sexta-feira, 27 de julho de 2012
Sonhar que se voa
- Chuang Tzu
Muitas vezes sonhamos que voamos. Tudo começa por estarmos a caminhar e, por vezes espontaneamente, outras mediante um pequeno impulso, começamos a flutuar ou levitar e erguemo-nos acima do solo, começando a ver o mundo, as pessoas e as coisas a partir de cima, numa visão cada vez mais ampla e abrangente à medida que nos elevamos. Há experiências em que somos arrebatados para cima ou para baixo e a custo conseguimos controlar e dirigir o movimento. Há outras em que desde o início sentimos que podemos ir para onde quisermos, inclinando ligeiramente a cabeça e o corpo na direcção pretendida ou estendendo e unindo os braços e as mãos à nossa frente e apontando-os no sentido visado. Por vezes basta pensar num determinado lugar ou pessoa para nos encontrarmos imediatamente nele ou na sua presença, como se viajássemos vertiginosamente através do tempo e do espaço. Acontece atravessarmos paredes e obstáculos aparentemente sólidos, como se fôssemos absolutamente imateriais, apesar de mantermos uma certa percepção da nossa forma física. Sucede percorrermos vastas regiões desertas e luminosas ou nocturnas, vendo oceanos, rios, florestas e montanhas a partir do céu, como uma águia, ou então pairar acima de grandes cidades adormecidas, muito acima dos seus mais elevados edifícios. Por vezes vemos claramente as pessoas e tentamos descer, tocar-lhes e interagir com elas, mas não o conseguimos, como se estas não nos vissem e sentissem, como se as nossas mãos passassem através dos seus corpos. Outras vezes, menos frequentes, as pessoas parecem sentir-nos ou ver-nos e assustam-se e fogem. Seja como for, na sua grande maioria são experiências extremamente nítidas, poderosas e gratificantes, que oferecem uma sensação de liberdade quase infinita e que, ao acordar, recordamos demoradamente com saudade, sentindo o seu fim e privação como um limite infeliz das possibilidades do nosso ser, regressado à normalidade da vida quotidiana. O que é surpreendente é a frequência com que as sentimos tão ou mais reais do que aquilo que neste preciso momento percepcionamos e experienciamos.
Muitas explicações existem para este fenómeno, procurando reduzir o desconhecido ao que julgamos conhecer, como as teorias de inspiração psicanalítica e freudiana que falam destes sonhos como uma realização simbólica e sublimada de desejos que não se logram realizar na vida suposta real. Tradições antigas, como a do Yoga do Sonho tibetano, consideram estas experiências como a vivência de dimensões mais subtis e profundas do nosso ser e da nossa consciência, em que estamos mais despertos do sono da vida comum e recuperamos uma liberdade primordial, anterior à fixação num corpo de matéria aparentemente densa. Tal como nos voos chamânicos ou na experiência pós-morte, nesse intervalo ou espaço indeterminado entre uma existência e outra que em tibetano se designa como bar-do (entre-dois). Nesta perspectiva, tudo é um bar-do, pois estamos sempre em viagem, a meio-caminho entre uma coisa e outra, seja na vida, na morte, na meditação ou no sonho. Todavia, segundo esta tradição, para que estas experiências possam ser libertadoras há que tomar consciência, ao sonhar, de que sonhamos, o que é um despertar para as suas plenas possibilidades, mas sem acordar, pois nesta visão aquilo a que chamamos acordar é afinal adormecer num sonho mais denso e ilusório… Para que isto se torne possível há que nos treinarmos, em cada momento desta vida de vigília, supostamente real, a vê-la como um sonho. O que tem, aliás, a vantagem de sabermos que nele tudo é transitório e se pode modificar. Basta percepcioná-lo de outro modo e agir em conformidade, com evidentes vantagens espirituais e sociais.
Bons sonhos!
quarta-feira, 18 de julho de 2012
Agostinho da Silva e o encontro inter-religioso
Agostinho da Silva e o Encontro Inter-religioso | FNAC Chiado 18.05.2012 from culturafnac.pt on Vimeo.
">quinta-feira, 12 de julho de 2012
"Paulo Borges e a ética libertária" - entrevista ao jornal "A Batalha" conduzida por António Cândido Franco
1. João Freire, no livro de memórias que publicou em 2007, Pessoa Comum no seu Tempo (p. 437), cita-te ao lado do Carlos Fabião (hoje arqueólogo e prof. da Faculdade de Letras de Lisboa) como um dos jovens que apareciam por volta de 1975 na antiga sede do jornal A Batalha, na rua Angelina Vidal, no bairro da Graça, em Lisboa, e que foi a primeira que o periódico teve depois da Revolução dos Cravos. Queres recordar em poucas palavras a tua actividade desse tempo?
Foram bons tempos, que recordo com saudade. Tinha 15 anos e despertei de um sentimento de solidariedade com todos os povos oprimidos – que remonta à minha infância, em particular a respeito dos índios norte-americanos – para uma perfeita identificação com a visão da anarquia como a expressão suprema da ordem, numa sociedade livre de poder coercivo. Saíamos do Liceu Gil Vicente e íamos para a sede de A Batalha, fascinados por conhecer as histórias dos anarco-sindicalistas que combateram Salazar e os “comunistas” autoritários do PCP: o Emídio Santana, o Custódio e tantos outros… Foi aí que, com o Fabião e outros amigos, criámos o jornal “Não!”, órgão do Comité Anarquista Revolucionário Malatesta e integrámos a Associação de Grupos Autónomos Anarquistas. Montávamos bancas nas ruas, distribuíamos panfletos, organizávamos manifestações e comícios. Vivemos intensamente o frenesim de tudo ser possível, da política como meio de transformar a vida e a civilização, mas também o desencanto perante o conformismo e o medo que rapidamente domesticaram os portugueses. Incluindo nós próprios e os anarquistas, como mais tarde compreendi, pois queríamos mudar tudo sem primeiro nos mudarmos a nós próprios, como da sua juventude disse também Antero de Quental.
