Muito antes da psicanálise, o Yoga mostrou a importância do papel desempenhado pelo subconsciente. O dinamismo próprio do inconsciente é, segundo o Yoga, o obstáculo mais sério que o yogui terá de superar. Isto porque as latências querem sair à luz, tornar-se, actualizando-se, estados de consciência. A resistência que o subconsciente opõe a todo o acto de renúncia e de ascese, a todo o acto que poderia ter por efeito a libertação do Si, é, digamos assim, o sinal do medo sentido pelo subconsciente à simples ideia de que a massa das latências ainda não manifestadas possa falhar o seu destino, ser aniquilada antes de ter tido tempo de emergir e actualizar-se.
Mircéa Eliade, Patañjali e o Yoga, Relógio D'Água Editores, 2000, p.62
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sexta-feira, 21 de janeiro de 2011
"As latências querem sair à luz, tornar-se, actualizando-se, estados de consciência"
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domingo, 17 de outubro de 2010
«A verdadeira união sexual é a união da Shakti suprema com o Espírito (âtman); as outras só representam relações carnais com as mulheres».
(...) a união sexual enquanto ritual, lembremos que atingiu um prestígio considerável no tantrismo indiano A Índia mostra-nos com exuberância como é que um acto fisiológico pode ser transformado em ritual e como, quando a época ritualista está ultrapassada, o mesmo acto pode ser valorizado como uma «técnica mística». A exclamação do esposo na Brhadâranyaka-Upanishad: «Eu sou o Céu, tu és a Terra!», segue-se à transfiguração prévia de sua esposa no altar do sacrifício védico (VI, 4, 3). Mas no tantrismo, a mulher acaba por incarnar a Prakriti (= a Natureza) e a Deusa cósmica, a Shakti - ao passo que o macho se identifica a Shiva, o Espírito Puro, imóvel e sereno. A união sexual (maithuna) é antes de tudo uma integração destes dois princípios, a Natureza-Energia cósmica, e o Espírito. Conforme se exprime um texto tântrico: «A verdadeira união sexual é a união da Shakti suprema com o Espírito (âtman); as outras só representam relações carnais com as mulheres» (Kûlârnava Tantra, V, III-112). Já não se trata de um acto fisiológico, mas de um rito místico; o homem e a mulher já não são seres humanos mas são, sim, «desligados» e livres como os Deuses. Os textos tântricos sublinham infatigavelmente que se trata de uma transfiguração da experiência carnal. «Pelos mesmos actos que fazem arder no Inferno certos homens durante milhões de anos, o yogin obtém a sua salvação eterna.» A Brhadâranyaka-Upanishad (V, 14, 8) afirmava já: «Aquele que sabe assim, seja qual for pecado que pareça cometer, é puro, limpo, sem velhice, imortal.» Por outras palavras «aquele que sabe» dispõe de uma experiência totalmente diferente da do profano. Quer dizer que toda a experiência humana é susceptível de ser transfigurada, vivida num outro plano trans-humano.
Mircea Eliade, O Sagrado e o Profano, 2006, Livros do Brasil, Lisboa, p.179
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| Shiva e Shakti |
Mircea Eliade, O Sagrado e o Profano, 2006, Livros do Brasil, Lisboa, p.179
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quarta-feira, 13 de outubro de 2010
"Vós pedis-me que trabalhe o solo? Iria eu pegar numa faca e cravá-la no seio de minha mãe?"
Um profeta índio, Smohalla, da tribo Umatilla, recusava o trabalho da terra. «É um pecado», dizia, «ferir ou cortar, rasgar ou arranhar a nossa mãe comum com trabalhos agrícolas.» E acrescentava: «Vós pedis-me que trabalhe o solo? Iria eu pegar numa faca e cravá-la no seio de minha mãe? Mas então, quando eu já estiver morto, ela já não me retomará no seu seio. Pedis-me que cave e desenterre pedras? Iria eu mutilar-lhe as carnes a fim de chegar aos seus ossos? Mas então já não poderei entrar no seu corpo para nascer de novo. Pedis-me que corte a erva e o feno, e que o venda, e que enriqueça como os brancos? Mas como ousaria eu cortar a cabeleira de minha mãe?»
Mircea Eliade, O Profano e o Sagrado, 2006, Livros do Brasil, Lisboa, p.148
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| Smohalla (1815-1895) |
Mircea Eliade, O Profano e o Sagrado, 2006, Livros do Brasil, Lisboa, p.148
domingo, 10 de outubro de 2010
Medo do Caos
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| O Grito (Edvard Munch) |
Mircea Eliade, O Sagrado e o Profano, 2006, Livros do Brasil, Lisboa, p.76
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