Durante muito tempo pensou que a vida era um caminho para algo de maior e de melhor. Até que descobriu que a vida era já e desde sempre a expressão do que há de maior e de melhor. A manifestação da grande perfeição natural de todas as coisas. Nos sons da casa. Nas vozes da rua. No voo da mosca. Nos gritos das gaivotas. Nas mínimas sensações a percorrer o corpo. No íntimo de cada célula. Entrou então na via do não-caminho. E, por não o procurar, não pôde deixar de ser feliz.
- Livro da Não Via
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segunda-feira, 2 de julho de 2018
quarta-feira, 8 de agosto de 2012
"(...) nunca como agora foi universalmente pressentida a exigência de se privilegiar o vivo perante o totalitarismo do dinheiro e da burocracia financeira"
“Encontramo-nos, no mundo e em nós mesmos, numa encruzilhada de duas civilizações. Uma acaba de se arruinar esterilizando o universo debaixo da sua gélida sombra, a outra descobre, nos primeiros vislumbres duma vida a renascer, o homem novo, sensível, vivo e criador, frágil ramo duma evolução em que, doravante, o homem económico passou a ser um ramo morto, e apenas isso.
Nunca o desespero de termos de sobreviver em vez de vivermos atingiu no tempo e no espaço existencial e planetário uma tensão tão extrema. Também nunca como agora foi universalmente pressentida a exigência de se privilegiar o vivo perante o totalitarismo do dinheiro e da burocracia financeira.
Nunca, em suma, tantas populações e seres particulares foram presa de uma desordem em que se misturam a mais amedrontada servidão voluntária e a tranquila resolução de destruir, sob as vagas do prazer e da vida, os imperativos mercantis que emparedam o horizonte.
- Raoul Vaneigem, A Economia Parasitária, tradução de Júlio Henriques, Lisboa, Antígona, 1999, pp.9-10.
terça-feira, 10 de julho de 2012
“Quando dás a volta à Terra a cada hora e meia reconheces que a tua identidade não tem que ver com um lugar concreto, mas está antes ligada à totalidade do planeta"
“Quando dás a volta à Terra a cada hora e meia reconheces que a tua identidade não tem que ver com um lugar concreto, mas está antes ligada à totalidade do planeta, o que, implica, necessariamente, uma transformação. Quando olhas para baixo não percepcionas nenhum tipo de fronteiras […]. Centenas de pessoas matando-se uns aos outros por uma linha imaginária que nem sequer podes chegar a percepcionar. Visto daqui o planeta é uma totalidade tão bela que desejarias pegar pela mão a todos os indivíduos, um por um, e dizer-lhes: «Olha-o daqui. Dá-te conta do que é realmente importante!»
[…]
Pensas no que estás a experimentar e questionas-te o que fizeste para merecer esta fantástica experiência. Por acaso fizeste algo para experimentá-la? Foste eleito por Deus para desfrutar de uma experiência especial à qual os demais não podem aceder? Sabes que a resposta é não, que não és especialmente merecedor do que está a ocorrer. Isto não é algo especial para ti. Nesse momento estás muito consciente de seres uma espécie de sensor de todo o género humano.
Contemplas então a superfície do globo sobre o qual viveste até esse momento e tomas consciência de todas as pessoas que vivem aí. Eles não são diferentes de ti, és igual a eles, representa-los. Não és mais do que o elemento sensível […]. De algum modo tomas consciência de que és a vanguarda da vida e que deves regressar renovado a ela.
Esta experiência torna-te mais responsável da tua relação com isso a que chamamos vida. Houve uma mudança que transforma, a partir desse momento, a tua relação com o mundo. Esta experiência excepcional modifica a relação que mantinhas, até então, com este planeta e com todas as suas formas de vida”
- Rusty Schweickart, astronauta, falando da experiência de contemplar a Terra a partir da Apolo 9.
quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
O nascer e o morrer são os únicos momentos inevitavelmente autênticos da vida.
O nascer e o morrer são os únicos momentos inevitavelmente autênticos da vida. Uma vida será tanto menos fictícia quanto mais a cada instante no seu íntimo os preservar.
terça-feira, 1 de março de 2011
"A ética é a responsabilidade por tudo quanto vive, estendida além de todos os limites"

"O homem só é verdadeiramente ético quando obedece a necessidade de ajudar a toda vida a que pode ajudar e se envergonha de causar dano a todo e qualquer ser vivo. Ele não se pergunta até onde esta ou aquela vida tem valor para merecer participação, nem se, ou até onde, ela ainda é capaz de sentir. Para ele a vida em si é santa. Não arranca nenhuma folha das árvores, não quebra uma flor, e toma cuidado para não pisar nenhum inseto. Quando no veºão trabalha à noite à luz da lâmpada, prefere manter a janela fechada e respirar um ar pesado a ver os insetos caírem um após o outro na sua mesa com as asas chamuscadas.
