quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Entrevista de Daniel Duarte a Paulo Borges sobre Fernando Pessoa, Filosofia e Literatura



“Aquí se verá cómo el Profesor” Paulo Borges, miembro del Comité Científico del Coloquio, “responde a las cuestiones que le plantea” Daniel Duarte, respecto a Pessoa, a la Literatura y a la Filosofía en su vida, en su trabajo y en la actualidad. (a propósito do Colóquio Internacional "Fernando Pessoa em Barcelona", 8-9 Outubro)

I

- O Paulo Borges é Investigador e Professor de Filosofia. E dedica-se em especial às áreas da Filosofia da Religião e da Filosofia em Portugal, entre outras. No entanto, todo o seu trabalho é atravessado pelo seu interesse pela Literatura, em especial pela Poesia: estou certo?
- Sim, na verdade… Penso que a experiência literária, em particular a experiência poética, é uma das mais profundas que o Homem pode ter. E é uma das fontes mais interessantes para o exercício da hermenêutica filosófica. Como o próprio Kant reconheceu, as imagens, as imagens simbólicas, ajudam-nos a pensar para além do já pensado, a questionar e a transcender os conceitos já elaborados. Nesse sentido, a literatura e particularmente a poesia serão sempre uma fonte inesgotável de conhecimento, de conhecimento mais intuitivo, não é?, para o exercício da razão filosófica: daí o meu interesse.

- Quer dizer, então, que a Literatura não é apenas uma forma de expressão da Filosofia, é também um motor da Filosofia?!
- Sim, podemos dizer que sim, no sentido em que a Filosofia também é Literatura… Uma Literatura que se autoreflecte, reflectindo a Literatura original que é o próprio mundo.

- Em termos muito gerais, qual é para si a relação que existe, ou deveria existir, entre Literatura e Filosofia?

- Não vou dizer qual é a relação que deveria haver, porque não penso que se trate do que deve ser, mas sim, antes, de constatar aquilo que existe. O que me parece é que, por um lado, a experiência literária, a escrita literária, é, como eu disse, um material, um recurso importante para o exercício da razão filosófica. Mas, por outro lado, pode-se considerar que na própria Literatura, tal como na Poesia, ou sobretudo na Poesia, há já um modo de pensar que pode ser considerado implicitamente filosófico. Não é decerto explicitamente filosófico, não é formalmente filosófico, mas há uma filosofia, ou um pensamento implícito, na experiência literária. Antes mesmo da expressão literária, destacaria a importância da experiência literária, da experiência poética, e é aí que a Filosofia pode ir beber... No fundo, seria uma forma também de regressar às origens da própria experiência filosófica. Eu sou muito sensível à perspectiva, por exemplo, de uma autora como a María Zambrano, que diz que a Filosofia surgiu por uma espécie de violência feita sobre a experiência originária da própria Filosofia, que seria a experiência do espanto poético. Enquanto o poeta (ou o místico) fica de algum modo suspenso nessa experiência do espanto perante o maravilhoso da presença imediata e sensível do mundo, o filósofo carece de violentar essa experiência originária para se separar dela, para poder começar a pensar sobre ela e sobretudo para a conceptualizar. Uma filosofia que regressa à experiência literária e poética é uma filosofia que regressa também às suas próprias origens e que se reconcilia com elas.

- E quais são as particularidades da relação entre Filosofia e Literatura em Portugal e no espaço da lusofonia?
- Gostaria de falar mais sobre a dimensão portuguesa. É mais ou menos reconhecido, por vários historiadores, estudiosos e comentadores do pensamento português, que, em Portugal mais do que porventura noutras culturas, o pensamento filosófico se exerce no modo híbrido de uma relação radical com a experiência literária e a experiência poética, entre outras: também com a experiência religiosa, com a experiência espiritual, com a experiência estética, com a experiência política, com a experiência histórica, mas talvez com uma tónica maior na experiência literária e na experiência poética. Em Portugal tende-se a pensar o impensável por via conceptual e daí a mediação privilegiada da imagem simbólica e da metáfora. Embora isso nem sempre tenha sido pensado e reconhecido, creio que, pelo menos em Portugal, a consciência dessa relação profunda entre Poesia e Filosofia data do final do século XIX, início do século XX, com autores como Antero de Quental, que aliás praticou os dois géneros, Teixeira de Pascoaes e o próprio Fernando Pessoa..., e a partir daí são muitos os autores, chegando mais perto de nós, como o Vergílio Ferreira e outros, que têm consciência das profundas relações entre Filosofia e Literatura e que cultivam essas relações.

- A poesia lusófona.., ou portuguesa, é mais rica filosoficamente do que outras poesias, noutras línguas?
- Não consigo responder a isso, porque precisaria de conhecer outras poesias tão bem como conheço ou como vou conhecendo a poesia portuguesa. Mas estou convencido de que, pelo menos nas línguas, literaturas e poesias de outras culturas que conheço, encontramos também uma Poesia eminentemente filosófica, uma Poesia metafísica, uma Poesia que nos oferece visões do mundo, e portanto não diria que a poesia portuguesa é mais filosófica.

- Também existe em Portugal, como em todo o espaço lusófono, uma literatura filosófica de género académico: é a tradição filosófica académica mais pobre em Portugal ou noutros países lusófonos do que noutras comunidades linguísticas? Ou em que medida é que se pode dizer, se é que se pode, que a filosofia lusófona se encontra expressa sobretudo na poesia? E a que é que se deve esse fenómeno, em todo o caso, ou que valor lhe devemos dar?
- Diria talvez que em Portugal a Filosofia se emancipou menos da Literatura, da Poesia, do Mito e da experiência religiosa, anterior às religiões, o que considero um factor positivo, na medida em que isso significa um afastar-se menos da Vida nas suas expressões mais originárias e intensas... Alguns consideram que isso corresponde a um certo hibridismo, a uma certa imaturidade do pensamento filosófico português, que deveria ser mais formal, mais sistemático, mais académico, mas eu penso que..., naturalmente, isso traz desvantagens para o pensamento português em termos da sua sistematicidade e rigor lógico-formal, mas, por outro lado, essas desvantagens são o outro lado da moeda, que apresenta muitas vantagens: o pensamento português é um pensamento mais aberto, mais aberto à metáfora, ao símbolo, à imagem, mais aberto, diria até mesmo, a outras possibilidades da consciência, não-conceptuais e meta-discursivas, mais do que um pensamento muito lógico-formal e académico.

- Pode é ter dificuldades em competir, no mundo actual, com filosofias mais formais, não?
- Num sentido sim, mas no mundo actual também há uma reacção contra essas filosofias mais formais, também há uma busca de um pensamento mais híbrido, mais informe, mais invertebrado, e nessa perspectiva penso que está ainda por descobrir toda a riqueza do pensamento ambíguo, do pensamento anfíbio que existe em Portugal, que é um misto de Filosofia e Poesia. Se viermos a ganhar mais visibilidade cultural no mundo, estou convicto que muitos estrangeiros se poderão interessar muito pelas singularidades do pensamento português e, precisamente, por essa relação íntima entre Poesia e Filosofia que, por exemplo, tão bem se expressa no pensamento aforístico, muito cultivado entre nós, e que não deixa de representar o ressurgimento de um modo de pensar mais intuitivo e sapiencial, próprio da aurora pré-socrática da Filosofia no Ocidente.

- E quanto à Religião, onde é que a situa, em termos gerais, em relação à literatura e à filosofia de expressão portuguesa?
- Bom, tem sido notado, também, que um dos temas recorrentes ou mais presentes na nossa literatura e também na nossa filosofia é o tema, enfim, do sentido último da existência e da realidade primordial ou última, é o tema do que alguns designam como”Deus”. E a seu par a questão do mal... O Professor António Braz Teixeira, entre outros, destaca essas questões de Deus, do mal e da saudade. A saudade…, o sentimento de uma saúde primordial e simultaneamente de uma falha metafísica, de uma cisão originária, de uma ruptura ontológica, que de algum modo antecede e condiciona ou projecta a nossa constituição relativa no mundo. Disso resulta a saudade como memória e desejo de uma plenitude anterior à própria existência, que aspira a autodevorar-se no regresso ao que no fundo jamais deixámos de ser. São temas muito marcantes na nossa vida e cultura e daí na nossa literatura e filosofia, que em muitos autores assume um carácter marcadamente gnóstico. São temas de carácter metafísico e que têm naturalmente a ver com religião e espiritualidade. Diria até que têm a ver mais com a espiritualidade, porque para mim a espiritualidade não se reduz à religião e a religião não esgota a espiritualidade. Eu diria que há preocupações e inquietações espirituais que atravessam a nossa cultura poética, literária e filosófica..: às vezes são também preocupações religiosas, são preocupações enquadradas nesta ou naquela tradição religiosa, mas muitas vezes não.., correspondem a uma inquietação espiritual que não é facilmente conceptualizável como pertencendo a esta ou àquela religião.

- Pode-se dizer que a Literatura é uma Religião decadente, ou decaída, pode-se dizer que a Religião degenera em Literatura, como diz Giorgio Colli? E que valor terá esse fenómeno, um valor puramente negativo? Poderá a decadência da Religião ser um meio para o nascimento de uma expressão religiosa mais consciente?
- Creio que num sentido sim, como continuidade da decadência da própria experiência espiritual em religiões do Livro, pois a letra mata e o espírito vivifica, como disse São Paulo. Agora isso pode não ser apenas negativo, se a literatura convidar a uma experiência espiritual mais profunda e mais livre do dogmatismo religioso. Para isso, todavia, a literatura tem de convidar ao silêncio e à transcensão de si mesma, que é a transcensão do autor.

