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quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

ESTUDO GERAL
dez./jan.    2020           Nº119

«No Canto IX dos Lusíadas, Ilha dos Amores, «Camões dá este conselho pedagógico aos portugueses: os meus amigos, se querem alcançar o Céu na terra, tratem do seu navio, mantendo-o em ordem, com disciplina a bordo, porque um dia a Ilha dos Amores aparece». - Agostinho da Silva

Sumário

1.    Editorial


canalização

infografia

graffitar a literatura

estórias

real…irreal…surreal

diarística
 

---------------------------------Fim de Sumário----------------------------------

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

EG #116



ESTUDO GERAL
set/out      2019           Nº116

"Um dia despertamos e a vida resume-se a um imenso ponto de exclamação." (Paulo Borges)

Sumário

Exposição de pintura - vídeo

2.              (Des)EMPAREDADO – Luís Souta
Reversão urbanística

3.              Refugiados – Manuel (D’Angola) de Sousa
Poesia

Livros

5.              O Diário da Matilde – Luís F. de A. Gomes
Diarística

Prosa ilustrada
 
real-irreal-surreal (365)

---------------------------------Fim de Sumário----------------------------------

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Uni-Verso

Em 1974 foi encontrado na Etiópia parte do esqueleto de uma mulher que representava o hominídeo mais antigo conhecido até então. Esse nosso antepassado comum baptizado com o nome de “Lucy” terá existido há aproximadamente 3,2 milhões de anos e o seu nome, é sabido, deve-se a no momento da descoberta ter passado na rádio uma música dos Beatles, intitulada “Lucy in the Sky with Diamonds”. Mas alucinação é que a revelação não terá sido, porque em investigações arqueológicas posteriores, nessa mesma região, já foi descoberto um esqueleto que fez recuar os vestígios dos nossos mais velhos ancestrais para 4,4 milhões de anos. Aos mais antigo de todos deu-se o nome de “Ardi”. E, afinal, o que serão 4,4 milhões de anos na existência do planeta, do Universo?

Nada impede que daqui a uns anos se descubram outros esqueletos, noutras regiões, que eventualmente, recuem mais ainda o início da aventura dos hominídeos na Terra. Mas hoje, em termos arqueólogicos, faz-se corresponder o berço da humanidade aquela região da África Oriental. Terá sido, dizem, a partir daí que se terá iniciado o povoamento do planeta. Ásia, Europa, Oceania e América, por esta ordem, terão sido a pouco e pouco, lentamente, ocupados por populações humanas.

Em cada uma das mais diferentes regiões desenvolveram-se estratégias de sobrevivência que corresponderam a outras tantas formas de organização social. Entre os inúmeros humanos que se disseminaram pelo planeta, foi-se assistindo a diferentes formas de organização da família, da política, de economia, da religião, naquilo a que a Antropologia designa por diversidade cultural. Por exemplo, em relação à organização da família referem-se vários tipos conhecidos como a monogamia, bigamia, poligamia, poliandria; ou quanto à religião, onde se podem falar de sistemas animistas, monoteístas, politeístas; e por aí fora.

Durante algum tempo, no século XIX, os autores evolucionistas classificaram as sociedades tecnologicamente menos desenvolvidas como povos mais atrasados, mais primitivos, quando comparados com as sociedades ocidentais. Depois a Antropologia concluiu pela falta de sustentação científica dessas ideias que afirmavam a superioridade de “uns” em relação a “outros”. Pensemos, por exemplo, na legitimação que algumas dessas ideias deram ao racismo, nazismo, etc. O que na Antropologia, hoje, corresponde mais à verdade científica é que as diferentes sociedades humanas em vez de avançadas ou primitivas, superiores ou inferiores, são simplesmente diferentes. Uma mesma travessia histórica através dos tempos, diferentes usos e costumes que se desenvolveram, diferentes padrões culturais, diferentes formas de organização social. Tantas formas de explicação da natureza e tantas outras possíveis, infinitas. Sempre a mesma incerteza, ou quase…

Hoje, vivemos tempos em que faz mais sentido a valorização da diversidade cultural, do que a afirmação etnocêntrica de universos singulares. O que nos deverá guiar é mais o estabelecimento de pontes, de diálogo, entre diferentes culturas, pela paz!, do que a afirmação desses modelos etnocêntricos. Será nessa abertura ao outro, nessa escuta do outro, em que assentaremos o nosso Estudo. Será a partir da soma das partes que partiremos para a valorização e construção da Unidade. Nada de falsas manipulações, nada de querermos o outro à nossa imagem. Liberdade até de não ser livre. Com regras, claro, até que uma plena emancipação social se instale, até à chegada de uma consciência plena.

