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quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Da filosofia ocidental e oriental - por Ranga Karakuran

Os filósofos do Ocidente, mesmo os melhores de todos, limitam-se a ser bons oradores. Os filósofos do Oriente são frequentemente maus oradores mas isso não interessa. Não é a oratória que conta. A filosofia oriental é pragmática e operacional, tal como a filosofia da física moderna - isto se exceptuarmos o facto de as operações em questão serem psicológicas e os resultados transcendentes. Os metafísicos ocidentais fazem afirmações acerca da natureza do Homem e do Universo, mas não oferecem ao leitor os meios de verificar a verdade de tais afirmações. E nós, quando fazemos afirmações, acompanhamo-las de uma lista de experiências que se podem utilizar na comprovação da validade do que acabamos de afirmar. Por exemplo: Tat twam asi «tu és isto». É este o núcleo de toda a nossa filosofia. Tat twam asi [...] é como uma proposição metafísica, mas aquilo a que essa frase diz realmente respeito é a uma experiência psicológica, e as operações por meio das quais a experiência pode ser vivida são descritas pelos nossos filósofos, de maneira que quem deseje realizar as citadas operações pode verificar por si próprio a validade do Tat twam asi. Essas operações têm o nome de ioga ou diana ou Zen, ou, ainda, em circunstâncias especiais, o de maituna.

- Ranga Karakuran

domingo, 23 de janeiro de 2011

"Ninguém tem necessidade de ir para qualquer outro lado. Todos nós já lá estamos; só falta sabermos que de facto assim é"



"Ninguém tem necessidade de ir para qualquer outro lado. Todos nós já lá estamos; só falta sabermos que de facto assim é. Se eu soubesse realmente quem sou, deixaria de proceder como a pessoa que julgo ser e, se eu deixasse de proceder como a pessoa que suponho ser, saberia quem sou. O que de facto sou - isto se o maniqueu que eu julgo ser me deixar descobrir o que realmente sou - a reconciliação do sim e do não, subsistindo em aceitação total e na abençoada experiêencia do Não-Dois. Em matéria de religião, todas as palavras são obscenas. Toda a criatura que discorre eloquentemente acerca de Buda, de Deus ou de Cristo, merecia que lhe desinfectassem a boca com fenol.

Em virtude da sua aspiração a perpetuar unicamente o sim em todos os pares de coisas antagónicas, o maniqueu que julgo ser não poderá jamais realizar-se na natureza das coisas; condena-se a si próprio a uma frustração incessantemente repetida; a conflitos incessantemente repetidos com outros maniqueus igualmente ambiciosos e frustrados.

Conflitos e frustrações - eis o tema de toda a história e de quase todas as biografias. "Mostrar-te-ei a tristeza" - eis uma frase realista do Buda. Mas ele mostrou igualmente o termo dessa tristeza - o autoconhecimento de cada um, a abençoada experiência do Não-Dois"

- Aldous Huxley, A Ilha, Lisboa, Livros do Brasil, 1999, pp.48-49.