2. Em 2010 fundaste com Luiz Pires dos Reyes a revista Cultura ENTRE Culturas, que publicou até hoje quatro números. A publicação tem como objectivo a criação e o desenvolvimento de um novo paradigma cultural e civilizacional. Queres explicar que novo paradigma é esse?
Um paradigma holístico, que assuma a realidade como uma totalidade orgânica complexa, em que tudo está interconectado e não há seres isolados, mas entre-seres, feixes de relações e processos dinâmicos em constante mutação e simbiose. Um paradigma que sobreponha ao crescimento económico e tecnológico a expansão da consciência, a felicidade de todos os seres, humanos e não-humanos, e a harmonia ecológica. Um paradigma universalista, que promova o diálogo fraterno entre povos, nações, culturas e religiões, mas também entre religiosos, ateus e agnósticos. Um paradigma não-violento e libertador, que promova alternativas éticas e saudáveis em todas as áreas do conhecimento e da actividade humanos.
Interessa-nos promover este paradigma na cultura portuguesa e lusófona, cultivando as suas melhores tendências neste sentido.
3. No blogue da revista Cultura ENTRE Culturas está escrita a seguinte frase: O estado não-violento ideal será uma anarquia ordenada. (entrada de 8 de Maio de 2011). É assinada por Mahatma Gandhi. Queres comentar?
A realidade é an-árquica e caósmica, no sentido de ser uma totalidade autogerida que desconhece qualquer princípio exterior e absoluto e se apresenta como um dinamismo criador com todas as possibilidades a cada instante em aberto. A violência começa na sempre frustrada tentativa humana de domesticar o real mediante a ciência e a política, que determinaram a orientação predominante da razão grega, matriz da cultura ocidental. A não-violência a que aspiramos só é possível quando as comunidades humanas redescobrirem a ordem natural e imanente do mundo, livre de dominadores e dominados. Mas isto só é possível mediante uma profunda transformação da consciência e da ética, pela qual o homem se liberte da ficção da dualidade e seja capaz de reconhecer o mundo e todos os seres vivos como inseparáveis de si mesmo, agindo em consequência.
4. Qual o papel do património libertário e sobretudo da sua ética de vida – entre nós pode servir de referência uma figura como A. Gonçalves Correia (1886-1967), discípulo do neo-franciscanismo de Tolstói – no novo paradigma civilizacional a que te referes?
O património libertário, quando se liberta do antropocentrismo e se torna verdadeiramente libertador, é fundamental. Vejo figuras como Gonçalves Correia, autor da conferência e opúsculo A Felicidade de Todos os Seres na Sociedade Futura, como exemplos desse paradigma intemporal e futuro. Ser vegetariano, desviar a bicicleta para não esmagar as formigas, esperar que elas saíssem da bacia para lavar a cara, são exemplos dessa ética do respeito integral por todas as formas de vida de que carecemos urgentemente num planeta em que, devido às acções humanas, mais de 300 espécies animais e vegetais se extinguem diariamente. Com elas é uma parte de nós que a cada dia também morre. Não faz sentido proclamar-se libertário e defensor da igualdade sem estender esse igualitarismo a todos os seres. Sem isso, ficamos reféns da discriminação especista, afim ao racismo, ao sexismo e ao esclavagismo. Na cultura portuguesa, vejo outros ilustres exemplos do novo paradigma em Antero de Quental, Guerra Junqueiro, Sampaio Bruno, Teixeira de Pascoaes, José Marinho e Agostinho da Silva, entre outros.
5. Em 2009 fundaste o Partido pelos Animais e pela Natureza (PAN) e és hoje o seu principal animador. Tens consciência das limitações da vida política numa democracia condicionada pelos interesses clientelares dos partidos ou acreditas que os partidos políticos são a melhor e a mais apurada expressão da participação popular na vida pública?
Tenho plena consciência dessas limitações e na verdade é para mim num certo sentido paradoxal ter colaborado na fundação de um partido e ser hoje o seu presidente, quando sempre fui crítico do sectarismo partidário e da partidocracia. A questão é que eu e a maioria dos seus membros e apoiantes vemos precisamente o PAN como um partido diferente, o partido daqueles que tomam partido pelo todo e não pela parte, um partido não partido, integral e global, “pelo bem de tudo e de todos”, como gostamos de dizer. Um partido não em busca do poder, mas de lutar por causas éticas e justas, sobretudo aquelas que são silenciadas ou desprezadas pelos governos, pelos outros partidos e pela própria sociedade. Um partido que não se foca só nos homens, mas que estende a consideração ética a todos os seres vivos e à Terra. Um partido que se dirige fundamentalmente aos que não se revêem no actual sistema político-partidário e que se abstêm ou votam branco ou nulo.
6. O PAN concorreu às eleições legislativas de 2011 obtendo mais de cinquenta mil votos, ficando perto de eleger um representante por Lisboa; mais recentemente, nas regionais da Madeira, elegeu um representante e foi mais votado que o Bloco de Esquerda. É previsível que o grupo – aceitando que ele tem possibilidades de ocupar o espaço do ecologismo que nunca teve entre nós representação política autónoma – venha a ter um lugar institucional importante. Que novidade poderá trazer o PAN à política portuguesa e sobretudo ao desenvolvimento dum novo comportamento social que se mostre uma alternativa ao actual paradigma civilizacional?
