segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

May East, "Cidades em Transição", hoje, 18.30



2ª feira, 6 de Fevereiro, 18.30
Anfiteatro III da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Alameda da Universidade (metro Cidade Universitária)

May East é educadora e designer para a sustentabilidade. Trabalha internacionalmente com o movimento global das ecovilas e como consultora de assentamentos humanos sustentáveis e cidades em transição. Mora há 19 anos na ecovila Findhorn da Escócia, onde é Directora de Relações Internacionais entre a ecovila, a Global Ecovillage Network e a ONU. May East é directora do programa Gaia Education, um consórcio internacional de designers de sustentabilidade presente em 23 países. CEO do CIFAL Findhorn, Centro de Treinamento Associado a UNITAR- United Nations Institute of Training and Research, onde lidera treinamentos em design ecológico e mudança climática para urbanistas e autoridades locais da Grã Bretanha e Europa do Norte.

May é especialista em diplomacia de mudança climática e uma referência internacional no contexto da Educação para a Sustentabilidade.

Organização do projecto “Filosofia e Religião”, coordenado por Carlos João Correia e Paulo Borges.

Apoio da revista Cultura ENTRE Culturas

Entrada Livre

May East falará também amanhã, dia 7, às 18.30, no II PANdebate, com Sandro Mendonça, no Instituto Macrobiótico de Portugal, na Rua Anchieta, nº5, 1º esq (ao Chiado, em Lisboa).

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Que nunca te canse olhar o tempo, as flores, os rios, a poesia, ou sequer o amor. A sapiência está na capacidade de ler as legendas.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

A Grande Libertação

Penso na multidão de escravos do trabalho, que vendem vida, corpo e alma a troco de frustração e nada. Penso na multidão de escravos do desemprego, cujo maior sonho é serem escravos como os outros. Penso na muito maior multidão dos escravos em campos de concentração à espera do abate para alimentarem os outros escravos. Penso nos escravos da ganância, da avareza e da gula, incluindo esses outros escravos que são os seus donos. Penso nos escravos da ignorância, do egoísmo, do conforto e da indiferença que somos todos nós, a fazer de conta que isto é normal ou que não existe, a tentar tirar proveito disso, a convencer-se de que nada há a fazer ou a anestesiar-se para não doer muito. Penso nisto tudo e desejo que o dia da Grande Libertação comece agora mesmo e chegue a todos.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Colocar-se no lugar do outro

Num recente, inspirador e esclarecedor livro, Doze passos para uma vida solidária, Karen Armstrong mostra que o grande desafio para que indivíduos e povos possam viver hoje em harmonia numa comunidade global passa pela aplicação da Regra de Ouro de toda a ética, presente nas grandes tradições espirituais da humanidade e hoje também um imperativo laico: “Não fazer aos outros o que não gostaríamos que nos fizessem” e “Fazer aos outros o que gostaríamos que nos fizessem”. Isso implica a experiência de se colocar no lugar do outro, a experiência da em-patia ou da com-paixão, que não é um mero e ocasional ter pena emocional e condescendente, mas antes um abandonar a gravitação em torno de si mesmo para ser capaz de ver e sentir o mundo como o outro o vê e sente. É uma experiência de descentramento, de desobstrução do espaço ocupado pelo ego, individual ou colectivo, para constantemente sentir em si o que o(s) outro(s) sente(m), dores ou alegrias.

Em termos evolutivos, é a possibilidade aberta pelo surgimento do neocórtex, que nos permite a reflexão e o distanciamento dos instintos herdados no hipotálamo, procedentes dos primitivos répteis, há 500 milhões de anos, e designados como os 4 Fs: “feeding, fighting, fleeing e f… (alimentação, luta, fuga e “reprodução”). Todavia, se olharmos para a humanidade, ou seja, para nós mesmos, não deixa de ser incómodo e doloroso ver como em tantos aspectos da nossa vida pública e privada continuamos a comportar-nos como esses velhos répteis, dominados pelo complexo da presa-predador, pelo medo que leva à fuga e ao ataque, pela luta desenfreada por sobrevivência, por território, por ganho e por reprodução física e comportamental. É isto que no fundo explica o estado crítico em que está o mundo: a rápida evolução científica e tecnológica não foi acompanhada por uma igual evolução ética, mental e espiritual, fazendo com que indivíduos, grupos e nações ainda sujeitos aos mais primitivos instintos e emoções detenham sofisticados mecanismos de opressão, exploração e destruição militar e económica; temos hoje uma civilização global, em termos económico-tecnológicos, mas não uma consciência ética global.

Uma outra potencialidade reside todavia em nós, a do neocórtex e algo mais: o espírito ou a natureza profunda da mente. As suas qualidades naturais são a consciência global e a empatia amorosa e compassiva. São elas que nos permitem colocar-nos no lugar do outro, de todo o outro, não só dos nossos familiares e amigos ou membros do mesmo grupo, clube, empresa, partido, nação, religião ou espécie. São elas que, ao contrário dos velhos répteis que ainda somos, nos permitem alargar progressivamente o círculo dos nossos afectos e consideração moral, ao ponto de amar os nossos próximos como a nós mesmos, não deixando fora da categoria do próximo os nossos inimigos nem os membros de outras espécies, abrangendo ainda o mundo natural que é fonte comum da nossa vida. São elas que nos permitem experimentar dor e alegria com todos os que sofrem e são felizes e não sermos indiferentes aos pobres, doentes e sem abrigo, aos que padecem fome e sede, aos que são explorados, oprimidos, torturados, violentados e mortos, sejam humanos ou animais. É a nossa natureza profunda, à medida que se for libertando de parcialidades, que nos permite sentir igualmente a dor do desempregado, do sem abrigo, do porco, frango ou vaca no matadouro e do touro na arena. Simplesmente porque é dor, independentemente da forma e do aspecto de quem a sente. E é a nossa natureza profunda que nos permite sentir ainda compaixão por todos os que, por ignorância, avidez e ódio, são responsáveis pelas dores dos outros e pela doença que trazem em si mesmos, transmutando a revolta e a raiva em luta não-violenta contra essas acções.

É do cultivo dessa consciência ética global, abrangente de homens, animais e planeta, que depende a saída desta crise e o surgimento de uma nova civilização. Só a cultura da visão global, do amor e da compaixão pode salvar o mundo. O seu desenvolvimento, em todas as esferas da vida pública e privada, sobretudo por via da educação, tem de ser o maior imperativo e investimento de cada um de nós e de todo o governo que venha a ser digno desse nome. Enquanto se colocar a economia e as finanças acima da sabedoria, da compaixão e de leis que as expressem, a produção de riqueza será sempre para benefício de poucos e prejuízo da maioria. Enquanto se colocarem interesses de indivíduos e grupos de uma só espécie acima do bem comum da Terra e de todos os seres, enquanto não nos colocarmos no lugar do outro antes de cada pensamento, palavra e acção que o vai afectar, continuaremos a ser velhos répteis, grotescamente sofisticados em termos científico-tecnológicos, mas 500 milhões de anos atrasados e em risco de extinção.

(publicado no nº de Fevereiro de 2012 da revista CAIS, na secção "Cultura ENTRE Culturas")

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

PESSOA NA ACTUALIDADE (duas últimas sessões)

Ciclo internacional de conferências PESSOA NA ACTUALIDADE (duas últimas sessões):

Tendo por finalidade divulgar as mais recentes pesquisas sobre Fernando Pessoa, o Ciclo internacional de conferências PESSOA NA ACTUALIDADE pretendeu trazer à Casa Fernando Pessoa jovens investigadores pessoanos. O evento decorre entre os meses de Dezembro de 2011 e de Janeiro de 2012 e contará de novo com a presença de pesquisadores nacionais e estrangeiros que nos darão a conhecer algumas das investigações sobre o pensamento e a obra do poeta e pensador português.

Organização: Paulo Borges, Cláudia Souza e Nuno Ribeiro.

5ª Sessão – 26 de Janeiro

Daniel Moreira Duarte (Portugal) - O “ideal ascético” e a “ceifeira”.
José Almeida (Portugal) - Fernando Pessoa e a Tradição Hermética
Bruno Béu (Portugal) - Isto não é isso — o discurso tautológico como procedimento apofático na poesia de Alberto Caeiro

Encerramento – 27 de Janeiro
Teresa Rita Lopes (palestra de encerramento)

Sempre às 18h30. Entrada livre.

Câmara Municipal de Lisboa
Casa Fernando Pessoa
R. Coelho da Rocha, 16
1250-088 Lisboa
Tel. 21.3913270
Autocarros: 709, 720, 738 Eléctricos: 25, 28 Metro: Rato
http://casafernandopessoa.cm-lisboa.pt
www.mundopessoa.blogs.sapo.pt

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

"Verdes Anos": o PAN já faz parte da história do ecologismo em Portugal



O livro Verdes Anos. História do ecologismo em Portugal (1947-2011), de Luís Humberto Teixeira (Lisboa, Esfera do Caos, 2011), será apresentado pelo Prof. Viriato Soromenho-Marques na 3ª feira, dia 31 de Janeiro, às 18.30, na Livraria Bulhosa de Entrecampos. Este livro dedica o capítulo 8 ao PAN e ao seu resultado surpreendente nas últimas eleições legislativas. Reproduzimos os três últimos parágrafos do livro, após se referir o historial de adversidade de Portugal e dos países do Sul da Europa aos ideais ecologistas:

"Perante este ambiente hostil, como se explica então o sucesso do PAN, que nas primeiras eleições legislativas a que concorreu obteve mais de 50 000 votos em listas próprias (feito inédito entre os partidos ecologistas portugueses) e quatro meses depois elegeu um deputado em eleições regionais?

