quarta-feira, 28 de outubro de 2009

"Mas o que eu trago em mim é o anúncio do fim do mundo, ou mais longe, e decerto, o da sua recriação"

"Um homem novo recria-se-me na transparência do seu ser. Sinto-o leve e lúcido, instantâneo e incandescente, por entre as cinzas que o fogo deixou. Frente à noite que submergiu os homens e as coisas, frente à anulação da vida transaccionável e plausível, na recuperação deste início do mundo, o homem primordial que em mim sobe tem a face atónita de uma primeira interrogação.
[...]

A invenção de um novo mundo não é uma invenção de ninguém. Não está na nossa mão criá-lo; está só, quando muito, ajudar ao seu parto. E todavia - sabemo-lo bem - é em nós que ele se gera; mas tão longe donde estamos, que só já quando irrevogável o sabemos. Um mundo acontece na escolha indeterminável de nós. Assim pois, testemunhas apenas à superfície desse acto de criação, instrumentos que se ignoram para a grande obra invisível, anterior à obra visível, nós cumprimos sempre as ordens que ninguém deu e não as pudemos pois discutir. [...]

[...] Frente ao grande sono dos homens que o esqueceram, na atenção inexorável ao sem limite de mim, a minha vigília arde como um fogo assassino. É um fogo alto e poderoso. Lume breve na minha intimidade, na brevidade de um pequeno ser, eu, anónimo e avulso, ocasional e frágil - eu. E todavia, esse lume vibra de vigor, brilha único e intenso contra o assalto da noite. Trago em mim a força monstruosa de interrogar, mais força que a força de uma pergunta. Porque a pergunta é uma interrogação segunda ou acidental e a resposta a espera para que a vida continue. Mas o que eu trago em mim é o anúncio do fim do mundo, ou mais longe, e decerto, o da sua recriação"

- Vergílio Ferreira, Invocação ao Meu Corpo, Lisboa, Bertrand, 1994, 3ª edição, pp.13-15.

4 comentários:

João Read Beato disse...

Num estudo sobre a "Invocação ao Meu Corpo", Eduardo Lourenço afirma que esse ensaio se parece com um "programa de yogui" (sic). Julgo que esta afirmação deve ser considerada muito seriamente. A obra de Vergílio Ferreira também é uma aproximação ao Despertar, sem dúvida.

Paulo Borges disse...

Muito interessante, João. Concordo plenamente: é um programa de recentramento radical da atenção. Podes dar-me a referência desse estudo?

E para o Donis: também sinto o Vergílio como um Anjo do Real...

João Read Beato disse...

Aqui está:
Eduardo Lourenço, "O Canto do Signo", Lisboa, Editorial Presença, p.191.

Donis de Frol Guilhade disse...

Eu também o sinto, Paulo. Mas também o sinto relativamente a António Maria Lisboa, a Sophia e a Natália Correia: cada um à sua maneira, todos eles são faros e faróis da palavra e sua lavra - "arquísofos", videntes, esfinges e oráculos do silêncio.

Creio que importará, pois, aclararmos o que configure um "anjo do real": se com clareza o não fizermos, ver-nos-emos mais adiante na inevitabilidade de estratificar, hierarquizando tais figuras em anjos e arcanjos. O que, diga-se, também não é mau.
Ainda nos ficam a sobrar sete hierarquias angélicas para preencher. Aliás, quem sabe se não iremos chegar ao "infinitário angélico".

Esse sentido de "ascese" quase yóguica, referido pelo João é, para além de interessante, sem dúvida, algo omissa (salvo raras execpções), quer na nossa poesia recente quer na "novelística". O que a torna excessivamente marcada pelo tempo e pela passagem dele.
Basta fazermos um esforço e lembrarmo-nos de quantos poetas assim nos lembramos de que constantemente nos esquecemos.

Foram talvez eles os primeiros a terem-se esquecido de lembrar-se do que aqui falamos.