Na verdade, poucos meses após a nossa formalização, sem qualquer experiência, sem recursos, numa circunstância política adversa e silenciados pela comunicação social, obtivemos quase 58 000 votos e eu estive à beira de ser eleito por Lisboa. Pouco depois conseguimos eleger o Rui Almeida na Madeira e sentimos que temos todas as condições para crescer e conseguir em breve mais deputados. Creio que o PAN já é a grande novidade na política portuguesa desde o 25 de Abril de 1974, na medida em que trouxe para a agenda da discussão pública grandes questões do mundo contemporâneo a que as demais forças políticas têm estado alheias, como os direitos dos animais, o impacto ambiental do consumo de carne, a insustentabilidade do actual modelo de crescimento económico, a crise de valores como a causa da crise económico-financeira, a necessidade de substituir o Produto Interno Bruto pela Felicidade Interna Bruta, etc. Vejo o PAN como um catalisador de alternativas mais éticas, justas e saudáveis em todos os domínios: transitar da democracia representativa para uma democracia mais participativa ou directa, transitar da economia de mercado para uma economia baseada em recursos, promover a descentralização e a produção e consumo locais, incentivar a agricultura biológica e a permacultura, promover uma consciência ética global e as técnicas de atenção plena nos vários níveis de ensino, integrar as medicinas alternativas ou terapias não convencionais no Sistema Nacional de Saúde, rever o sistema eleitoral e assegurar a possibilidade de concorrerem listas de cidadãos independentes, consagrar a senciência dos animais na Constituição da República e no Código Civil, etc. Vejo o PAN como a voz política do espírito libertário e libertador de muitos dos movimentos de cidadãos que hoje proliferam, mas que se arriscam a perder impacto se não se unirem e coordenarem. Há que fazer convergir todos aqueles que, defendendo os homens, os animais ou a Terra, estão já a criar um Mundo Novo.
- Entrevista conduzida por António Cândido Franco, em 2 de Maio de 2012, e publicada no jornal A Batalha, nº 250, VI Série, Ano XXXVIII, editado pelo Centro de Estudos Libertários.
quarta-feira, 11 de julho de 2012
"É preciso termos um ideal. “Prende o teu destino a uma estrela”, dizia Emerson. Queiramos pensar, sentir e agir como homens, embarcar na terra para algo mais alto"
"[...] os políticos não são melhores nem piores do que o permitem as condições gerais da mentalidade portuguesa"
O objectivo do verdadeiro político [...] é tornar a política desnecessária, e cada vez mais necessária a arte"
terça-feira, 10 de julho de 2012
“Quando dás a volta à Terra a cada hora e meia reconheces que a tua identidade não tem que ver com um lugar concreto, mas está antes ligada à totalidade do planeta"
domingo, 8 de julho de 2012
”Chamo «cultura», no sentido absoluto, à faculdade de nos desprendermos do nosso ser biológico, do eu individual, acanhado, restrito"
sexta-feira, 6 de julho de 2012
Sou um liberal de velho estilo para quem todos os males vêm ao mundo da ordem e da organização" - José Marinho
quarta-feira, 20 de junho de 2012
مذكرات ثائرة:
. O blogue mais interessante da revolução egípcia: Aliaa Magda Elmahdy. Uma mulher criativa, com extraordinário sentido de beleza e da natureza dos 'blogues' e inteiramente livre.
«Fernando Pessoa leitor de Theodor Nöldeke. Notas sobre a recepção do elemento arábico-islâmico por Pessoa» (F. Boscaglia)
domingo, 10 de junho de 2012
A partir de hoje há Portugal (dos pequeninos) e há o Portugal dos Grandes, com um novo hino - 18h - Coreto do Jardim da Estrela
Hoje é o dia de um Novo Portugal! Celebremo-lo no Jardim da Estrela, em Lisboa, a partir das 18h. Juntem-se a nós nesta festa por uma nova ideia para Portugal e para os portugueses. E um Novo Portugal tem um novo hino. Vem ouvi-lo pela primeira vez ao vivo.
Aqui fica o programa completo.
18h – 19h00
Aula de yoga – Centro Sivananda
19h00-19h15
Meditação – Orientada por Paulo Borges – Círculo do Entre-Ser
19h20-19h25
Início – Apresentação do projecto do Portugal dos Grandes
19h25 – 19h30
A experiência do voluntariado – Nuno Jardim
19h35-19h40
Ecologia – Carlos Teixeira – A missão da Liga de Protecção da Natureza
19h45-19h50
SOS Animal – Sandra Cardoso - O desafio de fazer muito com pouco
19h55-20h00
Erva Daninha
Quinto Império – Declamação de poesia – Paula Lourinho
20h05-20h10
Miguel Real - A grandeza da literatura portuguesa de hoje
20h15-20h20
Pedro Valdiju - Portugal - O admirável mundo novo. Permacultura, comunidade e transição
20h25-20h30
Manuela Gonzaga - Tempo de sonhar. Do Cabo dos Medos ao Cabo da Boa Esperança
20h35-20h40
Orlando Figueiredo - O que andamos a fazer e como funcionamos
20h45-20h50
Carlos Ramos - Contribuições para um novo modelo económico-social
20h55-21h00
Inês Real - Estatuto jurídico dos animais
21h05-21h10
- Luís Teixeira – A importância do sistema eleitoral para o ecossistema político
21h15-21h35
- Paula Lourinho – Nevoeiro – Fernando Pessoa
- Exibição do Video e apresentação do Hino ao vivo
- Paulo Borges – Discurso de encerramento: Um novo desígnio nacional: perder o medo e estar na vanguarda da consciência ética integral
Desde ontem que a polícia está na rua com os computadores e os cães. Ontem mesmo, a minha vizinha foi presa. Levaram-na para 500 km a sul. As cadeias da cidade estão cheias.