II

- E Fernando Pessoa, como é que o situa na Filosofia da Religião e na Filosofia em Portugal? Nas suas dissertações de mestrado e de doutoramento, em 1988 e em 2000, são Padre António Vieira e Teixeira de Pascoaes, respectivamente, os autores que analisa em especial e que mais lhe servem de ponto de partida para a reflexão, mas já na sua “adolescência”, segundo julgo saber, o Professor tinha uma “relação próxima, e por isso crítica, com a experiência pessoana”, a qual tem sabido manter, ou renovar., como demonstram as inúmeras publicações em que nos vem dando conta das suas investigações sobre Fernando Pessoa...
- Bem, tenho procurado compreender a singularidade de Fernando Pessoa à luz da sua radicação, por um lado, na tradição universal do pensamento e da literatura, mas também, muito particularmente, na tradição do pensamento e da literatura portugueses, onde me parece que o Fernando Pessoa continua a seu modo uma relação que para ele foi muito importante, que foi a relação com Teixeira de Pascoaes e com o saudosismo, como tem sido reconhecido por Eduardo Lourenço e outros. Mesmo quando ele assume a sua independência.., a sua rejeição, até, do Pascoaes e do saudosismo e do movimento da Renascença Portuguesa, ele não deixa de o fazer, precisamente, tomando posição contra aquilo que rejeita, pelo que acaba por ser condicionado por aquilo que rejeita. Por outro lado, eu entendo muito o Pessoa à luz dos ensaios que publicou em 1912 nas páginas da revista “A Águia”, do Teixeira de Pascoes, onde mostra como está profundamente impregnado do sentido de uma tradição poética que ele remonta ao Antero de Quental e que prossegue até ao Teixeira de Pascoaes e aos seus discípulos saudosistas... Eu leio Pessoa à luz de toda uma tradição de pensamento, que é também a tradição do Antero de Quental, do Sampaio Bruno, do Guerra Junqueiro e do Teixeira de Pascoaes, uma tradição que considero neognóstica. É claro que isso já não remete apenas para influências portuguesas, remete para coisas muito mais antigas, não é?, para uma matriz de pensamento, para uma estrutura de visão do mundo, onde é fundamental a experiência de uma cisão, de uma fractura..., entre o ser e a consciência, entre a consciência e ela própria, entre o ser e o sentido.., e que é constitutiva da nossa experiência mais imediata do mundo. Pessoa, aí, situa-se numa linha neognóstica clara e, nesse sentido, o pensamento de Pessoa tem todo o interesse para a Filosofia da Religião e para uma das matrizes mais importantes da Filosofia em Portugal, que é precisamente essa matriz neognóstica: o sentimento de se estar no mundo como sendo estranho ao mundo, porque algo em nós, como Pessoa diz num dos seus sonetos ingleses, algo em nós é anterior à própria constituição do mundo e ao próprio Deus que concebemos para explicar a constituição do mundo. Portanto, há qualquer coisa no homem que é da ordem do incriado, mas que está sujeito ao drama da inserção no espaço e no tempo, ao drama da existência. Apesar de este drama ser por Pessoa visto como ilusório, é daí que vem na sua perspectiva a nossa profunda inquietação, tema onde dialoga com outros grandes pensadores portugueses e universais.

- Esse será, então.., o ponto em que está mais de acordo com o Pessoa...
Sim, na verdade, sinto-me próximo dessa matriz de pensamento, que é também uma matriz de pensamento que, a meu ver, se articula muito com as culturas orientais, embora estas tenham a vantagem de ser menos trágicas e dramáticas. É uma linha de investigação que tenho também procurado seguir, que é ver as pontes, explícitas e implícitas, entre os pensadores e poetas portugueses e as tradições orientais: no caso do Pessoa elas são flagrantes. Em Pessoa e Pascoaes há uma linha de pensamento que vê o mundo como um jogo ilusório, como ilusão da consciência, e nisso há um diálogo óbvio com a noção indiana de Maya, com a ilusão cósmica, enfim, e também com a noção de ilusão do barroco, onde já se trata de uma influência mais ocidental...

- Com o neoplatonismo...
- Com o neoplatonismo, exactamente… Há pouco esqueci-me de dizer isso, mas vejo Pessoa, desde a poesia inglesa e acentuadamente nos textos mais esotéricos, também muito nessa linha neoplatónica, que a meu ver marca muito toda a tradição do pensamento e da filosofia portugueses contemporâneos, com a ideia de uma fonte inefável de onde emana todo o múltiplo que a ela aspira a regressar, transcendendo o sensível e o inteligível.

- E em que ponto é que está em maior desacordo com Pessoa?
- Não é uma questão de desacordo, é questão, enfim, de sentir que em termos humanos falta qualquer coisa a Pessoa, que a meu ver será uma maior abertura à experiência da empatia, da compaixão, do amor... São experiências com que Pessoa não lidou bem, a partir da sua própria vida: há uma certa incapacidade de amar, uma certa incapacidade de compaixão, embora ela por vezes irrompa, que me deixa um pouco desolado na leitura dos textos pessoanos. Há uma certa crueza demasiado intelectual, que já no Pascoaes não encontro. Acho que o Pascoaes, nesse sentido, é mais completo, é alguém que tem uma intuição profunda, que diz coisas tão importantes ou às vezes mais importantes do que o próprio Fernando Pessoa, mas que tem ao mesmo tempo capacidade de empatia profunda com os seres vivos, com o mundo, com a natureza: o que em Pessoa não deixa de ser procurado, porque, no fundo, uma das grandes buscas pessoanas, nomeadamente por via do heterónimo Álvaro de Campos, é o “sentir tudo de todas as maneiras”, ser e sentir tudo de todas as maneiras, mas a meu ver é mais procurado do que vivido, sobretudo no Pessoa ortónimo e no “Livro do Desassossego”. Mas, enfim, isto não é uma questão de estar em desacordo, é mais uma sensibilidade a algo que considero crucial para a plenitude da vida humana e que a meu ver poderia tornar Pessoa ainda maior do que já é.

- Eu.., no meu caso.., acho importante.., acho que é importante ter compaixão, mas não tenho tanta certeza de que o Pessoa tenha sido incapaz de a viver..: e acho que a compaixão pode ser também uma.., uma dependência...
- Sim, mas para mim a verdadeira compaixão nunca se torna dependente: isso é a compaixão emocional e sentimental, sem a sabedoria que transcende a dualidade eu-outro.

- Sim...
- Eu compreendo que o Pessoa não tenha ido..., não tenha querido ir pelo caminho do sentimentalismo e das emoções..., meramente psicológicas: aí aprecio-o, mas acho que o amor...

- Às vezes pode ser uma prisão.., o falso amor, pronto.
- O falso amor: o amor quando se ama esperando alguma coisa em troca, não é? Esse é o falso amor do homem comum. Mas há o outro amor, o grande amor, que é o amor das almas nobres, que não esperam reconhecimento nem retribuição e o estendem a todos os seres e à própria realidade como um todo..: é desse amor que eu falo.

- De acordo... Em todo o caso, na “Introdução” do livro de estudos e ensaios pessoanos que publicou em 2011, “O teatro da vacuidade ou a impossibilidade de ser eu”, o Professor diz-nos que no início o “impacto” que teve em si Mário de Sá-Carneiro foi maior do que o que teve Pessoa: e o impacto que têm hoje um e outro, ou Vieira ou Pascoaes, ou Camões.., é possível dizer qual dos autores por si estudados, portugueses ou não, tem hoje maior impacto no seu pensamento ou na sua vida?
- Bom, na verdade..., o primeiro grande impacto que eu tive..., o primeiro grande impacto que senti de um poeta na minha vida foi o de Mário de Sá-Carneiro..., no qual me reconheci, identificando-me muito com o que ele escreveu, com a experiência que ele expressa em muitos dos seus poemas, mas logo a seguir foi Pessoa e foi muito mais tarde que descobri Pascoaes e outros poetas portugueses, como o Antero de Quental, que é para mim uma grande referência. Hoje em dia é muito difícil avaliar o impacto que eles têm no meu pensamento e na minha vida: eu diria que foram deixando marcas, quer dizer, tenho muitas marcas do Padre António Vieira, tenho marcas do Luís de Camões.., mais recentemente e mais notoriamente tenho marcas de Pascoaes e de Pessoa.., além de Antero, mas é difícil dizer qual deles me marca mais. Na verdade, quem me marcou mais, a par dos meus mestres budistas tibetanos, foi Agostinho da Silva, com quem tive o privilégio de conviver nos últimos doze anos da sua vida. Além disso, e sem esquecer pensadores como José Marinho, Eudoro de Sousa e Vergílio Ferreira, ou sábios como o Buda Shakyamuni, Lao Tsé, Cristo, Plotino, Mestre Eckhart, Nagarjuna e Longchenpa, penso que o que me marca mais é a tentativa de fazer uma síntese de todas estas influências, portuguesas e não só, e de as superar, numa síntese minha, numa síntese de pensamento e de experiência, que considero que não é redutível a qualquer um dos autores que me influenciam, com excepção daqueles que considero seres despertos e insuperáveis, como o Buda Shakyamuni, Nagarjuna e Longchenpa.

- O próprio Pessoa era bastante favorável às sínteses, também procurava sintetizar, ou até mesmo superar, não é?
- Sim, sim, nesse sentido continuo o projecto de trabalho, digamos, que herdei do Fernando Pessoa.

III

- Por outro lado, no livro que referi, “O teatro da vacuidade ou a impossibilidade de ser eu”, publicado o ano passado, o Professor diz-nos que “a obra pessoana começa a ganhar mais visibilidade filosófica, nacional e internacional, após sobre ela ter sobretudo incidido o foco dos estudos literários.” Também nos diz, é certo, de acordo com o pacifismo que me parece caracterizar o seu pensamento, que o que “espera” é que “as abordagens filosófica e literária de Pessoa” se “animem” “a darem-se interdisciplinarmente as mãos para que toda a sua riqueza de pensador e escritor possa revelar-se a uma outra luz, inaugurando uma nova fase dos estudos pessoanos”. Não obstante, pois, pergunto-lhe: em que medida, um pouco mais em particular, é que a referida atenção filosófica é um traço distintivo da actualidade dos estudos pessoanos, ou em que medida é que a inauguração dessa nova fase dos estudos pessoanos de que fala depende da recente atenção filosófica sobre os escritos, quer poéticos quer ensaísticos, quer narrativos, ou simplesmente avulsos, de Fernando Pessoa e dos seus heterónimos?
- Bom, eu penso que sempre houve, desde os primeiros tempos, desde a génese dos estudos pessoanos, sempre houve…, e estou a pensar por exemplo na obra do Jacinto Prado Coelho, “Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa”.., sempre houve a consciência de que a obra de Fernando Pessoa tinha uma considerável importância filosófica. Agora, o que me parece é que houve todo um ciclo, que tem durado até há poucos anos, em que de facto os estudos literários têm dominado mais a hermenêutica pessoana, que fez com que a importância filosófica da obra de Pessoa não tenha sido suficientemente reconhecida, porque não houve hermeneutas com a formação filosófica suficiente para detectar todos os diálogos explícitos e implícitos do autor com a tradição filosófica ocidental, ou mesmo planetária. Mais recentemente, a inflexão dos estudos pessoanos num sentido mais filosófico, o facto de haver uma nova geração de investigadores formados em Filosofia, especialistas em Filosofia, a debruçarem-se cada vez mais sobre a obra pessoana e a produzirem estudos de envergadura - nomeadamente, também, teses de mestrado e doutoramento - , tem possibilitado que a obra pessoana comece a mostrar toda a sua riqueza filosófica, o que a meu ver constitui, de facto, um novo marco nos estudos pessoanos... Naturalmente, como eu digo e como refere, seria absurdo entrarmos agora aqui numa competição entre uma abordagem filosófica e uma abordagem mais literária: eu penso que a obra de Pessoa é suficientemente rica para transcender essas clivagens e o que ela pede de nós é que sejamos capazes de darmos as mãos interdisciplinarmente, olhando para Pessoa a partir de ambas as perspectivas e de outras perspectivas ainda, porque o que uma obra como a de Pessoa pede.., uma obra poliédrica e heteronímica.., é que olhemos para ela a partir de todos os pontos de vista possíveis.