Coisa tão estonteante tem sido esta aventura pelo espaço-tempo. Meu Deus…

Luis Santos

sábado, 14 de agosto de 2010

O Largo da Graça

Segundo a "Chronica del Rei D. Joam I de boa memória. Terceira parte em que se contam a Tomada de Ceuta" (Lisboa, 1644), escrita por Gomes Eanes de Zurara em 1450, a autorização do rei para a conquista de Ceuta, primeiríssima etapa da expansão ultramarina portuguesa, foi dada aqui em Alhos Vedros, no Palácio da Graça(?), onde D. João I se refugiou durante o período de nojo pelo falecimento de sua mulher, a rainha D. Filipa de Lencastre, que sucumbira perante a terrível peste que terá assolado o país e dizimado uma parte muito significativa da população.

Aqui vieram os príncipes irmãos, Duarte, Pedro, Henrique, João e Fernando, e talvez também a princesa Isabel, a ínclita geração, conversar com Senhor, seu pai, sobre os planos para a tomada de Ceuta. Como é sabido, o infante D. Henrique foi o principal impulsionador dos descobrimentos portugueses.

Tudo terá decorrido, então, ali entre o Largo da Graça e a Quinta da Graça, a meio caminho quando se vai para a Quinta do Império (não confundir com Quinto Império), dizíamos, Largo da Graça onde, eventualmente, terá nascido ainda um nosso respeitado conterrâneo e contemporâneo, o Sr. Mário da Graça, e terá vivido o avô de um nosso companheiro de “Estudo Geral”, extraordinário escritor e pessoa de admirável cultura. Foi ali também que em criança, depois de atravessado o dito Largo de mão dada com a avó Aura, comprávamos o leite extraído directamente da teta da vaca, não sem que a Dona Albertina, a fazendeira, nos oferecesse um copinho do precioso(?) líquido ainda quentinho.

Naturalmente que tudo isto não tem mais que um significado simbólico para o nosso “Estudo”. Foi aqui como podia ser noutro lugar qualquer… Mas não foi. E a verdade é que, à sombra disso o Largo da Graça fez, e continua a fazer, história. Ainda hoje quando pensamos na força que a Língua Portuguesa granjeou nestes últimos séculos e naquilo que ela vai fazendo, esperemos, pelo bem dos mundos, não podemos deixar de achar Graça ao facto da sua expansão ter passado por aqui, lugar onde os nossos avós viveram.

E quando dizemos os nossos avós estamos, evidentemente, a generalizar.

Luís Santos

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Ensaio Geral

É preciso que nos fundemos na paz.
Pouco há de mais vil do que a ideia de guerra, onde a principal consequência é a do sofrimento e da morte. Onde se sacrificam generalizadamente aqueles que nos são mais queridos, todos.

Devemos eleger como motivo maior o amor.
O que nos permite olhar o outro como a nós próprios, sinal da aceitação plena do milagre da vida, compreensão de que enquanto houver alguém que se perca por desvelo é igualmente uma parte de nós que se vai.

A compaixão pelos pobres, a misericórdia pelos enfermos, a solidariedade nas desavenças, a fraternidade nos infortúnios são atitudes maiores que nos libertam das amarras da vida. Enquanto existir alguém que esteja preso nós estaremos presos também.

Ocuparemos parte das nossas reflexões e acções na necessidade de dignificação do trabalho e da vida. Entregar a maior parte do tempo de vida a um trabalho escravo não nos permite a liberdade necessária para aceder a níveis mais amplos de consciência e a uma melhor compreensão da verdade.

Não há dinheiro que nos salve. Não há lucro que nos sirva. Não há conforto que nos liberte. Só a ideia de sermos Um, corpo total, nada e tudo, nos livrará do ciclo infinito de vidas em sofrimento. A emancipação de todos trará a consciência clara do que deverá ou não ser feito.

Substituiremos as ilusões mentais de todas as construções ideológicas (como esta!) pelo primado da escuta e da conversa em prole do bem comum. Meditaremos nos caminhos ideais que nos guiam a uma suprema calma mental, a uma fina harmonia do corpo, a uma capacidade optimizada de compreensão do (des)necessário próximo passo.

Estaremos realmente vivos.