Ouvi dizer, que as pessoas são selecionadas por novos tipos de crime:
1- ala A para quem não paga as contas da EDP
2- ala B para quem não paga as contas da EPAL
3- ala C para quem não paga as contas da ZON, MEO, OPTIMUS, VODAFONE e TMN
4- ala D para quem, além de não pagar nada do acima referido, não foi às promoções do PINGO DOCE, no feriado
Para os que devem ao FISCO, no limite de 5000 euros, o governo arranjou um poço seco. Mergulha lá os prevaricadores, pois são elementos nocivos à sociedade.
Para os que devem milhões, o governo tem alguma maleabilidade e compreensão, convoca-os para uma reunião. Ninguém sabe o resultado.
Queria dar um passeio a Cascais, mas é arriscado.
Não paguei nenhuma das contas acima mencionada, não paguei o imposto automóvel, devo ao fisco porque me esqueci de informar que nada faturei no ano passado e esqueci-me que o 1º de Maio é dia obrigatório de ir ao supermercado.
Quando todo mundo estiver preso e as ruas deste país estiverem serenas e desertas, alguém em algum lugar que não cá gritará: Viva Portugal!
sábado, 9 de junho de 2012
"Sobre o Diálogo Inter-Religioso", por Anselmo Borges
quinta-feira, 7 de junho de 2012
Esta noite, sentou-se a meu lado na sala de cinema, uma senhora de chapéu azul. Voltei-me impaciente para tentar perceber porque razão aquela personagem mostrava expectante entre o desejo de aplauso e a necessidade de privacidade.
Dei um toque disfarçadamente no cotovelo da minha vizinha. Olhou-me tranquila, a Rainha de Inglaterra.
Nada disto é inventado, pois foi tudo sonhado nesta noite que passou.
Antes de adormecer, ouvi o Passos Coelho dizer que estamos todos de parabéns.
A vida nesta terra, beira o cinza da passividade. A minha loucura casa-se com a noite. A rainha já vai ao cinema com a plebe.
quarta-feira, 6 de junho de 2012
Hoje, 18.30, "D. Sebastião e o Quinto Império em Fernando Pessoa"
Fernando Pessoa: Filosofia, Religião e Ciências do Psiquismo Humano (9ª Sessão)
A nona sessão do ciclo de conferências Fernando Pessoa: Filosofia, Religião e Ciências do Psiquismo Humano ocorrerá dia 6 de Junho de 2012, na Casa Fernando Pessoa.
A sessão tem início às 18h30 e conta com uma palestra de Paulo Borges intitulada:
D. Sebastião e o Quinto Império em Fernando Pessoa.
Convidamos todos os interessados a estarem presentes nesta sessão.
Organização: Paulo Borges, Nuno Ribeiro e Cláudia Souza.
domingo, 3 de junho de 2012
- Vê lá, se gostas deste.. É o que ando a fazer agora. Não leias, se estás cansada, mas se queres esquecer o teu dia, embrenha-te nele. É o que ando a escrever. Não sei que horas são...
- Já passam das seis da manhã. Acho que vou ler depois de dormir...
Devolve-me um sorriso. Responde-me sempre assim. Ela é a minha vizinha do r/c. Não sei o que faz, para além dos poemas que me ofecere a cada manhã.
"Edito a vida de quem não tem vida, todos os dias", diz a caminho de sua casa.
Se Helena matasse o vizinho do segundo esquerdo, teria um editor. Seria notícia em todos jornais: “Poetisa estrangula vizinho, ao raiar da manhã...”. Em pouco tempo teria um livro publicado com todos os seus poemas. Tenho certeza que seria um best seller.
Augusto é um velho militar reformado. Toca uma corneta desafinada ao raiar de todas as manhãs. Helena está convencida que o homem terá sido galo numa vida passada.
Quando chove, a poeira vira lama. Na mesa da minha sala de jantar, amontoam-se fotografias. O passado ganha contornos de presente. Desenho com os dedos cada traço como se nesse gesto, a velhice fosse somente um breve pesadelo. Deixo que os espelhos ganhem pó e com o tempo se distraiam de mim.
Helena parece não ter idade. Enquanto envelheço a cada manhã, ela parece sempre a mesma com um sorriso que não consigo definir. Os seus poemas moram com as minhas fotos, como se fossem amantes inseparáveis.
Antes de me deitar, em vez de pedir a Deus desculpas por todos os meus pecados, leio. Os poemas de Helena são como a noite morna que aconchega meu corpo.
Dormir de dia, é como andar em contra-mão. O corpo pesa e reage descompassado.
Depois de um banho quente, sento-me a ler o poema de hoje:
“Tudo que nasce é gerado na sombra,
A morte acolhe a semente de uma nova vida”
Doce é esta dor que abraça o meu coração antes de adormecer. Um casal de grilos canta na minha janela.
segunda-feira, 28 de maio de 2012
quinta-feira, 17 de maio de 2012
"Não podemos amar Deus e ser indiferentes às criaturas que sofrem"
quarta-feira, 16 de maio de 2012
As minhas sardas
Quando era criança, morei num bairro de pescadores, em Fortaleza, onde os miúdos traziam na boca histórias fantásticas. O Vavá tinha a cabeça achatada e explicava que era assim porque a mãe quando grávida tinha caido no chão bem em cima da barriga. Recordo o meu espanto com tal explicação. Se ela tivesse caído de lado, como seria o perfil?