Será um epifenómeno ou será que o segredo para o sucesso de um partido verde em Portugal passa por unir a defesa do ambiente aos direitos dos animais e às causas humanitárias?

Para responder a estas questões teremos de esperar mais algum tempo. Entretanto, uma coisa é certa: por mais negro que seja o cenário do país e do planeta, muitos acreditam que a cor da esperança ainda é o verde"

Cabe-nos mostrar que o "segredo" é mesmo esse e que o PAN veio para crescer e ficar.

Inéditos de Fernando Pessoa sobre sebastianismo e Quinto Império


Quarenta e três textos inéditos de Fernando Pessoa sobre sebastianismo e o Quinto Império foram encontrados na sua famosa arca pelos investigadores Pedro Sepúlveda e Jorge Uribe e publicados com outros 58 já conhecidos sobre o mesmo tema.O resultado estará a partir de quinta-feira nas livrarias portuguesas, numa edição da Ática, chancela da Babel, sob o título “Sebastianismo e Quinto Império”, mais um volume da Nova Série de Obras de Fernando Pessoa, coordenada pelo pessoano colombiano Jerónimo Pizarro.“[Em D. Sebastião], Pessoa encontra uma figura para falar de Portugal de uma maneira que, ao mesmo tempo, o aproxime a uma tradição popular, que é o que lhe interessa, mas também faça um certo afastamento de outros autores”, disse à Lusa o investigador colombiano Jorge Uribe.“Acho que um dos principais interesses de Pessoa pela figura de D. Sebastião tem que ver com uma maneira de fazer frente a Camões: D. Sebastião é uma personagem de ‘Os Lusíadas’, de Camões, todo o poema épico é dedicado a D. Sebastião, mas o D. Sebastião que está por vir depois de ‘Os Lusíadas’ é uma oportunidade para Pessoa se defrontar com aquele que era o seu precursor literário mais importante”, defendeu.Segundo este pessoano, entre muitos outros aspectos, o mais importante é que a utilização da figura de D. Sebastião é, para Fernando Pessoa (1888-1935), “uma maneira de entrar na História de Portugal onde Camões a deixou”.Esta obra – que abre logo com o horóscopo de D. Sebastião feito por Pessoa, não é -- sublinham os investigadores na introdução – um volume que o escritor tivesse deixado pronto para dar à estampa ou a que tivesse sequer dado alguma organização específica.Trata-se, sim, de “uma compilação temática dos fólios do autor”, que implicou que percorressem “diversos géneros de obra escrita (manifestos, respostas a inquéritos, cartas, planos, ensaios), assim como distintos tons dessa mesma obra (o sociológico, o provocatório, o hermético, entre outros)”.Também na introdução, Pedro Sepúlveda e Jorge Uribe explicam que “o critério fundamental de reunião dos materiais que se seguiu foi o de que o livro reuniria a prosa de Pessoa sobre a dimensão mítica da nacionalidade portuguesa, expressa em dois mitos fundamentais, o regresso de D. Sebastião e a concretização do Quinto Império”.Sobre o Quinto Império, Jorge Uribe explicou à Lusa a aproximação de Pessoa a essa tradição profética: “O Quinto Império é uma tradição profética muito extensa, muito grande, que vem de uma leitura de um texto hebraico, do Livro de Daniel, que está no Antigo Testamento, mas que começa na tradição cristã desde muito cedo a tentar descobrir que Nação será esse Quinto Império definitivo”.“Estamos a falar de alguns intérpretes de profecias ou dos pais da Igreja, mesmo – como, por exemplo, Tertuliano – que começaram a tentar fixar qual ia ser essa Nação definitiva”, sublinhou.Trata-se – prosseguiu – de uma tradição profética “que está à procura da compreensão da revelação última, da Nação última, e isto faz com que Pessoa, procurando essa interpretação para Portugal, esteja a aproximar-se de uma tradição de quase mil anos – do lado cristão, porque do lado hebraico são mais”.“São grandes tradições, de grandes livros, de grandes nomes, de grandes leituras, dos quais Pessoa era um constante seguidor. Realmente, o que nos interessou, neste livro, foi aproximarmo-nos de um Pessoa leitor, um Pessoa que está em constante contacto com centenas de livros e cuja escrita depois reflecte o que ele aprende nestes livros”.A existência de tantos inéditos sobre este tema é explicada pelos dois pessoanos pela “dificuldade de leitura de uma boa parte dos documentos” e pela sua “dispersão pelo espólio”, que se encontra dividido entre a Biblioteca Nacional e a Casa Fernando Pessoa.Inquirido pela Lusa sobre o que acrescentam estes inéditos ao já conhecido interesse de Pessoa por esta temática, Jorge Uribe respondeu: “Não é que exista um inédito que venha mostrar-nos uma coisa que ninguém pudesse imaginar que Pessoa tivesse escrito. Digamos que há uma espécie de sintonia, uma espécie de lógica naquilo que encontrámos de novo”.“Aquele que é, se calhar, o inédito mais curioso é o esboço de um ensaio sobre o Quinto Império que tem 21 folhas manuscritas por Fernando Pessoa – um número que nos surpreendeu muitíssimo –, em que Pessoa apresenta mais ou menos todas as questões gerais do que é isto do Quinto Império”, destacou.“E essas 21 folhas inéditas chamam mais a atenção porque levantam a pergunta: como foi que uma coisa tão grande passou tanto tempo despercebida? Mas também é verdade que o espólio é um lugar complicado, e eu tenho a ideia de que se calhar outros editores, em tempos anteriores, não arriscaram a publicação porque não estavam certos de ser um texto de Fernando Pessoa em vez de, por exemplo, uma tradução de outro texto”, observou.“Em termos gráficos, é evidentemente um texto de Pessoa, mas não se sabia se estava a tentar traduzir outra coisa. Agora, com as tecnologias da nossa geração, tentar verificar se um texto pertence ou não a um autor é mais simples”, concluiu. http://www.publico.pt/Cultura/ineditos-de-fernando-pessoa-sobre-sebastianismo-e-quinto-imperio-sao-publicados-quintafeira-1530521?all=1

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Quem é o meu próximo?

“Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mateus, 22, 39). Quem é o meu próximo? Aquele que pertence ao mesmo grupo familiar, local, social, económico, nacional, étnico, cultural, linguístico, político ou religioso? Aquele que pertence à mesma espécie, ao mesmo planeta ou à mesma galáxia? Ou o meu próximo é aquele de quem me sentir próximo, ao ponto de o não sentir separado de mim nem a mim separado dele? O meu próximo tem então de ter duas pernas e dois braços ou pode ter quatro patas, muitas, nenhuma, caule, tronco, folhas, flores e frutos? Tem de ter cabelos e pele quase nua ou pode ter pêlos, penas, couraça, escamas e casca? Tem de viver sobre a terra ou pode rastejar dentro dela e voar e brilhar nos céus? Tem de ter uma vida individual ou pode ser a própria terra, as areias, as rochas, os minérios, as águas, os ventos, o fogo e as energias que em tudo isso habitam? Tem de falar a minha linguagem ou pode miar, ladrar, zumbir, uivar, cacarejar, grunhir, mugir, relinchar, rugir, trinar, grasnar, trovejar, soprar, relampejar, chover ou florir, frutificar, repousar e mover-se em silêncio? Tem de ter forma e ser visível ou pode não ter forma e ser invisível? Tem de ter vida consciente e senciente? Tem de ter vida? Tem de ser algum ser ou coisa ou pode ser tudo? A empatia, o sentir em si o outro como o mesmo, a compaixão, têm limites? Temos limites? Conhecemos a fronteira do que somos? Ou só o medo nos limita? O medo de tudo o que há. O medo do infinito e da vasta multidão que somos.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Ela sonhava como os rios
E no percurso das águas nasciam filhos
Que mais tarde lhe vinham acordar ao mar revolto

Ela costurava os seus vestidos
Com o fio de uma extensa lágrima
Para depois de pronto ver-se no fim de tudo

Ela sabia que o sonho tem horas
Que é o tempo fechar os olhos
E acordar primeiro que as galinhas

Mas quando fazia colares de amoras
Para que os homens pudessem falar dela
Era então que uma estrela lhe nascia
Algures entre o sexo e o peito

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

New Afghan Girl Dance Performance

Não sei tombar como os guerreiros
não sei sangrar como um livro de História de Portugal
não sei rimar como o Eugénio rimou
não sei o segredo das cores primárias
nunca vi uma aranha a fabricar o seu vestido
nunca escutei o silêncio a dar um grito de mulher
Mas sei que a metafísica tem o seu deserto.

A mensagem da Mensagem ou o regresso de D. Sebastião: hoje, 19h



Promovido pelo Centro de Estudos da Lusofonia Agostinho da Sliva, realiza-se 3ª feira, dia 17, pelas 19 horas,nas instalações da Escola Superior de Educação Almeida Garrett, ao fundo da Rua da Voz do Operário, a 3ª sessão do Curso Livre de Cultura portuguesa subordinada ao tema "A mensagem da MENSAGEM de Fernando Pessoa". Serei o orador, com os seguintes tópicos:
- Portugal, Europa e Mundo.
- O regresso de D. Sebastião e o fim do sebastianismo.
- O Quinto Império e a nova civilização.