Quando após a chuva caminha pela estrada e vê a minhoca que se extraviou, ele se lembra de que ela terá que secar ao sol se não tiver tempo de encontrar terra em que possa esconder-se, e retira-a da pedra mortífera para a grama. Quando passa por um inseto que caiu numa poça, ele trata de estender-lhe uma folha ou um talo a fim de o salvar
Não teme que zombem dele como sentimental. É este o destino de toda a verdade, que antes de ser reconhecida ela seja objeto de riso. Antes passava por loucura admitir que os homens de cor seriam verdadeiros homens, e que teriam que ser tratados humanamente. A loucura passou a ser sabedoria. Hoje é considerado como um exagero estender até suas formas ínfimas a contínua atenção a todo ser vivo, como uma exigência da ética racional. Mas há de chegar o dia em que se há de julgar estranho que a humanidade tenha precisado tanto tempo para entender o dano inconsiderado à vida como incompatível com a ética.
A ética é a responsabilidade por tudo quanto vive, estendida além de todos os limites"
- Albert Schweitzer, A ética da veneração diante da vida (1955), in Leonardo Boff (com a colaboração de Werner Müller), Princípio de Compaixão e Cuidado. O encontro entre Ocidente e Oriente, Petrópolis, Vozes, 2000, pp.88-89.
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
"Que se despeça da vida eterna quem não a viva já aqui"

Para o Luiz Reys
"Antes mencionámos o terceiro olho, este terceiro órgão ou faculdade, que nos abre a uma dimensão da realidade que transcende o conhecimento que possamos adquirir através da mente e dos sentidos. Sem um silêncio dos sentidos e da mente esta faculdade permanece atrofiada e então a vida - a experiência da vida, anterior à sua expressão em diferentes actividades: a vida em sua profundidade - escapa-nos; a participação na plenitude cósmica - juntamente com Deuses e demónios - passa-nos desapercebida. Então as nossas vidas, privadas da sua fonte, tornam-se pobres, tristes, medíocres. Para dominar esta miséria recorremos a uma multidão de coisas que a edulcorem, que a enriqueçam, que lhe dêem um sentido, uma relevância, uma dignidade. E identificamo-nos com essa multidão de coisas; esgotamo-nos nessa actividade incessante. E esquecemo-nos que dão maior glória a Deus a flor, o lírio, o passarinho (Mateus, VI, 26-28), que todos os nossos afãs, pressas e carreiras. Suspiramos por outra vida quando não vivemos a vida. Algo disse Jesus sobre a vida eterna que nos prometia agora. Que se despeça da vida eterna, veio a dizer Simeão, o Novo Teológo, quem não a viva já aqui"
- Raimon Panikkar, Iconos del Misterio. La experiencia de Dios, Barcelona, Ediciones Península, 2001, 3ª edição, corrigida e aumentada, pp.44-45.
quarta-feira, 18 de agosto de 2010
"A vida passa como uma caravana veloz"
"A vida passa como uma caravana veloz. Detém o teu corcel e procura ser feliz! Jovem donzela, porque estás triste? Serve-te de um pouco de vinho. Já surgem os primeiros sinais da noite"
- Omar Khayyam, "Rubaiyat", LXVIII
- Omar Khayyam, "Rubaiyat", LXVIII
sexta-feira, 30 de outubro de 2009
"O Mercador de Quimeras”
Foto: "Derradeira condição", de José d'Almeida e Maria Flores
O Velho residia num antro penhascoso, entre paredes caóticas de gruta e pilares com aparência de tubos sonoros, que parecia repercutirem como num órgão ciclópico os rumores confusos das entranhas da Terra. Havia lá dentro uma tonalidade etérea de firmamento e pedras preciosas engastadas na rocha, que cintilavam ao redor da cabeça do Velho em sistemas de constelações.
Tinha esta a face sulcada pela charrua dos milénios, animada por uns olhos singrados de órbitas de astros que reflectiam mundos longínquos e crepitavam no tracejar implacável e constante de eternas cosmogonias. Estranho ao tempo, jazia impassível e solitário no seu antro, assente sobre um trípode, agitando os dedos com o movimento permanente de quem torce os fios de uma roca invisível, a gerar e a diluir existências, tendo os pés apoiados sobre as armilas de uma esfera. Ao alto, um morcego enorme abria o sobrecéu das asas, suspenso das estalactites do tecto.
