sábado, 1 de maio de 2010

A Leitora, dançarina do Caos


Corot, As Bailarinas

A luz da clareira embriagou as dançarinas da memória, os antepassados de todas as épocas, as cantoras de todos os sonhos ocuparam as orlas da clareira e balançaram as palavras dos textos perdidos no incêndio de Alexandria, os textos flamejavam nas labaredas das saias tocadas pelo desejo de ler, de escutar as vozes e de se tornarem leitoras cantoras. Rodopiavam nos círculos do tempo em torno do corpo, nos anéis das folhagens, na vertigem da luz por entre as ramagens. As dançarinas estendiam ao alto os braços do tempo e tornaram-no rumor que chama os anjos da escrita transparente, a escrita das lágrimas e dos suspiros. Nessa evocação esfuziante, nessa declamação implorante, nessa desmesura do corpo que chama a escrita e as vozes que vêm do autor, que chora no mar das suas lágrimas de impotência, a leitora afastava-se para o âmago do bosque perseguindo a gota de cristal que a asa do corvo preto tem para ela ver o refrão que do mar traz o símbolo sagrado do Amor. A gota de água, a lágrima do rio do tempo, a porção imemorial do dilúvio que salvou os que souberam preservar o mundo e as paisagens do ruído. A gota de água da asa do corvo _ que é um falante da língua silente dos puros e dos inocentes, dos que ouviram, depois de Babel, a disputa dos pássaros com Deus sobre a importância de ficarem apenas detentores do significante _ é a gota da voz que é foz. A cantora leitora queria, como Gilgamesh, a rosa, a gota silente do corvo que sabe a direcção da morada para Deus e para o Amor, e os chama sem linguagem e sem nome, a leitora queria interpelar, com poucos nomes como o corvo, e transparecer como a gota que transcorre na sua pele a beleza que as palavras e outros signos omitem do mundo e dos mortos.
A leitora queria libertar do mutismo a beleza da vida que não se esgota nem na diversidade, nem nas cores, nem nas formas visíveis e invisíveis de tudo o que aparece e se manifesta. A leitora lia a exuberância múltipla do bosque e percebia que só cantando e repetindo, redobrando a voz, num mesmo e ou noutro som, soltava o que dentro dela, o que em cada ser mudo ou falante silente está fechado na percepção, na emoção, no conceito e na ideia. A cantora leitora entusiasticamente tecia, um pano com os fios dourados das línguas incompreendidas pelos falantes do significado e, suavemente, puxava com o fio da voz, o fio da vida ténue do poema e desfazia a teia que o prendia a um tempo, a um contexto, a uma interpretação que não interpelava. Puxando o fio, como Penélope, afastava do corpo do texto, a que estava enlaçada pela voz e pelo contacto, os falsos pretendentes da sua compreensão. O poema rebrilhava com a forma que podia vestir o seu corpo solitário, a caminho das fontes. A voz, como a gota de água, modulava no poema a forma perdida e desligada das possibilidades infinitas e imprevisíveis que a sua natureza, como a Natureza, prometem aos que emprestam à sua leitura o corpo e os seus órgãos. Tocados pela beleza transformam-se em instrumentos musicais, de uma orquestra imemorial que desperta outros para a constituição do coro dos que trocam o discurso pela ópera alucinante da visão e tornam o poema o refrão da sinfonia da vida.
Cantando e lendo os poemas que sabia de cor, vestindo as vestes de fios dourados, soltos da beleza antiga do que foi escrito a ouro na alma da cultura e dos povos, a leitora caminhava no bosque num indireccionado percurso de perdição, de amor e de espera. As vozes percutiam nela a loucura de um excesso que não podia mostrar nos espaços profanos, que não permitem que o nó invisível do Homem abra a dobra de todas as possibilidades do corpo e da voz, no poema. Remetido para o não-lugar, o poema reconquistava a sua sacralidade perdida desde os rapsodos e desde Homero, o da palavra eterna, como diz o seu nome. Assim, no canto, os cantores leitores são aqueles que tornam a voz o anel que se compromete entregar o silêncio do esquecimento ao logos último que Adão não conseguiu nomear. Expulso para fora do tempo, numa memória de futuro, inscrito numa matéria dúctil que é a do corpo desejante, o poema amado aproxima-se, pela voz da cantora leitora, do divino e a ele o consagra e o entrega como sua única morada.
A voz que canta o poema antigo pinta de forma indelével uma sagração da primavera nas clareiras abertas pelos olhos videntes da leitora, peregrina nos altares do bosque. O bosque é o museu de vozes desaparecidas das Línguas. Tomada por esta consciência, a leitora dispersava e distendia, em aItálicolturas improváveis aos que não desejam nem deliram, a voz e o canto pranto, atrás do corvo, essa ave que conhece nos mitos e nos contos a palavra audível de Deus. Na perseguição do amor e da dor, a voz interior da leitora pensa a imortalidade da alma como um estado rítmico sem fim, como uma voz modulada por um som que se estende e alastra a todas as coisas que fora dela sejam tocadas pelo tom e pelo som, pelo dom de pensar. Pensar é cantar e amar é a condição daquele que une a si o universo a partir do nome do amado, do botão do poema, numa reunião total de cada coisa a partir de um centro que se expande, a partir do que o botão prende para reunir e congregar em torno de um ponto invisível e discreto. O corpo do que ama, o corpo do que canta é, como o botão da rosa de Silesius, conforme à luz e ao canto dos anjos da escrita de água, a pétala que se oferece à reescrita do que ficou esquecido e é eterno. O corpo da cantora leitora inclinava-se, curvava-se para um centro, o botão do poema, a página como corpo nu, para reunir pela leitura,Itálico dirigida pela luz e pela melodia, a diversidade de géneros, de formas, de temas e de matérias, do texto para a matriz única das Línguas. Lendo como quem contempla a rosa, a cantora leitora transformava o mundo do texto numa clareira de aproximações espirituais a que se juntavam outras vozes vindas de outros corpos e que a voz amadora reúne e aproxima de modo afim ao modo sexual com que dois corpos desnudados e tangentes se fundem e fundindo-se têm o dom de multiplicar.
