domingo, 23 de janeiro de 2011

"Ninguém tem necessidade de ir para qualquer outro lado. Todos nós já lá estamos; só falta sabermos que de facto assim é"



"Ninguém tem necessidade de ir para qualquer outro lado. Todos nós já lá estamos; só falta sabermos que de facto assim é. Se eu soubesse realmente quem sou, deixaria de proceder como a pessoa que julgo ser e, se eu deixasse de proceder como a pessoa que suponho ser, saberia quem sou. O que de facto sou - isto se o maniqueu que eu julgo ser me deixar descobrir o que realmente sou - a reconciliação do sim e do não, subsistindo em aceitação total e na abençoada experiêencia do Não-Dois. Em matéria de religião, todas as palavras são obscenas. Toda a criatura que discorre eloquentemente acerca de Buda, de Deus ou de Cristo, merecia que lhe desinfectassem a boca com fenol.

Em virtude da sua aspiração a perpetuar unicamente o sim em todos os pares de coisas antagónicas, o maniqueu que julgo ser não poderá jamais realizar-se na natureza das coisas; condena-se a si próprio a uma frustração incessantemente repetida; a conflitos incessantemente repetidos com outros maniqueus igualmente ambiciosos e frustrados.

Conflitos e frustrações - eis o tema de toda a história e de quase todas as biografias. "Mostrar-te-ei a tristeza" - eis uma frase realista do Buda. Mas ele mostrou igualmente o termo dessa tristeza - o autoconhecimento de cada um, a abençoada experiência do Não-Dois"

- Aldous Huxley, A Ilha, Lisboa, Livros do Brasil, 1999, pp.48-49.

1 comentário:

MeTheOros disse...

Destaco, deste excelente post:

"Em matéria de religião, todas as palavras são obscenas. Toda a criatura que discorre eloquentemente acerca de Buda, de Deus ou de Cristo, merecia que lhe desinfectassem a boca com fenol."

Talvez não seja preciso a desinfecção, posto que estas palavras são igualmente válidas em relação ao que quer que se diga.

A linguagem é, de facto, uma explosiva implosão. Detona-se-nos na própria boca. E antes mesmo sequer de eclodir.

Assim, talvez a desinfecção devesse ser antes uma desinfestação.

Cada palavra que se diz é, a um tempo, um crime contra o silêncio e um intolerável exercício da veleidade e ousadia de significar. E é, nesse sentido, uma pura impossibilidade.

A linguagem é, com efeito, um esforço meramente aproximativo.

Pois o silêncio, não sendo embora o seu contrário, também não lhe é o reverso.

É porventura o imponderável entre... Um alhures-algures-nenhures, portanto.

P.S.
Estou seriamente a pensar em votar-me ao silêncio.
Vou perguntar se aceitam este tipo de voto, hoje.
Mas são bem capazes de mandar-me mas é calar, ou então algemar-me a boca com um sorriso vagamente complacente.

De todo o modo, seria estrondoso!!