"- O que calcula que seja o futuro da raça portuguesa ?
- O Quinto Império. O futuro de Portugal - que não calculo, mas sei - está escrito já, para quem saiba lê-lo, nas trovas do Bandarra, e também nas quadras de Nostradamus. Esse futuro é sermos tudo. Quem, que seja português, pode viver a estreiteza de uma só personalidade, de uma só nação, de uma só fé? Que português verdadeiro pode, por exemplo, viver a estreiteza estéril do catolicismo, quando fora dele há que viver todos os protestantismos, todos os credos orientais, todos os paganismos mortos e vivos, fundindo-os portuguêsmente no Paganismo Superior? Não queiramos que fora de nós fique um único deus! Absorvamos os deuses todos! Conquistámos já o Mar: resta que conquistemos o Céu, ficando a terra para os Outros, os eternamente Outros, os Outros de nascença, os europeus que não são europeus porque não são portugueses. Ser tudo, de todas as maneiras, porque a verdade não pode estar em faltar ainda alguma coisa! Criemos assim o Paganismo Superior, o Politeísmo Supremo! Na eterna mentira de todos os deuses, só os deuses todos são verdade” (Fernando Pessoa, resposta a uma entrevista de António Alves Martins).

Esta resposta é um notável resumo de vários aspectos fundamentais do pensamento pessoano atrás expostos. Para além de confirmar que Pessoa assume Portugal como a quinta-essência do cosmopolitismo e universalismo europeus, retoma a ideia de uma nova Descoberta a fazer, agora o “Céu” como ontem o “Mar”, numa crescente desterritorialização, desmaterialização e subtilização do elemento e domínio a desvendar. Além disso, reassume o projecto sensacionista de ser/sentir tudo de todas as maneiras como inerente ao impulso heteronímico e holístico, trans-pessoal, trans-nacional, trans-religioso e universalizante da nação. Finalmente, esclarece o sentido espiritual do Quinto Império como essa síntese trans-religiosa que incorpora e transcende todas as formas de manifestação do divino, do infinito ou do absoluto que são “todos os deuses”, por saber que, enquanto tais, enquanto suas re-velações para o e pelo homem, necessariamente condicionadas pelos limites humanos, tanto o desvelam quanto o ocultam e, assim, todas são igualmente verdadeiras e mentirosas, residindo a maior aproximação possível à verdade na igual e simultânea aceitação de todas as formas parciais e relativas da sua manifestação, sem excluir nem privilegiar nenhuma delas"
[excerto do meu próximo livro em preparação]

"Fado amigo não há, nem fado escuro; / Fados são as paixões, são as vontades"



Fado é fadar-se, destino é destinar-se: “Não forçam corações as divindades: / Fado amigo não há, nem fado escuro; / Fados são as paixões, são as vontades" – Bocage.

Se não acedes à estupefacção do intelecto cais na estupidez intelectual

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Símbolos? Meta-símbolos?
Odeio símbolos, os mestres-de-obras dos poemas, os clínicos
analistas das metáforas, os engenheiros do amor, os arquitetos
da foda, os psicanalista da música fúnebre. Odeio os que num verso
tentam perceber a minha vida toda. Invertem parábolas, agitam-nas,
sacodem-nas, analisam a minha dor à lupa.
Rais parta a simbologia, as pernas das letras, os nenúfares nas mesinha
de cabeceira, os poetas escriturários, belos, sentimentais e sonâmbulos
como os bois pela beirinha da estrada.
Odeio os que a modinho retiram a vesícula do poema, injetam sol
e pleonásmos, virgulam os sentidos.
Meus senhores, o que escrevo advém das flores, roubado às flores,
plagiado das flores. Esse é o meu crime, o meu sangue, que é fresco
e tem sete fuso horários.
Por favor, não me dêem cabo dos significados!

"O que era seguro era estar-se numa época de crise e ir sair de todo aquele século um mundo novo [...]"



"O que era seguro era estar-se numa época de crise e ir sair de todo aquele século um mundo novo, se a sua construção estivesse dentro das possibilidades humanas; os grandes edifícios sociais e políticos, os grandes princípios religiosos, as próprias normas literárias e artísticas manifestavam à mais ligeira observação os sinais do abalo profundo que não deixava de agitá-los; o homem do futuro já não cabia nas armaduras que vinham dos avós e ao esforço brutal que fazia por conquistar a liberdade abolavam-se as lâminas e estouravam os fechos; as próprias reacções eram sinais de derrocada; os fracos lamentavam-se e desejariam ter vivido em anos mais tranquilos, sem nenhum grave problema a resolver, com as escalas hierárquicas perfeitamente dispostas e a existência decorrendo como um fio monótono de fonte; Zola, porém, considerava como o mais belo dom dos deuses terem-no lançado para o fragor das torrentes, terem-lhe concedido ajudar as gotas companheiras na faina de abrir caminho, entre espumas e tumultos, para o verde sossego dos plainos"
– Agostinho da Silva, Vida de Zola [1942], in Biografias I, pp.127-128.

domingo, 15 de janeiro de 2012

É PRECISO DUVIDAR DE TUDO

Se não existe crítica sem alguma margem de dúvida, tampouco existe dúvida sem uma margem de crença. A crença é tão ou mais importante do que o ato de duvidar pra se chegar a qualquer conhecimento aproximado da realidade. Como diria o grande Vilém Flusser, em A Dúvida, se a dúvida metódica se transformasse em dúvida existencial, ou seja, em dúvida da dúvida, só nos restaria uma saída: a morte. E este seria um suicídio filosófico. Ou seja: uma insípida autoaniquilação. Essa é a crítica mais comum ao ceticismo de tipo pirrônico.

Porém, não acredito que a dúvida, diferente da crença, seja uma exceção no processo cognitivo. Acho que duvidamos como respiramos. Ortega diz algo nesse sentido com seu conceito de "razão vital". Se a crítica da crítica oferece problemas epistemológicos, a fé na dúvida também os oferece, talvez em quantidades ainda maiores. Todos aqueles que criam botes salva-vidas e mecanismos de neutralização, nos quais ao criticar não se vejam também eles no objeto criticado, agem ou por ingenuidade teórica ou por malícia estratégia. Querem se mostrar ou menos conscientes do que poderiam ser ou mais lúcidos do que realmente são. Qualquer conhecimento da realidade só existe de modo encarnado. Nunca como conceito abstrativo. Nesse sentido, toda a realidade e tudo o que existe, de pior e de melhor, não passa de um espelho. É apenas isso o que somos: um espelho. E não por acaso só a partir desse momento começa de fato a especulação.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

From Silence

ADAM HURST

A X-productions tem a honra de apresentar em estreia por terras lusas, o tão aguardado e cobiçado Adam Hurst.

O premiado violoncelista e compositor Adam Hurst usa o violoncelo como uma voz solo melódica criando apaixonadas e emotivas poéticas musicais que se entranham em quem as ouve.
A sua música é considerada assustadora, ao mesmo tempo que etérea, evocativa e romântica e tem sido usada em vários documentários, filmes de arte e filmes independentes como em Anima, um filme de Craig Richardson.

Adam Hurst estudou violoncelo no Skidmore College e continuou estudos na Universidade de Brown. Licenciou-se em Design na Rhode Island School of Design (1997). Ensinou violoncelo no Providence College enquanto adjunto durante quatro anos.
Tendo vindo a apresentar o seu trabalho nos EUA e Europa, este é o compositor das partituras de Broken Sparrow, um ballet coreografado por James Canfield e de peças para dança contemporânea e dança do ventre. Midnight Waltz é uma peça original para violoncelo e acordeão que compôs para o Vampire Ball de Portland.

Hurst participou, recentemente, no BRAM STOKER INTERNATIONAL FILM FESTIVAL, em Inglaterra e vem pela primeira vez a Portugal depois de um reportório original exposto já em nove álbuns para dois concertos que, segundo as críticas, são absolutamente imperdíveis !!!




Mais informações e contactos, AQUI

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

lux liber


TIBET MIRROR


Tibet Mirror ( phyogs Yul tão gyur so'i gsar 'me por muito tempo) , v. 16: no.12 [entre 1947-1949].
O Espelho Tibet ( Yul phyogs tão gyur so'i gsar 'me tempo ), foi um dos mais importantes jornais de língua tibetana, começou a ser publicado em outubro de 1925 em Kalimpong, na Índia. Ele narrou inumeras e dramáticas transformações sociais e políticas no Tibete, Índia, e em toda a região. Foi fundado por Gegen (Gergan) Tharchin Dorje, um pastor tibetano e teve a sua sede em Kalimpong. O Espelho Tibet tornou-se numa voz influente para a independência do Tibete em relação à China.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Maquiavel sobre a conquista e conservação de estados



"Quando os estados que se conquistam [...] têm a tradição de viver segundo as suas leis e em liberdade, para a sua conservação existem três opções: a primeira é a sua destruição; a segunda é ir para lá viver o príncipe conquistador; e a terceira consiste em deixá-los viver de acordo com as suas leis, mas exigindo-lhes um tributo e criando no seu seio uma oligarquia que vos garanta a sua fidelidade"
- Maquiavel, O Príncipe, cap. V.