O texto, o poema cantado, tem, na voz que escuta a foz, o dom de celebrar no indivíduo o universo e de o celebrar no altar do olhar que, admirando e desejando, funde os que vagueiam nas margens sombrias dos caminhos irretornáveis do esquecimento. Assim, a leitora sabia que entre o esquecimento e o canto, o corpo que ama, conseguia exaltar-se e dançar. A leitora é um ser bailante, uma poderosa bailarina do caos, da desordem e da multiplicidade em que o esquecimento pulveriza os textos, os poemas que o tempo e a ignorância obliteram. As bacantes teriam sido leitoras dessa multiplicidade que o raciocínio dominado por regras reduziu a uma unidade sem reunião e sem amor. Um conceito é um corpo sem movimento e amusical, atonal. A cantora leitora não raciocina. Exprime como uma leitora trágica da vida. A cantora leitora é uma bailarina que deseja encontrar o corvo que tem guardado na asa a gota translúcida onde está espelhada a reunião de tudo com tudo num silêncio misericordioso. Dançar com a música da natureza é o acto último que o corpo da bailarina leitora deseja. Esse corpo que ela toca, com a voz e com o olhar, é uma página que o canto despe como se desnudasse um outro corpo do amor e com quem faz unidade ou se unifica. Esse bailar desejante, com e sem corpo, na orla do bosque ou no seu centro, é um acontecimento que a voz exalta, porque a voz é o único poder que permite, àquele que vibra com o amor, fazer renascer os dons do intangível, do invisível e do inaudível A leitora bailarina, a leitora cantora, quando lê, não procura possuir, ela sente que a sua voz, o seu suspiro, desfazem o feitiço da incomunicabilidade dos corpos, da opacidade e do silencioso. A leitora ensaia o passo duplo, ela caminha com um pé no chão e tem o olhar voltado para o céu, por onde se orienta como uma malabarista de Chagall, a leitora vive em estado de desequilíbrio como um anjo da escrita que tem que escrever na asa o que pode esvoaçar para os limites ilimitados do esquecimento. O anjo da escrita usa o seu torso inconsistente para inscrever o impermanente que o tempo torna fugaz, a cantora leitora tem que chamar com a voz o que porque perder-se entre as múltiplas árvores de linguagens e línguas com que Babel arborizou a paisagem que esconde os que na sua nudez são os mais desejáveis para as almas compassivas. A cantante leitora é a leitora andante que atravessa o bosque para reencontrar os seres que nele se escondem por não poderem mostrar-se como são e terem perdido o ritmo e a cadência musicais da vida, a letra do poema da ópera de retorno ao paraíso.
Mas nisso a cantora bailante não é diferente de uma certa espécie de filósofo que existiu e que Benjamin fez renascer na sua escrita voltada para a infância do homem que nele pensou. Esse filósofo foi apenas leitor dos que se tornaram ignotos, esquecidos no silêncio e na crítica, porque esses que se escondem tremem porque foram tocados por uma voz que os deixou nus quando o canto da vida e do amor os percorreu e os deixou, de novo, à porta distante do paraíso. Ele há cantoras leitoras que se perdem nos bosques à procura de um Adão que vagueia fechado no silêncio de não ser compreendido por nenhuma língua, por nenhuma mulher, por nenhum símbolo e nu se despir em frente ao mar porque tem medo de amar. É a esse que a cantora leitora beija quando os seus lábios lêem os poemas que Celan largou numa garrafa nas ondas do mar. Porque só o poema abre o caminho para o Paraíso da linguagem que é o jardim das delícias e do amor. Afinal, não foi o desejo de amar que irritou Deus, foi o desejo de falar do que não se podia que nos fez ficar silenciosos perante o amado e o que está tão nu. Devido a essa traição, o nome do amor e do amado ficaram para sempre indizíveis mas não esquecidos. No canto perdido dos bosques, a cantora restitui ao mundo essa tarefa primitiva com que em Lascaux, o artista das grutas escavadas no útero da terra repetia, ler é ser perseguido por aquele que perseguimos sem fim. O autor é alguém que se ama mesmo quando o seu rosto já perdeu, nas paredes em que o inscrevemos, o seu traço identitativo. Ainda assim, a leitora canta-o, porque ela não precisa de vê-lo, precisa de escutá-lo. É a sua voz que ela persegue quando empresta a sua voz ao seu texto, o seu corpo à sua reescrita, porque somente quando copiado, o texto domina a alma do que sobre ela se debruça, (…) porque o leitor obedece ao movimento do seu eu, nos livres espaços aéreos da sua fantasia, enquanto o copista permite que eles sejam comandados. Por isso o copista chinês era o incomparável garante da cultura literária e a cópia de textos uma chave para os enigmas chineses. (in, Benjamin, Rua de Sentido Único, Mercadoria Chinesa) A cantora leitora dança porque inscreve uma voz que ama no seu corpo e o seu corpo é comandado por essa voz e com ela o seu corpo multipla os sentidos da vida única e floresce numa clareira chamada Alma. Dançar ao som do escrito é a chave para o enigma da sua revelação. O texto é um altar onde a leitura é acompanhada da dança do malabarista de Chagall, porque é preciso ter um pé em cada mundo, no da Terra e no do Céu. Porque um texto está escrito numa linguagem humana mas num papel que caiu da árvore do paraíso. Só quem toca esse papel é que desnuda o poema do sentido e o faz brilhar na nudez do seu Dizer. As modulações da voz são, afinal, as modulações da harpa do coração e todos os órgãos do corpo da leitora são instrumentos da nostalgia da voz com que um poema cantado responde à voz que o escreveu e com a qual se encanta e do qual ela se sente enamorada. Ler é a paixão dos que não podem imitar a vida de Cristo, mas renascem. Por isso a leitura obedece a doze estações.