- Por isso é que começou por dizer que a não-emancipação da Filosofia pode ser positiva, não é?
- Pode ser positiva, sim..., em relação à Literatura?

- Sim.., que o que é positivo é darem-se as mãos os dois pontos de vista...
- Sim, sim, o que é positivo é darem-se as mãos os dois pontos de vista, até porque, como continuo a dizer, não considero que a Filosofia e a Literatura sejam propriamente disciplinas separadas: digamos que os estudos académicos acabaram por separá-las, mas na experiência humana elas estão intimamente ligadas.

- E a Ciência?
- Bem, a Ciência, na sua dimensão teórica, vejo-a como uma aplicação da Filosofia… Portanto, não a vejo, também, separada da Literatura e da Poesia: há Poesia e Literatura presentes na Ciência. Além da Ciência ser apenas uma versão possível do mundo, e de ter assim uma dimensão de criação poética, há metáforas científicas, muitas vezes a Ciência precisa de recorrer às metáforas e hoje recorre muitas vezes… Ao nível da Física Quântica fala-se da dança da energia e das partículas, fala-se do jogo dos fenómenos.., enfim, são metáforas, metáforas que vêm da Filosofia, da Literatura e até da Religião e da Mitologia… O jogo dos deuses, Lila, e a dança cósmica de Shiva, Nataraja, o Senhor da Dança…

- E talvez, por outro lado, haja algo de científico na Literatura e em toda a Arte, não? Há pelo menos racionalidade, rigor...
- Há pelo menos, e é muito, o rigor trans-racional da intuição sensível… Mas claro que também há racionalidade, uma racionalidade mais aberta do que a razão meramente formal e analítica de certas filosofias…

- Certo.., seria bom ouvi-lo falar um pouco mais sobre o tema, mas voltando agora aos estudos pessoanos... Na entrevista que nos concedeu, Jerónimo Pizarro, não sendo oficialmente um académico de Filosofia, considera que actualmente o maior desafio na investigação sobre Pessoa é a “crescente vastidão desse universo, em termos biográficos e bibliográficos”, concluindo que “dentro de cem anos” o que acontecerá é que “serão necessários outros cem para ler tudo o que Pessoa e os seus críticos” todos terão “escrito”. E, no entanto, ao mesmo tempo Pizarro considera que, num certo sentido, o de alguma falta de “diálogo”, de alguma falta de “dinamismo” das instituições “portuguesas” e de alguma falta de “internacionalização”, “os estudos pessoanos” “ainda” nem sequer “existem”, não como os husserlianos, por exemplo, ou outros, mais consolidados..: haverá algo de verdadeiro, ou pelo menos de filosófico, na aparente contradição?
- Bom, esse último juízo considero-o de todo infundamentado e excessivo… Perante umas boas décadas de estudos pessoanos, com tantos estudiosos e intérpretes da mais elevada qualidade, que são referência para todos nós, e não preciso de citar nomes, como é possível ignorá-los e dizer que eles não existem!?... Agora, estou de acordo com o Jerónimo Pizarro quando diz que há uma certa falta de diálogo, que eu diria, fundamentalmente, ser uma falta de diálogo entre investigadores individuais, investigadores pessoanos individuais, e entre grupos de investigadores. Muitas vezes constituem-se grupos, compartimentos estanques de investigadores, que não só não têm relação entre si como não querem ter essa relação e até cortaram relações entre si. Isso é lamentável, lamentável do ponto de vista humano e lamentável do ponto de vista científico: todos nós perdemos humana e cientificamente com isso, com essa situação. Penso que é uma situação que o nosso próprio amor filosófico e literário pela obra de Pessoa nos exige que superemos e que deve ser superada quanto antes. Quanto a haver alguma falta de dinamismo das instituições e falta de internacionalização, penso que pode e deve sempre haver maior dinamismo e cooperação institucional, mas também constato que começamos a assistir a algumas iniciativas muito interessantes, que se prendem precisamente com uma crescente internacionalização dos estudos pessoanos: começamos a ver iniciativas científicas e linhas de investigação a acontecerem em Portugal com muitos doutorandos estrangeiros que estudam filosoficamente a obra de Pessoa, como acontece no Departamento e Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, onde trabalho, e a acontecerem também fora de Portugal, noutras universidades. Há hoje um crescente interesse pela obra de Fernando Pessoa em todo o mundo e há também a crescente presença nos grupos de investigadores pessoanos e na produção de teses e de livros de pessoas que vêm de fora de Portugal. Há muitos estrangeiros que integram grupos de investigação pessoanos e há também estrangeiros a participar em colóquios e outras iniciativas científicas em Portugal, já para não falar das que têm lugar fora de Portugal... Neste momento até se nota que os investigadores estrangeiros estão particularmente activos, até mais do que os portugueses, no domínio dos estudos pessoanos: a esse nível não considero que haja falta de internacionalização, embora possa ser cada vez mais desenvolvida, como é óbvio, e é para isso que trabalhamos.

- Então.., não está muito preocupado com o futuro dos estudos pessoanos e do próprio legado de Pessoa, nomeadamente na actual conjuntura económica e política?
- Bem, é claro que numa conjuntura em que as pessoas, e em particular a governação, estão mais ou quase só preocupadas com a economia e com as finanças, o meu maior temor é em relação a toda a Cultura..: A grande Cultura, que está aliás em risco de extinção, passa sempre para segundo, terceiro, quarto ou quinto plano. Mas penso que neste momento os estudos pessoanos estão assegurados, a não ser que haja um colapso económico-financeiro..., o que não deixa de ser uma possibilidade que está neste momento em cima da mesa, em cima da mesa do mundo e particularmente da Europa. Todavia, aquilo que de imenso já se fez nos estudos pessoanos permite garantir, neste momento, que muito mais se continuará a fazer: penso que à obra pessoana nunca faltarão hermeneutas e comentadores. A dificuldade, e só aí estou mais de acordo com o Jerónimo Pizarro, vai ser que, à medida que o tempo passa, vamos ter cada vez mais coisas para ler, quer do próprio Pessoa, quer dos comentadores do Pessoa, mas isso é bom sinal e é o que acontece com todos os grandes autores, é o que acontece com Platão, com Aristóteles, com Kant, com Nietzsche, com todos os grandes pensadores e todos os grandes escritores. Por outro lado, para acedermos ao essencial do próprio autor, podemos sempre, numa atitude mais despojada, ler os seus textos directamente… A não ser que estejamos a fazer um trabalho académico, não precisamos de ler necessariamente todos os comentadores.

- E em que medida é que lhe parece que pode ser útil, intersubjectivamente, intergeneracionalmente, internacionalmente, interdisciplinarmente.., realizar reuniões científicas como o Colóquio Internacional “Fernando Pessoa en Barcelona”?
- Não só é útil como é fundamental e corresponde ao próprio dinamismo de internacionalização da obra do Pessoa. Eu penso que, no fundo, isto que está a acontecer, este colóquio agora em Barcelona e outros internacionais que se prevê que venham a acontecer, dentro e fora de Portugal, corresponde ao próprio dinamismo da obra pessoana, que é uma obra com um forte espírito cosmopolita..., com um forte espírito universalista...: é uma obra por um lado muito portuguesa, mas o que ela tem de mais português é precisamente, como Pessoa assume, essa dimensão universalista e trans-portuguesa, trans-lusíada e trans-lusófona. Pessoa viu claramente que a nossa maior vocação é a do espírito cosmopolita e universalista e que Portugal é um sinónimo de universalidade, sendo vocacionado para o que chamei, num livro de 2010, a visão/abraço armilar do mundo: nesse sentido, é natural que surja este colóquio em Barcelona e que outros venham a acontecer. Vejo neste momento a obra de Pessoa como aquela garrafa com uma mensagem que Portugal lança ao mar e oceano do mundo e que pode ser recebida e lida por homens de todo o planeta que nela se podem reconhecer e a podem acrescentar da sua leitura culturalmente diferenciada. Isto porque Pessoa escreve a partir de experiências que são fundamental e universalmente humanas, onde todo e qualquer homem, independentemente da sua cultura, se pode reconhecer. Nesse sentido, o destino de Pessoa é ser tudo, de todas as maneiras, precisamente o programa do Sensacionismo e o mesmo destino que anteviu para Portugal: quando lhe perguntaram qual era o destino de Portugal, respondeu “é sermos tudo”, o que para ele é o Quinto Império. É esse também o destino da obra de Pessoa: chegar a todos, de todas as maneiras. E talvez seja o de todos nós, pelo menos interiormente. Identifico-me plenamente com o que escreve Bernardo Soares: “Posso imaginar-me tudo, porque não sou nada. Se fosse alguma coisa, não poderia imaginar”. Que grande e libertadora mensagem para ser encontrada numa garrafa à deriva em qualquer praia ou costa do mundo!

domingo, 16 de setembro de 2012

Versículos



Manifestação

No fundo egoísta mais recôndito
de si mesmo,
eis o que mais interessa.
Todos.
Tudo.