Um dia o Pirrita aconselhou-me a lavar a cara com o meu xixi para limpar a cara.
A verdade é que sempre tive complexos por ser sardenta.
Na adolescência colocava base e as sardas viam-se por baixo - teimosos sinais castanhos que não me largavam.
Para as ruivas, o cabelo é da cor da cenoura e faz todo sentido serem sardentas. Eu que sempre tive o cabelo castanho, passava por uma falsa sardenta. Com os anos fui aprendendo a gostar destesn pequenos sinais.
No rosto são mais de cem, no corpo outras tantas que invento e não encontro.
Umas cresceram como se fossem sementes de uma nova gente.
Outras apagaram-se tão cansadas estavam da vida acontecida.
Acordam na minha pele todas as manhãs.
Vivem comigo desde criança.
Namoram, casam-se e inventam filhos.
Nunca as vi morrer.
Talvez na hora do juízo final.
segunda-feira, 14 de maio de 2012
SENTAR E CAMINHAR EM PAZ E SILÊNCIO POR UM MUNDO NOVO - 20 DE MAIO - 15h
quinta-feira, 10 de maio de 2012
O
mundo sabia de cor, a cor da dor de quem nunca teve a sorte de nascer
imperador. O peixe era doce e cru. A beterraba avinagrada. A vontade de
ser feliz era tanta como a tua agora que acabas de nascer. O jejum era
dos pobres que o faziam dia após dia.
Vizinhos da vida viajaram sem regresso com um sorriso que não esqueço.
O homem mata o homem e nunca sabe porquê. Bendita a memória que me assombra neste dia que nasce outra vez.
quarta-feira, 9 de maio de 2012
terça-feira, 8 de maio de 2012
Se ficar por aqui mais um instante| chorarei a ausência que permanece | memória que me assiste| quando me perco | falta que invade meu corpo | bem no meio do coração | um sorriso como se fosse outro abraço | desligo a luz | invento o infinito | que nunca teve início nem fim | por dentro de mim| um beijo que não encontra pouso
quarta-feira, 2 de maio de 2012
sexta-feira, 27 de abril de 2012
Jorge Salgueiro & Risoleta Pedro - Conquista-me
Interpretado por "Negros de Luz", in: DEZ ANOS DE INQUIETAÇÃO
Vozes:
Soprano- Filipa Lourenço
Contralto- Paula Pradas
Tenor- Tiago Bastos
Baixo- Carlos Cóias
Cordas:
Violinos- António Barbosa e Paulo Viana
Violeta: Ricardo Mateus
Violoncelo: Carlos Faria
Contrabaixo: Alexandre Carvalho
Piano: Óscar Mourão
Percussão: José Carinhas
Direcção: Jorge Salgueiro
Gravado por Fernando Nunes nos Estúdios Pé de Vento em 2003
CONQUISTA-ME
Risoleta Pinto Pedro
Hoje sonhei com lilases
No teu corpo
Suspensos
Em mim
Na pele
corriam as cores
E na face
Um riso de jasmim
Hoje eu sonhei
que sonhava
e no sonho
dizia:
"Vem doce jardineiro
ao teu jardim"
Abro p'ra ti minha flor
Borboleta ousada entrando
Em mim
Suspendo sobre as casas
Minhas asas cheirando a alecrim
Banho-me em profundo mel
Carrocel de mãos alisando
Um corpo
Que o sonho
Diz meu
Sonho-te
e estás em mim
jardineiro e jardim
um ao outro deleitando
Banhando-te com as flores
Dos amores saindo de teu peito
REFRÃO
Conquista-me
Contorna-me
Aprofunda-te
Em mim.
Apetece-me
Tua pele
Saboreio-te
Levemente
E és anis.
segunda-feira, 23 de abril de 2012
domingo, 22 de abril de 2012
Retrato 3/4
no meu retrato
três por quatro
viajo ao passado
aquela sou eu
ainda criança
de copo na mão
na festa da escola
lembras desta?
teu corpo no meu
antes da despedida
tantas vezes partimos
quantas vezes beijei-te
e não fotografei?
na parede o retrato
emoldura o passado
nos meus lábios
um ar morno e doce
indica o presente
onde tudo acontece
enquanto respiro
sexta-feira, 20 de abril de 2012
Curso sobre Agostinho da Silva na FNAC/Chiado, em Lisboa (novas datas)

Ciclo Agostinho da Silva
Fnac Chiado (18 Abril a 18 de Maio)
18 Abril: Rui Lopo. As “obras de Agostinho da Silva” em confronto com o espólio
26 Abril: Duarte D. Braga. Os projectos de divulgação cultural de Agostinho da Silva
27 Abril: Maurícia Teles. "Agostinho da Silva, além de Poeta...Poema"
3 Maio: Dirk Hennrich "Um Agostinho da Silva: As "Sete Cartas a um Jovem Filósofo" como autobiografia ficcional."
4 de Maio: Renato Epifânio "A reflexão de Agostinho da Silva sobre Portugal e a Lusofonia"
18 Maio: Paulo Borges. Agostinho da Silva e o encontro inter-religioso
Organização: FNAC / Associação Agostinho da Silva
quinta-feira, 19 de abril de 2012
"Necessitamos desesperadamente de algo diferente"

“As incríveis e avassaladoras mudanças do final do século XX e do início do século XXI obrigaram a alterações dramáticas e, por vezes, revolucionárias, em quase todos os campos da actividade humana – excepto um: a política. Naquele que é um dos fóruns mais cruciais, as instituições e os hábitos adquiridos em vários momentos anteriores têm perdurado, mesmo à medida que a sua eficácia se vai revelando cada vez menos evidente. Por outro lado, vão-se acumulando as provas de que estes organismos e regras herdados são cada vez mais incapazes de compreender e arbitrar as forças que agora giram à nossa volta.
