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quinta-feira, 3 de março de 2011

Entre

"Para que me deram um reino que ter se não terei melhor reino que esta hora em que estou entre o que não fui e o que não serei?"

- Bernardo Soares, 5.10.1932, Livro do Desassossego.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

"Eu não sou eu nem sou o outro, / Sou qualquer coisa de intermédio" - Mário de Sá-Carneiro

O bar-do (entre-dois) tibetano, o "King of Gaps" pessoano, o terceiro excluído da lógica aristotélica... O que há entre cada pensamento: isso que não é isto nem aquilo.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Entre

“Entre a árvore e o vê-la
Onde está o sonho?”

“Entre o que vive e a vida
Para que lado corre o rio?
Árvore de folhas vestida -
Entre isso e Árvore há fio?”

“Deus é um grande Intervalo,
Mas entre quê e quê?...
Entre o que digo e o que calo
Existo? Quem é que me vê?”

– Fernando Pessoa, excertos de "Além-Deus", V.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Para uma sabedoria entre - Do terceiro excluído ou do tao inter-calado



(Laozi encontra Yin Xi, o guardião da porta do Tibete)

"Do princípio de não-contradição Aristóteles extrai o do terceiro excluído como sua consequência (em gamma, 7): não há nenhum intermediário entre enunciados contrários, pois é preciso necessariamente afirmar ou negar um mesmo predicado, seja qual for, dum único sujeito. Ou é verdadeiro, ou é falso, isso é ou não é, não há meio entre os dois, tal qual o pode ser o cinzento intercalando-se entre o preto e o branco; há, não "dégradé", mas exclusão e resposta apenas por sim ou não. Pois, a partir do momento em que se toma como ponto de partida uma definição, definição que vem ela própria da necessidade em que se coloca o outro de "dar a cada termo uma significação determinada", é suprimida toda outra possibilidade emergindo de "entre" os contraditórios. [...]

A partir do momento em que a contrariedade primeira, a do ser e do não-ser, serve de base a este princípio do terceiro excluído, pretender haver um intermediário entre estes contraditórios "não é dizer nem do ser nem do não-ser que ele é ou que ele não é" (gamma, 7), não é nada mais dizer de todo e o pensamento soçobra, inelutavelmente, desfaz-se e não mais pensa. Entrar no pensamento taoísta, em contrapartida, é precisamente reabrir a possibilidade desse "entre", metaxu, que Aristóteles aqui exclui. Pois a efectividade inesgotável de que "tao" nomeia a fonte, esta capacidade sempre em recuo do visível e que, por aí, se separa das marcas tangíveis que constantemente dele decorrem, essas mesmas que regista a definição, não pode ser apreendida nem segundo a categoria do "há" (you), que descreve o tangível, nem tão pouco segundo a do "não há" (wu), que constata a sua inexistência. Daí a expressão contraditória, desfazendo a sua oposição, que é a única que o caracteriza: "chama-se [o tao] configuração sem configuração, imagem (fenómeno) sem realidade (concreta)" (Laozi, 14). Do tao, poder-se-á também dizer que não é nem um nem o outro e que participa de um e do outro: ele é apreensível-inapreensível, a sua única característica é ser incaracterizável [...]. Pois, pela virtualidade que deve ao seu constante desenvolvimento, a montante do concreto, ele não se deixará acantonar em nenhuma actualização particular que o manifeste no seio do visível. Mas é também dessa efectividade inesgotavelmente operativa, e demasiado subtil e difusa para não permanecer invisível, que procede toda a manifestação de existência.

[...]

Não se apreendendo o tao senão entre os contrários há/não há, a única caracterização que lhe convém será, não a do claro e do distinto, promovidos como são em exigência da razão europeia, mas, exactamente ao inverso, [...], a do "vago" ou do "vaporoso" (hu huang). Como ele não tem nem a opacidade e massividade das coisas, nem tão pouco o estatuto de pura idealidade que serve no pensamento grego, desde Platão, para definir o mundo das Formas e do inteligível, como ele não é nem fenomenal nem abstracto, mas (se) fenomenalizando-defenomenalizando constantemente, não é susceptível nem de contorno definido nem de determinação intrínseca, e o seu único traço marcante é o "indeciso". Enquanto efectividade, não é nem material nem espiritual, a partir do momento em que um seria distinto do outro, mas, evoluindo entre estes pólos, o seu modo é o do subtil e do dissolvido, do desligado e do decantado (wei, jing); apreende-se, não segundo os termos antitéticos da presença e da ausência, [...] mas na sua constante transição, nos estados da reabsorção e da emergência, manifestando-se simultaneamente no modo do ambiente e do evanescente 1".

1 - Cf. o que já notei do pintor chinês que pinta "entre há e não há" (you wu zhi jian), em La grande image n'a pas de forme, capítulos 1-3.

- François Jullien, Si parler va sans dire. Du logos et d'autres ressources, Paris, Seuil, 2006, pp.85-87.

sábado, 2 de janeiro de 2010

Nem diferença, nem identidade: um novo paradigma - ENTRE



"Erra-se, creio, ao encarar a diversidade das culturas sob o ângulo da diferença. Pois a diferença reenvia à identidade como ao seu contrário e, por consequência, à reivindicação identitária - vê-se suficientemente quantos falsos debates daí se seguem hoje em dia. Considerar a diversidade das culturas a partir das suas diferenças conduz com efeito a atribuir-lhes traços específicos e encerra cada uma delas numa unidade de princípio, a qual se constata imediatamente quanto é arriscada. Pois sabe-se que toda a cultura é plural tanto quanto é singular e que não cessa ela própria de mudar; que é simultaneamente levada a homogeneizar-se e a heterogeneizar-se, a desidentificar-se como a reidentificar-se, a confirmar-se mas também a resistir: a impor-se como cultura dominante mas, imediatamente, a suscitar contra si a dissidência. Oficial e underground: o cultural não se manifesta e não se activa senão sempre entre os dois.