Luís Santos

P.S.: Este texto resultou de uma con-versa com os amigos Raul Costa e João Martinho justamente no Café Ensaio.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Generalidades

Nos últimos anos do século passado, fruto do desenvolvimento das sociedades humanas, preparávamo-nos para melhores níveis de qualidade de vida. O desenvolvimento da ciência e da técnica permitiam-nos sonhar com o controle da explosão demográfica, com a eliminação da pobreza, com uma redução substancial do número de horas de trabalho.

Sobretudo nos países mais desenvolvidos, mas um pouco por todo o mundo, fomos assistindo a um extraordinário incremento da protecção social, desenvolveu-se a saúde, aumentou-se a esperança média de vida, tentou-se eliminar, ou pelo menos, reduzir o trabalho infantil. O grande desenvolvimento das novas tecnologias e, de alguma forma, a substituição do homem pela máquina, indiciavam um mundo mais livre, onde o lazer e a criatividade se oporiam a um mundo de grande dependência face ao processo produtivo.

A ruína dos socialismos a leste, a queda do muro de Berlim e uma consequente maior democratização do mundo, foram vistas associadas a essa vitória das liberdades essenciais. O liberalismo assumiu-se, então, como o sistema político de excelência, tudo justificado pela vitória na "Guerra Fria" dos aliados ocidentais.

Mas, afinal, a grande supremacia acalentada pelas democracias ocidentais era mais frágil do que parecia. A crise económica depressa se fez anunciar. O capitalismo financeiro com facilidade se instalou nos centros de poder e o desenvolvimento social a que fomos assistindo na segunda metade do século XX, depressa começou a ser atacado.

Regressou o fantasma do equilíbrio demográfico, agora revelado, no ocidente, pela diminuição das taxas de natalidade e consequente envelhecimento das populações. O sistema de segurança social é posto em causa. O desemprego atinge percentagens que há muito não se via. Torna-se necessário trabalhar mais, produzir mais, competir mais, exportar mais, porque se destruíram as finanças públicas e, mesmo assim não chega, porque as potências emergentes (China, Brasil…) desenvolvem-se a um ritmo que ameaça a hegemonia ocidental e com facilidade nos ganham nas trocas comerciais, mesmo com a Organização Mundial do Comércio a dificultar-lhes a manobra.

E, nisto tudo, onde ficarão os grandes desequilíbrios ecológicos, as alterações climáticas, o esgotamento de recursos do planeta, a devastação florestal, a poluição dos rios e dos mares, a enorme acumulação de lixos vários, os direitos humanos, os direitos dos animais, a necessidade de uma alimentação saudável, de uma calma mental, de uma filosofia justa e, delírio dos delírios, o merecimento de conquistar a Vida para lá da morte?

O mundo está em rápida mudança, o debate está em aberto. Uma maior consciência cívica é necessária. A participação dos cidadãos é fundamental. O espírito democrático precisa substanciar-se. A organização política precisa de se merecer. Precisamos de saber sentar-nos a uma mesma mesa e aprender a conversar em vez de discutir.

É por isso que esta nossa parte do Estudo Geral(VER AQUI) aposta num espírito plural onde todos caibam. E se aprendemos com profetas e ascetas, com Cristo e Buda, que é o amor altruísta, o amor ao próximo, o que mais interessa, como podíamos nós trocar o geral pelo particular.

Luís Santos

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Do fundo primordial, ou "o nada que é tudo"

Gravar o momento e falar da natureza primordial
da mente inata fundamental da clara luz
do nosso património colectivo, absoluto:

o rosto fixa-se e as energias pulsam
os olhos brilham e iluminando-se tudo iluminam
as células acaloram-se e rejubilam
tudo está integralmente certo a cada instante
todo o ser é naturalmente compassivo
sendo um aparente vácuo tudo está cheio
os amigos que nos envolvem são todos um.

O coração aconchega-se e a mente acalma-se.

Como é bom andar ao Deus dará
no eterno agora
onde tudo o que acontece é perfeito.

