sexta-feira, 23 de outubro de 2009

A interculturalidade

"A interculturalidade não é nem folclore para descansar nem turismo para entreter. De facto, o encontro de culturas remonta aos alvores da história. Tem porém as suas dificuldades, sobretudo quando uma cultura se crê superior a outra - como tantas vezes sucedeu e não só nos nossos dias. Cada cultura é uma galáxia com vida própria. É portanto metodologicamente inadequado, ainda que por vezes possa resultar uma violação fecunda, aproximarmo-nos a uma cultura com as categorias de outra. Comove e aterra darmo-nos conta da confiança enorme que o Ocidente ainda tem nos seus instrumentos. É a força do mito. Porém os acontecimentos do mundo, depois da Primeira e sobretudo da Segunda Guerra mundial (que ainda designamos assim), estão a fazer perder ao "Primeiro Mundo" a confiança nos seus mitos e preparam-no para aproximar-se a outras civilizações com modos distintos dos da "missão", da "colonização" e do "desenvolvimento", ainda que seja apenas uma minoria sem força política a que clama que os velhos modelos já não servem para o entendimento, a paz e nem sequer para o bem-estar pessoal. São muitos porém, ainda, os que imaginam, por exemplo, que os direitos humanos, tal como "nós" os formulámos, são universais; e agora, com a melhor intenção, os querem ampliar a uma "ética global", quiçá porque ainda cremos que o mundo é redondo - e nós o seu centro"

- Raimon Pannikar, La experiencia filosófica de la India, Madrid, Trotta, 2000 [1997], p.13.

7 comentários:

soantes disse...

Sabes, Paulo, às vezes essa fuga ao etnocentrismo leva os intelectuais do primeiro mundo a abandonarem às mãos dos carrascos os seus irmãos que, no terceiro mundo, procuram viver livremente e progredir em todos os níveis, enfim, desenvolver-se. Como dizia o Filimone Meigos, um poeta moçambicano amigo, isso é tudo muito giro mas se a rua não tivesse buracos eu não tinha partido a perna.
Acho que a partilha e a mistura, a crioulidade nos nossos termos, têm uma origem primeira, que é comum a todos nós e estabelece outra universalidade: a dos humanos que bebem de uma fonte que não conhecem mas reconhecem. Uma fonte sem definição não cria divisões. Exceto - quem sabe? - aquela de fala o Jankélévitch no excerto que o Luís trouxe para aqui.
Abraço, amigo.

Paulo Borges disse...

Caro Francisco, concordo bastante contigo, mas achas que esse abandono é o corolário da posição defendida por Pannikar? Achas que seria melhor que o Ocidente não desistisse, em certos aspectos, do projecto de "desenvolver" o mundo segundo os seus critérios? Pergunto para me esclarecer e poder ponderar melhor a questão.

Abraço amigo.

Donis de Frol Guilhade disse...

Se concordarmos com Terence Mckenna, e outros com ele, em que a cultura (a cultura e, obviamente, com tudo o que com ela está ligado e é através disso é também manipulável) é uma espécie de "sistema operativo" por que nos auto-processamos e, a um tempo, condicionamos e somos condicionados, a interculturalidade tem, creio, muito que se lhe diga, para falar simples.

Concordo em que somos todos "crioulos" e "mestiços", no sentido em que somos produtos, ao menos geneticamente (o que não é coisa de semenos), no cruzamento de duas linhas de estirpe, que são a base do tronco da árvore genealógica da nossa arkhé-logia.

Todos sem excepção somos fruto duma miscigenação imprevisível, quase improvável e, quiçá, caótica. Mas é precisamente este padrão de in-... que nos remete para essa "origem primeira, que é comum a todos nós e estabelece outra universalidade".
Essa universalidade é a nossa própria singularidade mais paradoxal.

É esse, quem sabe, o âmbito, o campo, do lugar de não-lugar, ... do "enTre" que aqui almejamos.

Maria Sarmento disse...

Nem é redondo o mundo nem o centro, ele mesmo, está fixo.

Neste sentido,a universalidade do humano ser,seus direitos e deveres, ainda se centram no paradigma de uma cultura centrada no ideário de quem tem supremacia sobre a outra, impedindo assim uma aproximação e um diálogo "supra-cultural" e transcultural, baseado no amplo paradigma da grande miscigenação de tudo (a começar por o em nós mesmos)

A interculturalidade deve ser vista com um olhar respeitoso em todos os sentidos do diálogo. Deve consubstanciar a semente, o novo mundo; o "nascimento" o "dar de novo" da história, numa dimensão "transcultural" e e "transmiscigenada": a flor de Caím renascida!?

Uma multiculturalidade assente na alma das culturas, na rareza e pureza das suas singularidades na consciência universalizante do fundo comum e incomum de Tudo.
Irmanadamente.

Donis de Frol Guilhade disse...

Concordo, cara Maria, em que prévio a um qualquer diálogo inter- ou trans-cultural, cabe e muito importa que haja começado o mais despido diálogo íntimo com/em nós mesmos e nós próprios.

Entre o mesmo que, perdurando, nos sentimos como de alma colada ao rio do tempo e o que nos seja próprio e nos dá o sentir do que se nos cola disso que é fugidio ao tempo, se faz essa dia-logia mono-logal em que somos espelho das coisas e nas coisas vemos o nosso reflexo, em relevo e irrelevo.

É, talvez, no íntimo transcurso inviático (ínvio e enviesado) disso que todo o outro - que sempre é um diverso cultivar de vida numa alma - pode surgir-nos como o que "vai" do reflexo que reflecte o que nada reflecte e o irreflexo que nos sempre sobre como o resto dos despojos de tal transcurso que ficou nas nossas mãos vazias, por tão cheias do pleno.

Algures por aí, um aceno de quem é vivo e é vida, haver-nos-á dado a alegria do reencontro entre Abel em nós, paradigma da "agria-Cultura" sedentária, fixista e convicta e a "pastori-Cultura" nómada e errante de Caim, invejosa afinal tão-só da pura ingenuidade de Abel, e sua vida mais "fácil".

O ponto é que arkhé-tipos e para-dygmas são o que são: fontes do humano acerto, tanto quanto do erro correlato.

E, porém, a verdadeira liberdade sabe que ambos são e não são isso. Nem certos nem errados. Apenas demasiado humanos, porque exactamente livres, como se nos quis O de que provimos: O sem provir. A que, Caim, vamos: reencontrar Abel.

soantes disse...

A conversa foi-se aproximando do essencial. Não, esse abandono não é corolário, necessariamente, da posição do Pannikar, mas a posição dele pode sancioná-lo. A liberdade, de raiz, não me parece relativa a uma cultura. E só a de raiz me interessa, a que sopra do Espírito e se faz gesto através de nós.
Aproveito para dar-te os parabéns, Paulo, por esta iniciativa, que até agora deu excelentes resultados, porque a gente lê as colocações, ou postagens, e fica a pensar...
Quando assim acontece há conteúdo válido, não é?

Paulo Borges disse...

Creio que sim, Francisco. Que fiquemos a pensar, no sentido mais profundo do verbo. Aquele pensar que se entranha e se faz ser.