É por isso que preferi, na minha oficina aberta entre a China e a Europa, tratar não de diferenças mas antes de afastamentos. Pois o afastamento promove um ponto de vista que é, já não de identificação, mas, diria, de exploração: ele considera até onde podem desdobrar-se diversos possíveis e que ramificações são discerníveis no pensamento. [...]"

- François Jullien, Les transformations silencieuses. Chantiers, I, Paris, Bernaerd Grasset, 2009, pp.36-37.

Um novo paradigma: ENTRE. A hora não é de promover identidades, ou seja, muros culturais, mas sim de desvendar as pontes, as relações, de que é feita a tessitura do humano e que se ocultam na aparência de fronteiras essenciais.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Clarice Lispector: A linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo

Dá-me a tua mão: Vou agora te contar como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta.
De como entrei naquilo que existe entre o número um e o número dois, de como vi a linha de mistério e fogo e que é linha sub-reptícia.
Entre duas notas de música existe uma nota, entre dois fatos existe um fato, entre dois grãos de areia, por mais juntos que estejam, existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir - nos interstícios da matéria primordial está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo e a respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio.

Clarice Lispector, in A Paixão Segundo G.H.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

The King of Gaps

There lived, I know not when, never perhaps -
But the fact is he lived - an unknown king
Whose kingdom was the strange Kingdom of Gaps.
He was lord of what is twist thing and thing,
Of interbeings, of that part of us
That lies between our waking and our sleep,
Between our silence and our speech, between
Us and the consciousness of us; and thus
A strange mute kingdom did that weird king keep
Sequestered from our thought of time and scene.

Those supreme purposes that never reach
The deed - between them and the deed undone
He rules, uncrowned. He is the mistery which
Is between eyes and sight, nor blind nor seeing.
Himself is never ended nor begun,
Above his own void presence empty shelf
All He is but a chasm in his own being,
The lidless box holding not-being's no-pelf.

All think that he is God, except himself.

- Fernando Pessoa, Poesia Inglesa, I, edição e tradução de Luísa Freire, Lisboa, Assírio & Alvim, 2000, p.280.

serpenteemplumada.blogspot.com

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Entre

Entretanto, Zaratustra olhava a multidão, e assombrava-se. Depois falava assim:
“O homem é corda estendida entre o animal e o Super-homem: uma corda sobre um abismo; perigosa travessia, perigoso caminhar, perigoso olhar para trás, perigoso tremer e parar.
[...]
Sucedeu, porém, qualquer coisa que fez emudecer todas as bocas e atraiu todos os olhares.
Entrementes pusera-se a trabalhar o volteador; saíra de uma pequena porta e andava pela maroma presa a duas torres sobre a praça pública e a multidão.
Quando estava justamente na metade do caminho abriu-se outra vez a portinhola, donde saltou o segundo acrobata que parecia um palhaço com as suas mil cores, o qual seguiu rapidamente o primeiro. “Depressa, bailarino! — gritou a sua horrível voz. — “Depressa, mandrião, manhoso, cara deslavada! Olha que te piso os calcanhares!
Que fazes aqui entre estas torres? Na torre devias tu estar metido; obstrues o caminho a outro mais ágil do que tu!” E a cada palavra se aproximava mais, mas, quando se encontrou a um passo, sucedeu essa coisa terrível que fez calar todas as bocas e atraiu todos os Olhares; lançou um grito diabólico e saltou por cima do que lhe interceptava o caminho.
Este, ao ver o rival vitorioso, perdeu a cabeça e a maroma, largou o balancim e precipitou-se no abismo como um remoinho de braços e pernas. A praça pública e a multidão pareciam o mar quando se desencadeia a tormenta. Todos fugiram atropeladamente, em especial do sítio onde deveria cair o corpo.
Zaratustra permaneceu imóvel, e junto dele caiu justamente o corpo, destroçado, mas vivo ainda. Passado um momento o ferido recuperou os sentidos e viu Zaratustra ajoelhado junto de si. “Que fazes aqui? — lhe disse. Já há tempo que eu sabia que o diabo me havia de derrubar. Agora arrasta-me para o inferno. Queres impedi-lo?”
“Amigo — respondeu Zaratustra — palavra de honra que tudo isso de que falas não existe, não há diabo nem inferno. A tua alma ainda há de morrer mais depressa do que o teu corpo; nada temas”.
O homem olhou receioso. “Se dizes a verdade — respondeu — nada perco ao perder a vida. Não passo de uma besta que foi ensinada a dançar a poder de pancadas e de fome”.
“Não — disse Zaratustra — fizeste do perigo o teu ofício, coisa que não é para desprezar.
Agora por causa do teu ofício sucumbes e atendendo a isso vou enterrar-te por minha própria mão”.
O moribundo já não respondeu, mas moveu a mão como se procurasse a de Zaratustra para lhe agradecer.