Necessitamos desesperadamente de algo diferente”
- Carne Ross, A Revolução Sem Líder, Lisboa, Bertrand, 2012, p.27.
sexta-feira, 13 de abril de 2012
E Deus criou a Terra e Monsanto veio e estragou-a e roubou-a toda
Num planeta assim, não é possivel viver.
Ficção científica no seu mais tenebroso enquadramento. Impossivel ignorar, porque ainda vamos a tempo de impedir.
Mas temos de ser TODOS. Repito; TODOS.
Um artigo fundamental, assinado por Daniel Deusdado, explica o que se está a passar:
A ditadura chegou ao campo - JN
quinta-feira, 12 de abril de 2012
Curso sobre Agostinho da SIlva na FNAC CHIADO

Organização de Associação Agostinho da Silva e FNAC
Fnac Chiado (18 Abril a 4 de Maio, às 18h30)
18 de Abril: Rui Lopo. As “obras de Agostinho da Silva” em confronto com o espólio
20 de Abril: Paulo Borges. "Agostinho da Silva e o encontro inter-religioso"
26 de Abril: Duarte D. Braga. Os projectos de divulgação cultural de Agostinho da Silva
27 de Abril: Maurícia Teles. "Agostinho da Silva, além de Poeta...Poema"
3 Maio: Dirk Hennrich. "Um Agostinho da Silva: As "Sete Cartas a um Jovem Filósofo" como autobiografia ficcional."
4 de Maio: Renato Epifânio. "A reflexão de Agostinho da Silva sobre Portugal e a Lusofonia"
quarta-feira, 11 de abril de 2012
quinta-feira, 5 de abril de 2012
quarta-feira, 4 de abril de 2012
Carta de Agostinho da Silva
Tão boa que está a Hora, agora.
Antes de mais, digo-vos que o Miguel Real não pode vir ao jantar, porque teve de ir noutro lugar.
Amem.
Passaram 18 anos que vos deixei, e me livrei, corria então um terno Domingo de Páscoa.
Por aqui tudo isto é muito mais. Muitos coros celestiais. Sempre.
ENTRE o Paráclito tudo se vai passando, não passando, como num circo. Movimentam-se os pés por cima das esferas e a música acontece. Eu me explico tanto quanto posso.
Não há Banco Mundial, nem tão pouco Fundo Monetário Internacional. A Troika aqui é outra. Não há necessidade de investir para lucrar. Basta Ser.
Também não há escolas, embora ande todo o mundo a estudar. As crianças já antes da tenra idade aprenderam a voar.
Não há Hospitais. Levantar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer. Aqui ninguém dorme e anda sempre toda a gente a dormir. Às vezes temos gosto em conversar um pouco, desconversando. As palavras são tantas como um rio de silêncios, e o silêncio é uma regra de ouro.
Amem.
Já MIL vezes que vos disse que não temos nada a dizer. Também para quê se o nosso Império é de serviço e de amor. Aqui, que é aí, todos cabem em partes iguais, o “sem abrigo” e o inimigo, o artista e o cientista, as canções e as orações. Mas sem dúvida que somos muito dados à filosofia.
Temos apreciado a ESCOLA ABERTA AMARELA e o ESTUDO GERAL.
Criámos um novo método de ensinar onde não é preciso quantificar as aprendizagens. Como é sabido aprende-se muito desaprendendo. Também andámos por lá na Livraria UNI VERSO, em Setúbal.
A Maurícia manda um abraço.
É claro que aqui já não é “a Hora” de coisa nenhuma. E cá vos espero.
Amem.
O irmão servidor,
Agostinho da Silva
(Carta lida em Jantar de Confraternização "Recordando Agostinho da Silva" no Restaurante "Os Arcos", em Alhos Vedros, dezoito anos depois do desaparecimento físico do Professor).
terça-feira, 27 de março de 2012
Para uma nova cultura
- Dieter Duhm, Towards a new culture, 1993, p.15
quarta-feira, 21 de março de 2012
Entrevista de Paulo Borges ao filósofo romeno Ciprian Valcan sobre budismo, filosofia, Cioran, Oriente e Ocidente
1. Em que medida um melhor conhecimento da filosofia oriental contribui para a transformação da reflexão filosófica da tradição ocidental? No seu caso, como é que o budismo influenciou o estilo de filosofia que pratica?
Conhecer o pensamento oriental é decisivo para que o Ocidente compreenda as outras possibilidades que as suas opções sacrificaram, mas que nele permanecem latentes, por serem inerentes ao homem e ao espírito. Isto já é uma profunda transformação e possibilita imprevistas metamorfoses do pensar europeu-ocidental. Isto exige todavia o expatriamento da nossa situação cultural mais imediata, que nos permita vê-la de fora, panoramicamente. Isto exige um pensamento nómada, que não se ancore numa dada matriz linguístico-cultural, mas viva em constante viagem no espaço entre todas elas. É esse o projecto da revista que dirijo, Cultura ENTRE Culturas.