Para o N.P. que é o ser que mudo se lança no fundo do mar e corre o risco de um dia lá encontrar um belo e fundo poema capaz de o fazer amar, porque nem todos os leitores cantam, no fundo do mar, um leitor como ele encontrará um peixe-poema que o fará lembrar a amada perdida no tempo e no mundo, porque ela vinha do paraíso e despiu-o com o olhar.

1 comentário:

Maria Sarmento disse...

(Pudera estar de boca fechada, colada ao ouvido deste texto e aí permanecer, em silêncio!)

Mas não o posso, não pode o silêncio em mim ser uma leitora-dançante... A voz, a voz... e a memória eterna, a Origem de onde veio:

“Porque um texto está escrito numa linguagem humana mas num papel que caiu da árvore do paraíso. Só quem toca esse papel é que desnuda o poema do sentido e o faz brilhar na nudez do seu Dizer.”

Por um texto que soubesse à brisa que soprasse deste de Isabel, poderia morrer, por este, pela fonte original, vivo e morro, porque as palavras sabem a espaços muito altos de uma montanha a florir em árvore de nova e maravilhosa Primavera.

Ver a tua dança, ouvir o teu voo, é uma ideia muito “anteriormente” nova de paraíso e de “jardim”!
Já terá a Saudade de ter...

Um beijo dado Agora-outrora em mim.
Um beijo de Saudades!

Grata pela leitura