Luís Santos


quinta-feira, 30 de agosto de 2012

O maior medo que cada um de nós em si transporta é o medo de si mesmo

O maior medo que cada um de nós consigo transporta é o medo de si mesmo, o medo dessa região tenebrosa ou sombria dissimulada atrás de cada um dos nossos instintos, emoções, pensamentos e sentimentos, o medo desse pouco confessável ou ignoto território que, por falta de coragem para o afrontarmos face a face, nos condiciona numa contínua fuga para diante de onde resulta toda a avidez e violência, mas também todas as aparências de virtude e santidade, todos os disfarces de amor e compaixão, todos os projectos de salvação universal, com que impregnamos e iludimos o mundo, a começar por nós mesmos. É nessa treva ou sombra que se oculta o infinito luminoso que somos, o fundo comum e os confins sem fim de todos os seres e coisas. Ter a coragem de atravessar e iluminar essa floresta escura, com mais monstros do que todas as mitologias planetárias, numa jornada solitária e nua, sem armas, escudo ou armadura, com o propósito de libertar o universo da nossa ignorância e um dia regressar para incitar os outros à mesma empresa, é a maior realização a que podemos aspirar. Comparada com ela, a história das civilizações, as conquistas tecnológicas e as viagens espaciais são meros e fúteis jogos de crianças adultas.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Reza Mohsenipour: Progetto Masnavì con Shahrokh Moshkin Ghalam,Improvvisazione

“Um espírito verdadeiramente forte e culto não se preocupa de ser nacional ou estrangeiro"


“Um espírito verdadeiramente forte e culto não se preocupa de ser nacional ou estrangeiro, de se parecer ou não parecer com os outros: busca ser o mais profundo, e largo, e alto, e nobre, e sincero e humano que lhe for possível: se assim resultar parecer-se com qualquer outro, aceita o facto; se resultar não parecer-se, aceita também”.

- António Sérgio, Carta a José Osório de Oliveira, 1932
(publicada por Rogério Fernandes em 1981)

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Relincha quando a raiva, toma conta da palavra. 
Coisas da vida que nenhuma escola ensina. 
Na estrada, um eucalipto, desfaz o asfalto. 
Na vila, uma escola vai ser encerrada. 
Tempos ausentes, perdidos no tempo.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

"(...) nunca como agora foi universalmente pressentida a exigência de se privilegiar o vivo perante o totalitarismo do dinheiro e da burocracia financeira"


“Encontramo-nos, no mundo e em nós mesmos, numa encruzilhada de duas civilizações. Uma acaba de se arruinar esterilizando o universo debaixo da sua gélida sombra, a outra descobre, nos primeiros vislumbres duma vida a renascer, o homem novo, sensível, vivo e criador, frágil ramo duma evolução em que, doravante, o homem económico passou a ser um ramo morto, e apenas isso.
Nunca o desespero de termos de sobreviver em vez de vivermos atingiu no tempo e no espaço existencial e planetário uma tensão tão extrema. Também nunca como agora foi universalmente pressentida a exigência de se privilegiar o vivo perante o totalitarismo do dinheiro e da burocracia financeira.
Nunca, em suma, tantas populações e seres particulares foram presa de uma desordem em que se misturam a mais amedrontada servidão voluntária e a tranquila resolução de destruir, sob as vagas do prazer e da vida, os imperativos mercantis que emparedam o horizonte.
- Raoul Vaneigem, A Economia Parasitária, tradução de Júlio Henriques, Lisboa, Antígona, 1999, pp.9-10.

domingo, 5 de agosto de 2012

Águia Cobreira



Nas noites quentes de verão, Robin desenha a lua no pátio. Em silêncio conta as estrelas. 

- Vou pedir à 'águia cobreira' que me leve até ao céu. Quando chegar no limite das nuvens, salto entre as estrelas cadentes até conseguir encontrar uma que me abrace. De longe verei o mundo pequenino. Os homens que hoje me assustam serão tão minúsculos que não me perturbarão mais. Vou cantar alto de braços abertos e dançar como se o céu fosse parte de mim. Entre as nuvens serei mais uma que se dilui na chuva, até ser nuvem de novo. Nas noites frias escondo-me do outro lado do mundo onde o sol vive todo ano. Se a saudade apertar meu peito, desenho um poema até que a dor seja apenas a lembrança do sofrimento. 
De vez em quando, peço à 'águia cobreira' que me leve ao oceano e fique comigo até que eu canse meu corpo e queira regressar ao céu antes do sol raiar.

- Este ano a águia não apareceu. Tens de esperar que o mato seja aparado e as cobras fiquem a descoberto. A águia precisa de as ver à distância. Voar com destreza até que as cace inteiras. Umas são vermelhas e pretas, outras tão verdes que nem a cobra as distingue. Quando a terra estiver castanha elas mudam de cor. Temos de cortar o mato, descobrir as cobras, antes que elas nos mordam as pernas e nos envenenem por dentro.

- A águia vai aparecer. Faz parte da vida dela, esteja o mato aparado ou não. Por isso é a águia cobreira. Depois quando o perigo não for senão o perigo, voarei com ela…

- Anda agora, que a noite é quase manhã e a águia foi-se deitar. Amanhã aparo o mato, dou-te um abraço apertado, escuto teu coração e te beijo com amor, para que possas voar em liberdade…

Nas noites de lua cheia choro a saudade que tenho dele. Não sei se foi a águia que o levou, se foi o mar que o abraçou.

Nota: A expressão 'águia cobreira' foi inventada por um amigo pequenino de 6 anos, que me explicou que ser uma águia que caça cobras.

sábado, 4 de agosto de 2012

Para uma cultura da profunda idade

Ou da profundidade.
Partamos do mais baixo, o tapete.
Sacudamo-lo para que se liberte do pó que por debaixo lhe escondem.
Liberta-se o tapete do pó e sacode-se à janela a poeira.
Já está mais perto de ser um tapete voador. Basta uma mais forte aragem.
Mas lá está o estore, o guarda da saída que não lhe permite altos voos.
Conforma-se o tapete à entrada ou à saída.
Sonha-se voador, como nas estampas das histórias da infância. Também teve infância, o tapete.
Como a vassoura, quando voava sob bruxas.
É curioso este padrão do imaginário de culturas aparentemente opostas, como são a ocidental e a oriental, para pôr a voar os que no chão têm o destino ou a vocação. Vassoura e tapete.
Voadores exímios.
Quando no chão, varre a vassoura o tapete e às vezes para debaixo dele. Porque os objetos são comandados pelas mãos.
Afundo-me então nas mãos. Olho o tapete à janela e imagino mãos pequenas, magras, franzinas, talvez sujas, operando nos fios. Homens, mulheres, crianças, agachados sobre um chão sem tapetes tecem o tapete que agora sonha voar, talvez pela memória dos pequenos artesãos tecendo e sonhando com tapetes voadores.
Que longe estamos desta realidade? A exploração de uns pelos outros é coisa de países subdesenvolvidos? Que memória fraca temos! Que olhar de superfície adotámos!
Aprofundemos o olhar no chão, para lá do tapete, mais fundo, muito mais fundo, e ver-nos-emos.

sábado, 28 de julho de 2012


Quando a árvore descansa
Da tempestade.
Meu homem sai para o mar
Salga seu corpo
floresce  em mim


Na vila onde nasci, os pescadores cantavam enquanto puxavam a rede.
No equinócio de Março, o mar dançava todos os dias. As sereias descansavam e os homens ficavam a salvo. As esposas agradecidas, bordavam as ondas até o sol cansar e deixar a noite tomar seu lugar.
Nas noites quentes os filhos eram semeados com amor. Do mar vinha o peixe, do campo, o arroz a decorar o prato. Da vizinha do lado, o sorriso e um bom dia a dar conta da vida.
Na vila onde nasci, os olhos viam na noite escura. Abrigavam no corpo todos os corpos. Abraçavam até que o coração encontrasse o de todos e desenhasse um sorriso no rosto.
Na vila onde nasci, um dia,  um homem  perdido de dor, incendiou-nos o corpo.
Nada restou, do lugar, onde vivi, senão a canção que a eternizou.

Venho de longe, de um mar que desconheço
Onde o homem mata tudo que nasce
Os beijos são veneno
E os abraços faca afiada

Que febre é a tua, amor
Que não te reconheço

Venho de uma terra perdida
Morta de morte matada
Seca, sem água
Vermelha de sangue

Que febre é atua , amor
Que te perco

Os meninos vivem na rua
Abandonados,
Os homens
Sozinhos, sem casa
Morrem de frio e fome
O sangue desenha o chão
Do animal assassinado.
Venho de uma terra perdida
Que me envenenou a vida

Na vila onde nasci,
um homem perdido de dor,
 incendiou a vida.


Na cidade onde vivo,
há listas negras
de pobres endividados.
Ninguém vê na noite escura.
Nem semeia o amor suado.
Nesta cidade de luto,
os homens do povo
Vagueiam perdidos na rua.
De dia e noite, reza o  verbo
Do débito e do crédito
E por mais que se pague
Continuamos devendo.

De onde vens amor
Que te perco!

Quando a tempestade
Seguir caminho
E a árvore puder descansar
Vou deixar que o homem
Salgue meu corpo
Até que ele seja de novo semente

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Sonhar que se voa

"Sonhei que era uma borboleta, voando no céu; então despertei. Agora pergunto, sou um homem que sonhou ser uma borboleta ou uma borboleta que sonha ser um homem?"
- Chuang Tzu


Muitas vezes sonhamos que voamos. Tudo começa por estarmos a caminhar e, por vezes espontaneamente, outras mediante um pequeno impulso, começamos a flutuar ou levitar e erguemo-nos acima do solo, começando a ver o mundo, as pessoas e as coisas a partir de cima, numa visão cada vez mais ampla e abrangente à medida que nos elevamos. Há experiências em que somos arrebatados para cima ou para baixo e a custo conseguimos controlar e dirigir o movimento. Há outras em que desde o início sentimos que podemos ir para onde quisermos, inclinando ligeiramente a cabeça e o corpo na direcção pretendida ou estendendo e unindo os braços e as mãos à nossa frente e apontando-os no sentido visado. Por vezes basta pensar num determinado lugar ou pessoa para nos encontrarmos imediatamente nele ou na sua presença, como se viajássemos vertiginosamente através do tempo e do espaço. Acontece atravessarmos paredes e obstáculos aparentemente sólidos, como se fôssemos absolutamente imateriais, apesar de mantermos uma certa percepção da nossa forma física. Sucede percorrermos vastas regiões desertas e luminosas ou nocturnas, vendo oceanos, rios, florestas e montanhas a partir do céu, como uma águia, ou então pairar acima de grandes cidades adormecidas, muito acima dos seus mais elevados edifícios. Por vezes vemos claramente as pessoas e tentamos descer, tocar-lhes e interagir com elas, mas não o conseguimos, como se estas não nos vissem e sentissem, como se as nossas mãos passassem através dos seus corpos. Outras vezes, menos frequentes, as pessoas parecem sentir-nos ou ver-nos e assustam-se e fogem. Seja como for, na sua grande maioria são experiências extremamente nítidas, poderosas e gratificantes, que oferecem uma sensação de liberdade quase infinita e que, ao acordar, recordamos demoradamente com saudade, sentindo o seu fim e privação como um limite infeliz das possibilidades do nosso ser, regressado à normalidade da vida quotidiana. O que é surpreendente é a frequência com que as sentimos tão ou mais reais do que aquilo que neste preciso momento percepcionamos e experienciamos.

