sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

"Ousar falar de política desmontando os seus fundamentos, em toda a sua complexidade, e com os segredos que comportam, chega a ser perigoso"



"Falar de política é e mantém-se difícil porque o político nunca joga só. O que o político diz de si próprio está cheio de mentiras, de dissimulações. Ousar falar de política desmontando os seus fundamentos, em toda a sua complexidade, e com os segredos que comportam, chega a ser perigoso. A cidade, todas as cidades, a sociedade, todas as sociedades, não toleram que se fale delas lucidamente, radicalmente, desvelando ao máximo possível os mecanismos em marcha, assim como o seu imaginário, também ele limitado. Fazer isso não de um ponto de vista particular, não privilegiando um partido, seja ele qual for, dificilmente é suportável. O inimigo é mais fácil de situar:partidos e Estados combatem-no e tendem a eliminá-lo, brutal ou pacificamente. Aquele que não é amigo nem inimigo de um dos sistemas em vigor ou da estrutura global da colectividade, aquele que não pode ser classificado segundo as rubricas políticas admitidas, mas que perscruta em profundidade o maciço social-político fortemente fissurado e as construções que o povoam, só pode ser sacrificado, duma ou de outra maneira. Ninguém deve fazer abalar ou desestabilizar o consenso geral e os desvios autorizados, que caracterizam os extremos, o centro, os sonhos anarquizantes. Aquele que ousa "atacar" todas as frentes sem excepção, desmantelar todos os poderes e seus funcionamentos, vê-se afastado. [...] O descodificador do político e das regras que o sustentam faz o seu trabalho porque o que se lhe impõe e o anima é mais forte do que o silêncio ou o discurso balofo. Toda a tradição ocidental - não parece que outras tradições escapem a este mesmo destino - , de Heraclito a Heidegger, não ousa pôr em questão os fundamentos e últimas consequências do conjunto no qual as diferentes épocas vivem e que é qualificado de política. Heraclito não ousa pôr em questão a polis e Heidegger fica à sombra do político e do Estado, o que não o impede de pertinentemente esclarecer não o Estado, mas a tecno-estrutura"
- Kostas Axelos (1924-2010), Cartas a um jovem pensador, Vila Nova de Gaia, Estratégias Criativas, 1997, pp.63-64.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

"A palavra sânscrita para crise é kri ou kir"



"A palavra sânscrita para crise é kri ou kir e significa "desembaraçar" (scatter, scattering), "purificar" (pouring out), "limpar". O português conservou ainda as palavras acrisolar e crisol que guardam a nítida reminiscência de sua origem sânscrita. A crise age como um crisol (elemento químico) que purifica o ouro das gangas; acrisola (purifica, limpa) dos elementos que se incrustaram num processo vital ou histórico e que foram ganhando com o tempo papel substantivo, foram-se absolutizando e tomando conta do cerne a ponto de comprometerem a substância. Crise designa o processo de purificação do cerne: o histórico-acidental, o que assumiu indevidamente papel principal, é relegado a sua função secundária, porém legítima como secundária e derivada. Depois de qualquer crise, seja corporal, psíquica, moral, seja interior e religiosa, o ser humano sai purificado, libertando forças para uma vida mais vigorosa e cheia de renovado sentido"
- Leonardo Boff, Crise - oportunidade de crescimento, Petrópolis, Vozes, 2010, p.27.

“There is a crack in everything / That's how the light gets in” [“Há uma fenda em tudo / É assim que a luz entra”] – Leonard Cohen



“There is a crack in everything / That's how the light gets in” [“Há uma fenda em tudo / É assim que a luz entra”] – Leonard Cohen, “Anthem”. O intervalo entre cada pensamento, por onde irrompe a luz do real; a via do meio entre os opostos, por onde estes se transcendem; o não eu nem tu, onde floresce o milagre do amor.
(para a Luísa)

"Não vos amarreis exclusivamente a nenhum credo em particular"



"Não vos amarreis exclusivamente a nenhum credo em particular, ao ponto de não acreditardes em todos os outros, pois perdereis muito do bem e não conseguireis reconhecer a verdadeira natureza das coisas. Deus, o omnipresente e o omnipotente, não é limitado por nenhum credo, porque diz: «Para onde quer que vos voltais, vereis a face de Alá». Todos louvam aquilo em que acreditam; o seu deus é o seu próprio ser e, ao louvá-lo, louvam-se a si próprios. Consequentemente censuram os credos dos outros, o que não fariam se fossem justos, mas a sua aversão resulta da ignorância"
- Ibn al-Arabi.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

