sábado, 23 de janeiro de 2010

Pensamento EnTre-Abimos

O poeta é um ser autofágico. As páginas dos seus livros e o Silêncio das suas palavras, voltam-se para dentro e devoram-lhe, demoradas: alma e olhar. EnTre eles, alguém espreita.

Vazio espelho do desejo de plenitude. Frente ao porto onde os barcos partem sem regresso para uma viagem sem ser. Uma viagem que nem isso é. Um estar. É enTre o algures desse nenhures que estamos.

As palavras batem no peito, cadentes. Sinos ecoam enTre as montanhas de pedra e as casas junto ao mar. Um coração vai ao encontro da noite e entra num porto sem sentido. Entrado no labirinto do Nada, tudo é Nada fulgurante.

Com uma estrela que fosse o negro mais ausente, és para a luz um nada, mas na luz que retorna iluminas o mundo, semeando-o divino. EnTre-Unviversos.

É o mistério, o sem existência e sem nome, que chamamos desesperadamente, quando o grito cai na água e não se ouve um único ruído nessa queda. É EnTre eles que subimos

Caíste no abismo de mim. Talvez tenha sido nessa absurda luz que nos não encontrámos. Como poderia isso ser? Um abismo a engolir um mesmo abismo? EnTre-Abismos

3 comentários:

Isabel Santiago disse...

Entre-abismos e entre-abres para o que não se diz sem ser desta maneira ultra-sensível, cheia de mistério e profundidade. Mais outra morada, este texto...a minha morada "Entre". Entre abismos e entre afectos...entre sorrisos e lágrimas...e à Bergman, entre suspiros. Depois virá o canto...onde o grito se modula em luz e a luz em som.


Um abraço

Paulo Borges disse...

Belo texto, mas desculpe a questão filosófica: como pode haver um EnTre-Abismos? O que é para a Maria "Abismo"?

Abraço

saudadesdofuturo disse...

Querido Paulo,

O termo abismo releva de uma “queda/ascendida” sobre o mundo entre ser e não ser; estar e estar; estar e não estar… e se (in)situa no mistério que a cada um é dado como distância/aproximação; Tempo/eternidade; conceitos complementares que, girando em opostos sentidos, em lugares sem espaço e sem tempo, assim mesmo se vão desencontrando no encontrar-se. Por serem o avesso do que parecem ser, a si se vêem abismo em altura e fundura que são a ilusão de nós. Um abismo face a outro abismo, construção iludida de uma incomunicabilidade humana, se não aberta ao mundo como manifestação do divino, mas o divino caído no mistério… da humanidade/divindade… Aqui é abismo mundano e emocional de natureza semelhante ao mesmo Abismo Original. Coisas mais de poeta, Paulo, menos de filósofo!

Um abraço

Um aceno de asas à Isabel, abismo do meu abismo, também.