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sábado, 11 de junho de 2011

"Tenho por vezes o sentimento de não ser um verdadeiro ser humano"

"Tenho por vezes o sentimento de não ser um verdadeiro ser humano, mas uma ave ou um qualquer animal que houvesse tomado forma humana"

- Rosa Luxemburgo, "Cartas da Prisão".

segunda-feira, 4 de abril de 2011

A mitologia da superioridade humana



"As pessoas da tua cultura agarram-se com uma tenacidade fanática à ideia de que o homem é especial. Querem desesperadamente perceber um imenso abismo entre o homem e o resto da criação. Esta mitologia da superioridade humana justifica que façam o que muito bem entendam com o mundo, assim como a mitologia da superioridade ariana de Hitler justificou que fizesse ele o que muito bem entendeu com a Europa"

- Daniel Quinn, Ismael. Como o mundo veio a ser o que é, Porto, Via Óptima, 2001, p.118.

A superior possibilidade do homem pode ser a de estar ao serviço do bem dos outros seres, não a de se servir deles...

terça-feira, 15 de março de 2011

O fim de Deus, homem e natureza e um novo início para o pensar



Os grandes pensadores, que não se confundem com muitos dos filósofos a que nos habituou a história da filosofia, são os que pensam radicalmente, ou seja, tendo em conta o sentido do verbo pensar no português medieval e rural, são os que cuidam o solo úbere onde sem fundo se afundam as raízes do existir e aí as nutrem, salvaguardam e regeneram, assegurando o seu vínculo ao que é são, ou seja, pleno e integral. Enquanto outros se afadigam a percorrer os caminhos monótonos e sem surpresas do já pensado, repetindo-o, inventariando-o e/ou expressando-o num agir superficial, os grandes pensadores são os que, numa súbita visão, em poucas palavras condensada, subvertem o mundo quotidiano em que dormimos acordados (cf. Heraclito) e nos expatriam de tudo o que julgamos ser e saber, mostrando a inanidade da cultura a que julgamos pertencer, bem como dos conceitos e palavras com que operamos, quando confrontados com a sua génese abissal.

Assim acontece com Eudoro de Sousa, na sua obra de maturidade e sobretudo em algumas páginas de “… Sempre o mesmo acerca do mesmo”. Eudoro teoriza a singularidade da religião grega como a de se destinar ao ocultamento na mitologia e filosofia que origina, as quais só emergem na luz solar da história e da consciência pela imersão dessa sua matriz nas sombras nocturnas da pré-história e da inconsciência. Ocultando em si isso de que procedem, a poesia mitológica e a filosofia devoram-no ainda, nutrindo-se “do materno corpo de seu próprio ser”. A comum procedência da mitologia e da filosofia revela-se ainda na sua relação, pois a filosofia vai ser “sucessivamente” o que a mitologia é “simultaneamente”: uma teoria da natureza, do homem e de deus, “uma fisiologia, uma antropologia e uma teologia”. Neste sentido, a história da filosofia constitui-se negativamente. “O ser uma coisa só”, a inseparabilidade mítica do natural, do humano e do divino, ou do que como tal designamos na linguagem posterior à sua separação, é sucessivamente negado: “negando-lhe o que continha de humano e de divino, deu fundamento à Natureza; negando-lhe o que continha de natural e divino, deu fundamento ao Homem; negando-lhe o que continha de humano e natural, deu fundamento à teorização de um Deus, separado do Homem e da Natureza (… «fit dolenda secessio»!)”.

(início provisório de uma comunicação sobre Eudoro de Sousa para o Colóquio de 22 e 23 de Março: http://iflb.webnode.com//a22-03-11-coloquio-eudoro-de-sousa/)

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

O "homem mais perfeito" versus o "super-homem"?

"Para o auto-sentimento cristão, o homem mais perfeito é o que com mais verdade possa dizer 'eu sou eu'; para a ciência, o homem mais perfeito é o que com mais justiça possa dizer 'eu sou todos os outros' "
(Álvaro de Campos, Ultimatum)

Nem cá mais verdade.
Nem cá mais justiça.