O que se passa no mundo, e particularmente em Portugal, não é nada de novo...

sábado, 7 de janeiro de 2012

Um outro Natal: O Carnatal (excerto da crónica publicada na revista CAIS de Janeiro)



O autêntico Natal pagão e cristão implica sempre um (re)nascimento, uma mutação da consciência e por vezes a vivência de um mundo ao arrepio das normas, onde a experiência do sagrado consiste em transcender aquilo que se venera como mais sagrado (o “sagrado de transgressão”, segundo Roger Caillois). Na Idade Média o Natal ainda coexistia com as Festas dos Loucos, de meados de Dezembro até à Epifania, em 6 de Janeiro, com comida, bebida e danças nas igrejas e nos altares, missas burlescas com burros a zurrar, homens vestidos de mulheres e vice-versa, crianças tornadas Imperadores a quem a hierarquia eclesiástica tinha de obedecer, etc. Proibidas nas igrejas, originaram o Carnaval moderno, tendo sido a forma medieval cristã do mundo às avessas presente noutras culturas como ritual do regresso cíclico do cosmos ao Caos primordial onde a liberdade, a metamorfose, o jogo e a festa predominam sobre a delimitação do sagrado e do profano, do divino, do animal e do humano e dos papéis psicológicos e sociais, com a vida orientada para o trabalho e a produção.

Correspondendo ao solstício de Inverno, as Festas dos Loucos continuam antigos festejos pagãos, como as Saturnais, onde se celebrava o regresso à abundância da Idade do Ouro com a troca de presentes e o travestimento dos dois sexos. Estas festas ainda estão bem vivas no Nordeste transmontano, crendo-se que delas depende a renovação da energia vital, a fertilidade das mulheres, dos animais e dos campos. Como ainda hoje se diz, por ocasião das tropelias e mascaradas praticadas nas Festas dos Rapazes e outras: “É Natal, ninguém leva a mal!”. Um Carnatal, como pude presenciar…

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Carro de Feno, Carro do Mundo, para onde vais?

Quando tentei ser poeta original
vieram bandidos e esfregaram-me com ouro
líquido na cara. quando sonhei com a leveza 
dos pássaros perdidos, uma poetisa engravidou-se 
através das suas próprias mãos. quando vesti a túnica 
das esfinges gregas, uma criança chorou diante 
do altar do abandono. quando descobri o conforto do invisível,
parti para dentro de mim e acendi os olhos.

"Ousar falar de política desmontando os seus fundamentos, em toda a sua complexidade, e com os segredos que comportam, chega a ser perigoso"



"Falar de política é e mantém-se difícil porque o político nunca joga só. O que o político diz de si próprio está cheio de mentiras, de dissimulações. Ousar falar de política desmontando os seus fundamentos, em toda a sua complexidade, e com os segredos que comportam, chega a ser perigoso. A cidade, todas as cidades, a sociedade, todas as sociedades, não toleram que se fale delas lucidamente, radicalmente, desvelando ao máximo possível os mecanismos em marcha, assim como o seu imaginário, também ele limitado. Fazer isso não de um ponto de vista particular, não privilegiando um partido, seja ele qual for, dificilmente é suportável. O inimigo é mais fácil de situar:partidos e Estados combatem-no e tendem a eliminá-lo, brutal ou pacificamente. Aquele que não é amigo nem inimigo de um dos sistemas em vigor ou da estrutura global da colectividade, aquele que não pode ser classificado segundo as rubricas políticas admitidas, mas que perscruta em profundidade o maciço social-político fortemente fissurado e as construções que o povoam, só pode ser sacrificado, duma ou de outra maneira. Ninguém deve fazer abalar ou desestabilizar o consenso geral e os desvios autorizados, que caracterizam os extremos, o centro, os sonhos anarquizantes. Aquele que ousa "atacar" todas as frentes sem excepção, desmantelar todos os poderes e seus funcionamentos, vê-se afastado. [...] O descodificador do político e das regras que o sustentam faz o seu trabalho porque o que se lhe impõe e o anima é mais forte do que o silêncio ou o discurso balofo. Toda a tradição ocidental - não parece que outras tradições escapem a este mesmo destino - , de Heraclito a Heidegger, não ousa pôr em questão os fundamentos e últimas consequências do conjunto no qual as diferentes épocas vivem e que é qualificado de política. Heraclito não ousa pôr em questão a polis e Heidegger fica à sombra do político e do Estado, o que não o impede de pertinentemente esclarecer não o Estado, mas a tecno-estrutura"
- Kostas Axelos (1924-2010), Cartas a um jovem pensador, Vila Nova de Gaia, Estratégias Criativas, 1997, pp.63-64.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

"A palavra sânscrita para crise é kri ou kir"



"A palavra sânscrita para crise é kri ou kir e significa "desembaraçar" (scatter, scattering), "purificar" (pouring out), "limpar". O português conservou ainda as palavras acrisolar e crisol que guardam a nítida reminiscência de sua origem sânscrita. A crise age como um crisol (elemento químico) que purifica o ouro das gangas; acrisola (purifica, limpa) dos elementos que se incrustaram num processo vital ou histórico e que foram ganhando com o tempo papel substantivo, foram-se absolutizando e tomando conta do cerne a ponto de comprometerem a substância. Crise designa o processo de purificação do cerne: o histórico-acidental, o que assumiu indevidamente papel principal, é relegado a sua função secundária, porém legítima como secundária e derivada. Depois de qualquer crise, seja corporal, psíquica, moral, seja interior e religiosa, o ser humano sai purificado, libertando forças para uma vida mais vigorosa e cheia de renovado sentido"
- Leonardo Boff, Crise - oportunidade de crescimento, Petrópolis, Vozes, 2010, p.27.

“There is a crack in everything / That's how the light gets in” [“Há uma fenda em tudo / É assim que a luz entra”] – Leonard Cohen



“There is a crack in everything / That's how the light gets in” [“Há uma fenda em tudo / É assim que a luz entra”] – Leonard Cohen, “Anthem”. O intervalo entre cada pensamento, por onde irrompe a luz do real; a via do meio entre os opostos, por onde estes se transcendem; o não eu nem tu, onde floresce o milagre do amor.
(para a Luísa)

"Não vos amarreis exclusivamente a nenhum credo em particular"



"Não vos amarreis exclusivamente a nenhum credo em particular, ao ponto de não acreditardes em todos os outros, pois perdereis muito do bem e não conseguireis reconhecer a verdadeira natureza das coisas. Deus, o omnipresente e o omnipotente, não é limitado por nenhum credo, porque diz: «Para onde quer que vos voltais, vereis a face de Alá». Todos louvam aquilo em que acreditam; o seu deus é o seu próprio ser e, ao louvá-lo, louvam-se a si próprios. Consequentemente censuram os credos dos outros, o que não fariam se fossem justos, mas a sua aversão resulta da ignorância"
- Ibn al-Arabi.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

"o pior de tudo é a ficção de que tudo tem um preço ou [...] de que o dinheiro é o mais alto de todos os valores"



"No mercado suprimem-se, por razões de ordem prática, inúmeras distinções qualitativas que são de importância vital para o homem e a sociedade [...]. Por isso mesmo é n'«O Mercado» que o domínio da quantidade festeja os seus maiores triunfos. Tudo se compara com tudo. Comparar as coisas significa atribuir-lhes um preço e possibilitar, desse modo, a troca de umas pelas outras. O pensamento económico, na medida em que se baseia no mercado, retira à vida toda a sua sacralidade, porque nada pode haver de sagrado em tudo que tem um preço [...].
[...] o pior de tudo, aquilo que é destrutivo da civilização, é a ficção de que tudo tem um preço ou, noutros termos, de que o dinheiro é o mais alto de todos os valores"

- E. F. Schumacher, Small is Beautiful (um estudo de economia em que as pessoas também contam), Lisboa, Dom Quixote, 1985, 2ª edição, p.43.

sábado, 31 de dezembro de 2011

Votos de um 2012 radical

Amigas e Amigos, venho desejar-vos o melhor Ano de 2012, com tudo aquilo que de melhor desejam, para vós e para os vossos, mas sobretudo com tudo aquilo que quase nunca desejamos, que nem sequer imaginamos e que acima de tudo necessitamos: sermos rebeldes contra o ego, não o mimarmos mais e não lhe satisfazermos os caprichos; não nos queixarmos tanto dos outros e do que está mal, mas sobretudo da nossa preguiça, conformismo e indolência pacóvia, dos nossos compromissos com isso mesmo que criticamos no mundo e nos outros; não dormirmos na cama e na vida enquanto biliões de seres humanos e não-humanos, tal como o planeta, estão a ser explorados e destruídos para satisfazer os nossos hábitos burgueses de consumo e abundância; não continuarmos sempre à espera que alguém tome a iniciativa de fazer o que é justo, enquanto comodamente nos demitimos do potencial herói que somos; não amarmos apenas quem nos ama e acarinha, num comércio de afectos, mas abrirmos o coração a todos os seres, mesmo que a nossa ignorância os faça percepcionar como indiferentes, maus ou inimigos; não separarmos mais acção e contemplação, espiritualidade, ética, cultura e política, pois tudo são aspectos complementares do ser integral que somos; não sermos sempre iguais, mas termos a ousadia de ser outros, criativos, libertando o infinito e o universo que trazemos em nós. É isto e muitas mais coisas, nestas contidas, que vos desejo. Fundamentalmente que nos libertemos de tudo o que nos prende - antes de mais nós próprios - e que transmutemos deuses e demónios interiores em Golpe d'Asa de consciência amorosa, compassiva e desperta!

