sábado, 3 de março de 2012

São apresentados hoje no Porto livros de dois dos colaboradores da "Entre": "Falosofia" de Bruno Miguel Resende, que será apresentado pelo Dr. Gilberto de Lascariz, e "Spabilanto" de Fátima Vale, apresentado pela poeta Melusine de Mattos. Ambos os autores colaboraram no nº 4 da revista. É hoje, dia 3, no Orfeão do Porto, às 21,30 horas.

imagem da capa e ilustrações de magule wango 
paginação e design gráfico de bruno miguel resende   

paginação e design gráfico de bruno miguel resende   


Publicamos aqui os primeiros parágrafos do texto de Luiz Pires dos Reys, director de arte da Entre (que, diz-se, assina por vezes como Donis de Frol Guilhade) sobre as obras de Fátima Vale e Bruno Miguel Resende, hoje apresentadas no Porto, de acordo com a informação do título deste post.
O texto, que será publicado posteriormente na revista "Infernus" (quer na sua edição web, quer na sua luxuosa edição em papel) pode ser lido na íntegra aqui: http://www.spabilados.net/?p=1211



c a c a f o r i s m o s   d o   d e s a f o r o 
ou de como o creme compensa a vale e a valete  
(sonata para flauta de pã de resende e gritos no vale em três andamentos e trinta três degraus sempre a descer)

§ primo andamento: allegro rubato molto espressivo
1.     não mo pediram. por isso, apresento-me {em estado de estança indistante} na feliz encontrança de um par de mafarricos.
2.     se os digo maiúsculos, escrevo-o em minúsculas: porque sim. porque sim é igual a porque não sim: só  não o diz como mesmo.
3.  começa-se pelo final: que há-de confundir-se sem favor para com o desfecho, mas não para com a terminação. o fim, que não é lotaria nem lota, começa mesmo pelo final, porque “estar vivo pode [bem] ser ilegal”: por isso, lotaria.  por isso lutaria.
4.      à entrada tropeça-se logo – onde é a saída, por tutatis? – numa “fuga contrabandista” antes de dar de caras na lama da “tina (...) do sistema” em tombo-mestre. começa-se em grande, portanto. o assunto, na verdade, não é pequeno, nem o sujeito, mas não é o caso para menos (é a eito): veremos se é para mais.
5.    o índice é bonito: não existe. em vez de existir está toda a incomunidade sacrista esparramada na folha derradeira de ambos os vibrantes livruscos. até agora vinte duas opúsculas almas, de tantos quantos arcos maiores do baralho que nos arcana e sacana o destino e os destinatários do desatino.
6.    o senhor XXI de série é um bruno qualquer coisa que é dado, vê-se, à falosofia: já ouvi falar. não é daqueles que só falam na sophia, mas só assofiam. ela é sábia, que é, mas  é tambémeua  louca, que sobretudo é. já voltaremos ao senhor falósofo: se ele não se voltar de costas para si mesmo.
7.    em viségimo 2º na classificação geral da volta à presente estança está uma, qualquer coisa em átima, semblante assim para o grã-mátria viriata, e toda ela dharmática que nem serrana dakini. apresenta-se ademais afinada em clave de fá: vem pois cheia de fazada. a gente não se importa nada com isso, faz-lhe a vontade (não as vontades, entenda-se), e chama-lhe fátima.  só para que ela nos reconheça.  vale a pena passar incógnito onde todos se conhecem.
8.      os livros, esses, são sobre fantasmas (coisa de que toda a gente diz não ter medo: até à hora de ter!) e de cadáveres (coisa que toda a gente serfilho a gráfico, para ae serue ná um dia: à hora de ser!). O caso é este: assegura-se-nos que o “fantasma de la lembrança” dança lindamente com o “cadáber de 1 memiento”. perfeita cena de mimo para o álbum do nosso desmame funerário! 


Excerto de um texto sobre mística e saudade em Dalila Pereira da Costa, em homenagem a uma Amiga que deixou esta percepção do mundo




"Sem podermos aprofundar aqui a teoria daliliana da saudade e estender o nosso estudo às restantes obras onde a continua, parece-nos óbvio que a sua matriz e contornos fundamentais residem e radicam nesse “instante de ouro” de plenitude não pensada nem desejada, mas vivida, génese de um saber de experiência feito [1], pois, interrogamo-nos, de que mais e em última instância se poderá ter saudade? Sem esse conhecimento experimental, da possibilidade de abolição da percepção habitual da realidade, socialmente legitimada como normal, mas também sem o não menos experimental conhecimento da sua fugacidade no retorno à percepção dualista e opositiva de si, do mundo e do divino, não se compreende tudo o que brota da tentativa, sempre tortuosa e difícil, de o expressar, ao longo de quase quatro décadas. Sem esse duplo conhecimento experimental também não se compreende a teoria da saudade como a união na cisão que tende à reunião de todas as polaridades do real (ou da sua percepção) e à superação de si mesma na identidade reencontrada. Enquanto tal, ela parece ser o nome que assume, na tradição galaico-portuguesa, a única alternativa à perene errância da constitutiva fuga para a frente do homem e do mundo históricos (cf. Peter Sloterdijk, Welfremdheit), na sempre frustrada e sempre reiterada recusa da plenitude que sempre traz consigo porque a cada instante plenamente se lhe oferece. Desta mais nobre saudade, como alma do mundo e potência psicopompa e iniciática, tem sido e continuará Dalila a ser a nossa mais nobre guardiã".

- excerto de “[…] eu era o Outro”. Experiência Mística e Saudade em Dalila Pereira da Costa", publicado em Actas do III Colóquio Luso-Galaico sobre a Saudade - Em Homenagem a Dalila Pereira da Costa. Zéfiro, 2009.

[1] O ouro é tradicional e reconhecidamente um potente símbolo do incondicionado. Falando-nos do “ser de ouro”, também no contexto de uma experiência vivida e narrada, William Desmond fala-nos do kairos como esse “momento culminante do ser” e diz-nos: “Muitas vezes somos tomados por momentos de inteireza, em que uma inocência e uma alegria elementares são despertadas. Nessa perspectiva, a Idade de Ouro não precisa ser uma evasão do tempo, mas a atenção-plena mítica, memorial de uma presença qualitativa: temos de contemplar o mundo, agora, existente, partilhando a perfeição, manifestando algo inexprimivelmente bom” – William Desmond, A Filosofia e seus Outros – Modos do ser e do pensar, São Paulo, Edições Loyola, 2000, p.458; cf. também pp.450-463.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Seminário "O Bem e o Belo em contexto natural" - 2.ª Sessão ǀ Animais, Interesses e Direitos - 10 Março



Seminário "O Bem e o Belo em contexto natural"
2.ª Sessão ǀ Animais, Interesses e Direitos
10 de Março de 2012 | 9h30-18h
Anfiteatro Manuel Valadares, Museu Nacional de História Natural e da Ciência
Moderação: Maria José Varandas
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PAULO BORGES • Professor do Departamento de Filosofia da Universidade de Lisboa. Director da revista Cultura ENTRE Culturas. Sócio-fundador e membro da Direcção do Instituto de Filosofia Luso-Brasileira. Sócio-fundador e vice-presidente da AIEM – Associação Interdisciplinar para o Estudo da Mente. Fundador e coordenador do Círculo do Entre-Ser, Associação Filosófica e Ética. Presidente da União Budista Portuguesa e da Associação Agostinho da Silva. Fundador e presidente da Direcção Nacional do Partido pelos Animais e pela Natureza (PAN).
Endereço electrónico: pauloaeborges@gmail.com

QUEM É O MEU PRÓXIMO? SENCIÊNCIA, COMPAIXÃO E ILIMITAÇÃO
“Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mateus, 22, 39). Quem é o meu próximo? Aquele que pertence ao mesmo grupo familiar, local, social, económico, nacional, étnico, cultural, linguístico, político ou religioso? Aquele que pertence à mesma espécie, ao mesmo planeta ou à mesma galáxia? Ou o meu próximo é aquele de quem me sentir próximo, ao ponto de o não sentir separado de mim nem a mim separado dele? O meu próximo tem então de ter duas pernas e dois braços ou pode ter quatro patas, muitas, nenhuma, caule, tronco, folhas, flores e frutos? Tem de ter cabelos e pele quase nua ou pode ter pêlos, penas, couraça, escamas e casca? Tem de viver sobre a terra ou pode rastejar dentro dela e voar e brilhar nos céus? Tem de ter uma vida individual ou pode ser a própria terra, as areias, as rochas, os minérios, as águas, os ventos, o fogo e as energias que em tudo isso habitam? Tem de falar a minha linguagem ou pode miar, ladrar, zumbir, uivar, cacarejar, grunhir, mugir, relinchar, rugir, trinar, grasnar, trovejar, soprar, relampejar, chover ou florir, frutificar, repousar e mover-se em silêncio? Tem de ter forma e ser visível ou pode não ter forma e ser invisível? Tem de ter vida consciente e senciente? Tem de ter vida? Tem de ser algum ser ou coisa ou pode ser tudo? A empatia, o sentir em si o outro como o mesmo, a compaixão, têm limites? Temos limites? Conhecemos a fronteira do que somos? Ou só o medo nos limita? O medo de tudo o que há. O medo do infinito e da vasta multidão que somos.
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MANUEL JOÃO PIRES • Licenciado em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa onde prepara a sua dissertação de doutoramento. Orienta a sua investigação, essencialmente, nas áreas da ética, bioética e filosofia contemporânea, tendo várias comunicações e trabalhos publicados no âmbito das áreas mencionadas. É actualmente professor de Filosofia do ensino secundário, investigador do Centro de Filosofia da UL e dirigente da SEA – Sociedade de Ética Ambiental.
Endereço electrónico: manueljoaopires@hotmail.com