Muitas explicações existem para este fenómeno, procurando reduzir o desconhecido ao que julgamos conhecer, como as teorias de inspiração psicanalítica e freudiana que falam destes sonhos como uma realização simbólica e sublimada de desejos que não se logram realizar na vida suposta real. Tradições antigas, como a do Yoga do Sonho tibetano, consideram estas experiências como a vivência de dimensões mais subtis e profundas do nosso ser e da nossa consciência, em que estamos mais despertos do sono da vida comum e recuperamos uma liberdade primordial, anterior à fixação num corpo de matéria aparentemente densa. Tal como nos voos chamânicos ou na experiência pós-morte, nesse intervalo ou espaço indeterminado entre uma existência e outra que em tibetano se designa como bar-do (entre-dois). Nesta perspectiva, tudo é um bar-do, pois estamos sempre em viagem, a meio-caminho entre uma coisa e outra, seja na vida, na morte, na meditação ou no sonho. Todavia, segundo esta tradição, para que estas experiências possam ser libertadoras há que tomar consciência, ao sonhar, de que sonhamos, o que é um despertar para as suas plenas possibilidades, mas sem acordar, pois nesta visão aquilo a que chamamos acordar é afinal adormecer num sonho mais denso e ilusório… Para que isto se torne possível há que nos treinarmos, em cada momento desta vida de vigília, supostamente real, a vê-la como um sonho. O que tem, aliás, a vantagem de sabermos que nele tudo é transitório e se pode modificar. Basta percepcioná-lo de outro modo e agir em conformidade, com evidentes vantagens espirituais e sociais.

Bons sonhos!

quinta-feira, 12 de julho de 2012

"Paulo Borges e a ética libertária" - entrevista ao jornal "A Batalha" conduzida por António Cândido Franco


1. João Freire, no livro de memórias que publicou em 2007, Pessoa Comum no seu Tempo (p. 437), cita-te ao lado do Carlos Fabião (hoje arqueólogo e prof. da Faculdade de Letras de Lisboa) como um dos jovens que apareciam por volta de 1975 na antiga sede do jornal A Batalha, na rua Angelina Vidal, no bairro da Graça, em Lisboa, e que foi a primeira que o periódico teve depois da Revolução dos Cravos. Queres recordar em poucas palavras a tua actividade desse tempo?

Foram bons tempos, que recordo com saudade. Tinha 15 anos e despertei de um sentimento de solidariedade com todos os povos oprimidos – que remonta à minha infância, em particular a respeito dos índios norte-americanos – para uma perfeita identificação com a visão da anarquia como a expressão suprema da ordem, numa sociedade livre de poder coercivo. Saíamos do Liceu Gil Vicente e íamos para a sede de A Batalha, fascinados por conhecer as histórias dos anarco-sindicalistas que combateram Salazar e os “comunistas” autoritários do PCP: o Emídio Santana, o Custódio e tantos outros… Foi aí que, com o Fabião e outros amigos, criámos o jornal “Não!”, órgão do Comité Anarquista Revolucionário Malatesta e integrámos a Associação de Grupos Autónomos Anarquistas. Montávamos bancas nas ruas, distribuíamos panfletos, organizávamos manifestações e comícios. Vivemos intensamente o frenesim de tudo ser possível, da política como meio de transformar a vida e a civilização, mas também o desencanto perante o conformismo e o medo que rapidamente domesticaram os portugueses. Incluindo nós próprios e os anarquistas, como mais tarde compreendi, pois queríamos mudar tudo sem primeiro nos mudarmos a nós próprios, como da sua juventude disse também Antero de Quental.

2. Em 2010 fundaste com Luiz Pires dos Reyes a revista Cultura ENTRE Culturas, que publicou até hoje quatro números. A publicação tem como objectivo a criação e o desenvolvimento de um novo paradigma cultural e civilizacional. Queres explicar que novo paradigma é esse?

Um paradigma holístico, que assuma a realidade como uma totalidade orgânica complexa, em que tudo está interconectado e não há seres isolados, mas entre-seres, feixes de relações e processos dinâmicos em constante mutação e simbiose. Um paradigma que sobreponha ao crescimento económico e tecnológico a expansão da consciência, a felicidade de todos os seres, humanos e não-humanos, e a harmonia ecológica. Um paradigma universalista, que promova o diálogo fraterno entre povos, nações, culturas e religiões, mas também entre religiosos, ateus e agnósticos. Um paradigma não-violento e libertador, que promova alternativas éticas e saudáveis em todas as áreas do conhecimento e da actividade humanos.
Interessa-nos promover este paradigma na cultura portuguesa e lusófona, cultivando as suas melhores tendências neste sentido.

3. No blogue da revista Cultura ENTRE Culturas está escrita a seguinte frase: O estado não-violento ideal será uma anarquia ordenada. (entrada de 8 de Maio de 2011). É assinada por Mahatma Gandhi. Queres comentar?

A realidade é an-árquica e caósmica, no sentido de ser uma totalidade autogerida que desconhece qualquer princípio exterior e absoluto e se apresenta como um dinamismo criador com todas as possibilidades a cada instante em aberto. A violência começa na sempre frustrada tentativa humana de domesticar o real mediante a ciência e a política, que determinaram a orientação predominante da razão grega, matriz da cultura ocidental. A não-violência a que aspiramos só é possível quando as comunidades humanas redescobrirem a ordem natural e imanente do mundo, livre de dominadores e dominados. Mas isto só é possível mediante uma profunda transformação da consciência e da ética, pela qual o homem se liberte da ficção da dualidade e seja capaz de reconhecer o mundo e todos os seres vivos como inseparáveis de si mesmo, agindo em consequência.

4. Qual o papel do património libertário e sobretudo da sua ética de vida – entre nós pode servir de referência uma figura como A. Gonçalves Correia (1886-1967), discípulo do neo-franciscanismo de Tolstói – no novo paradigma civilizacional a que te referes?

O património libertário, quando se liberta do antropocentrismo e se torna verdadeiramente libertador, é fundamental. Vejo figuras como Gonçalves Correia, autor da conferência e opúsculo A Felicidade de Todos os Seres na Sociedade Futura, como exemplos desse paradigma intemporal e futuro. Ser vegetariano, desviar a bicicleta para não esmagar as formigas, esperar que elas saíssem da bacia para lavar a cara, são exemplos dessa ética do respeito integral por todas as formas de vida de que carecemos urgentemente num planeta em que, devido às acções humanas, mais de 300 espécies animais e vegetais se extinguem diariamente. Com elas é uma parte de nós que a cada dia também morre. Não faz sentido proclamar-se libertário e defensor da igualdade sem estender esse igualitarismo a todos os seres. Sem isso, ficamos reféns da discriminação especista, afim ao racismo, ao sexismo e ao esclavagismo. Na cultura portuguesa, vejo outros ilustres exemplos do novo paradigma em Antero de Quental, Guerra Junqueiro, Sampaio Bruno, Teixeira de Pascoaes, José Marinho e Agostinho da Silva, entre outros.

5. Em 2009 fundaste o Partido pelos Animais e pela Natureza (PAN) e és hoje o seu principal animador. Tens consciência das limitações da vida política numa democracia condicionada pelos interesses clientelares dos partidos ou acreditas que os partidos políticos são a melhor e a mais apurada expressão da participação popular na vida pública?

Tenho plena consciência dessas limitações e na verdade é para mim num certo sentido paradoxal ter colaborado na fundação de um partido e ser hoje o seu presidente, quando sempre fui crítico do sectarismo partidário e da partidocracia. A questão é que eu e a maioria dos seus membros e apoiantes vemos precisamente o PAN como um partido diferente, o partido daqueles que tomam partido pelo todo e não pela parte, um partido não partido, integral e global, “pelo bem de tudo e de todos”, como gostamos de dizer. Um partido não em busca do poder, mas de lutar por causas éticas e justas, sobretudo aquelas que são silenciadas ou desprezadas pelos governos, pelos outros partidos e pela própria sociedade. Um partido que não se foca só nos homens, mas que estende a consideração ética a todos os seres vivos e à Terra. Um partido que se dirige fundamentalmente aos que não se revêem no actual sistema político-partidário e que se abstêm ou votam branco ou nulo.

6. O PAN concorreu às eleições legislativas de 2011 obtendo mais de cinquenta mil votos, ficando perto de eleger um representante por Lisboa; mais recentemente, nas regionais da Madeira, elegeu um representante e foi mais votado que o Bloco de Esquerda. É previsível que o grupo – aceitando que ele tem possibilidades de ocupar o espaço do ecologismo que nunca teve entre nós representação política autónoma – venha a ter um lugar institucional importante. Que novidade poderá trazer o PAN à política portuguesa e sobretudo ao desenvolvimento dum novo comportamento social que se mostre uma alternativa ao actual paradigma civilizacional?

Na verdade, poucos meses após a nossa formalização, sem qualquer experiência, sem recursos, numa circunstância política adversa e silenciados pela comunicação social, obtivemos quase 58 000 votos e eu estive à beira de ser eleito por Lisboa. Pouco depois conseguimos eleger o Rui Almeida na Madeira e sentimos que temos todas as condições para crescer e conseguir em breve mais deputados. Creio que o PAN já é a grande novidade na política portuguesa desde o 25 de Abril de 1974, na medida em que trouxe para a agenda da discussão pública grandes questões do mundo contemporâneo a que as demais forças políticas têm estado alheias, como os direitos dos animais, o impacto ambiental do consumo de carne, a insustentabilidade do actual modelo de crescimento económico, a crise de valores como a causa da crise económico-financeira, a necessidade de substituir o Produto Interno Bruto pela Felicidade Interna Bruta, etc. Vejo o PAN como um catalisador de alternativas mais éticas, justas e saudáveis em todos os domínios: transitar da democracia representativa para uma democracia mais participativa ou directa, transitar da economia de mercado para uma economia baseada em recursos, promover a descentralização e a produção e consumo locais, incentivar a agricultura biológica e a permacultura, promover uma consciência ética global e as técnicas de atenção plena nos vários níveis de ensino, integrar as medicinas alternativas ou terapias não convencionais no Sistema Nacional de Saúde, rever o sistema eleitoral e assegurar a possibilidade de concorrerem listas de cidadãos independentes, consagrar a senciência dos animais na Constituição da República e no Código Civil, etc. Vejo o PAN como a voz política do espírito libertário e libertador de muitos dos movimentos de cidadãos que hoje proliferam, mas que se arriscam a perder impacto se não se unirem e coordenarem. Há que fazer convergir todos aqueles que, defendendo os homens, os animais ou a Terra, estão já a criar um Mundo Novo.

