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quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Ondas

D. S. Merezhkovskii
Retrato de I. Repin (1900)
Oh! Se eu fosse como vós, ó ondas,
Livres e desapaixonadas,
Frias e cheias de eterno resplendor!
Não sois vós mais felizes do que eu?

Que a felicidade é efémera, vós não sabeis...
Com saudade, vejo o belo livre e frio que há em vós:
Em toda a minha vida de amor e dever,
Carrego humildemente os grilhões dos Santos.

Porquê a jovialidade e felicidade do vosso sorriso?
Porquê os grilhões fardos carregados por mim?
Oh!, preciso da vossa frieza imperturbável,
Do vosso sorriso livre, da vossa beleza eterna.

Como é difícil suportar o jugo da humildade!,
Ir para vós e em vós descansar
Só, simplesmente só e viver o instante,
Para depois, sem respirar, adormecer para sempre!

Oh, não me importar mais
Com mulher, Deus, Pátria
Viver a alegria, a vida,
E morrer nos salpicos de espuma resplandecente!...

Todavia não sinto desapego:
Amo a Pátria, amo Deus,
Amo o meu amor e em nome da felicidade
A amargura humildemente aguento.

Temo o dever, inquieta-me o amor,
Para viver livremente sou fraco demais...
Oh, será que a liberdade é impossível,
e o homem é escravo até morrer?

Dmitrii Merezhkovskii (1866-1941)

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Toska - Saudade - Duhkha

"Se eu escrevesse um diário, registaria constantemente as seguintes palavras: «Tudo me é estranho, sinto-me fragmentado, sempre, sempre aquela "тоска" pelo outro, pelo que me transcende.» Toda a minha existência é "тоска" pelo transcendente." - Nicolai Berdiaev

Tоска, em cirílico - Toska, em latim, é uma palavra de origem eslava e significa dor, tristeza, inquietação, limitação, restrinção, inquietação. Talvez, de alguma forma, "toska" esteja relacionada com "saudade". Segundo Berdiaev, toska é um sentimento direccionado para o mundo transcendente e é acompanhado por um sentimento de vazio, insignificância, perecibilidade do mundo em que nos encontramos. Toska erradia a solidão sentida pelo homem face ao transcendente, solidão essa derivada da experiência da ausência do divino. Toska é um sentimento Entre pois jaz entre o abismo do não-ser (nada niilista) e o transcendente divino. Assim, se toska é desespero, toska também é esperança, salvação.

Tal como "toska", a "saudade" não tem origem nas línguas indo-europeias. Talvez a palavra sânscrita que mais se assemelhe a "toska" e a "saudade" seja "duhkha" que significa impermanência, transitório, dor física, insatisfação, medo, mal-estar, medo de perder, insegurança, estar dividido, partido ao meio, separado de algo.

O homem sente-se separado, fragmentado, só, angustiado, dividido. É a condição humana que toma consciência da sua perecibilidade. A morte. Todavia, esta consciência pode ser um catalizador para uma busca escatológica - Sehnsucht - a busca do Ser. Como buscar? Como encontrar um caminho para trilhar? Podem a religião, a arte, a ciência ou a filosofia encontrar soluções que apaziguem o sofrimento inerente à condição humana? Devemos crer ou ter fé? Devemos acreditar ou experenciar essa Saúde obscurecida que jaz em todos nós? Devemos saber ou saborear?

Crente é pouco sê-te Deus
e para o nada que é tudo
inventa caminhos teus
- Agostinho da Silva