ALIENS, HUMANOS E NÃO-HUMANOS: O DESAFIO DA ÉTICA ANIMAL
Com base numa versão pessoal de uma experiência mental proposta por Mark Rowlands na obra Animal Rights: Moral Theory and Practice, será nosso objectivo debater o problema da consideração ética e avaliar criticamente o modo como os humanos usam os não-humanos para a satisfação dos seus interesses e preferências de natureza gastronómica, científica e de entretenimento. Tendo sempre presente o horizonte de sentido instaurado pela experiência mental, num primeiro momento, analisaremos o conceito de estatuto ético e as suas implicações directas no que respeita à forma como devemos tratar os seres que reúnem as condições suficientes ou necessárias para usufruir dessa condição ética. De seguida, procuraremos mostrar a inconsistência da pertença à espécie x ou y, incluindo à espécie homo sapiens, como critério para proceder à inclusão ou exclusão de um determinado ser da esfera de consideração ética, revelando, em simultâneo, a insustentabilidade do especismo como forma de justificar a utilização de um conjunto de seres para a satisfação dos interesses e preferências de outros seres. Assegurada a inconsistência ética do especismo, a nossa intenção será problematizar qual será a propriedade eticamente relevante que concede a um determinado ser, ou conjunto de seres, estatuto ético. Procuraremos mostrar que os critérios tradicionalmente usados no interior do paradigma antropocêntrico para a atribuição de estatuto ético, são arbitrários e injustificados, sendo inevitavelmente vítimas de uma redução ao absurdo ou reféns do argumento dos casos não paradigmáticos, uma vez que, independentemente das diferenças factuais existentes, aliens, humanos e não-humanos, partilham uma identidade ética, ou seja, são eticamente iguais. Por fim, numa lógica prévia à opção por uma fundamentação deontológica ou consequencialista da ética animal, procuraremos mostrar qual o fundamento e em que consiste, em concreto, o conceito de identidade ética e quais as suas implicações para o modo como os humanos usam os não-humanos para a satisfação das suas preferências gastronómicas, científicas e de entretenimento. Se os argumentos apresentados se revelarem sólidos, seremos forçados a reconhecer a necessidade de redefinir as fronteiras da consideração ética para além dos limites da humanidade e a concluir que, nós humanos, individualmente e como espécie, pelo estatuto que atribuímos e pela forma como tratamos os não-humanos, fracassámos, em absoluto, naquilo que Milan Kundera, no romance A Insustentável Leveza do Ser, considera o verdadeiro teste moral da humanidade.
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CRISTINA BECKERT • Professora Associada da FLUL, lecciona e investiga na área da Ética, na sua vertente teórica e prática, nomeadamente, no âmbito da Bioética médica e ambiental, bem como na da Filosofia Contemporânea. Tem obras publicadas nestas áreas, como Natureza e Ambiente: representações na cultura portuguesa, Lisboa, Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, 2001, Ética Ambiental, uma ética para o futuro, Lisboa, Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, 2003, Éticas e Políticas Ambientais, (coordenação juntamente com Maria José Varandas) Lisboa, Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, 2003, Um Pensar para o Outro. Reflexões sobre o Pensamento de Emmanuel Lévinas, Lisboa, Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, 2008 e Subjectividade e diacronia no pensamento de E. Lévinas, Lisboa, Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, 2011.
Endereço electrónico: cjccb@mail.telepac.pt

O ESPELHO INVERTIDO. REFLEXÕES SOBRE A RELAÇÃO DO SER HUMANO COM OS OUTROS ANIMAIS
Propomo-nos abordar duas questões distintas, ainda que estreitamente ligadas. Assim, num primeiro momento, debruçar-nos-emos sobre os diversos modelos de relação que o ser humano manteve, ao longo dos tempos, com as restantes espécies animais, desde a simbiose até à exclusão da esfera da comunidade humana, por “excesso de semelhança”. De seguida, teceremos algumas considerações sobre o estatuto moral dos animais hoje, mostrando como a recusa de reconhecer necessidades e, sobretudo, direitos, para os animais não-humanos, é sempre devedora do que Richard Ryder, pela primeira vez, designou de especismo.
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CARLOS JOÃO CORREIA • Doutorou-se em Filosofia Contemporânea em 1993 na Universidade de Lisboa, tendo obtido igualmente o grau de Mestre em Antropologia Filosófica (1985) pela mesma Universidade. É Professor Associado do Departamento de Filosofia a Universidade de Lisboa desde 2003. Membro da Direcção do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, coordena a área de Estética e Filosofia da Religião. É autor de vários estudos no domínio da antropologia, da filosofia da arte e da religião. Da sua bibliografia, destacam-se as seguintes obras: A Religião e o Sentido da Vida: Paradigmas Culturais (Lisboa: CFUL, 2011); O Budismo e a Natureza da Mente [em colaboração com Matthieu Ricard e Paulo Borges] (Lisboa: Mundos Paralelos, 2005); Mitos e Narrativas. Ensaios sobre a Experiência do Mal (Lisboa: CFUL, 2003); Ricoeur e Expressão Simbólica do Sentido (Lisboa: Gulbenkian, 1999). Tem no prelo a publicação do livro, Sentimento de Si e Identidade Pessoal (Lisboa: CFUL, 2011/12).
Endereço electrónico: carlosjoaocorreia@gmail.com

OS ANIMAIS E A ANTROPOLOGIA
Será nosso objectivo sistematizar as principais contribuições da antropologia física para o esclarecimento filosófico da relação entre os animais e os seres humanos. Entende-se por antropologia física o estudo da humanidade como uma espécie biológica, disciplina que constitui uma das linhas de investigação mais dinâmicas da antropologia contemporânea.
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PEDRO GALVÃO • Professor no Departamento de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Membro do grupo LanCog do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa. Autor de Do Ponto de Vista do Universo (CFUL, 2008) e organizador de A Ética do Aborto (Dinalivro, 2005), Fundamentação da Metafísica dos Costumes, de Immanuel Kant (Edições 70, 2009), e Os Animais Têm Direitos? (Dinalivro, 2010). Autor de diversos artigos de ética filósofica em revistas nacionais e internacionais.
Endereço electrónico: p.m.galvao@gmail.com

OFICINA – OS ANIMAIS TÊM DIREITOS?
Tomando como referência alguns dos ensaios reunidos no livro, Os Animais Têm Direitos? (Dinalivro, 2010), proceder-se-á a uma discussão comparativa das implicações das seguintes perspectivas a respeito do estatuto moral dos animais não-humanos: utilitarismo de actos, deontologia reganiana, contratualismo e ética da terra.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Acredita que os homens nascem da terra tal como nascem 
as papoilas. Acredita que os amantes existem para salvar o amor,
que a morte é o espelho inconsciente da vida, que as andorinhas
vêm para matar saudades, que os filhos saem pelo coração. 
Acredita na chuva, principalmente na chuva miudinha, 
que na terra escreve cartas de amor. Acredita no pano cru 
para bordar histórias. Acredita no sorriso franco dos animais, 
nos livros do Daniel, nas cítaras, nos escribas noturnos, 
no pão cego do poema, nas manhãs de hoje da Sophia,
nos automóveis azuis, nos pullovers azuis dos insetos. 
Acredita na dor das palavras esdrúxulas,
no sangue circunflexo do silêncio. só não acredita 
nos domingos e dias santos.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Desperta de seres tu

A cada instante é em teu coração que tudo acontece e a cada instante aconteces no coração de tudo. Todo o universo e todas as coisas se contêm em cada ser e fenómeno que em todo o universo e todas as coisas estão contidos. Tudo se entre-contém e interpenetra. Trazemos todos os astros, terra, água, ar, fogo, minerais, plantas, animais e deuses em cada célula e em cada célula de todos eles existimos. Tudo é feito de tudo. Desperta de haver nascimento, vida e morte. Desperta de seres tu.

A questão dos direitos dos animais



Um livro de Hélder Martins Leitão, que me convidou a escrever o estudo final "A questão dos direitos dos animais. Para uma genealogia e fundamentação filosóficas". Transcrevo o último parágrafo desse estudo: "Cremos ser este o rumo de um novo paradigma mental, ético e civilizacional que reconheça que as agressões aos animais e à natureza, para além da sua nocividade intrínseca, são também agressões da humanidade a si mesma, que não separe as causas humana, animal e ecológica e que reconheça valor intrínseco e não apenas instrumental aos seres sencientes e ao mundo natural, consagrando juridicamente o direito dos primeiros à vida, liberdade e integridade física e psicológica e o direito do segundo à preservação, integridade e harmonia da qual depende a própria vida humana (no que respeita aos animais, Portugal possui um dos Códigos Civis mais atrasados da Europa e até do mundo, considerando-os meras “coisas móveis” – art. 205, 1 - , traço de um direito romano e de um cartesianismo-kantismo anacrónicos que urge alterar). Sem este novo paradigma, de uma nova humanidade, não antropocêntrica, em que o homem seja responsável pelo bem de tudo e de todos, não parece aliás viável haver futuro, pelo menos digno, para os homens e para inúmeras espécies animais e vegetais no planeta Terra."