À beira do antro, passava o caminho das peregrinações que o Homem vinha percorrendo desde o limiar da História, longa e penosa via-sacra intervalada de montanhas abruptas e de fundas torrentes, de áridos desertos e de cidades tentaculares. Era ali a estação distribuidora das sinas fiadas pelo Velho na sua roca invisível, princípio e termo de encruzilhadas onde se marcava a cada qual na fronte o selo de luz ou sombra que havia de acompanhá-lo na sua rota.
Todos paravam ao chegar ali, atraídos inexoravelmente pelo interior da gruta em cujo chão se viam estranhas figuras de múltiplas matérias, barro ou marfim, bronze ou oiro, dispostas em socalcos à semelhança de uma tenda de mercador. Semelhantes no aspecto e várias no semblante, olhavam, com seus olhos vítreos, obstinadamente, fitando cada uma delas um ponto no espaço, cada uma orientada pela força intrínseca do seu magnetismo polar.
Eram as Quimeras, semelhantes, sim, no aspecto, mas diversas no olhar que em umas era fluido e azulado como a ondulação silenciosa dos espaços planetários, em outras tinha a profundidade glauca e densa da imobilidade submarina, em outras era penetrante e metálico como lâminas arremessadas, em outras envolvente e veludoso como uma carícia de luar, em outras ainda recolhido e triste como uma meditação dolorosa pendida sobre uma urna cinerária. E o que havia de singular é que o olhar do Velho, na sua alheada e altiva magnificência, era o espelho facetado que reflectia todos os outros olhares resumindo-lhes as aspirações e brilho como se eles fossem as emanações gémeas da sempiterna claridade em regresso à sua fonte originária.
João Barreira, do conto “O Mercador de Quimeras”, in “A Rota do Bergantim e Outras Alegorias”, Edições Ática, Lisboa, 1947, págs 99-101.
"Não mais queremos sonho apenas sonhado, mas a vida em sonho transformada [,] à própria morte vencendo pela vida em que a mudarmos " - Agostinho da Silva
[…] outro tempo
Ao nosso vai seguir-se, o em que ao Povo
Redimiremos todos, à miséria
Expulsando dos corpos e das almas,
À terra libertando e aos donos dela
Mais livres os fazendo, por não terem
A posse que os possui, e o mundo inteiro
Revelando a quem tem passado a vida
No não mais que viver a repetida
Morte que dia a dia lhe é o dia.
…………………………………………………..
A todos os do mundo um canto novo,
Que música será bem mais celeste
Que a de esferas fingidas, pois das almas.
Triunfante virá: não mais queremos
Sonho apenas sonhado, mas a vida
Em sonho transformada, nós aos deuses
Unidos para sempre, à própria Morte
Vencendo pela Vida em que a mudarmos.
Agostinho da Silva, ”Exortação à Portuguesa Língua”,
in revista “Nova Renascença”, Porto, 1982, nº 7, pág. 222 e seg.
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
"Ter pai é ser-se abandonado" - Natália Correia
Salvador Dali, "The transparent simulacrum of the feigned image", 1938
No sítio em que os Transparentes dão o nome de Terra à estrela cadente dos répteis repartida em calafrios pedestres, a árvore genealógica dá frutos de crianças estranguladas. Descender é transportar um cobarde adiamento que em nós se faz o deserto de poros que não deixa passar a vida. Os pais pagam as lições aos filhos para eles aprenderem a não ser deuses. Mas quando o filho descobre que o professor é o pai a espreitá-lo atrás de um cacto de dentes canibais, bate com o pé e as batidas formam as sílabas do seu corpo sem peso. Porque a força da gravidade é a certeza antiga dos sáurios não poderem voar nos descendentes.[…]
Descender, descenda quem servir de escadote à autofixação dos cartazes que anunciam a sua vida. A minha vida não me foi anunciada. Comi-a até achar o seu sabor. Porque o sabor é a certeza daquilo que convém a cada um. Os que tudo envenenam com a sua vida amarga não têm paladar. São torres abandonadas pelos ascendentes que a elas pontualmente regressam para celebrar o baile anual dos morcegos. Acabo de vos descrever o historiador. Reproduzo-me, por isso, ao arrepio do tempo. Tudo começa no fim como o rio na foz que exige a nascente para que os passos sonâmbulos da água que se sonha um rio se despenhem nas passadas insones de um mar por sua vez modeladas por um outro fim que precisa desse andamento.
Natália Correia, “A mosca iluminada”, in “Poesia Completa”, Publ. Dom Quixote, Lisboa, 2000, pág. 311.
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