Desejo-vos o que me desejo, pois bem disso careço: Revolução interior, abolição da ficção do ego, explosão de amor e compaixão por tudo e por todos!

Só assim faremos a Diferença e seremos a Alternativa que este fim de ciclo de civilização pede de todos nós. Só assim seremos credíveis obreiros de um Outro Portugal, uma Outra Europa e um Outro Mundo, em nós erguidos das ruínas deste canto de cisne tecnocrático, economicista e financeiro, que esgota todos os balões de oxigénio da natureza e da Vida.

Conto encontrar-vos, com espírito não-violento, pacífico e positivo, na manifestação de 10 de Janeiro, às 18.30, no Rossio, em Lisboa, contra a venda da EDP, mas sobretudo a favor de ética na política. Uma manifestação que não é contra os chineses nem contra ninguém, mas acima de tudo contra a nossa apatia e a favor de uma nova sociedade e civilização, fundada na consciência, no amor e no respeito por todas as formas de vida.

Bem hajam!

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

A Manjedoura da Salvação



Vários Padres falam da manjedoura como lugar do pecado (peccatum-tropeçar, cometer uma falta): tal como o animal volta à manjedoura, assim o homem volta ao próprio pecado. Uma vez separado da Fonte da vida, o homem deve agarrar-se a algo que lhe dê alguma gratificação, alguma afirmação, algum prazer, para não sentir tão acutilante o medo da morte. Assim, é obrigado a voltar sempre à habitual «manjedoura».
É então que Deus, querendo reencontrar o homem, vai procurá-lo precisamente ali, sabendo que o homem não faltará àquele encontro.
Para nos poder encontrar, o Filho de Deus despoja-Se da glória divina e esvazia-Se até à morte (cf. Fil 2, 5). A manjedoura anuncia que o Filho de Deus será destruído na cruz, tal como na manjedoura é destruído o alimento. Mas é a partir da sua morte que nós teremos a vida, tal como aquele que come o alimento se mantém vivo. Deste modo, Jesus é deitado na manjedoura, mas ao mesmo tempo é já elevado na cruz e situado em correspondência com a mesa eucarística, para nos fazer saborear já aqui, em Belém, que significa «casa do pão», o verdadeiro Pão que dá a vida. Graças a Ele, a manjedoura do pecado torna-se manjedoura da salvação.

M.I. Rupnik

“O povo português é essencialmente cosmopolita. Nunca um verdadeiro português foi português: foi sempre tudo”

- Fernando Pessoa, entrevista dada a António Alves Martins, Revista Portuguesa, nºs 23/24 (Lisboa, 13.10.1923).

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Ajudemos a salvar Portugal da vergonha de não ter tido senão a cultura portuguesa

"Comprar ORPHEU é, emfim, ajudar a salvar Portugal da vergonha de não ter tido senão a litteratura portugueza. ORPHEU é todas as litteraturas" - Fernando Pessoa.

Parafraseando:

Comprar Cultura ENTRE Culturas é, enfim, ajudar a salvar Portugal da vergonha de não ter tido senão a cultura portuguesa. Cultura ENTRE Culturas é todas as culturas :)

"O outro mundo mata"

"Não nos arriscamos também a uma mesma morte, se muito longe penetrarmos no outro mundo? Quem sai vivo de ter visto Deus face a face? - o ponto último, o mais profundo desta viagem. O outro mundo mata"
- Dalila Pereira da Costa, "Os Sonhos".

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Ir. Marie Keirouz - Ya Sayyida Hayati

Hommes de Lumiere



Pas une fleur, pas un bruit, le vide, la transparence immense de l'espace, pas un voisin pour l'accuser de ses propres faiblesses. Seul, face à moi-même, je découvre une force cachée; les tentations d'un passé non assumé me harcellent.

Pour les moines du désert, aucune compensation:
pas de bibliothèque ou de bon repas pour se distraire, pas de musique pour se donner la sensation d'une présence complice, pas de travail pour fuir le véritable combat et tomber dans l'activisme; pas de discussion théorique sur Dieu, la vie, la mort; pas de longue sieste pour tuer le temps qui ne passe pas. Seuls, le silence et le vide, lieu où les démons habitent, lieu où Dieu parle au coeur en paix. Le moine, après dix, cinquante ans, devient sage ou fou.

A encruzilhada em que se encontra o homem



A encruzilhada em que se encontra o homem: continuar a reproduzir as motivações herdadas dos primitivos répteis, há 500 milhões de anos, geridas pelo "velho cérebro, o hipotálamo - aquilo a que as neurociências chamam os 4 Fs, feeding, fighting, fleeing e f... (alimentação, luta, fuga e reprodução) - , ou desenvolver as potencialidades geridas fisiologicamente pelo neocórtex, distanciando-se daqueles instintos, reflectindo e abrindo-se altruisticamente ao cuidado de todos os outros seres vivos. É doloroso ver como em tantos sectores da nossa vida pública e privada ainda nos comportamos como há 500 milhões de anos... A razão, a ética e a espiritualidade ajudam-nos a superar esse atraso.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

"A política de homens novos, insatisfeitos com o trabalho das anteriores gerações, não pode deixar de ser revolucionária (...)"



"A política de homens novos, insatisfeitos com o trabalho das anteriores gerações, não pode deixar de ser revolucionária, isto é, criadora de melhor ordem social. Restauradora ou conservadora nunca poderá ser, não só porque tal política é inaceitável por consciências verdadeiramente moças mas sobretudo porque lhe falta digno objecto de restauração ou conservação"
- Álvaro Ribeiro, "Política" (1930), in Dispersos e Inéditos, I (1921-1953), Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 2004, p.75.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Mensagem de Natal

Caras Amigas, Amigos, Indiferentes, Desconhecidos, Adversários e Inimigos

Há cerca de três anos não conhecia sequer os blogues nem o Facebook. Circunstâncias várias aqui me trouxeram e, sobretudo o meu envolvimento com o PAN, fez com que no Facebook rapidamente me visse a gerir várias páginas e com uma comunidade de muitos milhares de amigos e apoiantes. Nesta passagem das actividades mais espirituais e culturais a uma acção mais pública, em prol de causas que de todos são conhecidas - direitos humanos, direitos dos animais, ecologia, universalismo cultural e diálogo inter-religioso - , tenho feito muitas amizades e diminuído ou perdido outras, o que tem sido raro. Tenho também encontrado adversários e até inimigos, como é natural. E muitos indiferentes, como também é natural.

Seja como for, nesta véspera de Natal, em que se comemora, consciente ou inconscientemente, a possibilidade de em nós nascer um Homem Novo, quero desejar a todos, e mesmo a todos - pensem, digam e façam o que pensarem, disserem e fizerem e gostem ou não de mim e do que penso, digo e faço - , toda a Felicidade do mundo e agradecer-vos por vos conhecer e pelo privilégio de partilhar convosco a aventura desta existência. Digo isto sobretudo aos meus adversários e inimigos.
Quero também dizer-vos que vejo hoje confirmar-se o que desde criança pressentia: que iria assistir a grandes coisas e a grandes mutações na história do mundo e que iria ter parte activa nelas. Estamos na verdade num momento dramático, crucial e decisivo da história de Portugal, da Europa e do planeta, em que somos confrontados com grandes dificuldades, a maior das quais é a de enfrentar as consequências da devastação que a humanidade tem causado na Terra, nos animais e em si mesma, bem como o novo obscurantismo que sobre todos nós se abate, sob a forma da ditadura económico-financeira de um capitalismo selvagem sem quaisquer princípios éticos que visa reduzir a população mundial a um novo exército de escravos ao serviço da avidez e ganância das forças obscuras que se ocultam por detrás de governos e partidos do poder. Isso é mais imediatamente evidente em Portugal, um país e uma cultura milenar de gente boa que está a ser destruído por sucessivos governos, a ser ocupado pela banca mundial e a ser colonizado por potências obscuras como a China.

Cabe-nos a todos sermos Resistência e Alternativa, criar práticas culturais, sociais e económicas que sejam o embrião da sociedade futura, construir a ponte entre uma civilização que morre e outra que aflora à luz do dia. Para tal somos todos necessários: movimentos de cidadãos, forças políticas e culturais independentes do poder estabelecido e que não visem mais do mesmo, indivíduos conscientes. Temos de nos unir, organizar e agir. É necessário inverter o processo que tem afastado da política as pessoas boas e competentes, com princípios e valores, com sentido do bem comum, para a deixar nas mãos dos medíocres, corruptos e vendidos a quem mais lhes paga. Política haverá sempre: se não queremos ser vítimas dela, temos de a exercer em prol da justiça e arrancá-la ao domínio dos grupos económico-financeiros. Não nos espera tarefa nada fácil, dado o poder e a violência das forças da ignorância e da ganância que se abatem sobre humanos e não-humanos e devastam a Terra. Temos todos de nos superar, indo buscar energias que agora desconhecemos, mas que são desde sempre e já presentes no mais íntimo de quem somos. Muitas tentações surgirão, como a de desistirmos, nos acomodarmos e dividirmos. Vencê-las-emos se nos motivarmos pensando no socorro dos que mais sofrem e na importância de assegurarmos um futuro para a Terra, para os nossos filhos e netos, esquecendo fins e interesses pessoais, de modo a que possamos morrer com a consciência do dever cumprido. Só assim seremos a Diferença e brilharemos, sem orgulho, como um relâmpago eterno na mais escura noite. Só assim assumiremos as grandes responsabilidades que nos esperam, estrelas cravadas no firmamento das nossas vidas.