(Hélder Martins Leitão, "A Pessoa, a Coisa, o Facto no Código Civil", Porto, Almeida & Leitão, Lda, 2010)

sábado, 25 de fevereiro de 2012

"(...) uma transição de dimensões planetárias"




“A transformação que estamos vivenciando agora poderá muito bem ser mais dramática do que qualquer das precedentes, porque o ritmo de mudança em nosso tempo é mais célere do que no passado, porque as mudanças são mais amplas, envolvendo o globo inteiro, e porque várias transições importantes estão coincidindo. As recorrências rítmicas e os padrões de ascensão e declínio que parecem dominar a evolução cultural humana conspiraram, de algum modo, para atingir ao mesmo tempo seus respectivos pontos de inversão. O declínio do patriarcado, o final da era do combustível fóssil e a mudança de paradigma que ocorre no crepúsculo da cultura sensualista, tudo está contribuindo para o mesmo processo global. A crise atual, portanto, não é apenas uma crise de indivíduos, governos ou instituições sociais; é uma transição de dimensões planetárias. Como indivíduos, como sociedade, como civilização e como ecossistema planetário, estamos chegando a um momento decisivo.

Transformações culturais dessa magnitude e profundidade não podem ser evitadas. Não devem ser detidas mas, pelo contrário, bem recebidas, pois são a única saída para que se evitem a angústia, o colapso e a mumificação. Necessitamos, a fim de nos prepararmos para a grande transição em que estamos prestes a ingressar, de um profundo reexame das principais premissas e valores da nossa cultura, de uma rejeição daqueles modelos conceituais que duraram mais do que sua utilidade justificava, e de um novo reconhecimento de alguns dos valores descartados em períodos anteriores de nossa história cultural. Uma tão profunda e completa mudança na mentalidade da cultura ocidental deve ser naturalmente acompanhada de uma igualmente profunda alteração nas relações sociais e formas de organização social – transformações que vão muito além das medidas superficiais de reajustamento económico e político que estão sendo consideradas pelos líderes políticos de hoje”

- Fritjof Capra, O Ponto de Mutação. A Ciência, a Sociedade e a Cultura Emergente, São Paulo, Cultrix, 2001, pp.30-31.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Quando o mar roubou o sal dos rios, bracejei contra os predadores sem dar conta do encontro das águas. Estuário fértil, onde a vida se procria. 
Qando o sol iludia a noite alongando o dia, contemplava o céu.  Apaixonada, descobria a vida. Equânime é o olhar de quem ama.
Cada quarto de hora, ameaça a meia hora. Ruído infernal que anuncia a morte do tempo. Cadenciado é o som, em cada intervalo da hora.
Entre a minha casa e o mar, existe um caminho de ferro.
O silêncio aparece de madrugada, quando a estação adormece cansada, ou quando os maquinistas fazem greve e as crianças do bairro colam seus corpos nos trilhos como se fossem lagartos.
Uma sirene prolongada, anuncia a desgraça.  Num lamento sombrio a noite escurece o dia.
Da minha janela vejo o mar.  Noite e dia.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Brinde a Omar Kayam!

O poder se esvanece:
pó de nada.
Mas as rosas florescem mesmo do pó.
Do mesmo pó de estrelas
o poder torna escravo
Quem das rosas só as pétalas colhe
Descuidado.

Bebei, pois, de uma taça mais funda
Como quem se esquece
E no esquecer se lembra
que do cálice rubro
transborda a seiva que embriaga mais.

M.S.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

"Carnaval significa Sinceridade"

"Carnaval significa Sinceridade. O homem só é verdadeiro quando se julga incógnito. Se tem de representar a sua pessoa, a arte absorve-o e desvia-o do seu próprio ser"
- Teixeira de Pascoaes, "Verbo Escuro".

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

A todos os Namorados e Amantes, ao Amor



"Vivo a vida infinita,
Eterna, esplendorosa.
Sou neblina, sou ave,
Estrela, Azul sem fim,
Só porque, um dia, tu,
Mulher misteriosa,
Por acaso, talvez,
Olhaste para mim"

- Teixeira de Pascoaes, "Elegia do Amor"

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Sete Lágrimas - Senhora del Mundo







Villancico tradicional portugués de autor anónimo, que data del siglo XVI. Interpretado por el grupo luso Sete Lágrimas.Archivo de audio extraído del concierto celebrado el día 4 de diciembre de 2010 en el Auditorio de San Francisco de Baeza, con motivo del XIV Festival de Música Antigua Úbeda Baeza.Se ha acompañado con imágenes de Los Arribes del Duero, bellísima zona que supone la frontera entre España y Portugal a la altura de Castilla y León.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

"Eu vi-me a mim mesmo na pulga": Arne Naess, a ética da empatia e o si-mesmo ecológico



“O meu exemplo padrão envolve um ser não-humano que encontrei há quarenta anos. Estava a contemplar através de um velho microscópio o dramático encontro de duas gotas de diferentes químicos. Nesse momento, uma pulga saltou de um lemingue que estava a deambular pela mesa e aterrou no meio dos ácidos químicos. Salvá-la era impossível. Levou muitos minutos para que a pulga morresse. Os seus movimentos eram horrivelmente expressivos. Naturalmente, o que senti foi uma dolorosa sensação de compaixão e empatia, mas a empatia não era elementar; era antes um processo de identificação: «eu vi-me a mim mesmo na pulga»”
- Arne Naess, “Self-Realization: An Ecological Approach to Being in the World”, in AAVV, Deep Ecology for the 21st Century, editado por George Sessions, Boston, Shambhala, 1986.

“Pois Naess sugere que podemos escolher cultivar um mais amplo si-mesmo pela nossa própria identificação com a natureza e as coisas naturais, mediante a expansão do nosso círculo de tal identificação de maneiras que nos nutram e enriqueçam. Deste modo, o si-mesmo ecológico não é apenas uma espécie de coisa maleável, sendo também construído pelas identificações que escolhe fazer. Tal como na noção de iluminação de Gandhi, derivada do pensamento hindu, na qual o ser iluminado “se vê a si mesmo em toda a parte”, a ecologia profunda instiga-nos a encontrar realização mediante a identificação com a natureza. Em vez de avançar com uma ética que nos mande fazer o nosso dever, ou controlar os nossos desejos e apetites, Naess esperava que a sua forma de auto-realização nos iria encorajar a procurar o nosso próprio bem, como a sua directiva primária. Uma tal ética salvará o mundo, espera ele, mas não por via de fazer da regra “salva o mundo” a nossa primeira norma de conduta”
- Andrew BRENNAN / Y. S. LO, Understanding Environmental Philosophy, Durham, Acumen Publishing, 2010, pp.103-104.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Quem disse que para ver o mundo de cima era preciso ir além da escada?
Quem disse que o amor é o alfabeto das pontes levadiças?
Quem disse que à tua porta a minha (esverdeada) solidão bateu?
Quem disse que o poeta cavalga vinte vezes mais que o sangue do vidro?
Quem disse que a morte tem pressentimentos e brinca como uma criança?
Quem disse que a vida escreve-se de bruços?
Quem disse que, afinal, loucos são os pedreiros?

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

"Vivemos sob a ditadura do dinheiro e a economia é a nossa religião" - Satish Kumar (futuro colaborador da Cultura ENTRE Culturas)




Satish Kumar é um nome pouco conhecido, mas o do seu mentor não. Gandhi inspirou toda a filosofia do indiano de 75 anos, que na década de 60, em plena crise dos mísseis de Cuba, fez uma caminhada de 14 mil quilómetros pelo mundo contra as armas nucleares. Quase meio século depois, Satish lidera a Universidade Schumacher e dirige uma revista sobre sustentabilidade. O i encontrou-se com o antigo monge Jai (a religião de Gandhi) na Estação de Santa Apolónia, em Lisboa. Satish surgiu como o imaginávamos: enérgico, bem-disposto, simples. Tinha acabado de chegar do Porto, onde foi falar sobre sustentabilidade a convite da Gulbenkian.

Como correu a conferência?

O Porto faz-me lembrar uma cidade da Índia, Varanassi, uma cidade sagrada com cinco mil anos que fica nas margens do Ganges. Então comecei por dizer isto ao público, que me sentia em casa por isso, e depois falei de sustentabilidade.

E o que disse?

Que a sustentabilidade não virá dos bancos nem do dinheiro. Sustentabilidade tem de vir do país, da nossa terra, temos que prestar mais atenção à agricultura, à comida, ao queijo, ao vinho, ao azeite e a outras coisas que, para o Porto, podem vir de um raio de 500 quilómetros. Assim passamos a precisar de menos transportes que são baseados em combustíveis fósseis, porque para os termos, temos de entrar em guerra na Líbia. Os combustíveis fósseis não são politicamente sustentáveis, nem economicamente sustentáveis, nem humanamente sustentáveis. Vamos fazer do Porto e de Portugal sítios mais independentes e evitar que os chineses nos tirem empregos e capacidades.

Como assim?