- Entrevista conduzida por António Cândido Franco, em 2 de Maio de 2012, e publicada no jornal A Batalha, nº 250, VI Série, Ano XXXVIII, editado pelo Centro de Estudos Libertários.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

"É preciso termos um ideal. “Prende o teu destino a uma estrela”, dizia Emerson. Queiramos pensar, sentir e agir como homens, embarcar na terra para algo mais alto"

“[…] já Lamarck dizia em 1809: «A experiência mostra que os indivíduos que têm a inteligência mais desenvolvida e que reúnem mais luz, compõem em todos os tempos uma minoria extremamente pequena». O nosso futuro depende da produção desta elite levantada, generosa, cheia de coragem e abnegação, cheia de ideias, que faça esquecer esse falso escol que para aí está supondo-se glorioso e imortal. É preciso termos um ideal. “Prende o teu destino a uma estrela”, dizia Emerson. Queiramos pensar, sentir e agir como homens, embarcar na terra para algo mais alto. Não há nada mais prático do que dar aos espíritos esta comoção, esta ânsia, esta religiosidade fervorosa. O ensino prático não é só o ensino que faz caixeiros, guarda-livros e condutores de obras – é aquele que faz homens, capazes de sentir um Ideal e de compreender o preço da vida” - Raul Proença, “Alguns vícios da educação do nosso país - II”, in “Alma Nacional” [1910].

"[...] os políticos não são melhores nem piores do que o permitem as condições gerais da mentalidade portuguesa"

[Sobre a "Seara Nova"] "Não comunga ela no sofisma de que são os políticos os únicos culpados da nossa situação. A verdade é que os políticos não são melhores nem piores do que o permitem as condições gerais da mentalidade portuguesa. Todo o país tem de aceitar a responsabilidade que lhe cabe; todo o país, e em especial a sua élite. A vida política duma nação é, em grande parte, o reflexo da sua vida intelectual, dos seus movimentos de ideias, das aspirações mais profundas do seu escol" - Raul Proença, "Apresentação da «Seara Nova»"

O objectivo do verdadeiro político [...] é tornar a política desnecessária, e cada vez mais necessária a arte"

"O fim, em meu entender, é instaurar uma sociedade em que tudo seja arte, e nada seja política. O objectivo do verdadeiro político (se não estou em erro) é tornar a política desnecessária, e cada vez mais necessária a arte" - António Sérgio

terça-feira, 10 de julho de 2012

“Quando dás a volta à Terra a cada hora e meia reconheces que a tua identidade não tem que ver com um lugar concreto, mas está antes ligada à totalidade do planeta"

“Quando dás a volta à Terra a cada hora e meia reconheces que a tua identidade não tem que ver com um lugar concreto, mas está antes ligada à totalidade do planeta, o que, implica, necessariamente, uma transformação. Quando olhas para baixo não percepcionas nenhum tipo de fronteiras […]. Centenas de pessoas matando-se uns aos outros por uma linha imaginária que nem sequer podes chegar a percepcionar. Visto daqui o planeta é uma totalidade tão bela que desejarias pegar pela mão a todos os indivíduos, um por um, e dizer-lhes: «Olha-o daqui. Dá-te conta do que é realmente importante!» […] Pensas no que estás a experimentar e questionas-te o que fizeste para merecer esta fantástica experiência. Por acaso fizeste algo para experimentá-la? Foste eleito por Deus para desfrutar de uma experiência especial à qual os demais não podem aceder? Sabes que a resposta é não, que não és especialmente merecedor do que está a ocorrer. Isto não é algo especial para ti. Nesse momento estás muito consciente de seres uma espécie de sensor de todo o género humano. Contemplas então a superfície do globo sobre o qual viveste até esse momento e tomas consciência de todas as pessoas que vivem aí. Eles não são diferentes de ti, és igual a eles, representa-los. Não és mais do que o elemento sensível […]. De algum modo tomas consciência de que és a vanguarda da vida e que deves regressar renovado a ela. Esta experiência torna-te mais responsável da tua relação com isso a que chamamos vida. Houve uma mudança que transforma, a partir desse momento, a tua relação com o mundo. Esta experiência excepcional modifica a relação que mantinhas, até então, com este planeta e com todas as suas formas de vida” - Rusty Schweickart, astronauta, falando da experiência de contemplar a Terra a partir da Apolo 9.

domingo, 8 de julho de 2012

”Chamo «cultura», no sentido absoluto, à faculdade de nos desprendermos do nosso ser biológico, do eu individual, acanhado, restrito"

”Chamo «cultura», no sentido absoluto, à faculdade de nos desprendermos do nosso ser biológico, do eu individual, acanhado, restrito, de todos os limites que tendem sempre a impor-nos as condições particulares de espaço e de tempo, do «aqui» e do «agora», - e dos acidentes de classe, de partido, de nação, de raça; ao dom de dessubjectivarmos a nossa vida psíquica, o nosso pensar espontâneo; ao de tendermos para um nível de racionalidade perfeita, - para o nível do divino, se acharem assim preferível, - na maneira de julgar e de actuar no mundo. É em suma o equivalente, no pensar racional, do que chamam os místicos a «união com deus»; é o processo de divinização do ser anímico; é a completa efectuação daquele dizer do Evangelho: «todo o que procura salvar a sua vida» (isto é: o que se ativer ao âmbito da vida individual limitada, essa mesma que está presa ao nosso condicionamento biológico) «perdê-la-á; e todo o que a perder, salvá-la-á» (isto é: poderá constituir, por tal desprendimento, a sua personalidade racional, - a que é absoluta, desenleada, sobrepairante, una, sendo, por isso mesmo, livre). Ser culto é, ao cabo de contas, o pensarmos sub species aeternitatis, de que falou na Ética o Espinosa. Estou eu em crer que seremos cultos na medida exacta em que formos largos, compreensivos, liberais, amantes; […]” - António Sérgio, Cartas do Terceiro Homem, in Democracia, Lisboa, Sá da Costa, 1974, p.354.

sexta-feira, 6 de julho de 2012



Se todas as verdades estivessem no fundo mar
E todos os poemas fossem filhos dos nossos filhos
Se todas as estradas fossem os dedos das mãos
E o romantismo atordoasse os pássaros
Se o desejo se derramasse pelos homens abandonados
E o amor fosse a vasilha de sol que procuramos

Se o coração estivesse rodeado de armadilhas
E as gaivotas fossem apenas íntimos delírios
Se as plantas ao crescer desenhassem pensamentos
E todas as dúvidas adormecessem pela manhã
Se as águas aprisionassem a dor dos animais
E o lume por bondade nos matasse a sede.




Sou um liberal de velho estilo para quem todos os males vêm ao mundo da ordem e da organização" - José Marinho

"Sou um liberal de velho estilo para quem todos os males vêm ao mundo da ordem e da organização. O espírito repudia a ordem que existe para as coisas e a organização que é só própria dos seres vivos" - José Marinho

quarta-feira, 20 de junho de 2012

مذكرات ثائرة:

مذكرات ثائرة:

. O blogue mais interessante da revolução egípcia: Aliaa Magda Elmahdy. Uma mulher criativa, com extraordinário sentido de beleza e da natureza dos 'blogues' e inteiramente livre.

«Fernando Pessoa leitor de Theodor Nöldeke. Notas sobre a recepção do elemento arábico-islâmico por Pessoa» (F. Boscaglia)


Fabrizio Boscaglia
(Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa)
Palavras-chave: Fernando Pessoa, biblioteca particular de Fernando Pessoa, Islão, António Mora, Theodor Nöldeke.
Os estudos sobre Fernando Pessoa concentram-se cada vez mais na análise do denso diálogo intertextual entre os documentos do espólio e da biblioteca particular do autor. Neste artigo é estudada em particular a relação entre alguns textos de Pessoa acerca da civilização arábico-islâmica e a leitura, por Pessoa, de um livro de Theodor Nöldeke, Sketches from Eastern History de 1892. São apresentadas notas de leitura sobre este livro, assim como as correspondências entre essas notas e textos pessoanos sobre sensacionismo e sobre neo-paganismo, datados por volta de 1916. É, deste modo, estudada a recepção do pensamento de Nöldeke na composição original de textos pessoanos sobre a civilização arábico-islâmica. São também apresentados e comentados outros documentos do espólio e da biblioteca particular de Fernando Pessoa, acerca do mesmo tema, e úteis na construção de um mapa intertextual que contribua para estudar a presença do elemento arábico-islâmico na obra e no pensamento de  Pessoa.
O texto completo do artigo encontra-se para consulta e download gratuitos em
Pessoa Plural - Revista de Estudos Pessoanos, nº1, 2012, pp. 163-186.
Link para o artigo: aqui
Link para a revista: aqui

domingo, 10 de junho de 2012

A partir de hoje há Portugal (dos pequeninos) e há o Portugal dos Grandes, com um novo hino - 18h - Coreto do Jardim da Estrela

