quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Ecologia e Cinema - Gaia e Avatar



Podemos pensar que a Terra está viva? Na actualidade não existe uma certeza inequívoca como resposta a esta pergunta. No entanto é arrojado colocá-la já que se supõe tacitamente a negativa como consenso tautológico apriorístico. Mas ao considerarmos as actuais bases científicas a questão pode ser (re) formulada. James Lovelock tem sido um autor e cientista controverso, olhado com desconfiança por um certo universo académico e científico ocidental que sustenta no descrédito ao “lirismo” evocado pelas suas teorias, o descrédito pelo valor das suas propostas. Contudo, paulatinadamente tem-se tornado claro a premência e pertinência de um olhar menos mecânico, mais orgânico, mais sensível sobre toda a existência, incluindo a do planeta Terra. A capacidade de contemplar o planeta como um sistema auto-regulador constituído pela totalidade dos organismos, a superfície rochosa, o oceano e a atmosfera, estreitamente interligados como um sistema em evolução, ainda que enquanto Grande Metáfora, é uma capacidade única a preservar. É o que permite defender a poesia enquanto estrutura fundamental do pensamento, seja ele matemático, filosófico ou económico. Uma vez que a opacidade fria do mecanicismo materialista e reducionista conduziu ao presente desiquílibrio poderemos talvez, por fim, re-valorizar o que nos últimos séculos aparentemente deixou de ter valor.

“Olhando para a longa história de Gaia encontramos a emergência ocasional de espécies que causam estragos e benefícios à escala planetária. Os fotossintetizadores que dividiram a água para libertar oxigénio estão entre os primeiros. O oxigénio é carcinogénico, mas sem ele a Terra seria agora um deserto seco; o oxigénio existente no ar previne que o hidrogénio da água escape para o espaço como aconteceu em Marte e Vénus. (…) Poderá a nossa desastrosa destruição dos ecossistemas ser meramente um novo começo, uma nova fase de aprendizagem da Terra na qual Gaia aprenda como lidar com benefício com uma inteligência colectiva?
Para melhor entendermos a actual crise de aquecimento global ser-nos-à útil um longo olhar para trás no-tempo-e-no-espaço vendo-nos a nós mesmos e à Terra de longe. Não de somenos importância, esta postura permite-nos escapar da estreiteza da tendência científica para a redução. Mas mais importante, liberta-nos para a possibilidade de questionarmos se a Terra estará viva. Os biólogos cientificamente correctos definem vida como “algo que se reproduz e corrige os erros dessa reprodução através da selecção natural”, mas isto deve ser demasiado lato para limitar uma definição. No nível mais baixo da Física pode dizer-se que qualquer coisa que tenha tempo de vida deve estar vivo; está então o átomo de um elemento radioactivo vivo? A mortalidade ou a impermanência fazem parte desta definição de vivo? Os físicos definiram vida como um sistema aberto mas limitado que mantém uma entropia interna baixa. Segundo esta definição, Gaia, todo o sistema vivo e o ambiente na superfície da Terra, estão vivos. Muito mais do que isso, Gaia detém todas as propriedades usuais da vida; metaboliza, auto-regula o seu clima e a sua composição química, e tem detido durante cerca de 4 biliões de anos uma totalmente improvável baixa entropia. Deverá algo que viveu um terço da idade do universo precisar de se reproduzir? Não seria embaraçoso e complicado se precisasse? Marte e Vénus começaram com composições químicas similares às da Terra mas olhemos para eles agora. Ambos são inóspitos desertos indescritíveis e assim seria a Terra se a vida não tivesse emergido. Tristemente, dentro de 500 milhões de anos a Terra morrerá como esses – ou mais cedo se continuarmos o que temos estado a fazer.
Talvez a mais importante coisa que possamos fazer para remediar o dano que já causámos seja fixarmos firmemente nas nossas mentes o seguinte pensamento: a Terra está viva. Quando este pensamento se tornar instintivo saberemos que não podemos cortar florestas para fazer terras de cultivo sem corrermos o risco de destruir o nosso planeta lar. As terras de cultivo e plantações de árvores não podem substituir as florestas naturais que se desenvolveram com o ambiente ao longo de milhões de anos e outrora serviram para manter o clima tolerável e o ar bom para respirar.”

Neste sentido, é no mínimo interessante senão imprescindível, pensar as possibilidades e responsabilidade das práticas artísticas e o seu lugar na instauração de um novo olhar sobre a existência, na re-formulação do modelo existencial a advir ou pelo menos no fundar de uma maior consciencialização. Nomeadamente do cinema, que enquanto arte agregadora influencia comportamentos e formas de pensar a uma escala generalizada. É por isso representativo o exemplo de Avatar, de James Cameron, estreado a 18 de Dezembro último, que associa as funções socio-culturais e políticas de media de entertenimento e diversão com as de media de expressão de dialécticas existenciais, ecológicas, filosóficas e poéticas. Neste caso específico, dadas as similitudes com o conceito de Gaia, de Lovelock e as coincidências com a actual situação de vida no planeta Terra, é de desejar que o filme se cumpra também enquanto medium de influência.

citação: Prefácio de James Lovelock a Earthy Realism, The Meaning of Gaia, edited by Mary Migdley, Societas, 2007, pp.1-2. (tradução minha)

Ilda Teresa Castro

2 comentários:

Paulo Borges disse...

Cara Ilda Castro, bem vinda! Gostei muito deste post, que me recorda o desastre que foi para o pensamento ocidental e para a nossa vida o abandono da noção de Alma do Mundo, intuída pelos pré-socráticos e formulada por estóicos e neoplatónicos, com importantes reemeergências no Renascimento e no Romantismo e hoje na ecologia profunda e no imaginário que se manifesta em Avatar.

Temos de ressacralizar a percepção do mundo e da vida, a começar pela nossa.

ic disse...

Caro Paulo Borges, obrigada pelas suas palavras. Fico contente que tenha gostado. No resto, concordo inteiramente consigo.