Hoje em dia tudo é feito na China. Eles levam o algodão e trazem-no em tecidos. E é assim que as pessoas perdem capacidades. E agora eles fazem as coisas baratas mas dentro de dez anos não vão ser baratas. Vamos para a China usar trabalho barato mas isso irá tornar-se caro, porque os nossos povos não vão saber fazer roupa, vamos perder as nossas capacidades, os nossos ofícios, e vamos ficar dependentes da China e esquecer como se fazem coisas bonitas. Esta globalização não é boa nem sustentável. Foi disso que falei na conferência, sobre o futuro da sustentabilidade. Tem de ser local: economia local, agricultura local, ofícios locais. E disse que o dinheiro não é uma riqueza real. O dinheiro é apenas um meio de troca, uma medida de riqueza. A verdadeira riqueza é terra, água limpa, florestas, árvores, pessoas, a sua criatividade, as suas capacidades, a sua imaginação.

Uma cidade em Itália já declarou independência do sistema financeiro. Parece-lhe a resposta certa?

Eu não digo que devemos abolir completamente o dinheiro. O dinheiro foi uma boa invenção e é um meio para alcançar um fim, mas não é o fim. Nós fizemos do dinheiro o fim, vendemos terras para termos dinheiro, destruímos florestas, pomos animais em fábricas, usamos pessoas para fazer dinheiro. Fazer dinheiro tornou-se o objectivo. Isto está de pernas para o ar. Temos de dizer: o dinheiro é um meio para alcançar um fim e esse fim deve ser o bem-estar das pessoas. O dinheiro tornou-se um ditador. Estamos a viver sob a ditadura do dinheiro e a economia é a nossa religião. E é a religião errada!

Falou sobre a Líbia. Acha que o Ocidente está a aproveitar-se desta Primavera Árabe por causa do petróleo?

Sim. O caso da Líbia devia ter sido como o da Tunísia e o do Egipto, em que deixámos as pessoas levantar-se e levar a cabo revoluções pacíficas, não-violentas. É assim que se faz. E na Síria, ainda que haja pessoas a serem mortas, se mandarmos a NATO e as forças americanas para lá haverá ainda mais mortes. Saddam Hussein matava no Iraque, mas quando os americanos entraram lá, mataram ainda mais. Os exércitos não são a resposta. Os países ocidentais devem deixar as pessoas erguer-se por elas próprias e parar de fornecer armas a estes países. Porque são países europeus e a América quem fornece as armas que estão a ser usadas para matar estes povos. Esta revolução deve ser pelo povo e para o povo, nós não podemos impor democracia três mil pés acima deles. É uma hipocrisia! Eles só querem ver-se livres do Kadhafi, não estão lá para proteger o povo líbio.

É conhecido por ter feito milhares de quilómetros a pé pela paz mundial e contra as armas nucleares.

Foi uma experiência maravilhosa. O Bertand Russell estava a protestar contra as armas nucleares em Trafalgar Square [Londres] e foi preso. Tinha 90 anos! Eu estava num café com um amigo e disse: aqui está um homem de 90 anos a lutar contra isto e o que é que eu, jovem, estou a fazer pelo mundo aqui a beber café?

Isto foi em que altura?

De 1962 a 1964, dois anos e meio. Comecei em Nova Deli, a partir da sepultura do Mahatma Gandhi, e andei 14 mil quilómetros até à sepultura de John F. Kennedy.

Porquê até à sepultura de Kennedy?

Porque estes dois homens foram assassinados por armas. Queria mostrar que as armas não matam só inimigos, também matam Gandhi e Kennedy.

Desde Nova Deli, passou por onde?

Passei pelo Paquistão, Afeganistão, Irão, Azerbaijão, Arménia, Georgia, Rússia e cheguei a Moscovo - primeira capital nuclear que visitei. Daí fui pela Bielorrússia, Polónia, Alemanha, Bélgica, França e cheguei a Paris, segunda capital. De França fui para Inglaterra de barco e cheguei a Londres, terceira capital. De Londres apanhei outro barco para Nova Iorque e daí para Washington DC, a última.

E neste tempo todo, o que fazia?

Dizia que precisamos de três tipos de paz. A primeira é a paz com as pessoas, o desarmamento nuclear, o fim das guerras, viver em harmonia com todas as religiões e nações. Temos de resolver os nossos problemas apenas através de negociação, de meios pacíficos, porque a guerra é obsoleta, particularmente a nuclear. As armas nucleares são completamente inúteis. Largando uma bomba nuclear mata-se tudo: homens, mulheres, crianças, animais, plantas, rios, lagos, terras, insectos, tudo! Estamos a gastar milhões e milhões de dólares e de libras e de euros nestas armas inúteis quando há pessoas com fome. As pessoas não têm empregos, corta-se na educação, corta-se nos hospitais, corta-se nas bibliotecas e gasta-se em armas. E dizemos nós que somos instruídos e civilizados. Isto é civilização? Isto é inteligência? Temos de gastar mais dinheiro em diplomacia e menos em força militar. Depois, temos de estar em paz com o ambiente - é a segunda paz. Neste momento, a humanidade está em guerra com a natureza, está a tentar conquistá-la. Mas mesmo que ganhemos, nós é que vamos ser vencidos, porque não se pode competir com a natureza.

E a terceira paz?

Paz com nós próprios. Andamos constantemente em tensão, em pressão, sempre a correr, rápido; mais rápido, mais dinheiro, mais tudo. Não passamos tempo connosco, vivemos sem tempo para nos sentarmos em silêncio, para escrever um poema, ler um livro, ir a um jardim, cozinhar, estar com a família, andar a pé. Porque também estamos em guerra connosco. Por isso, paz com o mundo, paz com a natureza, paz connosco. Em sânscrito dizemos shanti, shanti, shanti. Assim, três vezes: paz, paz, paz. Era esse o meu objectivo e andei sempre sem dinheiro.

Foi sozinho?

Fui com esse amigo indiano. Começámos por dizer: a paz começa pela confiança e a guerra começa pelo medo. Se íamos caminhar pela paz, eu ia mostrar a mim próprio que confiava nas pessoas e na natureza. Então, durante dois anos e meio nunca tive dinheiro. E às vezes não arranjei comida mas dizia: é uma oportunidade para jejuar. Se não encontrava um abrigo para dormir dizia: é uma oportunidade para dormir sob as estrelas. E não tinha nenhum medo da morte. Disse: se eu morrer a caminhar pela paz, será a melhor das mortes. E assim consegui caminhar com o meu amigo durante dois anos e meio - faz 50 anos no próximo ano.

E o que acha que mudou em 50 anos?

O nuclear está melhor. Naquela altura havia muita ênfase nas armas nucleares, mas depois da Guerra Fria, a Rússia e a América passaram a dar-lhes menos importância. Agora deviam era ver-se livres delas de uma vez por todas! Já hoje!

E o que está pior?

A violência contra a natureza; estamos a usar tecnologia para mais destruição. E a paz connosco também está a piorar, por causa de toda a tecnologia e velocidade. Temos de desacelerar para avançar. E temos de caminhar mais, é a melhor maneira de ficar saudável, mental e fisicamente. Ter tempo para caminhar, para fazer yoga, para cozinhar, para fazer jardinagem, para estar em contacto com a natureza e amá-la. Assim seremos mais felizes.

A Alemanha está perto de criar carne artificial. Isto não é questionável?

Se for para uma transição da carne animal para a carne vegetal, como seitan, parece-me bem. Eu não gosto de seitan, mas prefiro que as pessoas não tenham a palavra carne na cabeça. Os elefantes são vegetarianos e tornam-se tão grandes. Os cavalos são vegetarianos e são tão poderosos. Se os elefantes e os cavalos podem viver sem carne, os humanos podem viver sem carne. Eu sou vegetariano há 1600 anos!

(risos) 1600 anos?

Os meus antepassados tornaram-se vegetarianos há 1600 anos. Eu tenho 75 anos e olhe para a energia que tenho! A ideia de que precisamos de carne por causa das proteínas é propaganda da indústria da carne, é mentira! Na Índia há milhões de pessoas vegetarianas e completamente saudáveis. Para alimentar uma pessoa com carne são precisos cinco hectares de terra. Mas para alimentar uma pessoa com vegetais só é preciso um hectare. Precisamos cinco vezes mais de terra e de água para comer carne! E mesmo que as pessoas não se tornem completamente vegetarianas, pelo menos reduzam o consumo e comam apenas carne orgânica e de animais felizes. Porque se comermos animais infelizes e vítimas de crueldade, como a maioria deles vive neste momento, fechados em fábricas à espera de morrer, vamos ser infelizes e cruéis.

Nasceu no Rajastão mas vive em Inglaterra. Mudou-se com que idade?

Mudei-me em 1971. Dirijo a Universidade Schumacher, em Darlington, onde temos cursos holísticos, uma educação ecológica, espiritual, científica. Temos mestrados sobre os três tipos de paz de que falei, aplicados à economia, ciência e outras áreas.

Muitos dizem que os seus ideais são utópicos. O que responde a isso?

Muita gente diz-me que eu sou idealista e que tenho de ser realista. A minha resposta é: o que é que os realistas fizeram pelo mundo? O que é que alcançaram? Por estarmos a ser governados por realistas temos uma crise económica, temos aquecimento global, temos guerra no Afeganistão, Líbia e em outros tantos países. Os realistas criaram esta confusão toda. É altura de os realistas saírem e de os idealistas entrarem. Isto não é mero idealismo, é um idealismo realista. Vamos dizer: adeus realismo, bem-vindo idealismo!

