domingo, 6 de março de 2011

“A mais alta iniciação acaba pela pergunta encarnada de se há qualquer coisa que exista"

“A mais alta iniciação acaba pela pergunta encarnada de se há qualquer coisa que exista. […] Às vezes eu mesmo, que devera ser um alto iniciado, pergunto ao que em mim é de além de Deus se estes deuses todos e todos estes astros não serão mais que sonos de si mesmos, grandes esquecimentos do abismo”

– Fernando Pessoa, A Hora do Diabo, edição de Teresa Rita Lopes, Lisboa, Assírio & Alvim, 1997, p.26.

2 comentários:

MeTheOros disse...

Ocorre-me aqui - um pouco a este propósito - um fragmento do espólio de Pessoa, que reza assim (mantenho a ortografia original):

"Quanto mais contemplo o spectáculo do mundo, e o fluxo e refluxo da mutação das cousas, mais profundamente me compenetro da ficção ingénita de tudo, do prestígio falso da pompa de todas as realidades. E nesta contemplação, que a todos que reflectem uma e outra vez terá succedido, a marcha multicolor dos costumes e das modas , o caminho complexo dos progressos e das civlizações (sic), a confusão grandiosa dos impérios e das culturas – tudo isso me aparece como um mytho e uma ficção, sonhado entre sombras [desmoronamentos] e esquecimentos. Mas não sei se a definição suprema de todos esses propósitos mortos, até quando conseguidos, deva estar na abdicação extática do Buddha, que, comprehendendo a vacuidade das coisas, se ergueu do seu êxtase dizendo 'Já sei tudo', ou na indiferença demasiado experiente do imperador Severo: 'omnia fui, nihil expedit – fui tudo, nada val a pena'".

Cabe sempre, no limite, perguntarmo-nos (entre outras coisas): cultura entre culturas - para quê?

Na resposta que cada um de nós dê a esta questão, está metade da resposta: precisamente a metade que não sabemos (imaginando saber).

Paulo Borges disse...

Sim, caro Metheoros, também muitas vezes, na verdade quase sempre, me interrogo, em tudo o que faço: Para quê? Mas logo estendo isso ao próprio interrogar: Para quê pensar "Para quê?"

Um abraço sem quem nem quê, porquê nem para quê