima da visão. É uma balada que preenche os interstícios do espírito – e por meio do qual a nossa ligação com o que está fora do tempo e está há muito adormecido - se reanimam de um élan poderoso e numa visão súbita são confrontos com o claro e evidente que irrompe na alma. Não um objecto, o outro como objecto, mas o outro como presença de uma Ideia que nos liberta do corpo e do tempo. Nesta história, o sábio é a própria presença do Amor. Tocada pela sua aproximação e pelo afastamento em relação ao que era um afecto, a princesa torna-se amante. Amante se torna a princesa apenas e quando se apercebe que há no negro azulado do cabelo um “não sei quê” que a deslumbra ou a ateia do que não se diz e não se vê e, todavia, a comove e silencia para que não se perca o que é ténue e evanescente e breve, uma “alegria breve”, um toque que inverte o sentido natural das coisas e da sua decadência no tempo. Tocada pela vontade, a princesa não conheceu nenhuma espécie de amor, tão só a intensificação de um capricho. A vontade é caprichosa e obsessiva. Mas quando é escolhida e não escolhe, a princesa e sua vontade, vêem com outros olhos, que não os do corpo, os cabelos negros azulados a rejuvenescer. A cabeça boa do sábio não só a libertou como era em si mesma o sinal do mundo envolto em céu e, os seus pensamentos asas com que se libertou das pulsações e das pulsões egoístas com que nos fechamos num ego sem portas nem janelas. O amor desloca a preocupação e o pulsar vital para o outro, o que chega e é estranho, porque o Amor é uma estranheza que nos irrompe pelas portas e pelas janelas. Há meneares de cabeça que são como a asa do corvo de Peter Handke: trazem consigo a gota que tornam o momento, a história de um dia bem conseguido. Assim a narrativa, assim o imponderável som do teu contar imanente a estes dias, porque tu a elas te entregas e te deixas escolher para seres na sua aparição e és na minha voz canto e conto. Por isso me demorei um pouco mais a agradecer, andei perdida nas vozes e nas sombras com que me respondes. E, sabes por que razão assim me demorei?! Porque Deus assim o quis…

Um sorriso de plena gratidão. Desculpa se ao demorar te enfraqueci a oferenda que tão mal te retribuo…

José António Lozano disse...

As tuas palavras são sempre tão saborosas e belas que dificilmente dão lugar a um comentário aqui. Só me deixam tempo para a sua degostação. E dizer que não há demora quando o que se recebe é tão bom. Grande sorriso!