(Entrevista ao jornal i, 8 de Setembro de 2011)

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Lab C - Workshop de Expressão Criativa

O Lab C é um laboratório de criação e partilha entre criadores, artistas e amantes das Artes. É inter-dinâmico entre as diversas formações que se conjugam e complementam pois os formadores também participam na formação. É composto de diversas matérias e disciplinas artísticas que confluem para um exercício de criação em tempo real que se pretende partilhar com o público. No final abrimos a possibilidade de uma comunicação directa entre formadores, formandos, participantes quer na função de actuante quer na de público. Ao nível do conteúdo criativo estimularemos a busca do texto De Khalil Gibran, "O Profeta", numa adaptação própria intitulada "Povo de Profetas".
António M. Rodrigues

Mais informações e contactos, aqui
O meu amor pode ser fraco,
mas tem voz que abraça
as árvores 


A minha poesia pode ser fraca,
mas imagina mães a guardarem
pássaros no ventre 


Os meus sonhos podem ser fracos, 
mas são da cor do mar
quando descalço os pés.

May East, "Cidades em Transição", hoje, 18.30



2ª feira, 6 de Fevereiro, 18.30
Anfiteatro III da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Alameda da Universidade (metro Cidade Universitária)

May East é educadora e designer para a sustentabilidade. Trabalha internacionalmente com o movimento global das ecovilas e como consultora de assentamentos humanos sustentáveis e cidades em transição. Mora há 19 anos na ecovila Findhorn da Escócia, onde é Directora de Relações Internacionais entre a ecovila, a Global Ecovillage Network e a ONU. May East é directora do programa Gaia Education, um consórcio internacional de designers de sustentabilidade presente em 23 países. CEO do CIFAL Findhorn, Centro de Treinamento Associado a UNITAR- United Nations Institute of Training and Research, onde lidera treinamentos em design ecológico e mudança climática para urbanistas e autoridades locais da Grã Bretanha e Europa do Norte.

May é especialista em diplomacia de mudança climática e uma referência internacional no contexto da Educação para a Sustentabilidade.

Organização do projecto “Filosofia e Religião”, coordenado por Carlos João Correia e Paulo Borges.

Apoio da revista Cultura ENTRE Culturas

Entrada Livre

May East falará também amanhã, dia 7, às 18.30, no II PANdebate, com Sandro Mendonça, no Instituto Macrobiótico de Portugal, na Rua Anchieta, nº5, 1º esq (ao Chiado, em Lisboa).

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Que nunca te canse olhar o tempo, as flores, os rios, a poesia, ou sequer o amor. A sapiência está na capacidade de ler as legendas.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

A Grande Libertação

Penso na multidão de escravos do trabalho, que vendem vida, corpo e alma a troco de frustração e nada. Penso na multidão de escravos do desemprego, cujo maior sonho é serem escravos como os outros. Penso na muito maior multidão dos escravos em campos de concentração à espera do abate para alimentarem os outros escravos. Penso nos escravos da ganância, da avareza e da gula, incluindo esses outros escravos que são os seus donos. Penso nos escravos da ignorância, do egoísmo, do conforto e da indiferença que somos todos nós, a fazer de conta que isto é normal ou que não existe, a tentar tirar proveito disso, a convencer-se de que nada há a fazer ou a anestesiar-se para não doer muito. Penso nisto tudo e desejo que o dia da Grande Libertação comece agora mesmo e chegue a todos.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Colocar-se no lugar do outro

Num recente, inspirador e esclarecedor livro, Doze passos para uma vida solidária, Karen Armstrong mostra que o grande desafio para que indivíduos e povos possam viver hoje em harmonia numa comunidade global passa pela aplicação da Regra de Ouro de toda a ética, presente nas grandes tradições espirituais da humanidade e hoje também um imperativo laico: “Não fazer aos outros o que não gostaríamos que nos fizessem” e “Fazer aos outros o que gostaríamos que nos fizessem”. Isso implica a experiência de se colocar no lugar do outro, a experiência da em-patia ou da com-paixão, que não é um mero e ocasional ter pena emocional e condescendente, mas antes um abandonar a gravitação em torno de si mesmo para ser capaz de ver e sentir o mundo como o outro o vê e sente. É uma experiência de descentramento, de desobstrução do espaço ocupado pelo ego, individual ou colectivo, para constantemente sentir em si o que o(s) outro(s) sente(m), dores ou alegrias.

Em termos evolutivos, é a possibilidade aberta pelo surgimento do neocórtex, que nos permite a reflexão e o distanciamento dos instintos herdados no hipotálamo, procedentes dos primitivos répteis, há 500 milhões de anos, e designados como os 4 Fs: “feeding, fighting, fleeing e f… (alimentação, luta, fuga e “reprodução”). Todavia, se olharmos para a humanidade, ou seja, para nós mesmos, não deixa de ser incómodo e doloroso ver como em tantos aspectos da nossa vida pública e privada continuamos a comportar-nos como esses velhos répteis, dominados pelo complexo da presa-predador, pelo medo que leva à fuga e ao ataque, pela luta desenfreada por sobrevivência, por território, por ganho e por reprodução física e comportamental. É isto que no fundo explica o estado crítico em que está o mundo: a rápida evolução científica e tecnológica não foi acompanhada por uma igual evolução ética, mental e espiritual, fazendo com que indivíduos, grupos e nações ainda sujeitos aos mais primitivos instintos e emoções detenham sofisticados mecanismos de opressão, exploração e destruição militar e económica; temos hoje uma civilização global, em termos económico-tecnológicos, mas não uma consciência ética global.

Uma outra potencialidade reside todavia em nós, a do neocórtex e algo mais: o espírito ou a natureza profunda da mente. As suas qualidades naturais são a consciência global e a empatia amorosa e compassiva. São elas que nos permitem colocar-nos no lugar do outro, de todo o outro, não só dos nossos familiares e amigos ou membros do mesmo grupo, clube, empresa, partido, nação, religião ou espécie. São elas que, ao contrário dos velhos répteis que ainda somos, nos permitem alargar progressivamente o círculo dos nossos afectos e consideração moral, ao ponto de amar os nossos próximos como a nós mesmos, não deixando fora da categoria do próximo os nossos inimigos nem os membros de outras espécies, abrangendo ainda o mundo natural que é fonte comum da nossa vida. São elas que nos permitem experimentar dor e alegria com todos os que sofrem e são felizes e não sermos indiferentes aos pobres, doentes e sem abrigo, aos que padecem fome e sede, aos que são explorados, oprimidos, torturados, violentados e mortos, sejam humanos ou animais. É a nossa natureza profunda, à medida que se for libertando de parcialidades, que nos permite sentir igualmente a dor do desempregado, do sem abrigo, do porco, frango ou vaca no matadouro e do touro na arena. Simplesmente porque é dor, independentemente da forma e do aspecto de quem a sente. E é a nossa natureza profunda que nos permite sentir ainda compaixão por todos os que, por ignorância, avidez e ódio, são responsáveis pelas dores dos outros e pela doença que trazem em si mesmos, transmutando a revolta e a raiva em luta não-violenta contra essas acções.

É do cultivo dessa consciência ética global, abrangente de homens, animais e planeta, que depende a saída desta crise e o surgimento de uma nova civilização. Só a cultura da visão global, do amor e da compaixão pode salvar o mundo. O seu desenvolvimento, em todas as esferas da vida pública e privada, sobretudo por via da educação, tem de ser o maior imperativo e investimento de cada um de nós e de todo o governo que venha a ser digno desse nome. Enquanto se colocar a economia e as finanças acima da sabedoria, da compaixão e de leis que as expressem, a produção de riqueza será sempre para benefício de poucos e prejuízo da maioria. Enquanto se colocarem interesses de indivíduos e grupos de uma só espécie acima do bem comum da Terra e de todos os seres, enquanto não nos colocarmos no lugar do outro antes de cada pensamento, palavra e acção que o vai afectar, continuaremos a ser velhos répteis, grotescamente sofisticados em termos científico-tecnológicos, mas 500 milhões de anos atrasados e em risco de extinção.

(publicado no nº de Fevereiro de 2012 da revista CAIS, na secção "Cultura ENTRE Culturas")

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

PESSOA NA ACTUALIDADE (duas últimas sessões)

Ciclo internacional de conferências PESSOA NA ACTUALIDADE (duas últimas sessões):

Tendo por finalidade divulgar as mais recentes pesquisas sobre Fernando Pessoa, o Ciclo internacional de conferências PESSOA NA ACTUALIDADE pretendeu trazer à Casa Fernando Pessoa jovens investigadores pessoanos. O evento decorre entre os meses de Dezembro de 2011 e de Janeiro de 2012 e contará de novo com a presença de pesquisadores nacionais e estrangeiros que nos darão a conhecer algumas das investigações sobre o pensamento e a obra do poeta e pensador português.

Organização: Paulo Borges, Cláudia Souza e Nuno Ribeiro.

