Mostrar mensagens com a etiqueta Deus. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Deus. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

"O outro mundo mata"

"Não nos arriscamos também a uma mesma morte, se muito longe penetrarmos no outro mundo? Quem sai vivo de ter visto Deus face a face? - o ponto último, o mais profundo desta viagem. O outro mundo mata"
- Dalila Pereira da Costa, "Os Sonhos".

quinta-feira, 17 de março de 2011

"Aviso aos que não concebem que sob o Deus católico possa haver o nada dos budistas”

“Não sou inglês por falar inglês. Não passo a ser católico se uso a linguagem católica.
Aviso aos que não concebem que sob o Deus católico possa haver o nada dos budistas”

– Agostinho da Silva, Caderno Três sem Revisão [inédito].

terça-feira, 15 de março de 2011

O fim de Deus, homem e natureza e um novo início para o pensar



Os grandes pensadores, que não se confundem com muitos dos filósofos a que nos habituou a história da filosofia, são os que pensam radicalmente, ou seja, tendo em conta o sentido do verbo pensar no português medieval e rural, são os que cuidam o solo úbere onde sem fundo se afundam as raízes do existir e aí as nutrem, salvaguardam e regeneram, assegurando o seu vínculo ao que é são, ou seja, pleno e integral. Enquanto outros se afadigam a percorrer os caminhos monótonos e sem surpresas do já pensado, repetindo-o, inventariando-o e/ou expressando-o num agir superficial, os grandes pensadores são os que, numa súbita visão, em poucas palavras condensada, subvertem o mundo quotidiano em que dormimos acordados (cf. Heraclito) e nos expatriam de tudo o que julgamos ser e saber, mostrando a inanidade da cultura a que julgamos pertencer, bem como dos conceitos e palavras com que operamos, quando confrontados com a sua génese abissal.

Assim acontece com Eudoro de Sousa, na sua obra de maturidade e sobretudo em algumas páginas de “… Sempre o mesmo acerca do mesmo”. Eudoro teoriza a singularidade da religião grega como a de se destinar ao ocultamento na mitologia e filosofia que origina, as quais só emergem na luz solar da história e da consciência pela imersão dessa sua matriz nas sombras nocturnas da pré-história e da inconsciência. Ocultando em si isso de que procedem, a poesia mitológica e a filosofia devoram-no ainda, nutrindo-se “do materno corpo de seu próprio ser”. A comum procedência da mitologia e da filosofia revela-se ainda na sua relação, pois a filosofia vai ser “sucessivamente” o que a mitologia é “simultaneamente”: uma teoria da natureza, do homem e de deus, “uma fisiologia, uma antropologia e uma teologia”. Neste sentido, a história da filosofia constitui-se negativamente. “O ser uma coisa só”, a inseparabilidade mítica do natural, do humano e do divino, ou do que como tal designamos na linguagem posterior à sua separação, é sucessivamente negado: “negando-lhe o que continha de humano e de divino, deu fundamento à Natureza; negando-lhe o que continha de natural e divino, deu fundamento ao Homem; negando-lhe o que continha de humano e natural, deu fundamento à teorização de um Deus, separado do Homem e da Natureza (… «fit dolenda secessio»!)”.

(início provisório de uma comunicação sobre Eudoro de Sousa para o Colóquio de 22 e 23 de Março: http://iflb.webnode.com//a22-03-11-coloquio-eudoro-de-sousa/)

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Para ligar o espírito com a carne de forma a vencer a morte, o homem deve ligar-se com tudo o que é profundo em si, no seu centro absoluto que é Deus. - V. Soloviev

Vladimir Soloviev (1853-1900)
A união da humanidade não resultará se se der apenas numa dimensão social. A lei da morte divide a própria Igreja Universal em duas partes: uma, visível e terrena, outra, invisível e celestial. O reino da morte está inscrito; a separação do céu e da terra acontece devido ao desejo humano de dominar imediata e materialmente a terra, a existência tida como certa; o homem é sedento de testar e provar tudo sensorialmente. De forma superficial, ele junta o seu espírito celestial com as cinzas terrestres. Tal junção é efémera; tal ligação conduz o homem à morte. Para ligar o espírito com a carne de forma a vencer a morte, o homem deve ligar-se com tudo o que é profundo em si, no seu centro absoluto  que é Deus. O homem ecuménico liga-se ao amor divino que não apenas o eleva a Deus, mas também funde-o internamente com Deus, dando-lhe a oportunidade de abraçar Nele tudo o que há de eterno e indissolúvel. Este amor faz descer à terra a graça de Deus e canta vitória não apenas sobre mal ético, mas também sobre as consequências fisicas que provenientes dele - a doença e a morte. O efeito deste amor é a ressurreição derradeira. E a Igreja, ao transmitir este ensinamento no estudo da revelação, como última parte do seu Símbol, converte-o no seu mistério derradeiro. Deparando-nos com a doença e a face da morte, a Santa Unção é o símbolo e a fiança da nossa imortalidade e da ligação com Deus. O círculo dos Mistérios, o círculo da vida ecuménica completa-se com a ressurreição da carne, fecha-se com a união da humanidade com o todo, numa encarnação final com a Sabedoria Divina.