Hoje é o dia de um Novo Portugal! Celebremo-lo no Jardim da Estrela, em Lisboa, a partir das 18h. Juntem-se a nós nesta festa por uma nova ideia para Portugal e para os portugueses. E um Novo Portugal tem um novo hino. Vem ouvi-lo pela primeira vez ao vivo. Aqui fica o programa completo. 18h – 19h00 Aula de yoga – Centro Sivananda 19h00-19h15 Meditação – Orientada por Paulo Borges – Círculo do Entre-Ser 19h20-19h25 Início – Apresentação do projecto do Portugal dos Grandes 19h25 – 19h30 A experiência do voluntariado – Nuno Jardim 19h35-19h40 Ecologia – Carlos Teixeira – A missão da Liga de Protecção da Natureza 19h45-19h50 SOS Animal – Sandra Cardoso - O desafio de fazer muito com pouco 19h55-20h00 Erva Daninha Quinto Império – Declamação de poesia – Paula Lourinho 20h05-20h10 Miguel Real - A grandeza da literatura portuguesa de hoje 20h15-20h20 Pedro Valdiju - Portugal - O admirável mundo novo. Permacultura, comunidade e transição 20h25-20h30 Manuela Gonzaga - Tempo de sonhar. Do Cabo dos Medos ao Cabo da Boa Esperança 20h35-20h40 Orlando Figueiredo - O que andamos a fazer e como funcionamos 20h45-20h50 Carlos Ramos - Contribuições para um novo modelo económico-social 20h55-21h00 Inês Real - Estatuto jurídico dos animais 21h05-21h10 - Luís Teixeira – A importância do sistema eleitoral para o ecossistema político 21h15-21h35 - Paula Lourinho – Nevoeiro – Fernando Pessoa - Exibição do Video e apresentação do Hino ao vivo - Paulo Borges – Discurso de encerramento: Um novo desígnio nacional: perder o medo e estar na vanguarda da consciência ética integral
NO DIA DA NAÇÃO. AVISO AOS INCAUTOS:
Desde ontem que a polícia está na rua com os computadores e os cães. Ontem mesmo, a minha vizinha foi presa. Levaram-na para 500 km a sul. As cadeias da cidade estão cheias.
Ouvi dizer, que as pessoas são selecionadas por novos tipos de crime:
1- ala A para quem não paga as contas da EDP
2- ala B para quem não paga as contas da EPAL
3- ala C para quem não paga as contas da ZON, MEO, OPTIMUS, VODAFONE e TMN
4- ala D para quem, além de não pagar nada do acima referido, não foi às promoções do PINGO DOCE, no feriado
Para os que devem ao FISCO, no limite de 5000 euros, o governo arranjou um poço seco. Mergulha lá os prevaricadores, pois são elementos nocivos à sociedade.
Para os que devem milhões, o governo tem alguma maleabilidade e compreensão, convoca-os para uma reunião. Ninguém sabe o resultado.
Queria dar um passeio a Cascais, mas é arriscado.
Não paguei nenhuma das contas acima mencionada, não paguei o imposto automóvel, devo ao fisco porque me esqueci de informar que nada faturei no ano passado e esqueci-me que o 1º de Maio é dia obrigatório de ir ao supermercado.
Quando todo mundo estiver preso e as ruas deste país estiverem serenas e desertas, alguém em algum lugar que não cá gritará: Viva Portugal!

Dá o que te falta

sábado, 9 de junho de 2012

"Sobre o Diálogo Inter-Religioso", por Anselmo Borges

A questão do diálogo inter-religioso volta constantemente, também por causa da paz. Actualmente, a religião mais perseguida é o cristianismo. Para esse diálogo, há pressupostos essenciais. 1. Religioso e Sagrado não se identificam. Trata-se de realidades distintas: religioso diz respeito ao pólo subjectivo, isto é, ao movimento de transcendimento e entrega confiada por parte das pessoas religiosas ao pólo objectivo, que é o Sagrado ou Mistério, a que todas as religiões estão referidas, configurando-o a seu modo. 2. Questão decisiva é a da revelação. A pergunta é: como sabem os crentes que Deus falou? Mediante certas características - por exemplo, a contingência radical, a morte e o protesto contra ela, a esperança para lá da morte, a exigência de sentido último -, a própria realidade, sempre ambígua, mostra-se ao crente co-implicando a Presença do Divino como seu fundamento e sentido últimos. Como escreve A. Torres Queiruga, "não se interpreta o mundo de uma determinada maneira porque se é crente ou ateu, mas é-se crente ou ateu porque a fé ou a não crença aparecem ao crente e ao ateu, respectivamente, como a melhor maneira de interpretar o mundo comum". 3. A leitura dos livros sagrados não pode ser de modo nenhum literal, mas histórico-crítica. Por outro lado, se toda a religião tem como ponto de partida e de "definição" esta pergunta essencial: o quê ou quem traz libertação e salvação?, a libertação-salvação total é que constitui o fio hermenêutico decisivo para a interpretação correcta dos livros sagrados na sua verdade final. Só a esta luz é que eles são verdadeiros. 4. Condição essencial para a paz é a separação da(s) Igreja(s) e do Estado. Só mediante a neutralidade religiosa do Estado, é possível a garantia da liberdade religiosa de todos os cidadãos sem discriminação. Mas a laicidade não significa de modo nenhum que o Estado e a(s) Igreja(s) não possam e devam colaborar. O diálogo inter-religioso assenta em quatro pilares fundamentais. 1. Todas as religiões, desde que não só não se oponham ao Humanum, mas, pelo contrário, o afirmem e promovam, são reveladas e verdadeiras. Desde sempre Deus procura manifestar-se e comunicar-se a todos. Assim, em todas as religiões há presença de revelação e, portanto, de verdade e santidade. Precisamente porque todas são reveladas, mas no quadro de interpretações humanas, todas são também simultaneamente verdadeiras e falsas, precisando de autocrítica. 2. As religiões são manifestações e encarnações da relação de Deus com o homem e do homem com Deus. Elas estão referidas, isto é, em relação com o Absoluto, mas elas próprias não são o Absoluto. O Absoluto não pode ser possuído ou dominado pelo homem. Quando o homem fala de Deus, está sempre a falar do Deus dito por ele e não, embora referido a ele, do Deus em si mesmo. 3. Se as religiões não são o Absoluto, embora referidas a ele, as pessoas religiosas devem dialogar para melhor se aproximarem do Mistério divino absoluto já presente em cada religião, mas sempre transcendente a cada uma e a todas. 4. Paradoxalmente, o quarto pilar afirma que do diálogo inter-religioso fazem parte também os agnósticos e os ateus, pois o que, antes de mais, nos vincula a todos é a humanidade, concluindo-se, assim, que os agnósticos e os ateus são aqueles que, por estarem "de fora", talvez melhor possam aperceber-se da inumanidade, superstição e idolatria, que tantas vezes afectam as religiões históricas. Antes de sermos crentes ou não crentes, estamos vinculados pela humanidade comum e é pela sua realização plena em todos os homens e mulheres que devemos estar unidos. Critério essencial da verdade de uma religião é, pois, o seu compromisso com os direitos humanos e a realização plena do ser humano. O respeito pelo outro, crente ou ateu, e a salvaguarda da criação, não são algo acrescentado à religião, mas suas exigências intrínsecas. - Anselmo Borges

quinta-feira, 7 de junho de 2012


Esta noite, sentou-se a meu lado na sala de cinema, uma senhora de chapéu azul. Voltei-me impaciente para tentar perceber porque razão aquela personagem mostrava expectante entre o desejo de aplauso e a necessidade de privacidade.
Dei um toque disfarçadamente no cotovelo da minha vizinha. Olhou-me tranquila, a Rainha de Inglaterra.
Nada disto é inventado, pois foi tudo sonhado nesta noite que passou.
Antes de adormecer, ouvi o Passos Coelho dizer que estamos todos de parabéns.
A vida nesta terra, beira o cinza da passividade. A minha loucura casa-se com a noite. A rainha já vai ao cinema com a plebe.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Hoje, 18.30, "D. Sebastião e o Quinto Império em Fernando Pessoa"

Fernando Pessoa: Filosofia, Religião e Ciências do Psiquismo Humano (9ª Sessão) A nona sessão do ciclo de conferências Fernando Pessoa: Filosofia, Religião e Ciências do Psiquismo Humano ocorrerá dia 6 de Junho de 2012, na Casa Fernando Pessoa. A sessão tem início às 18h30 e conta com uma palestra de Paulo Borges intitulada: D. Sebastião e o Quinto Império em Fernando Pessoa. Convidamos todos os interessados a estarem presentes nesta sessão. Organização: Paulo Borges, Nuno Ribeiro e Cláudia Souza.

domingo, 3 de junho de 2012

À porta do prédio, Helena espera-me, como sempre, com mais um poema.

- Vê lá, se gostas deste.. É o que ando a fazer agora. Não leias, se estás cansada, mas se queres esquecer o teu dia, embrenha-te nele. É o que ando a escrever. Não sei que horas são...
- Já passam das seis da manhã. Acho que vou ler depois de dormir...

Devolve-me um sorriso. Responde-me sempre assim. Ela é a minha vizinha do r/c. Não sei o que faz, para além dos poemas que me ofecere a cada manhã.

"Edito a vida de quem não tem vida, todos os dias", diz a caminho de sua casa.

Se Helena matasse o vizinho do segundo esquerdo, teria um editor. Seria notícia em todos jornais: “Poetisa estrangula vizinho, ao raiar da manhã...”. Em pouco tempo teria um livro publicado com todos os seus poemas. Tenho certeza que seria um best seller. 

Augusto é um velho militar reformado. Toca uma corneta desafinada ao raiar de todas as manhãs. Helena está convencida que o homem terá sido galo numa vida passada. 

Quando chove, a poeira vira lama. Na mesa da minha sala de jantar, amontoam-se fotografias. O passado ganha contornos de presente. Desenho com os dedos cada traço como se nesse gesto, a velhice fosse somente um breve pesadelo. Deixo que os espelhos ganhem pó e com o tempo se distraiam de mim.

Helena parece não ter idade. Enquanto envelheço a cada manhã, ela parece sempre a mesma com um sorriso que não consigo definir. Os seus poemas moram com as minhas fotos, como se fossem amantes inseparáveis.

Antes de me deitar, em vez de pedir a Deus desculpas por todos os meus pecados, leio. Os poemas de Helena são como a noite morna que aconchega meu corpo. 

Dormir de dia, é como andar em contra-mão. O corpo pesa e reage descompassado. 

Depois de um banho quente, sento-me a ler o poema de hoje:

“Tudo que nasce é gerado na sombra, 
A morte acolhe a semente de uma nova vida”

Doce é esta dor que abraça o meu coração antes de adormecer. Um casal de grilos canta na minha janela.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

"Não podemos amar Deus e ser indiferentes às criaturas que sofrem"

“As tradições religiosas cristãs sustentam que Jesus teve tanto atributos divinos como humanos. No vernáculo comum (sexista), Jesus foi não só Deus mas também homem (humano). Ser humano é ser animal, mamífero, primata. […] O Evangelho, tal como exemplificado em Jesus Cristo, trata do serviço aos doentes, pobres, desfavorecidos, encarcerados e a todos os outros que são considerados como os mais inferiores de todos, e não menos a todo o mundo de criaturas não-humanas sofredoras… Não podemos amar Deus e ser indiferentes às criaturas que sofrem (Linzey, Animal Gospel, 94)” - Lisa Kemmerer, Animals and World Religions, Oxford University Press, 2012, pp.208 e 210.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

suave é a loucura
que me desperta
em cada manhã
azul seremos
por entre todos
que perdidos
navegam abraçados

tempo de amor abençoado

As minhas sardas

Fiquei a pensar como seria a tarefa de contar as minhas sardas...
Quando era criança,  morei num bairro de pescadores, em Fortaleza, onde os miúdos traziam na boca histórias fantásticas. O Vavá tinha a cabeça achatada e explicava que era assim porque a mãe quando grávida tinha caido no chão bem em cima da barriga. Recordo o meu espanto com tal explicação. Se ela tivesse caído de lado, como seria o perfil?
Um dia o  Pirrita aconselhou-me a lavar a cara com o meu xixi para limpar a cara.
A verdade é que sempre tive complexos por ser sardenta.
Na adolescência colocava base e as sardas viam-se por baixo - teimosos sinais castanhos que não me largavam. 