5ª Sessão – 26 de Janeiro

Daniel Moreira Duarte (Portugal) - O “ideal ascético” e a “ceifeira”.
José Almeida (Portugal) - Fernando Pessoa e a Tradição Hermética
Bruno Béu (Portugal) - Isto não é isso — o discurso tautológico como procedimento apofático na poesia de Alberto Caeiro

Encerramento – 27 de Janeiro
Teresa Rita Lopes (palestra de encerramento)

Sempre às 18h30. Entrada livre.

Câmara Municipal de Lisboa
Casa Fernando Pessoa
R. Coelho da Rocha, 16
1250-088 Lisboa
Tel. 21.3913270
Autocarros: 709, 720, 738 Eléctricos: 25, 28 Metro: Rato
http://casafernandopessoa.cm-lisboa.pt
www.mundopessoa.blogs.sapo.pt

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

"Verdes Anos": o PAN já faz parte da história do ecologismo em Portugal



O livro Verdes Anos. História do ecologismo em Portugal (1947-2011), de Luís Humberto Teixeira (Lisboa, Esfera do Caos, 2011), será apresentado pelo Prof. Viriato Soromenho-Marques na 3ª feira, dia 31 de Janeiro, às 18.30, na Livraria Bulhosa de Entrecampos. Este livro dedica o capítulo 8 ao PAN e ao seu resultado surpreendente nas últimas eleições legislativas. Reproduzimos os três últimos parágrafos do livro, após se referir o historial de adversidade de Portugal e dos países do Sul da Europa aos ideais ecologistas:

"Perante este ambiente hostil, como se explica então o sucesso do PAN, que nas primeiras eleições legislativas a que concorreu obteve mais de 50 000 votos em listas próprias (feito inédito entre os partidos ecologistas portugueses) e quatro meses depois elegeu um deputado em eleições regionais?

Será um epifenómeno ou será que o segredo para o sucesso de um partido verde em Portugal passa por unir a defesa do ambiente aos direitos dos animais e às causas humanitárias?

Para responder a estas questões teremos de esperar mais algum tempo. Entretanto, uma coisa é certa: por mais negro que seja o cenário do país e do planeta, muitos acreditam que a cor da esperança ainda é o verde"

Cabe-nos mostrar que o "segredo" é mesmo esse e que o PAN veio para crescer e ficar.

Inéditos de Fernando Pessoa sobre sebastianismo e Quinto Império


Quarenta e três textos inéditos de Fernando Pessoa sobre sebastianismo e o Quinto Império foram encontrados na sua famosa arca pelos investigadores Pedro Sepúlveda e Jorge Uribe e publicados com outros 58 já conhecidos sobre o mesmo tema.O resultado estará a partir de quinta-feira nas livrarias portuguesas, numa edição da Ática, chancela da Babel, sob o título “Sebastianismo e Quinto Império”, mais um volume da Nova Série de Obras de Fernando Pessoa, coordenada pelo pessoano colombiano Jerónimo Pizarro.“[Em D. Sebastião], Pessoa encontra uma figura para falar de Portugal de uma maneira que, ao mesmo tempo, o aproxime a uma tradição popular, que é o que lhe interessa, mas também faça um certo afastamento de outros autores”, disse à Lusa o investigador colombiano Jorge Uribe.“Acho que um dos principais interesses de Pessoa pela figura de D. Sebastião tem que ver com uma maneira de fazer frente a Camões: D. Sebastião é uma personagem de ‘Os Lusíadas’, de Camões, todo o poema épico é dedicado a D. Sebastião, mas o D. Sebastião que está por vir depois de ‘Os Lusíadas’ é uma oportunidade para Pessoa se defrontar com aquele que era o seu precursor literário mais importante”, defendeu.Segundo este pessoano, entre muitos outros aspectos, o mais importante é que a utilização da figura de D. Sebastião é, para Fernando Pessoa (1888-1935), “uma maneira de entrar na História de Portugal onde Camões a deixou”.Esta obra – que abre logo com o horóscopo de D. Sebastião feito por Pessoa, não é -- sublinham os investigadores na introdução – um volume que o escritor tivesse deixado pronto para dar à estampa ou a que tivesse sequer dado alguma organização específica.Trata-se, sim, de “uma compilação temática dos fólios do autor”, que implicou que percorressem “diversos géneros de obra escrita (manifestos, respostas a inquéritos, cartas, planos, ensaios), assim como distintos tons dessa mesma obra (o sociológico, o provocatório, o hermético, entre outros)”.Também na introdução, Pedro Sepúlveda e Jorge Uribe explicam que “o critério fundamental de reunião dos materiais que se seguiu foi o de que o livro reuniria a prosa de Pessoa sobre a dimensão mítica da nacionalidade portuguesa, expressa em dois mitos fundamentais, o regresso de D. Sebastião e a concretização do Quinto Império”.Sobre o Quinto Império, Jorge Uribe explicou à Lusa a aproximação de Pessoa a essa tradição profética: “O Quinto Império é uma tradição profética muito extensa, muito grande, que vem de uma leitura de um texto hebraico, do Livro de Daniel, que está no Antigo Testamento, mas que começa na tradição cristã desde muito cedo a tentar descobrir que Nação será esse Quinto Império definitivo”.“Estamos a falar de alguns intérpretes de profecias ou dos pais da Igreja, mesmo – como, por exemplo, Tertuliano – que começaram a tentar fixar qual ia ser essa Nação definitiva”, sublinhou.Trata-se – prosseguiu – de uma tradição profética “que está à procura da compreensão da revelação última, da Nação última, e isto faz com que Pessoa, procurando essa interpretação para Portugal, esteja a aproximar-se de uma tradição de quase mil anos – do lado cristão, porque do lado hebraico são mais”.“São grandes tradições, de grandes livros, de grandes nomes, de grandes leituras, dos quais Pessoa era um constante seguidor. Realmente, o que nos interessou, neste livro, foi aproximarmo-nos de um Pessoa leitor, um Pessoa que está em constante contacto com centenas de livros e cuja escrita depois reflecte o que ele aprende nestes livros”.A existência de tantos inéditos sobre este tema é explicada pelos dois pessoanos pela “dificuldade de leitura de uma boa parte dos documentos” e pela sua “dispersão pelo espólio”, que se encontra dividido entre a Biblioteca Nacional e a Casa Fernando Pessoa.Inquirido pela Lusa sobre o que acrescentam estes inéditos ao já conhecido interesse de Pessoa por esta temática, Jorge Uribe respondeu: “Não é que exista um inédito que venha mostrar-nos uma coisa que ninguém pudesse imaginar que Pessoa tivesse escrito. Digamos que há uma espécie de sintonia, uma espécie de lógica naquilo que encontrámos de novo”.“Aquele que é, se calhar, o inédito mais curioso é o esboço de um ensaio sobre o Quinto Império que tem 21 folhas manuscritas por Fernando Pessoa – um número que nos surpreendeu muitíssimo –, em que Pessoa apresenta mais ou menos todas as questões gerais do que é isto do Quinto Império”, destacou.“E essas 21 folhas inéditas chamam mais a atenção porque levantam a pergunta: como foi que uma coisa tão grande passou tanto tempo despercebida? Mas também é verdade que o espólio é um lugar complicado, e eu tenho a ideia de que se calhar outros editores, em tempos anteriores, não arriscaram a publicação porque não estavam certos de ser um texto de Fernando Pessoa em vez de, por exemplo, uma tradução de outro texto”, observou.“Em termos gráficos, é evidentemente um texto de Pessoa, mas não se sabia se estava a tentar traduzir outra coisa. Agora, com as tecnologias da nossa geração, tentar verificar se um texto pertence ou não a um autor é mais simples”, concluiu. http://www.publico.pt/Cultura/ineditos-de-fernando-pessoa-sobre-sebastianismo-e-quinto-imperio-sao-publicados-quintafeira-1530521?all=1

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Quem é o meu próximo?

“Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mateus, 22, 39). Quem é o meu próximo? Aquele que pertence ao mesmo grupo familiar, local, social, económico, nacional, étnico, cultural, linguístico, político ou religioso? Aquele que pertence à mesma espécie, ao mesmo planeta ou à mesma galáxia? Ou o meu próximo é aquele de quem me sentir próximo, ao ponto de o não sentir separado de mim nem a mim separado dele? O meu próximo tem então de ter duas pernas e dois braços ou pode ter quatro patas, muitas, nenhuma, caule, tronco, folhas, flores e frutos? Tem de ter cabelos e pele quase nua ou pode ter pêlos, penas, couraça, escamas e casca? Tem de viver sobre a terra ou pode rastejar dentro dela e voar e brilhar nos céus? Tem de ter uma vida individual ou pode ser a própria terra, as areias, as rochas, os minérios, as águas, os ventos, o fogo e as energias que em tudo isso habitam? Tem de falar a minha linguagem ou pode miar, ladrar, zumbir, uivar, cacarejar, grunhir, mugir, relinchar, rugir, trinar, grasnar, trovejar, soprar, relampejar, chover ou florir, frutificar, repousar e mover-se em silêncio? Tem de ter forma e ser visível ou pode não ter forma e ser invisível? Tem de ter vida consciente e senciente? Tem de ter vida? Tem de ser algum ser ou coisa ou pode ser tudo? A empatia, o sentir em si o outro como o mesmo, a compaixão, têm limites? Temos limites? Conhecemos a fronteira do que somos? Ou só o medo nos limita? O medo de tudo o que há. O medo do infinito e da vasta multidão que somos.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Ela sonhava como os rios
E no percurso das águas nasciam filhos
Que mais tarde lhe vinham acordar ao mar revolto

Ela costurava os seus vestidos
Com o fio de uma extensa lágrima
Para depois de pronto ver-se no fim de tudo

Ela sabia que o sonho tem horas
Que é o tempo fechar os olhos
E acordar primeiro que as galinhas

Mas quando fazia colares de amoras
Para que os homens pudessem falar dela
Era então que uma estrela lhe nascia
Algures entre o sexo e o peito

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

New Afghan Girl Dance Performance

Não sei tombar como os guerreiros
não sei sangrar como um livro de História de Portugal
não sei rimar como o Eugénio rimou
não sei o segredo das cores primárias
nunca vi uma aranha a fabricar o seu vestido
nunca escutei o silêncio a dar um grito de mulher
Mas sei que a metafísica tem o seu deserto.