Para mim, nem uma coisa nem outra. Nem isto:
"O Super-homem será, não o mais forte, mas o mais completo! 
O Super-homem será, não o mais duro, mas o mais complexo!
O Super-homem será, não o mais livre, mas o mais harmónico!" 
(ibidem)

Nem cá completo. 
Nem cá complexo.
Nem cá harmónico.

Homem!
Apenas homem!
Se homem (haja que daí sobre)...

sábado, 1 de janeiro de 2011

O homem e "o dever essencial de tentar igualar Deus"

"[…] do que caracteriza homem como homem: a luta de Jacob com o anjo, o dever essencial de tentar igualar Deus, quer o haja, quer o imaginemos, pondo até como inferior o de ser santo, sendo os santos de hoje, ou os artistas, ou os sábios, simples esboços ou larvas do que amanhã poderá ser o homem"

- Agostinho da Silva, Pensamento em Farmácia de Província, 1 [1977], in Textos e Ensaios Filosóficos II, p.353.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

As Bufónias, o sacrifício e a queda pelo alimento animal, segundo Agostinho da Silva

"É possível que a princípio o sacrifício simbolizasse a queda por um alimento animal, a expiação da morte da primeira rês; por qualquer circunstância, o homem, primitivamente frugívoro, teria sido obrigado a alimentar-se com a carne de animais, até aí sagrados para ele; abatera o primeiro e logo sentira todo o horror do seu crime: matara um companheiro, um amigo, e o seu primeiro movimento foi de fuga; depois, para que os deuses lhe perdoassem, fazia-os tomar parte no festim. O rito estranho das Bufónias, antiquíssimo, reproduzia com pormenorização a cena primitiva: havia a fuga do sacrificador, a acusação de todos os que tinham tomado parte na cerimónia; finalmente, a condenação dos instrumentos que tinham servido para cometer o crime"

- Agostinho da Silva, A Religião Grega [1930], in Estudos sobre Cultura Clássica, p. 165.

"O animal é o futuro do homem" - Dominique Lestel, um etólogo e filósofo que repensa o homem a partir da sua relação com o animal


Dominique Lestel, L'animal est l'avenir de l'homme
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"[...] a etologia e a psicologia comparadas, apesar das suas manifestas insuficiências, mostraram de forma indubitável que o animal é um sujeito complexo, frequentemente um indivíduo e por vezes uma pessoa. Em todos os casos, trata-se de um interlocutor e por vezes de um companheiro, o que já justifica plenamente a vontade de o proteger contra a violência dos humanos. Nesta perspectiva, é interessante constatar que o humano é a única espécie predadora em que certos indivíduos protegem as presas contra os seus congéneres. É também a única espécie, infelizmente, que se pode caracterizar como uma espécie predadora universal, susceptível de destruir tudo o que é vivo.

[...]

"Aqueles que se preocupam hoje com os animais [...] [são] indivíduos que constituem a vanguarda de uma nova cultura em gestação. Pois quem ataca os animais agride também o homem. [...]

Os humanos que se preocupam com os outros animais constituem um movimento de vanguarda chamado a crescer e a transformar a consciência da época"

- Dominique Lestel, L'animal est l'avenir de l'homme, Paris, Fayard, 2010, pp.8, 10 e 12.

http://fr.wikipedia.org/wiki/Dominique_Lestel

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Ideias e palavras que escorrem sangue

"Os animais não têm consciência de si mesmos e não são por conseguinte senão meios em vista de um fim. Esse fim é o homem. Por isso este não tem nenhum dever imediato para com eles"
- Emmanuel Kant, Leçons d'Éthique, Paris, Livre de Poche, 1997, p.391.

Eis a clara formulação do antropocentrismo e do especismo que regem a actual civilização e que convertem o homem no predador descontraído e autojustificado do mundo animal, reduzido a um imenso campo de concentração para seu usufruto. É esta ética (!?) e esta estupidez filosófica que predomina nos Códigos Civis, nomeadamente no português, onde os animais são reduzidos ao estatuto de coisas. É esta a mentalidade responsável pelo que se passa nos canis, nas praças de touros, nos matadouros, na indústria da carne, na experimentação animal, nos circos, na caça, na pesca, no uso das peles, etc., etc. É esta mentalidade que é preciso denunciar e extirpar pela raiz. Porque estas ideias e palavras escorrem sangue.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Que é o homem?