Vladimir Soloviev, in A Rússia e a Igreja Ecuménica
 http://www.vehi.net/soloviev/vselcerk/312.html

sábado, 1 de janeiro de 2011

O homem e "o dever essencial de tentar igualar Deus"

"[…] do que caracteriza homem como homem: a luta de Jacob com o anjo, o dever essencial de tentar igualar Deus, quer o haja, quer o imaginemos, pondo até como inferior o de ser santo, sendo os santos de hoje, ou os artistas, ou os sábios, simples esboços ou larvas do que amanhã poderá ser o homem"

- Agostinho da Silva, Pensamento em Farmácia de Província, 1 [1977], in Textos e Ensaios Filosóficos II, p.353.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

"(...) com Ele, pelo menos, temos a certeza de poder romper indefinidamente..."

Quando, por desejo de solidão, rompemos os laços que tínhamos, o Vazio apodera-se de nós: mais nada, mais ninguém... Quem nos resta para liquidar? Onde desencantar uma vítima duradoura? - Uma tal perplexidade aproxima-nos de Deus: com Ele, pelo menos, temos a certeza de poder romper indefinidamente...

E. M. Cioran, Silogismos da Amargura, 2009, Letra Livre, Lisboa, p.83

domingo, 26 de setembro de 2010

"Já estamos no Reino: a eternidade é agora."

André Comte-Sponville

Comte-Sponville faz o elenco das razões que o levam a não crer em Deus, sendo uma das principais a existência do mal: como é que Deus é compatível com tanta maldade e sofrimento no mundo? Mas afirma-se espiritual - prefere a expressão espiritualidade a religiosidade, porque a religião está vinculada em princípio a religiões institucionalizadas -, no quadro de um certo tipo de experiência mística, feito de evidência, de plenitude, silêncio, experiência oceânica, simplicidade, eternidade... Quando falta Deus, há "a plenitude do que é, que não é um Deus, nem um sujeito". Há o Todo, pouco importando os nomes: o ilimitado (Anaximandro), o devir (Heraclito), o ser (Parménides), o Tao (Lao-tsé), a natureza (Lucrécio, Espinosa), o mundo ("o conjunto de tudo o que acontece": Wittgenstein), o real "sem sujeito nem fim" (Althusser), o presente ou o silêncio (Krishnamurti) - "o absoluto em acto e sem pessoa".

Quando não há Deus que nos salva, que é a espiritualidade? "É a nossa relação finita com o infinito ou a imensidade, a nossa experiência temporal da eternidade, o nosso acesso relativo ao absoluto". O que faz viver não é a esperança, mas o amor; o que liberta não é a fé, mas a verdade. "Já estamos no Reino: a eternidade é agora".

Anselmo Borges, Religião e Diálogo Inter-religioso, 2010, Imprensa da Universidade de Coimbra, pp.54-55

domingo, 29 de agosto de 2010

"Assim como não se vê a luz senão em tempo de obscuridade, não se “vê” Deus senão em tempo de confusão mental e de idolatria”

“A palavra “Deus” vem do latino dies que quer dizer “dia”. Quando digo “Deus”, falo do dia, do dia luminoso, digo que o fundo do ser é luz, “clara luz”, encarecerão os budistas.
A luz é o que não se vê e o que nos permite ver. Quanto mais a luz é pura, quanto mais ela é transparente, menos se a vê. Assim como não se vê a luz senão em tempo de obscuridade, não se “vê” Deus senão em tempo de confusão mental e de idolatria”

- Jean-Yves Leloup, “Notre Père”, , Paris, Albin Michel, 2007, p.20.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Jean-Yves Leloup - Deus: É quem? É o quê?



A Revista ENTRE publicará um inédito enviado por Jean-Yves Leloup, sobre Melchisedech e os seus quatro filhos: judaísmo, islamismo, cristianismo e ateísmo.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Deus, em Antero de Quental (1842-1890)

Há um Deus misterioso que só parcelarmente se revela a quem o quer estudar:
Sócrates - Dentro do homem está um Deus desconhecido
Cristo - Dentro do homem está o Reino dos Céus
Lutero - Dentro do homem está Deus. O Homem é um Deus que se ignora.
Robespierre - Revelação de Deus através de valores humanistas.
Hegel - Revelação de Deus através da ideia.
Moisés, Maomé, Cristo - Profetas que revelam Deus, mas todos revelam apenas um aspecto parcelar do Absoluto

O homem, ele próprio, está mais perto do divino do que as formas através das quais O representa. Em vez de procurar Deus nos céus, o homem deve procurá-lo no seu interior.

A Existência humana é privilegiada porque é nela que mais se manifesta a essência divina.
A Saudade é uma aspiração a uma relação mais plena com o deus desconhecido que cada um trás em si.

No fundo da consciência está aquilo que procuramos fora. Dormitando, em movimento mudo, mas murmurando sempre. Jeová, Brama, Sabaoth, Alá, Cristo. O homem não deseja mais do que aquilo que já há em si.

A santificação é a plena realização do indivíduo. É um Deus que se revela permanentemente, como se fosse um progresso constante, sem que nunca mais esse progresso acabe. O homem como o descobridor dos mundos encobertos do espírito.

As revoluções, os cultos, os mitos, tudo são apenas manifestações do princípio interior essencial. Civilizações e Impérios se fazem para sermos Homem um pouco mais.

in, Antero de Quental, Filosofia, Univ. dos Açores: Editorial Comunicação.
cf. Paulo Borges, Filosofia em Portugal I, apontamentos.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009