sábado, 14 de novembro de 2009

Entre o Silêncio e a Revelação

"Antípodas", Rui Fernandes, Agosto de 2007

Nos dias em que chove, no bosque, a torrente é uma corrente que vem directamente da foz e não da voz. A torrente alaga os olhos de lágrimas como a chuva as folhas de água. Nos dias em que a torrente é uma corrente, e chove, a folha é como a pálpebra, um abrigo húmido, a leitura é uma compulsão comovida, uma dilaceração consentida. O corpo é a árvore que estremece com o peso das gotas. A árvore um corpo húmido que reflecte a Distância. Rebrilha como ela. O corpo é um espelho de água, a folha uma nuvem que se desfaz nas mãos. Reveste-o uma humidade produtiva, perpassa-o uma força, ou forma desconhecida. Nos dias em que chove e a leitora se comove, o corpo é um livro que se abre e se diz como voz e como foz. O corpo é matéria legível e não apenas legente. O corpo é o bosque. O corpo é a torrente que é corrente. Nos dias em que chora, a leitora abre folhas, descose as folhas da memória e desdobra as pregas ofuscantes, as linhas faiscantes, as vozes estonteantes, nos dias em que chove o corpo é um livro que a chuva rasga, e a voz deslarga, alarga, alaga. Nos dias em que chove, a voz é vertiginosamente engolida por um remoinho de água incessante que arrebata o silêncio para as convulsões do pranto. Nesses dias, a leitora chega à cidade pranto. Nos dias em que chove, a leitora destrói o livro guardado na arca, da arca da carne soltam-se os animais e as sombras que habitam o bosque, a alma que com eles conviveu, na longa passagem pelo tempo e pelos lugares do sacrifício, deixa-os partir e subir de novo às árvores e aos ramos de onde vieram. Soltos, animais e sombras, seguem o caminho que os torna alados. Nos dias em que chove, o corpo natural de tudo, o corpo da vida treme pela veloz libertação do que ficou preso no contratempo rítmico de tudo que é matéria e memória. Animais e sombras tornam-se figuras, figurações, transfigurações. As folhas velhas e amarelecidas tombam, os ramos velhos quebram-se, há pequenas dores e estalidos que percorrem a paisagem, ou o corpo, com um som único e incisivo. A morte é um grito insuportável ao sopro. Quando o corpo se lê, o corpo grita. O corpo quereria, talvez, subir como os animais e as sombras por entre as árvores, renascer nas folhas e nas páginas da natureza, alado. Há na inscrição do grito uma fala hermética daquele que ainda deseja voar. Só a saudade pressente o perdido e o possível, o compossível. Nesses dias, há folhas que permanecerão para sempre incompletamente lidas, amarelecidas e ilegíveis; uma parte intocável morrerá para sempre nas profundezas do que está só, do que está a solo no não-lugar do sacrifício. O lugar em que se lê é um altar, um lugar entre a humanidade e a divindade. Quando a leitora quebra o silêncio em lágrimas, o vítreo do olhar em espelhos, a riqueza diversa do bosque responde em uníssono ao seu sacrifício com o seu poder renascente. A leitora torna-se autora. O pranto como a leitura enraízam o corpo ao invisível e fundo, muito fundo não-lugar do mistério dos rebentamentos em que o antigo se veste de renascimento. Nos dias em que chove e chora, a leitora troca o canto pelo desencanto, troca o pacto pelo impacto. Na mão da leitora, o livro pesa e descai humedecido e envelhecido pela demora num mesmo lugar. Entre ela e a dor. Com a folha, entre as mãos, com a folha entre os dedos, a gota húmida demora-se um pouco sobre a frase. A gota brilha e transparece a letra. A página irradia a transparência dos cristais do espírito. A ideia percorre-a como um fio que vem suspenso do grande Espírito da Vida. Os olhos que lêem, como os olhos que choram, reúnem-se num lago, o logos é um lago, um espelho que vibra a cada gota que cai da folha, a cada lágrima que cai do olho. Gota a gota e entre as gotas o livro desfaz-se torna-se um solo onde as mãos buscam o instante, o olhar, a terra do momento. O momento descerá do alto e entre as copas por entre os ramos, como uma passagem de luz, entre as folhas renascidas haverá uma sucessão breve de tons, na torre alta que é a árvore onde a leitora se encosta, o vitral da anunciação pintará a imagem do Amor. Do Amor compassivo. A leitora é como Cristo, a que está entre a terra e o céu. Está entre os injustos, face a eles, numa exposição ilimitada e só. Desamparada, a leitora sente o peso da acusação. Ler é a diferença imperdoável, inabarcável à luz da lei. Nos dias em que chora e em que chove, a leitora percebe o mistério da destruição e do enraizamento do livro no que nela está só ou a solo. O livro desfeito, purificado pelas lágrimas, é uma anunciação. Para o que lê está guardada uma página que desce feita de luz por entre as folhas. O sussurro da escrita que era uma saudação era um convite. A leitora aprendeu isto a ler Llansol e a chorar. O olhar legente está entre a cegueira e o vislumbre absoluto de uma vocação. Na água está escrita a evidência de uma revelação. A água está entre o vidente e o visível, mas nem sempre transparece, como nos dias em que chove e a leitora chora.