"o pior de tudo é a ficção de que tudo tem um preço ou [...] de que o dinheiro é o mais alto de todos os valores"



"No mercado suprimem-se, por razões de ordem prática, inúmeras distinções qualitativas que são de importância vital para o homem e a sociedade [...]. Por isso mesmo é n'«O Mercado» que o domínio da quantidade festeja os seus maiores triunfos. Tudo se compara com tudo. Comparar as coisas significa atribuir-lhes um preço e possibilitar, desse modo, a troca de umas pelas outras. O pensamento económico, na medida em que se baseia no mercado, retira à vida toda a sua sacralidade, porque nada pode haver de sagrado em tudo que tem um preço [...].
[...] o pior de tudo, aquilo que é destrutivo da civilização, é a ficção de que tudo tem um preço ou, noutros termos, de que o dinheiro é o mais alto de todos os valores"

- E. F. Schumacher, Small is Beautiful (um estudo de economia em que as pessoas também contam), Lisboa, Dom Quixote, 1985, 2ª edição, p.43.

sábado, 31 de dezembro de 2011

Votos de um 2012 radical

Amigas e Amigos, venho desejar-vos o melhor Ano de 2012, com tudo aquilo que de melhor desejam, para vós e para os vossos, mas sobretudo com tudo aquilo que quase nunca desejamos, que nem sequer imaginamos e que acima de tudo necessitamos: sermos rebeldes contra o ego, não o mimarmos mais e não lhe satisfazermos os caprichos; não nos queixarmos tanto dos outros e do que está mal, mas sobretudo da nossa preguiça, conformismo e indolência pacóvia, dos nossos compromissos com isso mesmo que criticamos no mundo e nos outros; não dormirmos na cama e na vida enquanto biliões de seres humanos e não-humanos, tal como o planeta, estão a ser explorados e destruídos para satisfazer os nossos hábitos burgueses de consumo e abundância; não continuarmos sempre à espera que alguém tome a iniciativa de fazer o que é justo, enquanto comodamente nos demitimos do potencial herói que somos; não amarmos apenas quem nos ama e acarinha, num comércio de afectos, mas abrirmos o coração a todos os seres, mesmo que a nossa ignorância os faça percepcionar como indiferentes, maus ou inimigos; não separarmos mais acção e contemplação, espiritualidade, ética, cultura e política, pois tudo são aspectos complementares do ser integral que somos; não sermos sempre iguais, mas termos a ousadia de ser outros, criativos, libertando o infinito e o universo que trazemos em nós. É isto e muitas mais coisas, nestas contidas, que vos desejo. Fundamentalmente que nos libertemos de tudo o que nos prende - antes de mais nós próprios - e que transmutemos deuses e demónios interiores em Golpe d'Asa de consciência amorosa, compassiva e desperta!

Desejo-vos o que me desejo, pois bem disso careço: Revolução interior, abolição da ficção do ego, explosão de amor e compaixão por tudo e por todos!

Só assim faremos a Diferença e seremos a Alternativa que este fim de ciclo de civilização pede de todos nós. Só assim seremos credíveis obreiros de um Outro Portugal, uma Outra Europa e um Outro Mundo, em nós erguidos das ruínas deste canto de cisne tecnocrático, economicista e financeiro, que esgota todos os balões de oxigénio da natureza e da Vida.

Conto encontrar-vos, com espírito não-violento, pacífico e positivo, na manifestação de 10 de Janeiro, às 18.30, no Rossio, em Lisboa, contra a venda da EDP, mas sobretudo a favor de ética na política. Uma manifestação que não é contra os chineses nem contra ninguém, mas acima de tudo contra a nossa apatia e a favor de uma nova sociedade e civilização, fundada na consciência, no amor e no respeito por todas as formas de vida.

Bem hajam!