Para as ruivas, o cabelo é da cor da cenoura e faz todo sentido serem sardentas. Eu que sempre tive o cabelo castanho, passava por uma falsa sardenta. Com os anos fui aprendendo a gostar destesn pequenos sinais.
No rosto são mais de cem, no corpo outras tantas que invento e não encontro. 

Umas cresceram como se fossem sementes de uma nova gente. 
Outras apagaram-se tão cansadas estavam da vida acontecida. 
Acordam na minha pele todas as manhãs. 
Vivem comigo desde criança. 
Namoram, casam-se e inventam filhos. 
Nunca as vi morrer.
Talvez na hora do juízo final.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

CONVITE:

SENTAR E CAMINHAR EM PAZ E SILÊNCIO POR UM MUNDO NOVO - 20 DE MAIO - 15h

Vivemos um ponto de mutação civilizacional. Participamos na extrema crise de uma civilização ignorante, insensível e violenta, pela qual somos todos responsáveis. Uma civilização filha do desconhecimento da lei fundamental da vida, a interconexão entre todos os seres, uma civilização escrava do medo, da ganância e do ódio, dominada por pensamentos, emoções e desejos doentios que se traduzem num crescente mal-estar mental, existencial e social, numa galopante opressão económica e financeira, numa democracia de fachada, dominada pelos grandes grupos económicos e pela finança internacional, na devastação do planeta, da biodiversidade e dos recursos naturais, na violência contra os homens, os animais e a Terra. Somos todos autores e vítimas de uma civilização alienada pela produção e pelo consumo, por ritmos de trabalho desumanos, pela falta de tempo para estar com os outros e apreciar a beleza do mundo, pelo sacrifício do crescimento interior e da expansão da consciência e da amizade em troca da busca ávida de riqueza, poder, fama e prazeres fugazes e fúteis. Tudo distracções impotentes para encobrir um profundo mal-estar e que nos deixam cada vez mais frustrados e insatisfeitos. Um outro mundo é todavia possível, já antecipado por todos aqueles que, em Portugal e em todo o planeta, buscam e praticam um novo paradigma mental, ético e civilizacional e uma alternativa global, em todas as esferas, espiritual, cultural, terapêutica, pedagógica, ecológica, social, económica e política. Um outro mundo que se enraíza nas nossas mais profundas aspirações e onde florescem as melhores potencialidades do ser humano, a nossa natural vocação para a liberdade, a compreensão e o amor fraterno extensivo a todos os seres e a toda a Terra. Um mundo fruto do melhor que temos para dar, sem esperar nada em troca, sem acções nem reacções violentas, que apenas reproduzem o actual sistema e estado de coisas. É para nos conhecermos e dar público testemunho desse mundo que nos vamos sentar todos em paz e silêncio durante uma hora no Domingo, 20 de Maio, em várias cidades e localidades do país e onde quer que estejamos. Às 16h seguiremos, numa lenta marcha pacífica e silenciosa, para vários locais, onde realizaremos uma assembleia para partilhar experiências e ideias sobre os rumos futuros da nossa intervenção cívica. Este evento está aberto a todos os indivíduos, associações, movimentos e entidades que se reconheçam no seu espírito não-violento e que se comprometam a respeitar o silêncio até à partilha final. Aceitamos todos os apoios que respeitem estas condições. No evento não deverão estar presentes bandeiras, cartazes ou outros símbolos partidários. Este evento é de todos os que nele se reconhecerem e não é contra nada nem ninguém. Só uma postura afirmativa e não reactiva, sem medo nem ódio, pode mudar o mundo. O sentar e marchar em paz e silêncio são a expressão de uma nova aliança entre os homens, os animais e a Terra. Vamos sentir e mostrar a força da nossa presença pacífica e silenciosa. Vamos deixar que em nós se manifeste um Mundo Novo. Vem, traz amigos e partilha o mais possível. CONTACTOS E LOCAIS POR CIDADE LISBOA Local de encontro: Rossio Destino da Caminhada: Terreiro do Paço https://www.facebook.com/events/222395511201859 Paulo Borges - pauloaeborges@gmail.com ( 918113021 ) Sofia Costa – asofcosta@sapo.pt ( 917769093 ) PORTO Local de encontro: Praça Gomes Teixeira (Praça dos Leões) Destino da Caminhada: Praça da Liberdade https://www.facebook.com/events/264784013615239 Alexandra Araújo - xanaaraujo@sapo.pt ( 939611744 ) Vítor Bertocchini - bertoquini@gmail.com Carla Rocha - carlajrocha@hotmail.com COIMBRA Local de encontro: Parque Verde do Mondego Destino da Caminhada: Praça 8 de Maio https://www.facebook.com/events/335619686499666 Maurício Pereira - mauriciocgpereira@gmail.com Francisco Guerreiro - jorgekguerreiro@gmail.com LEIRIA Local de encontro: Praça Rodrigues Lobo Destino da Caminhada: Jardim de Santo Agostinho https://www.facebook.com/events/303668206373769 Micael Inês - micaelines@gmail.com ( 965884416 ) Fernando Emídio - fernandoemidio@gmail.com ( 962683097 ) Patrícia Pereira - patricia.afp@gmail.com ( 962807817 ) SESIMBRA Local de encontro: Praia da Califórnia Destino da Caminhada: Avenida dos Náufragos https://www.facebook.com/events/426407467375608 Tsomo santos & Gonçalo Oliveira - youzen.therapies@mail.com (93678397) STA. MARIA DA FEIRA Local de encontro: Castelo de Sta. Maria da Feira Caminhada pela cidade, regressando ao Castelo. http://www.facebook.com/events/246548715444314 sentarecaminharempazfeira@gmail.com Luís Oliveira ( 965285844 ) Ana Louro ( 966588899 ) Andrea Domingos ( 913313799 ) José Porfírio ( 916329151 ) BRAGA Local de encontro: A definir Destino da Caminhada: Sé de Braga https://www.facebook.com/events/296946723719275 Gabriela Cunha - gabrielacunha@gmail.com Ana Devesa - devesaana@gmail.com FUNCHAL Local de encontro: Praça do Município do Funchal Destino da Caminhada: Parque de Sta. Catarina https://www.facebook.com/events/136485646476097 Tânia Almeida ( 913386788 ) Carla Brás ( 927089603 ) ÉVORA Local de encontro: Praça do Giraldo Destino da Caminhada: Praça Joaquim António de Aguiar https://www.facebook.com/events/363806753667646 José Cortes - jomacoam@gmail.com ( 967336834 ) BEJA Local de encontro: Praça da República Destino da caminhada: Parque da Cidade https://www.facebook.com/events/334261966639626 Centro Holisis - holisis.csi@gmail.com ( 962693011 ) SERPA Local de encontro: Quiosque do Jardim Público Destino da Caminhada: Largo da Biblioteca https://www.facebook.com/events/366743433372820 Maria José Palma - palma.mariaze@gmail.com ( 962693011 ) Fátima Pires - mfpvenancio@hotmail.com ( 964786869 ) Francisco Cabecinha - f.cabecinha.vendas@hotmail.com (966081729) SETÚBAL Local de encontro: Largo de Jesus Destino da caminhada: Parque Urbano de Albarquel http://www.facebook.com/events/366321506749456 Bruno Ferro - brunoferro77@hotmail.com PONTA DELGADA Local de encontro: Parque Urbano Destino da caminhada: Portas do Mar http://www.facebook.com/events/411429965557447 Maria Martins - mariaportugal.artesplasticas@gmail.com ARCOS DE VALDEVEZ e PONTE DA BARCA Local de encontro: Alameda do Campo do Transladário (junto ao chafaris dos cavaleiros), Arcos de Valdevez Destino da Caminhada: Choupal do Côrro, Ponte da Barca http://www.facebook.com/events/455731467786018 Maria Tita - maria.tita.brida@gmail.com

quinta-feira, 10 de maio de 2012

O mundo sabia de cor, a cor da dor de quem nunca teve a sorte de nascer imperador. O peixe era doce e cru. A beterraba avinagrada. A vontade de ser feliz era tanta como a tua agora que acabas de nascer. O jejum era dos pobres que o faziam dia após dia.
Vizinhos da vida viajaram sem regresso com um sorriso que não esqueço.
O homem mata o homem e nunca sabe porquê. Bendita a memória que me assombra neste dia que nasce outra vez.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

abraça minha cabeça | perdoa minha demência | tímida esconde-me | em teus braços largos | chora e ri | em silêncio| loucura que nos assiste

terça-feira, 8 de maio de 2012

Se ficar por aqui mais um instante| chorarei a ausência que permanece | memória que me assiste| quando me perco | falta que invade meu corpo | bem no meio do coração | um sorriso como se fosse outro abraço | desligo a luz | invento o infinito | que nunca teve início nem fim | por dentro de mim| um beijo que não encontra pouso

quarta-feira, 2 de maio de 2012

segue a angústia o medo de me perder, porquanto mais procuro pressinto o fim. Lá onde o sol ameaça nascer, recuo em busca do eu que teimoso mostra-me não existir. Lá onde tudo e nada ocupam o mesmo espaço vazio, fronteira do meu despertar, tão perto de mim que não alcanço. Canta a dor que trago no peito, a verdade que sinto e não entendo. Bastaria um lampejo e saberia que tudo que aprendi de nada me serve se nunca o senti. Ali, onde o rio e o mar se unem, afogo-me na esperança de nada saber.
canta-me a musica que te embala os dias, deixa que ela me invada e eu esqueça que existo, mantêm-me quieta e silenciosa porque doi-me o corpo por dentro.  enquanto adormeço cansada, choro. este não é mais o país que eu sonhei. antes, abracei-te na multidão e o teu beijo despertou-me entre todos que amei. dá-me um cravo vermelho, coloca-o junto ao coração. semeia em cada corpo uma nova canção.