Beijo-vos e abraço-vos, uma a uma, um a um

Boas Festas!

Que nasça Hoje e Sempre em nós uma consciência ética universal, que nos leve apenas a pensar, dizer e fazer o que vise o Bem de tudo e de todos, humanos e não-humanos!

Paulo Borges

24.12.2011

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Entre a mesa e a janela, mora teimosa uma parede amarela. 
Procuro o ponto de fuga. 
Desenho o luar em cada noite escura. 
Despeço-me do sol. 
Na monotonia do amarelo, deito-me e sonho 
com o mar que caminha para a montanha,
até que a terra encontre o céu e o azul tome conta da cor.

Descubro no gesto o sentido.

Entre a mesa e a janela, da minha casa
Mora teimosa uma parede amarela
Cansada, debotada na cor,
Delicada, encosto meu corpo
Apoio no ombro a vontade de ser
Abro a janela, abraço a liberdade.

No horizonte - vida.

Dance of Darkness - Ohno or " Ono"Excerpt




Foi aos 95 anos que deixou os palcos. Durante mais de 50, este bailarino e coreógrafo japonês marcou a dança que se fez no Japão e no mundo, alcançando um patamar de excelência que nunca o rotulou como "exótico". Kazuo Ohno foi sempre contemporâneo.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Tughra (Assinatura Oficial) do sultão Suleiman, o Magnífico (r. 1520-1566)

Tughra (Assinatura Oficial) do sultão Suleiman, o Magnífico (r. 1520-1566)

"Aquele a quem foi dado ser plenamente como o em que se nega todo parcial ser..."

"Aquele a quem foi dado ser plenamente como o em que se nega todo parcial ser, como o que vê e, no ver do que é, infinitamente ultrapassa todo ver e saber finito, esse, no mesmo instante em que frui a mais pura alegria, sabe para sempre toda a verdade"
- José Marinho, Teoria do Ser e da Verdade, Lisboa, Guimarães Editores, 1961, p.19.





20 de Dezembro
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
Anfiteatro 3
9h30m – 20h

Com o apoio da Cultura ENTRE Culturas

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

«Às portas de Roma está sentado um mendigo leproso. Ele espera. É o Messias»



“Sendo criança, aconteceu-me ler um velho conto judeu, do qual não pude compreender o sentido. Nada dizia senão isto: «Às portas de Roma está sentado um mendigo leproso. Ele espera. É o Messias». Fui então ao encontro de um velho homem. «Que espera ele?», perguntei-lhe. E o velho homem deu-me uma resposta que não aprendi a compreender senão muito mais tarde. Disse-me: «O que ele espera, és tu»”
- Martin Buber, Judaïsme, tradução do alemão de Marie-José Jolivet, s. l., Verdier, 1986, p.17.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Conferências Internacionais Pessoa na Actualidade - Hoje - 18.30



Ciclo Internacional de Conferências Pessoa na Actualidade (primeiras três sessões):

Tendo por finalidade divulgar as mais recentes pesquisas sobre Fernando Pessoa, o Ciclo Internacional de Conferências Pessoa na Actualidade pretende trazer à Casa Fernando Pessoa jovens investigadores pessoanos. O evento ocorrerá nos meses de Dezembro de 2011 e de Janeiro de 2012 e contará com a presença de pesquisadores nacionais e estrangeiros que nos darão a conhecer algumas das mais recentes investigações sobre o pensamento e a obra do poeta e pensador português.

Organização: Paulo Borges, Cláudia Souza e Nuno Ribeiro

Programa

Palestras inaugurais – 14 de Dezembro (18h30)

Paulo Borges (Portugal) - A «alma [...] divina», o «mar sem fim» e a «eterna calma»: comentário do poema "Padrão" de Mensagem
Cláudia Souza (Brasil) – Pantaleão e a Política
Nuno Ribeiro (Portugal) – Fernando Pessoa e Nietzsche: escrita, sujeito e pluralidade

2ª Sessão – 15 de Dezembro (18h30)

Fabrizio Boscaglia (Itália) – Fernando Pessoa e a civilização arábico-islâmica: algumas considerações introdutórias.
Giancarlo de Aguiar (Brasil) – Processo de Individuação em Fernando Pessoa: Uma Análise da Personificação de Heterónimos.
Raquel Nobre Guerra (Portugal) – Saudade evocativa e saudade do futuro em Álvaro de Campos

3ª Sessão – 16 de Dezembro (18h30)
Júlia Dieguez (Espanha) - Fernando Pessoa: Una Odisea a través del Caos
Pablo Javier Pérez Lópes (Espanha) - O grupo civilizacional ibérico no seio da refundação mítica da existência de Fernando Pessoa.

Câmara Municipal de Lisboa
Casa Fernando Pessoa
R. Coelho da Rocha, 16
1250-088 Lisboa
Tel. 21.3913270
Autocarros: 709, 720, 738 Eléctricos: 25, 28 Metro: Rato
http://casafernandopessoa.cm-lisboa.pt
www.mundopessoa.blogs.sapo.pt
Sejamos Natal

Para além de todas as demagogias,
Para além do politicamente correcto,
Para além de todas as hipocrisias...

Celebremos, finalmente, o Espírito do Natal
Em todos os momentos
Desta nossa existência, tão efémera.

Natal é Fraternidade, Solidariedade, Paz,
Amor e Alegria na Terra
E nos Corações dos Homens;

Natal é a apologia do autenticamente Humano,
Em toda a sua essência genuína
De Bondade e de Verdade;

Natal é o enaltecimento de um Mundo
Onde não haja mais lugar para a Crueldade,
Para a Violência ou para a Agressividade;

Natal é a reunião dos Corações sensíveis
Que lutam, desesperadamente, pela União
Dos Povos e das Nações;

Natal é a rejeição da Discriminação,
Dos horrores da Guerra,
Da mutilação dos Corpos e das Almas;

Natal é a consciência da Miséria Humana,
O compromisso da sua superação,
O enaltecimento da Justiça e da União fraterna;

Natal é o triunfo do Bem e do Belo,
A glória de todos os Renascimentos,
A comemoração da Dignidade Humana;

Natal é a benção do sempre Novo,
O louvor de todo o acto de Criação,
De Renovação e de Regeneração.

Sejamos Natal,
Hoje, sempre,
Para sempre...

Isabel Rosete

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

20 Dezembro - Colóquio "José Marinho: do espírito ao insubstancial substante"





20 de Dezembro
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
Anfiteatro 3
9h30m – 20h

Com o apoio da Cultura ENTRE Culturas
Todos os dias o melro mirava-se ao espelho, demorava-se a cantar.
Um dia, ao pintar o bico de vermelho, caíram-lhe as penas. Riu-se.
Riu-se tanto que acordou.
Naquele arbusto pendiam bagas vermelhas.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

"Para nascer, Portugal: para morrer, o mundo”



"Nascer pequeno e morrer grande, é chegar a ser homem. Por isso nos deu Deus tão pouca terra para o nascimento, e tantas para a sepultura. Para nascer, pouca terra; para morrer toda a terra. Para nascer, Portugal: para morrer, o mundo”

- Padre António Vieira, Sermão de Santo António, Sermões, VII, p.64.

Hoje, 18.30, Casa Fernando Pessoa: Fernando Pessoa: Filosofia, Religião e Ciências do Psiquismo Humano - III

Fernando Pessoa: Filosofia, Religião e Ciências do Psiquismo Humano - 3ª Sessão

1 - Carla Gago: O Modernismo e o "pré-científico": Ocultismo e Ciências do Psiquismo Humano.
2 - Nuno Hipólito: Fernando Pessoa, o supra-Wittgenstein.
Organização: Paulo Borges, Cláudia Souza e Nuno Ribeiro

7 de Dezembro | 18h30 | Casa Fernando Pessoa

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Encontro Pessoa/Cioran, com apresentação do nº3 da Cultura ENTRE Culturas e do "Teatro da Vacuidade"



Encontro Pessoa / Cioran
Nos 76 anos da morte de Fernando Pessoa e nos 100 anos do nascimento de Emil Cioran
17h00 | 30 de Novembro 2011
Sala do Departamento de Filosofia (Torre B – Piso 1) | FLUP

O Grupo de Investigação Raízes e Horizontes da Filosofia e da Cultura em Portugal do Instituto de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto tem o prazer de convidar todos os interessados para o Encontro Pessoa / Cioran - Nos 76 anos da morte de Fernando Pessoa e nos 100 anos do nascimento de Emil Cioran.

