quinta-feira, 24 de novembro de 2011

GREVE GERAL

Precisamente há um ano escrevi e publiquei este texto, na véspera da última Greve Geral. Reli-o agora e, infelizmente, não vejo motivos para alterar uma vírgula. Publico-o pois de novo. Que despertemos e que cada um se assuma como a solução para a crise.

Abraços

GREVE GERAL

24 de Novembro é dia de Greve Geral. Sim, façamos Greve Geral. Paralisemos todas as nossas actividades, como protesto contra um país mal organizado, mal governado, eticamente decadente e social e economicamente injusto, cada vez mais vergado à grande finança internacional, à ganância dos especuladores e ao consequente desprezo pelas necessidades básicas da população. Paremos totalmente, como protesto contra um país refém dos grandes grupos e potências económico-financeiras em todas as áreas, do trabalho à saúde, educação e política.

Façamos pois Greve Geral, em protesto contra todos os governos e oposições que, não só agora, mas desde a fundação de Portugal, contribuíram para o estado em que estamos. Todavia, façamos Greve Geral sobretudo em protesto contra nós próprios, que maioritariamente votamos sempre nos mesmos ou nos abstemos de votar e, principalmente, de criar alternativas à classe política e aos partidos em que desde há muito não acreditamos. Façamos Greve Geral, sim, mas também à nossa passividade e conformismo cívicos, à nossa preguiça e indolência, à nossa tremenda indiferença. Façamos Greve Geral ao nosso hábito inveterado de criticar tudo e todos e nada fazer, ficando sempre à espera que alguém faça, que os outros resolvam, que D. Sebastião apareça. Façamos Greve Geral à ideia de que basta fazer um dia de Greve Geral exterior, em prol de mudanças sociais, económicas e políticas, deixando tudo igual nos outros dias e dentro de cada um de nós. Sim, façamos definitivamente Greve Geral à demissão de sermos desde já, sempre e cada vez mais a diferença que queremos ver no mundo, em todas as frentes, sem exclusão de nenhuma: espiritual, cultural, ética, social, económica e política.

Façamos pois Greve Geral à nossa cumplicidade com o rumo de uma civilização que caminha aceleradamente para a sua perda, à nossa colaboração com a ganância e futilidade da hiperprodução e do hiperconsumo que violam a natureza e instrumentalizam e escravizam os seres vivos, homens e animais, em nome de um progresso e de um bem-estar que é sempre apenas o de uma pequena minoria de senhores do mundo. Façamos Greve Geral à intoxicação quotidiana de uma comunicação social que só deixa passar a versão da realidade que interessa aos vários poderes e contrapoderes. Façamos Greve Geral à imbecilização colectiva de muitos programas de televisão e seus outros avatares informáticos, que nos deixam pregados no sofá e nos ecrãs quando há crianças a morrer de fome, mulheres apedrejadas até à morte, velhos abandonados, defensores dos direitos humanos torturados e a apodrecer nas prisões, trabalhadores explorados, povos vítimas de agressão militar e genocídio, animais produzidos em série para os nossos pratos e a agonizar nos canis, matadouros, laboratórios e arenas, a natureza e o planeta a serem devastados… Façamos Greve Geral a todas as nossas ilusões e distracções, a todo o fazer de conta, a toda a conversa fútil no café, telemóvel, blogues e facebook, a todo o voltar a cara para o lado ante a realidade profunda das coisas e toda a nossa hipócrita cumplicidade com o que mais criticamos e condenamos.

Sim, e sobretudo façamos Greve Geral à raiz de tudo isso, a todos os nossos pensamentos, emoções, palavras e acções iludidos, inúteis e nocivos a nós e a todos. Greve Geral a todos os juízos e opiniões que visam sempre autopromover-nos em detrimento dos outros. Greve Geral a colocarmo-nos sempre em primeiro lugar, a nós e aos “nossos”, familiares, amigos, membros da mesma nação, clube, partido, religião ou espécie, em detrimento dos “outros”, sempre a menorizar, desprezar, combater, dominar ou abater. Pois façamos Greve Geral, total e radical, não só um dia, mas para sempre, a toda a ignorância dualista, apego e aversão e à sua combinação em todo o egocentrismo, possessividade, orgulho, inveja e ciúme, avareza e avidez, ódio e cólera, preguiça e torpor. Paremos para sempre de produzir e consumir isto, cessemos de poluir mental e emocionalmente o planeta e deixemos espaço para que em nós floresça e frutifique a sabedoria, o amor, a compaixão imparciais e incondicionais, a paz e a alegria profundas e duradouras.

Façamos Greve Geral, agora e para sempre! E deixemo-nos contaminar pela Revolução doce e silenciosa de uma mente desperta e sensível ao Bem de todos os seres sencientes, que nada pense, diga e faça que não o vise, a cada instante, seja em que esfera for, também na economia e na política. Desta Greve Geral saem um Homem e um Mundo Novos.

Paulo Borges
23.11.2010 / 23.11.2011

2 comentários:

F.W. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Isabel Metello disse...

Paulo, gostei muito do texto, pois do que depreendi faz pontaria /salvo seja!:) à estrutura profunda :) a ausência endémica da responsabilização individual e colectiva pelo que se diz, pelo que se faz, pelo que se corrobora pela passividade cobarde que nada tem de pacifismo, actualizada, quotidianamente, por um predominante egoísmo bestial (de besta:), por uma ausência nefasta de qualquer tipo de espiritualidade (a lógica das indulgências e do culto das aparências, da projecção para o exterior contraria-a na base :) ou de empatia com o Outro...Ainda que pareça paradoxal, apenas numa visão superficial, sou contra esta greve por isso mesmo, pois creio que faz parte de manobras circenses para desresponsabilizar as verdadeiras aves de rapina que deram cabo deste país, enriquecendo à custa de reticularidades e de uma mentalidade dominante plutocrata, que assenta numa estrutural de profundo apego à matéria, catalisada pelo paradigma objectivante da sociedade de consumo, que fez muita gente pensar que a felicidade estaria no exterior, quando a ansiedade consumista conduz a tudo menos à paz de espírito. Ora, as aves de rapina já alcançaram aquilo que o seu ego despótico almejava para poderem viver o resto dos seus dias como marajás, ainda que tenham deixado o país no estado em que está e como a memória é sempre curta quem lá está agora e que tem de recompor a despensa parca e o livro dos créditos débitos é que está a ser o bode expiatório e respiratório da marabunta que se nutriu, durante décadas, do que era de todos. Falta de civilidade, de espiritualidade, que implicam Coragem é do que se trata!