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

A Manjedoura da Salvação



Vários Padres falam da manjedoura como lugar do pecado (peccatum-tropeçar, cometer uma falta): tal como o animal volta à manjedoura, assim o homem volta ao próprio pecado. Uma vez separado da Fonte da vida, o homem deve agarrar-se a algo que lhe dê alguma gratificação, alguma afirmação, algum prazer, para não sentir tão acutilante o medo da morte. Assim, é obrigado a voltar sempre à habitual «manjedoura».
É então que Deus, querendo reencontrar o homem, vai procurá-lo precisamente ali, sabendo que o homem não faltará àquele encontro.
Para nos poder encontrar, o Filho de Deus despoja-Se da glória divina e esvazia-Se até à morte (cf. Fil 2, 5). A manjedoura anuncia que o Filho de Deus será destruído na cruz, tal como na manjedoura é destruído o alimento. Mas é a partir da sua morte que nós teremos a vida, tal como aquele que come o alimento se mantém vivo. Deste modo, Jesus é deitado na manjedoura, mas ao mesmo tempo é já elevado na cruz e situado em correspondência com a mesa eucarística, para nos fazer saborear já aqui, em Belém, que significa «casa do pão», o verdadeiro Pão que dá a vida. Graças a Ele, a manjedoura do pecado torna-se manjedoura da salvação.

M.I. Rupnik

“O povo português é essencialmente cosmopolita. Nunca um verdadeiro português foi português: foi sempre tudo”

- Fernando Pessoa, entrevista dada a António Alves Martins, Revista Portuguesa, nºs 23/24 (Lisboa, 13.10.1923).

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Ajudemos a salvar Portugal da vergonha de não ter tido senão a cultura portuguesa

"Comprar ORPHEU é, emfim, ajudar a salvar Portugal da vergonha de não ter tido senão a litteratura portugueza. ORPHEU é todas as litteraturas" - Fernando Pessoa.

Parafraseando:

Comprar Cultura ENTRE Culturas é, enfim, ajudar a salvar Portugal da vergonha de não ter tido senão a cultura portuguesa. Cultura ENTRE Culturas é todas as culturas :)

"O outro mundo mata"

"Não nos arriscamos também a uma mesma morte, se muito longe penetrarmos no outro mundo? Quem sai vivo de ter visto Deus face a face? - o ponto último, o mais profundo desta viagem. O outro mundo mata"
- Dalila Pereira da Costa, "Os Sonhos".

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Ir. Marie Keirouz - Ya Sayyida Hayati

Hommes de Lumiere



Pas une fleur, pas un bruit, le vide, la transparence immense de l'espace, pas un voisin pour l'accuser de ses propres faiblesses. Seul, face à moi-même, je découvre une force cachée; les tentations d'un passé non assumé me harcellent.

Pour les moines du désert, aucune compensation:
pas de bibliothèque ou de bon repas pour se distraire, pas de musique pour se donner la sensation d'une présence complice, pas de travail pour fuir le véritable combat et tomber dans l'activisme; pas de discussion théorique sur Dieu, la vie, la mort; pas de longue sieste pour tuer le temps qui ne passe pas. Seuls, le silence et le vide, lieu où les démons habitent, lieu où Dieu parle au coeur en paix. Le moine, après dix, cinquante ans, devient sage ou fou.

A encruzilhada em que se encontra o homem



A encruzilhada em que se encontra o homem: continuar a reproduzir as motivações herdadas dos primitivos répteis, há 500 milhões de anos, geridas pelo "velho cérebro, o hipotálamo - aquilo a que as neurociências chamam os 4 Fs, feeding, fighting, fleeing e f... (alimentação, luta, fuga e reprodução) - , ou desenvolver as potencialidades geridas fisiologicamente pelo neocórtex, distanciando-se daqueles instintos, reflectindo e abrindo-se altruisticamente ao cuidado de todos os outros seres vivos. É doloroso ver como em tantos sectores da nossa vida pública e privada ainda nos comportamos como há 500 milhões de anos... A razão, a ética e a espiritualidade ajudam-nos a superar esse atraso.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

"A política de homens novos, insatisfeitos com o trabalho das anteriores gerações, não pode deixar de ser revolucionária (...)"



"A política de homens novos, insatisfeitos com o trabalho das anteriores gerações, não pode deixar de ser revolucionária, isto é, criadora de melhor ordem social. Restauradora ou conservadora nunca poderá ser, não só porque tal política é inaceitável por consciências verdadeiramente moças mas sobretudo porque lhe falta digno objecto de restauração ou conservação"
- Álvaro Ribeiro, "Política" (1930), in Dispersos e Inéditos, I (1921-1953), Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 2004, p.75.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Mensagem de Natal

Caras Amigas, Amigos, Indiferentes, Desconhecidos, Adversários e Inimigos

Há cerca de três anos não conhecia sequer os blogues nem o Facebook. Circunstâncias várias aqui me trouxeram e, sobretudo o meu envolvimento com o PAN, fez com que no Facebook rapidamente me visse a gerir várias páginas e com uma comunidade de muitos milhares de amigos e apoiantes. Nesta passagem das actividades mais espirituais e culturais a uma acção mais pública, em prol de causas que de todos são conhecidas - direitos humanos, direitos dos animais, ecologia, universalismo cultural e diálogo inter-religioso - , tenho feito muitas amizades e diminuído ou perdido outras, o que tem sido raro. Tenho também encontrado adversários e até inimigos, como é natural. E muitos indiferentes, como também é natural.