"Se, de chofre e à queima-roupa, me desfechassem a mais preocupante, a mais inquietante de todas as questões: "Que é o homem?", creio que responderia com desassombro e sem hesitação: "O homem é o animal que se recusa a aceitar o que gratuitamente lhe deram e gratuitamente lhe dão" .

- Eudoro de Sousa, Mitologia, in Mitologia. História e Mito, Lisboa, INCM, 2004, p.27.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

...o mais cruel de todos os animais

"[...] o homem é o mais cruel de todos os animais.
Nada no mundo lhe deu jamais tanto prazer como as tragédias, as corridas de touros e as crucificações; e no dia em que inventou o inferno, teve o seu paraíso na terra"

- Friedrich Nietzsche, Assim Falava Zaratustra.

sábado, 31 de outubro de 2009

"O homem venceu o mundo para tombar de joelhos perante as armas que outrora forjou"



- Alfred Kubin, Die Dame auf dem Pferd [A Senhora sobre o cavalo], 1900-1901.

"Pergunta - À fatalidade dos primeiros tempos substitui-se uma nova fatalidade?

Resposta - A obra do homem é a sua fatalidade, o homem venceu o mundo para tombar de joelhos perante as armas que outrora forjou. Admirai a sua cegueira e deplorai a sua constância. Ah, como ele é ingrato, ligeiro, pérfido e razoável! Obriga-se a servir, as suas penas e vigílias aliviam-no e quanto mais é infeliz mais se estima.

Pergunta - O Estado, obra do homem, não pende sobre o seu autor? Não suplicia o autor e não o obriga a uma servidão sem exemplo?

Resposta - O homem tem demasiada necessidade do Estado para que o Estado não abuse da sua vantagem e de instrumento não se erija em dominador. Sem o Estado, o homem cessa de ser um homem, o homem criado entre os animais deles em nada se distingue, mas o homem que o Estado deprava é mais atroz que as próprias feras, toca o fundo do horror e perguntamo-nos então se não será necessário conferir a preferência aos brutos"

- Albert Caraco, Huit Essais sur le Mal, Lausanne, L'Âge d'Homme, 1963, pp.25-26.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

"Mas o que eu trago em mim é o anúncio do fim do mundo, ou mais longe, e decerto, o da sua recriação"

"Um homem novo recria-se-me na transparência do seu ser. Sinto-o leve e lúcido, instantâneo e incandescente, por entre as cinzas que o fogo deixou. Frente à noite que submergiu os homens e as coisas, frente à anulação da vida transaccionável e plausível, na recuperação deste início do mundo, o homem primordial que em mim sobe tem a face atónita de uma primeira interrogação.
[...]

A invenção de um novo mundo não é uma invenção de ninguém. Não está na nossa mão criá-lo; está só, quando muito, ajudar ao seu parto. E todavia - sabemo-lo bem - é em nós que ele se gera; mas tão longe donde estamos, que só já quando irrevogável o sabemos. Um mundo acontece na escolha indeterminável de nós. Assim pois, testemunhas apenas à superfície desse acto de criação, instrumentos que se ignoram para a grande obra invisível, anterior à obra visível, nós cumprimos sempre as ordens que ninguém deu e não as pudemos pois discutir. [...]

[...] Frente ao grande sono dos homens que o esqueceram, na atenção inexorável ao sem limite de mim, a minha vigília arde como um fogo assassino. É um fogo alto e poderoso. Lume breve na minha intimidade, na brevidade de um pequeno ser, eu, anónimo e avulso, ocasional e frágil - eu. E todavia, esse lume vibra de vigor, brilha único e intenso contra o assalto da noite. Trago em mim a força monstruosa de interrogar, mais força que a força de uma pergunta. Porque a pergunta é uma interrogação segunda ou acidental e a resposta a espera para que a vida continue. Mas o que eu trago em mim é o anúncio do fim do mundo, ou mais longe, e decerto, o da sua recriação"

- Vergílio Ferreira, Invocação ao Meu Corpo, Lisboa, Bertrand, 1994, 3ª edição, pp.13-15.