Poema feito em final de aula sobre Dzogchen em estado de "consciência clara relativa…", porque poderia acontecer noutro lado, a partir de outras ocorrências que não necessariamente palavras.

terça-feira, 4 de maio de 2010

De onde vem este cântico?
Que me embala o sono, suavemente
Será a voz de Deus ou o sussurro da fonte?
Mistério em movimento, linguagem do Céu

Estou só, em abandono penitente
Ausente por amor à raça
Perene no susto, suspenso no canto
Antepassados a surgirem no nevoeiro

Ergo o padrão do silêncio
Em pedra fria e musgosa
As ervas crescem na solidão

O mistério vagueia algures pelo Céu
Distingo-lhe a sombra possante
De onde vem este cântico?

in, A contemplar a Prímula (inédito)
João Raposo Nunes

Nota: Este poema foi publicado no "Estudo Geral Nº3". Pode ver mais AQUI.

terça-feira, 16 de março de 2010

Estudo Geral

Uma outra vez, fomos visitar o Professor Agostinho da Silva a sua casa. Gentilmente recebidos, mandou-nos entrar para a sala de conversas. Uma meia dúzia de cadeiras estavam dispostas em círculo e em cima duma delas, sentado, um livro do cronista do reino, Rui de Pina, intitulado justamente Crónica de D. Dinis.

Já não nos recordamos quantas pessoas estavam presentes, mas a imagem do livrinho que acompanhou todo o encontro, e ali pousado nos olhava, não mais nos abandonou. Acabámos por adquiri-lo assim que surgiu a oportunidade.

É sabido que D. Dinis e, sobretudo, a sua esposa, Rainha Santa Isabel, têm lugar de destaque na abordagem que o Professor faz à história e à cultura portuguesa, desde logo, pela introdução no país do culto popular do Espírito Santo, feito pela princesinha de Aragão.

Mas que mais? Porque seria tão importante o reinado do Lavrador, ou do "plantador das naus a haver", como lhe chamou Fernando Pessoa na sua resumida e iniciática História de Portugal, a singela Mensagem?

Sabemos das suas significativas reformas agrícolas, onde, por exemplo, ganhou evidência a plantação do Pinhal de Leiria. Ganhámos um meio de expressão próprio com a instituição da Língua Portuguesa em substituição do galaico-português. Conseguimos prolongar a existência da Ordem do Templo (Templários), depois destes terem sido cruelmente excomungados, perseguidos e, muitos deles, assassinados, alterando-lhe o nome para Ordem de Cristo, a tal onde se desenvolveu o nobre Projecto da Expansão Ultramarina. E foi também por Ele que ganhou vida a primeira Universidade Portuguesa chamada de Estudo Geral.

Hoje os tempos são outros. Mas a pujança da Língua Portuguesa no mundo, a necessidade de bons estadistas em prole de uma organização social de excelência e a necessidade de uma sublimação espiritual constante, aconselham-nos a perscrutar os ecos da nossa história que muito bom legado nos deixou.

No Rei Poeta reconhecemos um conjunto de inovadoras medidas que nos permitiram avançar no tempo, como se houvesse tempo, construindo uma história digna de valor que, ainda hoje, pode ajudar a conduzir-nos universo fora, irmãos entre irmãos.

Fica, assim, feita justiça aquele enigmático livrinho que sentado nos olhava, como uma outra das inúmeras razões de estarmos aqui.

Bem hajam.

Luís Santos
Estudo Geral (clique aqui)

segunda-feira, 1 de março de 2010

Participando...

Na sequência da apresentação pelo Professor Paulo Borges do Manifesto "Refundar Portugal", na Escola Aberta Agostinho da Silva (Casa Amarela), Alhos Vedros, agendámos por aqui uma conversa para trocarmos ideias sobre o movimento cívico “Outro Portugal”, no primeiro Domingo de Março.

Entretanto, avançámos com a criação de um Blogue/Revista (mais um!), de seu nome “Estudo Geral”, que para lá da sua exposição diária tentará ter uma divulgação mensal... Será um possível espaço de encontro para as nossas criatividades, num espírito que se pretende plural, na política, nas religiões, nas idades, sendo que a "Revista" e a participação na "Revista" serão autónomas de tudo o resto.

Aqui fica o convite para que adiram e participem. Pensamos que a palavra é essa: participação.

Num momento em que o mundo renova os seus equilíbrios, a que o país e a região não passarão incólumes, e grandes transformações sociais (e naturais) vão ocorrendo, podemos fazer alguma coisa mais, por pequena que seja, do que assobiar para o lado.

Chegou o momento de nos chegarmos mais à frente (que é simultaneamente mais atrás), ajudando a uma maior participação nesta muito incerta democracia representativa, promovendo uma cidadania activa, onde a voz dos movimentos cívicos ganhe uma importância acrescida.

Luís Santos
lcrsantos@gmail.com