Seja como for, nesta véspera de Natal, em que se comemora, consciente ou inconscientemente, a possibilidade de em nós nascer um Homem Novo, quero desejar a todos, e mesmo a todos - pensem, digam e façam o que pensarem, disserem e fizerem e gostem ou não de mim e do que penso, digo e faço - , toda a Felicidade do mundo e agradecer-vos por vos conhecer e pelo privilégio de partilhar convosco a aventura desta existência. Digo isto sobretudo aos meus adversários e inimigos.
Quero também dizer-vos que vejo hoje confirmar-se o que desde criança pressentia: que iria assistir a grandes coisas e a grandes mutações na história do mundo e que iria ter parte activa nelas. Estamos na verdade num momento dramático, crucial e decisivo da história de Portugal, da Europa e do planeta, em que somos confrontados com grandes dificuldades, a maior das quais é a de enfrentar as consequências da devastação que a humanidade tem causado na Terra, nos animais e em si mesma, bem como o novo obscurantismo que sobre todos nós se abate, sob a forma da ditadura económico-financeira de um capitalismo selvagem sem quaisquer princípios éticos que visa reduzir a população mundial a um novo exército de escravos ao serviço da avidez e ganância das forças obscuras que se ocultam por detrás de governos e partidos do poder. Isso é mais imediatamente evidente em Portugal, um país e uma cultura milenar de gente boa que está a ser destruído por sucessivos governos, a ser ocupado pela banca mundial e a ser colonizado por potências obscuras como a China.

Cabe-nos a todos sermos Resistência e Alternativa, criar práticas culturais, sociais e económicas que sejam o embrião da sociedade futura, construir a ponte entre uma civilização que morre e outra que aflora à luz do dia. Para tal somos todos necessários: movimentos de cidadãos, forças políticas e culturais independentes do poder estabelecido e que não visem mais do mesmo, indivíduos conscientes. Temos de nos unir, organizar e agir. É necessário inverter o processo que tem afastado da política as pessoas boas e competentes, com princípios e valores, com sentido do bem comum, para a deixar nas mãos dos medíocres, corruptos e vendidos a quem mais lhes paga. Política haverá sempre: se não queremos ser vítimas dela, temos de a exercer em prol da justiça e arrancá-la ao domínio dos grupos económico-financeiros. Não nos espera tarefa nada fácil, dado o poder e a violência das forças da ignorância e da ganância que se abatem sobre humanos e não-humanos e devastam a Terra. Temos todos de nos superar, indo buscar energias que agora desconhecemos, mas que são desde sempre e já presentes no mais íntimo de quem somos. Muitas tentações surgirão, como a de desistirmos, nos acomodarmos e dividirmos. Vencê-las-emos se nos motivarmos pensando no socorro dos que mais sofrem e na importância de assegurarmos um futuro para a Terra, para os nossos filhos e netos, esquecendo fins e interesses pessoais, de modo a que possamos morrer com a consciência do dever cumprido. Só assim seremos a Diferença e brilharemos, sem orgulho, como um relâmpago eterno na mais escura noite. Só assim assumiremos as grandes responsabilidades que nos esperam, estrelas cravadas no firmamento das nossas vidas.

Beijo-vos e abraço-vos, uma a uma, um a um

Boas Festas!

Que nasça Hoje e Sempre em nós uma consciência ética universal, que nos leve apenas a pensar, dizer e fazer o que vise o Bem de tudo e de todos, humanos e não-humanos!

Paulo Borges

24.12.2011

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Entre a mesa e a janela, mora teimosa uma parede amarela. 
Procuro o ponto de fuga. 
Desenho o luar em cada noite escura. 
Despeço-me do sol. 
Na monotonia do amarelo, deito-me e sonho 
com o mar que caminha para a montanha,
até que a terra encontre o céu e o azul tome conta da cor.