8 comentários:

Maria Sarmento disse...

Foram vários, Isabel, os voos que em mim asas fizeram para sobrevoar este texto. Não tiveram altura ou o peso da chuva dos dias em que o choro é um pranto colado às árvores do bosque,não as pôde carregar; como se não foram as asas que carregam o corpo.

Nos dias que correm e rebrilham na Distância é que as lágrimas são corrente, ofélias vêm passar os troncos na corrente: levam madeira e corpos na corrente. Já estive aí, Isabel, Talvez aí tenhamos stado juntas: a leitora da rara e intensa sem ferire, branca luz, a cantar-me as rosas ao jardim.

O lugar da leitura, um altar. Assim a leitora inscreve o corpo na letra e a caneta na folha...
E "estonteante" como "nos dias em que chove o corpo é um livro que a chuva rasga"... a chuva e o pó de oiro da sua escrita entrando poe "entre" o que não é daqui e o que chega entre, o aqui e o aqui da "cidade pranto".
Como se não se ouvisse "A morte é um grito insuportável ao sopro".

Entrou um sopro entre os ramos mais altos do plátano. A luz incide no corpo húmido das árvores, seca-lhes a corrente que atravessa o mundo! Nasce.

Um abraço de mãos dadas a recebem.

Um belo texto encostado ao peito nos trouxe. Que delícia navegá-lo.

Um abraço em Saudade,
Maria Sarmento

Maria Sarmento disse...

Desculpem-me alguns (vários) descuidos e distracções... erros, de quem deixa que a emoção a leve... apressada, ao encontro do texto e da leitura.

Donis de Frol Guilhade disse...

Há uma voz, ocre de seu olhar, que, cisne do gesto, se eleva dormente das folhas abraçadas ao contorno cristalino do orvalho novo - esse mesmo que inunda de brilhos mutuamente ofuscados as nesgas por onde greta a memória dos luares infindamente pasmados.

Por entre os líquenes vigiantes, ela sussurra olhares antiquíssimos, em memórias mútuas que se desencontram no labirinto vasto, ainda que ocluso, do bosque de perímetro irremediavelmente inalcançável.

O rendilhar da filigrana da infância - que se tece entre tudo o que nas coisas é como uma brincadeira de criança - reveste de rosto o que o não tem jamais: é sempre “saudação” apenas e “convite”, “anunciação”, para além do riacho das chuvas e do choro.

Há ali um altar amarelo - cor do amanhecer nocturno do meio-dia dos maiores segredos – com as exactas medidas da ausência consabida dos elementos.

Desenhando, com o lápis feliz dos pólens, as sonoridades de riacho na quadratura das coisas, ele reside sempre texto selado na testa do fogo manso que acorda o segredo das flores, em seu fulgor de brisas, naquele exacto nenhures em que, em majestática alegria, a floração de alores concede o fruto mais saudoso, e tão esperado, de darem-se aí, trismegistas, as mãos duma só coisa.

Então, leitura desse choro das chuvas que escorrem a alma, para cima, como “ folha, entre as mãos”, então, “compulsão comovida [em] dilaceração consentida” como “corpo húmido que reflecte a Distância”, então, “ a arca da carne” [...] “se abre e se diz como voz e como foz”.

“Vem directamente da foz e não da voz” […] “o corpo [que] é matéria legível e não apenas legente”.

Então tambem, “só ou a solo”, “a leitora destrói o livro” tão demoradamente entretecido no bordas das horas, “gota a gota” dos dias: “com um som único e incisivo”, como “nuvem que se desfaz nas mãos”...

Então, enfim, “o corpo da vida treme pela veloz libertação”...

A leitora - “arca da carne” e intérmina “matéria legível” - aprendeu “a chorar”[...]“nos dias em que chove” “entre a humanidade e a divindade” - “como uma passagem de luz” onde “o antigo se veste de renascimento” para chegar à “cidade pranto”: ali, “onde a leitora se encosta”, “inalcançável” então, “na transparência dos cristais”...

Então, e ainda então, “deseja voar”...

Isabel Santiago disse...

Desejo!

E do cimo - se e quando voar - enviar-vos e partilhar convosco os dons amadurecidos pela visão da eternidade. A eternidade é um fruto e quem o prova com todos os sentidos e com o coração espalha-o como chuva Klimteana sobre tudo e todos. Para retribuir a vossa luz sobre a leitora perdida no bosque.

...Desejo!

baal disse...

do jogar à bola na rua (toda a acção concentrada no corpo), `a corrida para casa casa ao encontro da alegria da leitura; não esqueço a alegria da adolescência. não me pergunto porquê, mas este texto fez-me recordar. e da natural oud pensamento não fugia. outros tempos.

Laura disse...

Abençoada chuva Klimteana, é tudo o que posso dizer, que ontem choveu, mesmo sem ter lido este texto. Não voei, mas dancei.

Rui Fernandes disse...

Isabel, desejas e voas.

E as tuas palavras atravessam o âmago do mundo...

... já te imaginaste a re-nascer da terra, do outro lado?

sorriso

Paulo Borges disse...

Muito grato pelo belíssimo texto, Isabel!

Caro Rui, caso deseje colaborar neste blogue terei todo o gosto em enviar-lhe um convite.