Encontrei o budismo ao terminar a licenciatura em Filosofia, em 1981, e reconheci nele o que já era e vivia antes de o saber. Senti o mesmo em relação a alguns pensadores portugueses contemporâneos, que descobri na mesma altura. Essas influências, o budismo, sobretudo Nagarjuna, Longchenpa, Hui Neng, Linji, Dogen, Chögyam Trungpa, Thich Nhat Hanh, o tantrismo e o Dzogchen tibetanos, os mestres com quem estudo pessoalmente, a prática quotidiana da meditação, pensadores e poetas portugueses como Antero de Quental, Sampaio Bruno, Teixeira de Pascoaes, Fernando Pessoa, José Marinho, Eudoro de Sousa e Agostinho da Silva, mas também Eckhart, Rumi, Nietzsche, Cioran e poetas e místicos de todas as tradições, têm-me ajudado a esclarecer as mais gratas experiências que remontam à infância: o sentimento agudo da estranheza de existir e haver realidade, vivido até à iminência da exaustão e loucura; a comunhão disso com um amigo de jogos de rua, cerca dos 8 anos de idade; a iniciação adolescente à consciência sem sujeito nem objecto e ao sentimento de ser todo o mundo-ninguém por via da música, da dança e da experiência erótico-sexual e amorosa; a experiência do espaço aberto ao sair da Universidade de Lisboa, no fim das aulas de Filosofia, com a mente livre de todo o artifício conceptual; a mesma liberdade nas longas caminhadas por montanhas e florestas, pelas colinas de Lisboa e ao entardecer nos miradouros sobre o Tejo; a contemplação do oceano no finisterra português e a saudade de um não sei quê; o brilho das coisas nos muros caiados de branco; a vida sem quem nem quê, sem porquê nem para quê, livre e infinita. De tudo isso vem e a tudo isso regressa o meu pensar, mais directamente expresso em A cada instante estamos a tempo de nunca haver nascido e Da saudade como via de libertação (2008), além de na ficção Línguas de Fogo (2006).
Dei por mim a seguir a via do Buda por experiência, caminho do meio para além da razão e da fé. Pessoalmente aprecio nela várias qualidades: o espírito iconoclasta, patente no “Se vires o Buda, mata-o!” de Linji, pois o Despertar não é alguém ou algo exterior; ser experimental e não dogmática, pesem os desvios de muitos budistas; ter uma ética global que não exclui nenhum ser senciente, como os animais; assumir-se como mero meio a ultrapassar, pois o que importa não é ser budista e sim Buda; e, sobretudo, a qualidade e inspiração dos mestres vivos que a ensinam. Contudo o meu interesse pelo budismo estende-se a todas as religiões e vias espirituais, formas diferentes de conduzir pessoas com distintas tendências, capacidades e condicionamentos histórico-culturais a um mesmo objectivo: a plena descoberta de quem desde sempre são.
Cioran inspira a mais ousada e radical aventura: transcender todos os limites do pensamento, da vida e da existência e sobreviver para o dizer ou gritar, com uma mestria literária que enobrece as ruínas do mundo. Inspira-me também nele o que encontro em portugueses como Pascoaes e Pessoa: na periferia da cultura europeia dominante, agudamente conscientes do fim de ciclo da sua civilização, serem movidos pelo ímpeto de libertação dos ídolos dessa mesma cultura e civilização, sem se deterem no limite do humano, numa titânica hybris de superação de tudo, do sujeito e de si mesma, numa nostalgia ou saudade violenta do incondicionado, irredutível à constituição do sujeito no mundo e fundo sem fundo de toda a experiência. Fascina-me o modo como em Cioran o génio literário serve um obsessivo e minucioso ajuste de contas com todas as ficções da consciência, da história e da cultura, escalpelizadas e reduzidas a cinzas pelo cirúrgico e cáustico bisturi do aforismo e do pensamento incendiado na veemência da insónia, da febre e da blasfémia, mas também do entusiasmo extático e transfigurador. E também a assumida inspiração no primitivismo dos camponeses das montanhas romenas e na pulsão herética da sua cultura popular, semelhante ao que em Portugal acontece com Teixeira de Pascoaes ou Agostinho da Silva. Cioran mostra aliás conhecer as fundas afinidades entre a cultura romena e a portuguesa. Num dos seus Entretiens assume a “nostalgia sem limites”, inerente à fugacidade da experiência temporal do absoluto, como fundadora da sua visão do mundo e acrescenta: “Este sentimento liga-se em parte às minhas origens romenas. Ele impregna ali toda a poesia popular. É uma dilaceração indefinível que se diz em romeno dor, próxima da Sehnsucht dos Alemães, mas sobretudo da Saudade dos Portugueses”.
Fiz uma conferência sobre Cioran e Fernando Pessoa na Universidade de Gröningen, na Holanda, em 2009, que publiquei na revista Arca graças a Ciprian Valcan e que incluí no meu último livro sobre Pessoa: O Teatro da Vacuidade ou a impossibilidade de ser eu (2011).
4. Qual a recepção actual da obra de Cioran em Portugal?
Tudo o que tem início tem fim e a filosofia, se a identificarmos com a modalidade logocêntrica e conceptual surgida na Grécia e sobretudo com a sua vertente académica e institucional, está a esgotar-se, pelo afastamento da vida e de outras possibilidades do espírito. A filosofia deixou em geral de ser um modo de vida integral, como nas escolas filosóficas gregas (como recordou Pierre Hadot) e indianas, para se tornar uma actividade meramente intelectual, com uma linguagem técnica hiper-especializada em questões estéreis, que nada dizem às fundamentais aspirações humanas. Essa filosofia traiu a própria vocação, enquanto amor da sabedoria, do saber/sabor da essência da vida, e nesse sentido o seu triunfo é a sua morte.