Descubro no gesto o sentido.

Entre a mesa e a janela, da minha casa
Mora teimosa uma parede amarela
Cansada, debotada na cor,
Delicada, encosto meu corpo
Apoio no ombro a vontade de ser
Abro a janela, abraço a liberdade.

No horizonte - vida.

Dance of Darkness - Ohno or " Ono"Excerpt




Foi aos 95 anos que deixou os palcos. Durante mais de 50, este bailarino e coreógrafo japonês marcou a dança que se fez no Japão e no mundo, alcançando um patamar de excelência que nunca o rotulou como "exótico". Kazuo Ohno foi sempre contemporâneo.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Tughra (Assinatura Oficial) do sultão Suleiman, o Magnífico (r. 1520-1566)

Tughra (Assinatura Oficial) do sultão Suleiman, o Magnífico (r. 1520-1566)

"Aquele a quem foi dado ser plenamente como o em que se nega todo parcial ser..."

"Aquele a quem foi dado ser plenamente como o em que se nega todo parcial ser, como o que vê e, no ver do que é, infinitamente ultrapassa todo ver e saber finito, esse, no mesmo instante em que frui a mais pura alegria, sabe para sempre toda a verdade"
- José Marinho, Teoria do Ser e da Verdade, Lisboa, Guimarães Editores, 1961, p.19.





20 de Dezembro
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
Anfiteatro 3
9h30m – 20h

Com o apoio da Cultura ENTRE Culturas

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

«Às portas de Roma está sentado um mendigo leproso. Ele espera. É o Messias»



“Sendo criança, aconteceu-me ler um velho conto judeu, do qual não pude compreender o sentido. Nada dizia senão isto: «Às portas de Roma está sentado um mendigo leproso. Ele espera. É o Messias». Fui então ao encontro de um velho homem. «Que espera ele?», perguntei-lhe. E o velho homem deu-me uma resposta que não aprendi a compreender senão muito mais tarde. Disse-me: «O que ele espera, és tu»”
- Martin Buber, Judaïsme, tradução do alemão de Marie-José Jolivet, s. l., Verdier, 1986, p.17.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Conferências Internacionais Pessoa na Actualidade - Hoje - 18.30



Ciclo Internacional de Conferências Pessoa na Actualidade (primeiras três sessões):

Tendo por finalidade divulgar as mais recentes pesquisas sobre Fernando Pessoa, o Ciclo Internacional de Conferências Pessoa na Actualidade pretende trazer à Casa Fernando Pessoa jovens investigadores pessoanos. O evento ocorrerá nos meses de Dezembro de 2011 e de Janeiro de 2012 e contará com a presença de pesquisadores nacionais e estrangeiros que nos darão a conhecer algumas das mais recentes investigações sobre o pensamento e a obra do poeta e pensador português.

Organização: Paulo Borges, Cláudia Souza e Nuno Ribeiro

Programa

Palestras inaugurais – 14 de Dezembro (18h30)

Paulo Borges (Portugal) - A «alma [...] divina», o «mar sem fim» e a «eterna calma»: comentário do poema "Padrão" de Mensagem
Cláudia Souza (Brasil) – Pantaleão e a Política
Nuno Ribeiro (Portugal) – Fernando Pessoa e Nietzsche: escrita, sujeito e pluralidade

2ª Sessão – 15 de Dezembro (18h30)

Fabrizio Boscaglia (Itália) – Fernando Pessoa e a civilização arábico-islâmica: algumas considerações introdutórias.
Giancarlo de Aguiar (Brasil) – Processo de Individuação em Fernando Pessoa: Uma Análise da Personificação de Heterónimos.
Raquel Nobre Guerra (Portugal) – Saudade evocativa e saudade do futuro em Álvaro de Campos

3ª Sessão – 16 de Dezembro (18h30)
Júlia Dieguez (Espanha) - Fernando Pessoa: Una Odisea a través del Caos
Pablo Javier Pérez Lópes (Espanha) - O grupo civilizacional ibérico no seio da refundação mítica da existência de Fernando Pessoa.

Câmara Municipal de Lisboa
Casa Fernando Pessoa
R. Coelho da Rocha, 16
1250-088 Lisboa
Tel. 21.3913270
Autocarros: 709, 720, 738 Eléctricos: 25, 28 Metro: Rato
http://casafernandopessoa.cm-lisboa.pt
www.mundopessoa.blogs.sapo.pt
Sejamos Natal

Para além de todas as demagogias,
Para além do politicamente correcto,
Para além de todas as hipocrisias...