O evento terá lugar no próximo dia 30 de Novembro, pelas 17h00, na Sala do Departamento de Filosofia (Torre B – Piso 1) na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, e contará com as seguintes intervenções:

* “Emil Cioran e Fernando Pessoa: salto no absoluto e «fuga para fora de Deus»”, Paulo Borges (FLUL-CFUL)
* “Tempo e palavra em Cioran”, J. M. Costa Macedo (FLUP/IF)
* “Utopia em Fernando Pessoa e Emil Cioran”, José Almeida (FLUP/IF)
* “Acerca da noção de normalidade em Cioran”, Elsa Cerqueira

| Apresentação do livro “O teatro da vacuidade ou a impossibilidade de ser eu” e do 3º número da revista “Cultura Entre Culturas, dedicado a Fernando Pessoa

A sessão terminará com a apresentação do livro “O teatro da vacuidade ou a impossibilidade de ser eu”, de Paulo Borges, e do Nº 3 da Revista “Cultura Entre Culturas”, dedicado a Fernando Pessoa, por José Meirinhos (FLUP/IF).
[Entrada livre]
Mais Informações: http://ifilosofia.up.pt/gfmc/?p=activities&a=ver&id=327

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

GREVE GERAL

Precisamente há um ano escrevi e publiquei este texto, na véspera da última Greve Geral. Reli-o agora e, infelizmente, não vejo motivos para alterar uma vírgula. Publico-o pois de novo. Que despertemos e que cada um se assuma como a solução para a crise.

Abraços

GREVE GERAL

24 de Novembro é dia de Greve Geral. Sim, façamos Greve Geral. Paralisemos todas as nossas actividades, como protesto contra um país mal organizado, mal governado, eticamente decadente e social e economicamente injusto, cada vez mais vergado à grande finança internacional, à ganância dos especuladores e ao consequente desprezo pelas necessidades básicas da população. Paremos totalmente, como protesto contra um país refém dos grandes grupos e potências económico-financeiras em todas as áreas, do trabalho à saúde, educação e política.

Façamos pois Greve Geral, em protesto contra todos os governos e oposições que, não só agora, mas desde a fundação de Portugal, contribuíram para o estado em que estamos. Todavia, façamos Greve Geral sobretudo em protesto contra nós próprios, que maioritariamente votamos sempre nos mesmos ou nos abstemos de votar e, principalmente, de criar alternativas à classe política e aos partidos em que desde há muito não acreditamos. Façamos Greve Geral, sim, mas também à nossa passividade e conformismo cívicos, à nossa preguiça e indolência, à nossa tremenda indiferença. Façamos Greve Geral ao nosso hábito inveterado de criticar tudo e todos e nada fazer, ficando sempre à espera que alguém faça, que os outros resolvam, que D. Sebastião apareça. Façamos Greve Geral à ideia de que basta fazer um dia de Greve Geral exterior, em prol de mudanças sociais, económicas e políticas, deixando tudo igual nos outros dias e dentro de cada um de nós. Sim, façamos definitivamente Greve Geral à demissão de sermos desde já, sempre e cada vez mais a diferença que queremos ver no mundo, em todas as frentes, sem exclusão de nenhuma: espiritual, cultural, ética, social, económica e política.

Façamos pois Greve Geral à nossa cumplicidade com o rumo de uma civilização que caminha aceleradamente para a sua perda, à nossa colaboração com a ganância e futilidade da hiperprodução e do hiperconsumo que violam a natureza e instrumentalizam e escravizam os seres vivos, homens e animais, em nome de um progresso e de um bem-estar que é sempre apenas o de uma pequena minoria de senhores do mundo. Façamos Greve Geral à intoxicação quotidiana de uma comunicação social que só deixa passar a versão da realidade que interessa aos vários poderes e contrapoderes. Façamos Greve Geral à imbecilização colectiva de muitos programas de televisão e seus outros avatares informáticos, que nos deixam pregados no sofá e nos ecrãs quando há crianças a morrer de fome, mulheres apedrejadas até à morte, velhos abandonados, defensores dos direitos humanos torturados e a apodrecer nas prisões, trabalhadores explorados, povos vítimas de agressão militar e genocídio, animais produzidos em série para os nossos pratos e a agonizar nos canis, matadouros, laboratórios e arenas, a natureza e o planeta a serem devastados… Façamos Greve Geral a todas as nossas ilusões e distracções, a todo o fazer de conta, a toda a conversa fútil no café, telemóvel, blogues e facebook, a todo o voltar a cara para o lado ante a realidade profunda das coisas e toda a nossa hipócrita cumplicidade com o que mais criticamos e condenamos.

Sim, e sobretudo façamos Greve Geral à raiz de tudo isso, a todos os nossos pensamentos, emoções, palavras e acções iludidos, inúteis e nocivos a nós e a todos. Greve Geral a todos os juízos e opiniões que visam sempre autopromover-nos em detrimento dos outros. Greve Geral a colocarmo-nos sempre em primeiro lugar, a nós e aos “nossos”, familiares, amigos, membros da mesma nação, clube, partido, religião ou espécie, em detrimento dos “outros”, sempre a menorizar, desprezar, combater, dominar ou abater. Pois façamos Greve Geral, total e radical, não só um dia, mas para sempre, a toda a ignorância dualista, apego e aversão e à sua combinação em todo o egocentrismo, possessividade, orgulho, inveja e ciúme, avareza e avidez, ódio e cólera, preguiça e torpor. Paremos para sempre de produzir e consumir isto, cessemos de poluir mental e emocionalmente o planeta e deixemos espaço para que em nós floresça e frutifique a sabedoria, o amor, a compaixão imparciais e incondicionais, a paz e a alegria profundas e duradouras.

Façamos Greve Geral, agora e para sempre! E deixemo-nos contaminar pela Revolução doce e silenciosa de uma mente desperta e sensível ao Bem de todos os seres sencientes, que nada pense, diga e faça que não o vise, a cada instante, seja em que esfera for, também na economia e na política. Desta Greve Geral saem um Homem e um Mundo Novos.

Paulo Borges
23.11.2010 / 23.11.2011

terça-feira, 22 de novembro de 2011

"Vários teóricos interrogaram-se sobre que tipo de ética e filosofia "pós-humanista" poderia emergir se tomarmos o rosto do animal, o olhar do animal e a nossa comunicação com os animais como o ponto de partida da teorização. Um tal lance poderia "ameaçar profundamente a soberania do sujeito de consciência ocidental" (Rohman 2009: 12) e conduzir a novas concepções acerca de como deveria ser uma teoria ética para a idade "pós-humanista" (Wolfe 2003)"
- Andrew Brennan / Y. S. Lo, "Understanding Environmental Philosophy", Durham, Acumen Publishing, 2010, pp.53-54.

Da saudade como peso, pêsame e pesadelo



“Temos todos experiência – pessoal e social – de que a saudade pesa. Mais do que em muitos corações palpitantes de vida, é no imaginário cardiológico de alguns, apostados em mistificar passado, presente e futuro, que a saudade se anicha como pêsame nos roteiros da história. Não se trata de mero acidente idiossincrásico, respeitável como todas as delicadezas patéticas, mesmo que não partilhadas; trata-se da exacerbação, exploração e distorsão de um sentimento humano apoteoticamente alcandorado a destinação de raça e a promessa de nublados porvires. Pode descambar em pesadelo.
Importa, por isso, sopesar a saudade”

– José BARATA-MOURA, “Peso, pêsame, pesadelo – para um sopesamento (não saudosista) da saudade”, in Estudos de Filosofia Portuguesa, Lisboa, Editorial Caminho, 1998, p.197.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

“Antes de haver meu e teu, havia amor"



“Antes de haver meu e teu, havia amor, porque eu amava-vos a vós e vós a mim: mas tanto que o meu e teu se meteu de permeio, e se atravessou entre nós, logo se acabou o amor; porque vós já me não amais a mim, senão o meu, nem eu vos amo a vós, senão o vosso. No princípio do mundo, como gravemente pondera Séneca, porque não havia guerras ? Porque usavam os homens da terra como do céu. O sol, a lua, as estrelas e o uso da sua luz é comum a todos e assim era a terra no princípio: porém depois que a terra se dividiu em diferentes senhores, logo houve guerras e batalhas e se acabou a paz, porque houve meu e teu”

– Padre António Vieira, Sermão da Segunda Dominga da Quaresma, Sermões, III, p.70.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Quarta 16/11, às 22h, no Chapitô (Lisboa) - Regresso às "conversas vadias" com... Fernando Dacosta

Conversas que pensam que nos pensam que se pensam. Resgatamos à televisão dos anos 90 as "conversas vadias" e os entrevistadores que popularizaram Agostinho da Silva junto do público português. Desta vez o convidado é Fernando Dacosta que, tomando como ponto de partida a entrevista realizada por Herman José ao professor, relembra esta figura e as suas grandes visões e utopias.

Passagem do episódio "Conversas Vadias" (entrevista de Herman José a Agostinho da Silva), 27', seguida de conversa informal. Estarão presentes membros da Direcção da Associação Agostinho da Silva.