A mensagem da Mensagem ou o regresso de D. Sebastião: hoje, 19h



Promovido pelo Centro de Estudos da Lusofonia Agostinho da Sliva, realiza-se 3ª feira, dia 17, pelas 19 horas,nas instalações da Escola Superior de Educação Almeida Garrett, ao fundo da Rua da Voz do Operário, a 3ª sessão do Curso Livre de Cultura portuguesa subordinada ao tema "A mensagem da MENSAGEM de Fernando Pessoa". Serei o orador, com os seguintes tópicos:
- Portugal, Europa e Mundo.
- O regresso de D. Sebastião e o fim do sebastianismo.
- O Quinto Império e a nova civilização.

"- O que calcula que seja o futuro da raça portuguesa ?
- O Quinto Império. O futuro de Portugal - que não calculo, mas sei - está escrito já, para quem saiba lê-lo, nas trovas do Bandarra, e também nas quadras de Nostradamus. Esse futuro é sermos tudo. Quem, que seja português, pode viver a estreiteza de uma só personalidade, de uma só nação, de uma só fé? Que português verdadeiro pode, por exemplo, viver a estreiteza estéril do catolicismo, quando fora dele há que viver todos os protestantismos, todos os credos orientais, todos os paganismos mortos e vivos, fundindo-os portuguêsmente no Paganismo Superior? Não queiramos que fora de nós fique um único deus! Absorvamos os deuses todos! Conquistámos já o Mar: resta que conquistemos o Céu, ficando a terra para os Outros, os eternamente Outros, os Outros de nascença, os europeus que não são europeus porque não são portugueses. Ser tudo, de todas as maneiras, porque a verdade não pode estar em faltar ainda alguma coisa! Criemos assim o Paganismo Superior, o Politeísmo Supremo! Na eterna mentira de todos os deuses, só os deuses todos são verdade” (Fernando Pessoa, resposta a uma entrevista de António Alves Martins).

Esta resposta é um notável resumo de vários aspectos fundamentais do pensamento pessoano atrás expostos. Para além de confirmar que Pessoa assume Portugal como a quinta-essência do cosmopolitismo e universalismo europeus, retoma a ideia de uma nova Descoberta a fazer, agora o “Céu” como ontem o “Mar”, numa crescente desterritorialização, desmaterialização e subtilização do elemento e domínio a desvendar. Além disso, reassume o projecto sensacionista de ser/sentir tudo de todas as maneiras como inerente ao impulso heteronímico e holístico, trans-pessoal, trans-nacional, trans-religioso e universalizante da nação. Finalmente, esclarece o sentido espiritual do Quinto Império como essa síntese trans-religiosa que incorpora e transcende todas as formas de manifestação do divino, do infinito ou do absoluto que são “todos os deuses”, por saber que, enquanto tais, enquanto suas re-velações para o e pelo homem, necessariamente condicionadas pelos limites humanos, tanto o desvelam quanto o ocultam e, assim, todas são igualmente verdadeiras e mentirosas, residindo a maior aproximação possível à verdade na igual e simultânea aceitação de todas as formas parciais e relativas da sua manifestação, sem excluir nem privilegiar nenhuma delas"
[excerto do meu próximo livro em preparação]

"Fado amigo não há, nem fado escuro; / Fados são as paixões, são as vontades"



Fado é fadar-se, destino é destinar-se: “Não forçam corações as divindades: / Fado amigo não há, nem fado escuro; / Fados são as paixões, são as vontades" – Bocage.

Se não acedes à estupefacção do intelecto cais na estupidez intelectual

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Símbolos? Meta-símbolos?
Odeio símbolos, os mestres-de-obras dos poemas, os clínicos
analistas das metáforas, os engenheiros do amor, os arquitetos
da foda, os psicanalista da música fúnebre. Odeio os que num verso
tentam perceber a minha vida toda. Invertem parábolas, agitam-nas,
sacodem-nas, analisam a minha dor à lupa.
Rais parta a simbologia, as pernas das letras, os nenúfares nas mesinha
de cabeceira, os poetas escriturários, belos, sentimentais e sonâmbulos
como os bois pela beirinha da estrada.
Odeio os que a modinho retiram a vesícula do poema, injetam sol
e pleonásmos, virgulam os sentidos.
Meus senhores, o que escrevo advém das flores, roubado às flores,
plagiado das flores. Esse é o meu crime, o meu sangue, que é fresco
e tem sete fuso horários.
Por favor, não me dêem cabo dos significados!

"O que era seguro era estar-se numa época de crise e ir sair de todo aquele século um mundo novo [...]"



"O que era seguro era estar-se numa época de crise e ir sair de todo aquele século um mundo novo, se a sua construção estivesse dentro das possibilidades humanas; os grandes edifícios sociais e políticos, os grandes princípios religiosos, as próprias normas literárias e artísticas manifestavam à mais ligeira observação os sinais do abalo profundo que não deixava de agitá-los; o homem do futuro já não cabia nas armaduras que vinham dos avós e ao esforço brutal que fazia por conquistar a liberdade abolavam-se as lâminas e estouravam os fechos; as próprias reacções eram sinais de derrocada; os fracos lamentavam-se e desejariam ter vivido em anos mais tranquilos, sem nenhum grave problema a resolver, com as escalas hierárquicas perfeitamente dispostas e a existência decorrendo como um fio monótono de fonte; Zola, porém, considerava como o mais belo dom dos deuses terem-no lançado para o fragor das torrentes, terem-lhe concedido ajudar as gotas companheiras na faina de abrir caminho, entre espumas e tumultos, para o verde sossego dos plainos"
– Agostinho da Silva, Vida de Zola [1942], in Biografias I, pp.127-128.

domingo, 15 de janeiro de 2012

É PRECISO DUVIDAR DE TUDO

Se não existe crítica sem alguma margem de dúvida, tampouco existe dúvida sem uma margem de crença. A crença é tão ou mais importante do que o ato de duvidar pra se chegar a qualquer conhecimento aproximado da realidade. Como diria o grande Vilém Flusser, em A Dúvida, se a dúvida metódica se transformasse em dúvida existencial, ou seja, em dúvida da dúvida, só nos restaria uma saída: a morte. E este seria um suicídio filosófico. Ou seja: uma insípida autoaniquilação. Essa é a crítica mais comum ao ceticismo de tipo pirrônico.

Porém, não acredito que a dúvida, diferente da crença, seja uma exceção no processo cognitivo. Acho que duvidamos como respiramos. Ortega diz algo nesse sentido com seu conceito de "razão vital". Se a crítica da crítica oferece problemas epistemológicos, a fé na dúvida também os oferece, talvez em quantidades ainda maiores. Todos aqueles que criam botes salva-vidas e mecanismos de neutralização, nos quais ao criticar não se vejam também eles no objeto criticado, agem ou por ingenuidade teórica ou por malícia estratégia. Querem se mostrar ou menos conscientes do que poderiam ser ou mais lúcidos do que realmente são. Qualquer conhecimento da realidade só existe de modo encarnado. Nunca como conceito abstrativo. Nesse sentido, toda a realidade e tudo o que existe, de pior e de melhor, não passa de um espelho. É apenas isso o que somos: um espelho. E não por acaso só a partir desse momento começa de fato a especulação.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

From Silence

ADAM HURST

A X-productions tem a honra de apresentar em estreia por terras lusas, o tão aguardado e cobiçado Adam Hurst.

O premiado violoncelista e compositor Adam Hurst usa o violoncelo como uma voz solo melódica criando apaixonadas e emotivas poéticas musicais que se entranham em quem as ouve.
A sua música é considerada assustadora, ao mesmo tempo que etérea, evocativa e romântica e tem sido usada em vários documentários, filmes de arte e filmes independentes como em Anima, um filme de Craig Richardson.

Adam Hurst estudou violoncelo no Skidmore College e continuou estudos na Universidade de Brown. Licenciou-se em Design na Rhode Island School of Design (1997). Ensinou violoncelo no Providence College enquanto adjunto durante quatro anos.
Tendo vindo a apresentar o seu trabalho nos EUA e Europa, este é o compositor das partituras de Broken Sparrow, um ballet coreografado por James Canfield e de peças para dança contemporânea e dança do ventre. Midnight Waltz é uma peça original para violoncelo e acordeão que compôs para o Vampire Ball de Portland.