Por outro lado, se considerarmos filosofia as múltiplas formas do pensamento planetário que visam a sabedoria - um saber que nos converte naquilo que sabemos e promove uma vida mais plena e solidária - , então essa filosofia é perene enquanto conatural ao exercício consciente do viver e sempre se renova em função dos novos lances do jogo do mundo. No que respeita à filosofia ocidental, creio que o seu renascimento depende do diálogo com esses outros paradigmas não-ocidentais e sobretudo do reencontro com a vida e o infinito que nela se abre. Necessitamos de um novo início: repensar tudo na experiência mais imediata, a do indeterminado pré-conceptual. Não a partir de Deus, do homem, do mundo ou de qualquer outro pressuposto, não “a partir de”, mas nisso que a cada instante há antes de se pensar e se abre entre cada pensamento, palavra e fenómeno. Isso implica morte e renascimento contínuos: viver sem apoios.
O niilismo ocidental resulta da incapacidade de se suportar habitar po-eticamente esse “vazio” aberto pela “morte de Deus” proclamada pelo “louco” nietzschiano: “Para onde vamos nós próprios? […] Não estaremos incessantemente a cair? Para diante, para trás, para o lado, para todos os lados? Haverá ainda um acima, um abaixo? Não estaremos errando através de um vazio infinito? Não sentiremos na face o sopro do vazio?”. Nesse aspecto, a espiritualidade oriental, mas também a de Plotino, Eckhart ou a heteronimia de Pessoa, podem ajudar-nos a descobrir nesse abismo o nosso próprio rosto e o de todas as coisas: o infinito exuberante de todos os possíveis, Todo o Mundo-Ninguém.
- Entrevista publicada em "Orizont" (Revista da União dos Escritores da Roménia), nr. 2 (1553), Ano XXIV, nova série, 28 de Fevereiro de 2012. Traduzida para romeno por Maria João Coutinho e Simion Cristea.
sexta-feira, 16 de março de 2012
Biblia Hebraica
Manuscrito em pergaminho atribuível à escola de calígrafos de Lisboa, da segunda metade do século XV, raríssimo (conhecem-se pouco mais de 20 exemplares!), porque a maioria destas bíblias, na Península, foram confiscadas e queimadas pela Inquisição. Não tem colophon (isto é, o local onde se inscrevem os dados do local e data) que nos informe da sua data e do nome do seu autor. Este exemplar tem as páginas iniciais inteiramente preenchidas com uma escrita micrográfica, de gosto mudéjar, a tinta castanha e ouro, semelhante a exemplares assinados pelo calígrafo Samuel Isaac de Medina, datados entre 1469 e 1490, e que se conservam na Palatina de Parma, em Cincinnati e em Oxford. Faltando-lhe embora algumas características decorativas típicas da escola lisboeta (tarjas e iluminuras cor malva), tem anotações e pertences que a relacionam com a família Abravanel, de Lisboa e de Sevilha. É, por isso, conhecida como a Bíblia de Abravanel.quinta-feira, 15 de março de 2012
"Dançar é sentir, sentir é sofrer, sofrer é amar... Tu amas, sofres e sentes. Dança!"
(The Red Shoes - fotos e textos escolhidos por Adama)"Dançar é sentir, sentir é sofrer, sofrer é amar... Tu amas, sofres e sentes. Dança!"
- Isadora Duncan
“A liberdade ofende. Mulher de olhos brilhantes, Isadora é inimiga declarada da escola, do matrimónio, da dança clássica e de tudo que engaiole o vento. Ela dança porque dançando goza, e dança o que quer, quando quer e como quer, e as orquestras se calam frente à música que nasce do seu corpo “
- Eduardo Galeano
quarta-feira, 14 de março de 2012
"O círculo desenha-se no apagar-se"
"Aí, então, floresces..."
domingo, 11 de março de 2012
sábado, 10 de março de 2012
O poema nasce como o fogo tricolor
e o poeta constrói-se com as cinzas diurnas
de um palácio azul turquesa. o poema fala e
semeia gritos esculturais como um hóspede
da madrugada a ler a sua confissão. o poema cabe
em nós como uma flor de mármore
à espera que o silêncio ganhe botões de rosa.
o poema fecunda-se na parte feminina do escuro
no interior das axilas do vento, onde os sonhos acendem
janelas e as sombras são uivos de paisagens
com perfume de criança.
quarta-feira, 7 de março de 2012
"Uma vez, no meio de todos os cinzentos dias da minha vida, vi o coração da realidade; fui testemunha da verdade”
“[…] neste cenário de todos os dias, e de um modo inteiramente inesperado (pois jamais havia sonhado com tal coisa), os meus olhos foram abertos e, pela primeira vez em toda a minha vida, tive um vislumbre da beleza estática da realidade…
[…] Não vi nenhuma coisa nova, mas vi todas as coisas habituais numa miraculosa luz nova – no que acredito ser a sua verdadeira luz. Vi pela primeira vez quão selvaticamente bela e jubilosa, para além de quaisquer palavras minhas para o descrever, é a totalidade da vida. Cada ser humano atravessando aquela varanda, cada pardal que voava, cada ramo oscilando ao vento, estava integrado e era parte do inteiro e louco êxtase de encanto, alegria, significância e embriaguez da vida.
Não que por uns poucos e excitados momentos eu imaginasse toda a existência como bela, mas, antes, a minha visão interna foi desobstruída para a verdade, de modo que vi o real encanto que está sempre aí, mas que tão raramente percepcionamos, e soube que todo o homem, mulher, ave ou árvore, toda a coisa viva diante de mim, era extravagantemente bela e extravagantemente importante. E, ao contemplar, o meu coração fundiu-se e abandonou-me num arrebatamento de amor e deleite. […]
Uma vez, no meio de todos os cinzentos dias da minha vida, vi o coração da realidade; fui testemunha da verdade”












