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sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Do Exílio Saudoso... (Algumas re(flexões)

O vir a ser é que é o fundamento da Saudade. O sentimento nostálgico de algo que não é mais, não tem a sua origem no depois da Origem, tão só no antes que é a ignota Origem desse Tudo-nada. Deus é um efeito, tal como a Saudade, não a causa. Deus é uma ausência para si mesmo. Estará Deus, então, enganado em si mesmo? Erro que, por contágio dual, o homem sente, quando pensa existir separado da sua sombra saudosa.

Das causas e dos efeitos, o Homem, criatura caída no intervalo, no entre ilimitado de si mesmo, nada sabe e de tudo se esquece, dissolvido no que crê ser a realidade de tudo. Como quem caminhasse no deserto, na distância profunda entre a luz que crê existir e a sombra que dela provém, o homem caminha até ao esquecimento e à quietude da indiferença e da descrença, revolvendo na areia imensa que deixa atrás e depois de si, o não-lugar de onde caiu em luz arrefecida. Caminha só. Os profundos sulcos na areia são pó de outros e longínquos desertos iluminados de sombra fugidia. O claro-escuro das nuvens que contempla, entre as árvores de um bosque, em busca de uma Árvore que ainda não nasceu. Que nunca houve nascida. Caminha nascido de uma lembrança de si, uma Saudade transcendida de si e de Deus.

Antes da palavra e do pensamento, antes mesmo da ideia de uma palavra e de um pensamento. Fundo exílio que à razão escapa, como se quiséssemos parar o Sol que, entre as árvores, entre o fluxo das ondas de luz (para usar a mesma metáfora do bosque), com a mão vazia da sua incompletude radical, o homem sonha, na dualidade e multiplicidade da sua ilusória face. A sua mátria original.

Pascoaes caminha pela montanha. Na sua cabeça arde uma terrível pedra. Uma terrível perda. Arde nesse exílio a esperança de um regresso. Mas o tempo nasce com o mundo e a criança segura na mão uma mão-cheia de areia do deserto e aí encontra o tempo. Nesse esquecimento de si, dentro do sonho do mundo original criado pelo encontro saudoso do instante. Fica aí, iluminada pela sombra. O exílio é não encontrar esse entre em parte alguma, a não ser no sonho de o ter vivido. Sonho esquecido, ardente, vivido.

Aí a luz é vertical, e o homem reflexo desaparecido de si no mundo. Recolhe a si o em si velado de tudo. Eis o Homem desfeito em esperança! Vêem-no os poetas e saúdam-no as fontes, os rios e o mar, apelo de todas as águas matriciais que se fundem numa paz que não sendo deste mundo nele se desfaz em ondas de luz difusa. No horizonte, um dedo esticado aponta ao oriente do Oriente, de uma pátria terrível e abismada fonte.

Para a morte não há caminho de regresso. É Encontro. A vida é antes do tempo. A Saudade é futuro visionado. Espectro exilado do ser. Esperança florida, presença ausente. Em tudo flore o exílio saudoso. É tudo, sendo nada. É um entre nada, entificado em outro. Uma cabeleira em chamas, a beleza do seu olhar constelado. Além-Deus!

sábado, 23 de janeiro de 2010

Pensamento EnTre-Abimos

O poeta é um ser autofágico. As páginas dos seus livros e o Silêncio das suas palavras, voltam-se para dentro e devoram-lhe, demoradas: alma e olhar. EnTre eles, alguém espreita.

Vazio espelho do desejo de plenitude. Frente ao porto onde os barcos partem sem regresso para uma viagem sem ser. Uma viagem que nem isso é. Um estar. É enTre o algures desse nenhures que estamos.

As palavras batem no peito, cadentes. Sinos ecoam enTre as montanhas de pedra e as casas junto ao mar. Um coração vai ao encontro da noite e entra num porto sem sentido. Entrado no labirinto do Nada, tudo é Nada fulgurante.

Com uma estrela que fosse o negro mais ausente, és para a luz um nada, mas na luz que retorna iluminas o mundo, semeando-o divino. EnTre-Unviversos.

É o mistério, o sem existência e sem nome, que chamamos desesperadamente, quando o grito cai na água e não se ouve um único ruído nessa queda. É EnTre eles que subimos

Caíste no abismo de mim. Talvez tenha sido nessa absurda luz que nos não encontrámos. Como poderia isso ser? Um abismo a engolir um mesmo abismo? EnTre-Abismos