"(...) sentir-se terra é perceber-se dentro de uma complexa comunidade de outros filhos e filhas da Terra"

"(...) sentir-se terra é perceber-se dentro de uma complexa comunidade de outros filhos e filhas da Terra. A Terra não produz apenas a nós, seres humanos. Produz a miríade de micro-organismos que compõem 90% de toda a rede da vida, os insetos que constituem a biomassa mais importante da biodiversidade. Produz as águas, a capa verde com a infinita diversidade de plantas, flores e frutos. Produz a diversidade incontável de seres vivos, animais, pássaros e peixes, nossos companheiros dentro da unidade sagrada da vida porque em todos estão presentes os vinte aminoácidos que entram na composição da vida. Para todos produz as condições de subsistência, de evolução e de alimentação, no solo, no subsolo e no ar. Sentir-se Terra é mergulhar na comunidade terrenal, no mundo dos irmãos e das irmãs, todos filhos e filhas da grande e generosa Mãe-Terra, nosso lar comum"

- Leonardo Boff, "Ecologia e ecoespiritualidade", Petrópolis, Vozes, 2011, pp.78-79.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

"Estamos à beira de uma nova Era"



"E, na verdade, este período histórico é bem semelhante ao período da decadência de Roma.
Dum lado, as classes superiores, egoístas, cépticas, esterilizadas como a terra onde existiram os grandes focos de civilização. Pierre Loti nota que as localidades dos antigos centros populosos se transformaram em lugares desertos.
Dum lado, esta gente esgotada, mumificada em formas de ser já mortas, colorindo a lividez cadavérica da alma com frios sorrisos de ironia...
Do outro lado, a alma dos Povos, ébria de seiva, rumorejando novas criações espirituais que apenas afloram, no vago, no indeciso, em que surgem as madrugadas. Estamos à beira de uma nova Era"
- Teixeira de Pascoaes, "O génio português na sua expressão filosófica, poética e religiosa", 1913.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Porque enxotas o silêncio?
- Para dar de beber ao pensamento-casa

Porque morres todas as noites?
- Para aprender o instinto das libélulas

Porque amas as iniciadas flores?
- Para encontrar a fuga dentro do sono

Porque lês as mãos?
- Porque sou uma mulher amena, a inclinação da tarde.

Entrevista de Paulo Borges à revista "Pessoal", de Nov. 2011, sobre "Mindfulness"/meditação nas empresas

1. O “mindfulness” procura que o indivíduo se foque no momento presente e abandone o estado de “piloto automático”. É possível aplicar este objectivo às empresas? Em que termos e com que resultados?

A prática de “mindfulness”, a atenção plena ao que fazemos a cada instante, baseada em métodos milenares de meditação oriental, mas sem qualquer aspecto religioso, está a ser difundida em todo o mundo, com resultados cientificamente comprovados em laboratórios nos EUA, como o prestigiado MIT. Procuram-na não só os indivíduos, como via para uma maior saúde psicossomática, mas também cada vez mais instituições onde as pessoas estão sujeitas a condições adversas, como hospitais e prisões, ou de grande exigência em termos de trabalho e de relações humanas, como escolas e empresas. Empresas como a Mitsubishi e a Sanyo, entre muitas outras, na Europa, nos EUA, no Brasil e no Japão, já introduziram a prática de “mindfulness”.
Os resultados nas empresas são claros: melhoria da saúde dos funcionários e redução do absentismo por doença; melhoria das relações humanas, reforço do espírito de equipa e maior capacidade de gerir e solucionar conflitos; maior satisfação no trabalho e aumento da produtividade; redução do stress, maior concentração e criatividade.

2. Aconselharia as nossas empresas a oferecerem programas de mindfulness aos seus trabalhadores? Em que moldes é que acha que isso poderia ser feito?

Aconselho vivamente e já tenho sido contactado nesse sentido. O que tenho feito e que sugiro é que se facultem cursos de introdução à prática de “mindfulness” em cada empresa e que depois se constitua um grupo de prática regular orientada por um formador qualificado.

3. Os tempos conturbados e de crise económico-financeira que vivemos provocam desânimo e desmotivação nas pessoas. O “mindfulness” pode ser uma ajuda para inverter esta situação?

Certamente. Estou convicto, por 30 anos de prática e pelo que tenho visto nos praticantes regulares, mesmo recentes, que “mindfulness” é uma das vias para sairmos da actual crise civilizacional. Quando a mente deixa de lado preocupações com o passado e o futuro e foca a atenção na respiração e no aqui e agora, deixamos de nos identificar com pensamentos e emoções que nos fazem ver tudo negro e sem saída. A mente recupera a serenidade e criatividade naturais, há mais energia e as soluções surgem.

4. E relativamente à gestão do stress, também poderá ser útil?

O stress vem de se estar a fazer uma coisa pensando em mil outras ao mesmo tempo, em particular no que temos que fazer no futuro, o que só aumenta a ansiedade e nos impede de fazer bem o que temos em mãos no presente. A prática de “mindfulness”, focando-nos no que estamos a fazer e numa coisa de cada vez, suprime o stress e permite desempenhar melhor e com mais rapidez qualquer tarefa.

5. Um dos temas mais relevantes para a Gestão dos Recursos Humanos é a liderança. Não será contraproducente um líder adoptar uma das regras de “mindfulness” que aconselha a não pensar “estou em A como é que chego a B, mas antes estando em A chego a B”?

Não creio e a prova é haver cada vez mais líderes interessados em “mindfulness”. Por um lado, porque nos ajuda a pôr de lado hábitos e automatismos mentais compulsivos, tornando a mente mais criativa. Estando plenamente em A, mais facilmente intuo como chegar a B, sem repetir o modo como cheguei a A, que pode não se adequar a B. Por outro, porque “mindfulness” é inseparável de uma ética do desenvolvimento sustentável ao serviço da felicidade e do bem-comum e isso é hoje cada vez mais um factor de crescimento das empresas, de motivação dos funcionários e da sua apreciação pelo público.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

S. Martinho em torno de Agostinho, na Casa Bocage, Setúbal, Sábado, 16h

Caros Amigos e Amigas

A Associação Agostinho da Silva e a Casa Bocage (Divisão de Museus da Câmara Municipal de Setúbal)convidam-vos para o encontro "S. Martinho em torno de Agostinho", última sessão do ciclo de tertúlias "Em torno de Agostinho da Silva na Casa Bocage", no próximo sábado, 12 de Novembro, pelas 16 horas.
A sessão será preenchida com as seguintes intervenções:

"Agostinho da Silva e Fernando Pessoa: A coragem de ser outro", por Paulo Borges

"A Introdução aos grandes autores e a divulgação cultural de Agostinho da Silva nos anos 30", por Duarte Drumond Braga

"Uma leitura de Agostinho da Silva, à luz da actualidade", por Bruno Ferro

Exposição (venda) de retrato de Agostinho da Silva (técnica mista) de José Manuel Capelo, por João Raposo Nunes
Música com &FUSION
Confraternização entre os presentes (com Magusto).

Saudações cordiais
Maurícia Teles e Bruno Ferro

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

O problema do antropocentrismo

"Uma grande quantidade de trabalho teorizou a patologia das crises ambientais contemporâneas, sugerindo que algumas das nossas subjacentes crenças e atitudes culturais, religiosas e políticas são responsáveis por nos comportarmos mal para com o ambiente. Por outras palavras, as nossas visões religiosas do mundo, as nossas ideias políticas e sociais básicas, não são ambientalmente inocentes. O centramento humano - antropocentrismo - é o suspeito número um. A perspectiva antropocêntrica é que, de uma maneira geral, os seres humanos são as únicas coisas intrinsecamente valiosas na terra e que tudo o mais existe para servir as nossas carências e necessidades"
- Andrew Brennan / Y. S. Lo, "Understanding Environmental Philosophy", Durham, Acumen Publishing, 2010, pp.7-8.

sábado, 29 de outubro de 2011

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

XXVI Encontro Inter-religioso de Meditação - Mesquita de Lisboa, 2.11.2011



António Ramos Rosa no dia da homenagem/lançamento da Cultura ENTRE Culturas


Filipe Nobre Gomes, António Ramos Rosa e Paulo Borges, num fim de tarde memorável.

"Não queiras mais que a gratuita lucidez / do instante sem caminho" - ARR

Lançamento da Cultura ENTRE Culturas nº4




Lançamento da Cultura ENTRE Culturas, nº4. Da esquerda para a direita: Paulo Borges, Maria Teresa Dias Furtado, António Cândido Franco e Luiz Pires dos Reys.

Da ilusão como matriz da cultura: o jovem Nietzsche









“É um fenómeno eterno: sempre a Vontade insaciável, pela ilusão que derrama sobre as coisas, encontra um meio de ligar as suas criaturas à existência e de as forçar a continuar a viver. Este deixa-se fascinar pelo prazer socrático do conhecimento e pela ilusão de poder sanar com ele a eterna chaga da existência; aquele sente-se fascinado pelo véu sedutor da beleza que a arte deixa flutuar diante dos seus olhos; outro deixa-se, por sua vez, seduzir pela consolação metafísica de que, sob o turbilhão das aparências, a vida eterna prossegue o seu curso indestrutível: para não falar das ilusões mais comuns e mais fortes ainda que a vontade é capaz de suscitar a todo o instante. Estes três graus de ilusão são, de resto, reservados às naturezas mais nobres, nas quais o peso e a miséria da existência suscitam um desgosto mais profundo, mas que podem fugir a tal desgosto escolhendo estimulantes adequados. Com tais estimulantes se constituiu tudo o que designamos por civilização: de acordo com o seu doseamento obteremos, preferencialmente, ou uma cultura socrática, ou artística ou trágica, ou melhor, se formos buscar exemplos à história, teremos então ou uma cultura alexandrina, ou helénica ou budista” [1].
[1] Friedrich Nietzsche, A Origem da Tragédia, 18, tradução, apresentação e comentário de Luís Lourenço, Lisboa, Lisboa Editora, 2004, p.152.

“Há muitas coisas espantosas, mas nada / há mais espantoso/inquietante (deinón) do que o homem”

- Sófocles, "Antígona"