
Para o Luiz Reys
"Antes mencionámos o terceiro olho, este terceiro órgão ou faculdade, que nos abre a uma dimensão da realidade que transcende o conhecimento que possamos adquirir através da mente e dos sentidos. Sem um silêncio dos sentidos e da mente esta faculdade permanece atrofiada e então a vida - a experiência da vida, anterior à sua expressão em diferentes actividades: a vida em sua profundidade - escapa-nos; a participação na plenitude cósmica - juntamente com Deuses e demónios - passa-nos desapercebida. Então as nossas vidas, privadas da sua fonte, tornam-se pobres, tristes, medíocres. Para dominar esta miséria recorremos a uma multidão de coisas que a edulcorem, que a enriqueçam, que lhe dêem um sentido, uma relevância, uma dignidade. E identificamo-nos com essa multidão de coisas; esgotamo-nos nessa actividade incessante. E esquecemo-nos que dão maior glória a Deus a flor, o lírio, o passarinho (Mateus, VI, 26-28), que todos os nossos afãs, pressas e carreiras. Suspiramos por outra vida quando não vivemos a vida. Algo disse Jesus sobre a vida eterna que nos prometia agora. Que se despeça da vida eterna, veio a dizer Simeão, o Novo Teológo, quem não a viva já aqui"
- Raimon Panikkar, Iconos del Misterio. La experiencia de Dios, Barcelona, Ediciones Península, 2001, 3ª edição, corrigida e aumentada, pp.44-45.