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domingo, 10 de outubro de 2010

Medo do Caos

O Grito (Edvard Munch)
O homem religioso é sedento do ser. O terror diante do «caos» que envolve o seu mundo habitado, corresponde ao seu terror diante do nada. O espaço desconhecido que se estende para lá do seu «mundo», espaço não-cosmisado porque não-consagrado, simples extensão amorfa onde nenhuma orientatio foi ainda projectada, e portanto nenhuma estrutura se esclareceu ainda - este espaço profano representa para o homem religoso o não-ser absoluto. Se, por desventura, o homem se perde no interior dele - sente-se esvaziado da sua substância ôntica, como se se dissolvesse no Caos, e acaba por extinguir-se.

Mircea Eliade, O Sagrado e o Profano, 2006, Livros do Brasil, Lisboa, p.76

sábado, 11 de setembro de 2010

"Nunca me tomei a mim mesmo por um ser."

Nunca me tomei a mim mesmo por um ser. Um não-cidadão, um marginal, um zero à esquerda que só existe pelo excesso, pela superabundância do seu nada.

E. M. Cioran, Do Inconveniente de Ter Nascido, Letra Livre, Lisboa, p.157

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Ser e estar

Em português e castelhano o verbo “ser” vem do latino “sedere”, que significa estar sentado, residir, ficar tranquilo, pousar, etc. “Ser” vem de “sedere”, “estar” de “stare”, estar de pé, que também significa estar a favor de ou contra alguém.

Internamente sentados somos, repousados na sede, no centro, sem qualquer estado/levantamento mental de apego ou aversão. Assim podemos contemplar-nos inseparáveis de tudo. E assim podemos levantar-nos, estar de pé, numa acção não dualista, para o bem de todos, sem preferências nem exclusões.

sábado, 24 de julho de 2010

Quem somos quando nada fazemos mas estamos presentes?

"Em termos do sentimento individual de quem somos, a maioria de nós identifica-se fortemente com os papéis que desempenhamos na vida quotidiana, por exemplo, pais, esposos, filhos, estudantes ou pessoas numa certa profissão. Tais papéis são importantes e eles definem-nos nas nossas inter-relações sociais. Mas, tirando as nossas relações específicas com outras pessoas e os tipos de actividades em que nos envolvemos regularmente, o que fica? Quem somos nós quando nos sentamos calmamente nos nossos quartos, nada fazendo mas estando presentes?"

- B. Alan Wallace, Mind in the Balance. Meditation in Science, Buddhism and Christianity, Columbia University Press, 2009.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Entre II

“No seio do sentido grego de devir desenvolvem-se, pois, tanto a Tradição do Ocidente, como a Civilização de Técnica, tanto a epistéme como a sua destruição. O gigantesco processo em que consiste a nossa civilização e cuja configuração actual domina agora sobre toda a Terra é, portanto, possível graças ao que os gregos pensaram acerca do ser e do nada e da passagem das coisas do ser para o nada e do nada para o ser. E não só: a vontade do remédio e de salvação que atravessa toda a civilização ocidental é uma consequência da convicção de que as coisas oscilam no devir entre o ser e o nada. Nesta oscilação, o devir manifesta-se como a extrema ameaça e leva, portanto, à procura do remédio extremo (e, por fim, à destruição do remédio epistémico). A vontade de encontrar um remédio e uma salvação pertence à essência da vontade de poder. O Remédio contra a ameaça do devir consiste hoje em nos apoderarmos e nos identificarmos através da ciência e da técnica, com fonte do devir.
Chegados a este ponto, fica por discutir aquilo, que nunca foi discutido e que está na base de tudo aquilo a que nos, habitantes do Ocidente, somos e sabemos. Fica por discutir aquilo que foi sempre tido como indiscutível ou acerca do qual apenas foram discutidas as formas aparentes: o sentido grego do devir. É apenas deste modo que o sentido da nossa civilização – a civilização do Remédio – pode ser revelado.”

Emanuele Severino, A Filosofia Contemporânea, edições 70, 1987, p. 270