Hurst participou, recentemente, no BRAM STOKER INTERNATIONAL FILM FESTIVAL, em Inglaterra e vem pela primeira vez a Portugal depois de um reportório original exposto já em nove álbuns para dois concertos que, segundo as críticas, são absolutamente imperdíveis !!!




Mais informações e contactos, AQUI

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

lux liber


TIBET MIRROR


Tibet Mirror ( phyogs Yul tão gyur so'i gsar 'me por muito tempo) , v. 16: no.12 [entre 1947-1949].
O Espelho Tibet ( Yul phyogs tão gyur so'i gsar 'me tempo ), foi um dos mais importantes jornais de língua tibetana, começou a ser publicado em outubro de 1925 em Kalimpong, na Índia. Ele narrou inumeras e dramáticas transformações sociais e políticas no Tibete, Índia, e em toda a região. Foi fundado por Gegen (Gergan) Tharchin Dorje, um pastor tibetano e teve a sua sede em Kalimpong. O Espelho Tibet tornou-se numa voz influente para a independência do Tibete em relação à China.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Maquiavel sobre a conquista e conservação de estados



"Quando os estados que se conquistam [...] têm a tradição de viver segundo as suas leis e em liberdade, para a sua conservação existem três opções: a primeira é a sua destruição; a segunda é ir para lá viver o príncipe conquistador; e a terceira consiste em deixá-los viver de acordo com as suas leis, mas exigindo-lhes um tributo e criando no seu seio uma oligarquia que vos garanta a sua fidelidade"
- Maquiavel, O Príncipe, cap. V.

O que se passa no mundo, e particularmente em Portugal, não é nada de novo...

sábado, 7 de janeiro de 2012

Um outro Natal: O Carnatal (excerto da crónica publicada na revista CAIS de Janeiro)



O autêntico Natal pagão e cristão implica sempre um (re)nascimento, uma mutação da consciência e por vezes a vivência de um mundo ao arrepio das normas, onde a experiência do sagrado consiste em transcender aquilo que se venera como mais sagrado (o “sagrado de transgressão”, segundo Roger Caillois). Na Idade Média o Natal ainda coexistia com as Festas dos Loucos, de meados de Dezembro até à Epifania, em 6 de Janeiro, com comida, bebida e danças nas igrejas e nos altares, missas burlescas com burros a zurrar, homens vestidos de mulheres e vice-versa, crianças tornadas Imperadores a quem a hierarquia eclesiástica tinha de obedecer, etc. Proibidas nas igrejas, originaram o Carnaval moderno, tendo sido a forma medieval cristã do mundo às avessas presente noutras culturas como ritual do regresso cíclico do cosmos ao Caos primordial onde a liberdade, a metamorfose, o jogo e a festa predominam sobre a delimitação do sagrado e do profano, do divino, do animal e do humano e dos papéis psicológicos e sociais, com a vida orientada para o trabalho e a produção.

Correspondendo ao solstício de Inverno, as Festas dos Loucos continuam antigos festejos pagãos, como as Saturnais, onde se celebrava o regresso à abundância da Idade do Ouro com a troca de presentes e o travestimento dos dois sexos. Estas festas ainda estão bem vivas no Nordeste transmontano, crendo-se que delas depende a renovação da energia vital, a fertilidade das mulheres, dos animais e dos campos. Como ainda hoje se diz, por ocasião das tropelias e mascaradas praticadas nas Festas dos Rapazes e outras: “É Natal, ninguém leva a mal!”. Um Carnatal, como pude presenciar…

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Carro de Feno, Carro do Mundo, para onde vais?

Quando tentei ser poeta original
vieram bandidos e esfregaram-me com ouro
líquido na cara. quando sonhei com a leveza 
dos pássaros perdidos, uma poetisa engravidou-se 
através das suas próprias mãos. quando vesti a túnica 
das esfinges gregas, uma criança chorou diante 
do altar do abandono. quando descobri o conforto do invisível,
parti para dentro de mim e acendi os olhos.

"Ousar falar de política desmontando os seus fundamentos, em toda a sua complexidade, e com os segredos que comportam, chega a ser perigoso"



"Falar de política é e mantém-se difícil porque o político nunca joga só. O que o político diz de si próprio está cheio de mentiras, de dissimulações. Ousar falar de política desmontando os seus fundamentos, em toda a sua complexidade, e com os segredos que comportam, chega a ser perigoso. A cidade, todas as cidades, a sociedade, todas as sociedades, não toleram que se fale delas lucidamente, radicalmente, desvelando ao máximo possível os mecanismos em marcha, assim como o seu imaginário, também ele limitado. Fazer isso não de um ponto de vista particular, não privilegiando um partido, seja ele qual for, dificilmente é suportável. O inimigo é mais fácil de situar:partidos e Estados combatem-no e tendem a eliminá-lo, brutal ou pacificamente. Aquele que não é amigo nem inimigo de um dos sistemas em vigor ou da estrutura global da colectividade, aquele que não pode ser classificado segundo as rubricas políticas admitidas, mas que perscruta em profundidade o maciço social-político fortemente fissurado e as construções que o povoam, só pode ser sacrificado, duma ou de outra maneira. Ninguém deve fazer abalar ou desestabilizar o consenso geral e os desvios autorizados, que caracterizam os extremos, o centro, os sonhos anarquizantes. Aquele que ousa "atacar" todas as frentes sem excepção, desmantelar todos os poderes e seus funcionamentos, vê-se afastado. [...] O descodificador do político e das regras que o sustentam faz o seu trabalho porque o que se lhe impõe e o anima é mais forte do que o silêncio ou o discurso balofo. Toda a tradição ocidental - não parece que outras tradições escapem a este mesmo destino - , de Heraclito a Heidegger, não ousa pôr em questão os fundamentos e últimas consequências do conjunto no qual as diferentes épocas vivem e que é qualificado de política. Heraclito não ousa pôr em questão a polis e Heidegger fica à sombra do político e do Estado, o que não o impede de pertinentemente esclarecer não o Estado, mas a tecno-estrutura"
- Kostas Axelos (1924-2010), Cartas a um jovem pensador, Vila Nova de Gaia, Estratégias Criativas, 1997, pp.63-64.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

"A palavra sânscrita para crise é kri ou kir"



"A palavra sânscrita para crise é kri ou kir e significa "desembaraçar" (scatter, scattering), "purificar" (pouring out), "limpar". O português conservou ainda as palavras acrisolar e crisol que guardam a nítida reminiscência de sua origem sânscrita. A crise age como um crisol (elemento químico) que purifica o ouro das gangas; acrisola (purifica, limpa) dos elementos que se incrustaram num processo vital ou histórico e que foram ganhando com o tempo papel substantivo, foram-se absolutizando e tomando conta do cerne a ponto de comprometerem a substância. Crise designa o processo de purificação do cerne: o histórico-acidental, o que assumiu indevidamente papel principal, é relegado a sua função secundária, porém legítima como secundária e derivada. Depois de qualquer crise, seja corporal, psíquica, moral, seja interior e religiosa, o ser humano sai purificado, libertando forças para uma vida mais vigorosa e cheia de renovado sentido"
- Leonardo Boff, Crise - oportunidade de crescimento, Petrópolis, Vozes, 2010, p.27.

“There is a crack in everything / That's how the light gets in” [“Há uma fenda em tudo / É assim que a luz entra”] – Leonard Cohen



“There is a crack in everything / That's how the light gets in” [“Há uma fenda em tudo / É assim que a luz entra”] – Leonard Cohen, “Anthem”. O intervalo entre cada pensamento, por onde irrompe a luz do real; a via do meio entre os opostos, por onde estes se transcendem; o não eu nem tu, onde floresce o milagre do amor.
(para a Luísa)

"Não vos amarreis exclusivamente a nenhum credo em particular"



"Não vos amarreis exclusivamente a nenhum credo em particular, ao ponto de não acreditardes em todos os outros, pois perdereis muito do bem e não conseguireis reconhecer a verdadeira natureza das coisas. Deus, o omnipresente e o omnipotente, não é limitado por nenhum credo, porque diz: «Para onde quer que vos voltais, vereis a face de Alá». Todos louvam aquilo em que acreditam; o seu deus é o seu próprio ser e, ao louvá-lo, louvam-se a si próprios. Consequentemente censuram os credos dos outros, o que não fariam se fossem justos, mas a sua aversão resulta da ignorância"
- Ibn al-Arabi.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

"o pior de tudo é a ficção de que tudo tem um preço ou [...] de que o dinheiro é o mais alto de todos os valores"



"No mercado suprimem-se, por razões de ordem prática, inúmeras distinções qualitativas que são de importância vital para o homem e a sociedade [...]. Por isso mesmo é n'«O Mercado» que o domínio da quantidade festeja os seus maiores triunfos. Tudo se compara com tudo. Comparar as coisas significa atribuir-lhes um preço e possibilitar, desse modo, a troca de umas pelas outras. O pensamento económico, na medida em que se baseia no mercado, retira à vida toda a sua sacralidade, porque nada pode haver de sagrado em tudo que tem um preço [...].
[...] o pior de tudo, aquilo que é destrutivo da civilização, é a ficção de que tudo tem um preço ou, noutros termos, de que o dinheiro é o mais alto de todos os valores"

- E. F. Schumacher, Small is Beautiful (um estudo de economia em que as pessoas também contam), Lisboa, Dom Quixote, 1985, 2ª edição, p.43.