domingo, 1 de novembro de 2009

Do Incaracterístico ou do Triunfo da Morte



- Felix Nussbaum, Triumph des Todes [Triunfo da Morte], 1944.

"173. A paz perpétua e a segurança sem limites (do capital) impostas pela Grande Absurdidade, coexistem com a guerra de todos contra todos com que sonhava Hobbes. À competição incansável das mercadorias, responde a competição implacável do Incaracterístico, ávido de alcançar os melhores postos na hierarquia político-burocrática da corrupção.

174. Supermercados, hipermercados, megamercados, katamercados, acromercados, cobrem em proporções crescentes a extensão da terra. A tecnosfera destina-se a ser um mercado labiríntico que reveste o planeta: galerias imensas, velocidades tremendas, trocas frenéticas, multidões excitadas pela sedução do irrisório, operando o Labirinto à escala do universo - sem riscos (Minotauro), sem rumo (ariânico fio), sem vontade individual (Teseu), sem desejo (Ariana), sem engenho desafiador (Dédalo).

175. A teia das fontes de energia e do mercado incessante envolvendo a Terra; a teia de submissões articuldas do Incaracterístico; e a rede ambígua das leis que abriga nos seus interstícios o emaranhamento da corrupção, formam um plexo imenso enovelado, esfera da Absurdidade.

176. A sistemática e premeditada anulação da biosfera conduzida pelo Incaracterístico no decurso dos últimos decénios - deflorestação, chuvas ácidas, acumulação de subprodutos tóxicos, derrame de desfoliantes, caça e pesca em escala industrial nos oceanos e continentes - serve o projecto titânico da construção da Tanatosfera, essa camada planetária sem vida, onde se movem "robots" sobre extensões vazias e o Incaracterístico celebra a grande orgia de ruído e destruição, sendo senhor absoluto da terra e figura derradeira do cenário teatralizado da História"

- António Vieira, Ensaio sobre o Termo da História. Trezentos e cinquenta e três aforismos contra o Incaracterístico, Lisboa, Hiena Editora, 1994, pp.68-69.

4 comentários:

Donis de Frol Guilhade disse...

O Prof. António Bracinha Vieira, que conheço desde o seu excelente "Discurso da Ruptura da Noite", um livro notável ("esclarecedoramente" publicado em edição de autor, que li ali por 1978, e que muito vivamente então me impressionou, e até inquietou), é sem dúvida uma figura notável, quer pela sua dimensão científica e universitária, quer pela ambrangência dos seus interesses e também pela penetração e acutilância dos seus avisados pontos de vista.
Mais uma vez isso aqui se confirma.

Maria Sarmento disse...

É a grande "orgia" de toda a rede de asfixiante montra de sedução e de compra e venda de almas à grande rede de "mercado labiríntico" morrer-se nessa rendição ao Incaracterístico.

A sociedade doente a ruir sobre as suas torres de cimento e incaracterística mercadoria giratória...

Interessante a ideia de labirinto para todo o cenário do real. Labrinto do Incaracterístico...

Donis de Frol Guilhade disse...

Segundo me parece, a mais clara evidência dessa omnipresença labiríntica de "becos em forma de dédalo" é precisamente a de todo o universo que orbita o que hoje se entende por "mercados".

Os mercados já não são, como já foram, o simples aproveitar duma oportunidade verificada: a de num determinado local e em vista de alguma necessidade, alguém estar disposto (e ter os meios de fazê-lo) a satisfazer, com vantagem pecuniária para si e benefício de consumo dum produto ou serviço para os membros do mercado pré-detectado.

Ou seja, um treinado exercício de discernimento de oportunidades que responde às necessidades constatadas e as potencia, com vantagem para quem a capitaliza.

Desde o nascimento do marketing, entretanto - que se foi cada vez mais complementando com a criatividade e a produção publicitária - que não apenas se "constata mercados" mas também se os "cria", se os "inventa", na verdade, com base numa necessidade latente, que pode ser suscitada e, logo também, potenciada.

É nesta artificiosa criação, meramente consumista, de "necessidades" que me parece estar o nódulo de transição entre o labirinto das reais necessidades e o dédalo da criação das mesmas. E isto, sem qualquer outro objectivo que não seja o do puro criar de consumo.

É evidente que há todas as possíveis nuances neste jogo de "rugby" com tantas bolas quantos jogadores, mas precisamente isso é que faz toda a diferença: quem detém o poder e controlo desse poder, e do que possa com eles fazer, joga com uma bola muito mais sofisticada e fácil de jogar: como se puséssemos hoje a jogar, num mesmo campeonato, equipas a disputá-lo com as bolas ultraleves e supermacias de última geração, e outras equipas que jogassem apenas com as velhas e pesadonas bolas de cautchu.

O resultado seria obviamente diferente. Não seria o jogo em si que seria diferente, mas sim as condições para jogá-lo que o seriam.

E, assim como cada um dos tipos de bola exige uma diferente técnica de dominá-la e com ela jogar, também a taxa de sucesso no jogo seria abissalmente diferente num e noutro caso.

Porquê? Porque num caso temos o homem a adaptar-se às caracteristicas da bola e, no outro, uma bola concebida em vista das necessidades do jogador, independentemente da sua especificidade técnica individual.

Eis o marketing de produção levado às últimas consequências: aqui, no futebol, com base nas determinações técnicas impostas pela entidade reguladora; ali, no mercado de consumo, se bem que com uma aparente regulação de entidades arbitrais, o facto é que a voracidade das grandes empresas é tal que é capaz de "ficcionar" e dramatizar ilusões de "acordos" e "recomendações" de entidades que parecem o que não são: é este o caso de uns senhores de bata branca, que costumam aparcer em certos anúncios, que o consumidor "lê" e entende como técnico de recomendação e garantia de qualidade e satisfação (seja ele, aparentemente, um médico, um especialista em lavagens, investigação nutricional para alimentos para infância ou juventude.

A simples presença da bata e da forma de falar, mais um qualquer símbolo num canto do ecrã, que garantia alguma confere, bastam para que o consumidor assuma algo que não é de facto dito em lugar algum, e adira subconscientemente a um puro logro.

É esse o triunfo do "incaracterístico": nada caracteriza de facto, mas somos nós mesmos, consumidores, que somos induzidos a caracterizá-lo de determinada maneira.

Relativamente "tenebroso", não? Quase "hipnótico". Colectivamente falando...

Paulo Borges disse...

Eis uma análise muito justa do fenómeno. Creio que o marketing & publicidade é um dos aspectos da magia negra dos nossos dias, que extravasa dos mercados para abranger tudo: na política é demasiado óbvio.