Celebremos, finalmente, o Espírito do Natal
Em todos os momentos
Desta nossa existência, tão efémera.

Natal é Fraternidade, Solidariedade, Paz,
Amor e Alegria na Terra
E nos Corações dos Homens;

Natal é a apologia do autenticamente Humano,
Em toda a sua essência genuína
De Bondade e de Verdade;

Natal é o enaltecimento de um Mundo
Onde não haja mais lugar para a Crueldade,
Para a Violência ou para a Agressividade;

Natal é a reunião dos Corações sensíveis
Que lutam, desesperadamente, pela União
Dos Povos e das Nações;

Natal é a rejeição da Discriminação,
Dos horrores da Guerra,
Da mutilação dos Corpos e das Almas;

Natal é a consciência da Miséria Humana,
O compromisso da sua superação,
O enaltecimento da Justiça e da União fraterna;

Natal é o triunfo do Bem e do Belo,
A glória de todos os Renascimentos,
A comemoração da Dignidade Humana;

Natal é a benção do sempre Novo,
O louvor de todo o acto de Criação,
De Renovação e de Regeneração.

Sejamos Natal,
Hoje, sempre,
Para sempre...

Isabel Rosete

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

20 Dezembro - Colóquio "José Marinho: do espírito ao insubstancial substante"





20 de Dezembro
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
Anfiteatro 3
9h30m – 20h

Com o apoio da Cultura ENTRE Culturas
Todos os dias o melro mirava-se ao espelho, demorava-se a cantar.
Um dia, ao pintar o bico de vermelho, caíram-lhe as penas. Riu-se.
Riu-se tanto que acordou.
Naquele arbusto pendiam bagas vermelhas.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

"Para nascer, Portugal: para morrer, o mundo”



"Nascer pequeno e morrer grande, é chegar a ser homem. Por isso nos deu Deus tão pouca terra para o nascimento, e tantas para a sepultura. Para nascer, pouca terra; para morrer toda a terra. Para nascer, Portugal: para morrer, o mundo”

- Padre António Vieira, Sermão de Santo António, Sermões, VII, p.64.

Hoje, 18.30, Casa Fernando Pessoa: Fernando Pessoa: Filosofia, Religião e Ciências do Psiquismo Humano - III

Fernando Pessoa: Filosofia, Religião e Ciências do Psiquismo Humano - 3ª Sessão

1 - Carla Gago: O Modernismo e o "pré-científico": Ocultismo e Ciências do Psiquismo Humano.
2 - Nuno Hipólito: Fernando Pessoa, o supra-Wittgenstein.
Organização: Paulo Borges, Cláudia Souza e Nuno Ribeiro

7 de Dezembro | 18h30 | Casa Fernando Pessoa

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Encontro Pessoa/Cioran, com apresentação do nº3 da Cultura ENTRE Culturas e do "Teatro da Vacuidade"



Encontro Pessoa / Cioran
Nos 76 anos da morte de Fernando Pessoa e nos 100 anos do nascimento de Emil Cioran
17h00 | 30 de Novembro 2011
Sala do Departamento de Filosofia (Torre B – Piso 1) | FLUP

O Grupo de Investigação Raízes e Horizontes da Filosofia e da Cultura em Portugal do Instituto de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto tem o prazer de convidar todos os interessados para o Encontro Pessoa / Cioran - Nos 76 anos da morte de Fernando Pessoa e nos 100 anos do nascimento de Emil Cioran.

O evento terá lugar no próximo dia 30 de Novembro, pelas 17h00, na Sala do Departamento de Filosofia (Torre B – Piso 1) na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, e contará com as seguintes intervenções:

* “Emil Cioran e Fernando Pessoa: salto no absoluto e «fuga para fora de Deus»”, Paulo Borges (FLUL-CFUL)
* “Tempo e palavra em Cioran”, J. M. Costa Macedo (FLUP/IF)
* “Utopia em Fernando Pessoa e Emil Cioran”, José Almeida (FLUP/IF)
* “Acerca da noção de normalidade em Cioran”, Elsa Cerqueira

| Apresentação do livro “O teatro da vacuidade ou a impossibilidade de ser eu” e do 3º número da revista “Cultura Entre Culturas, dedicado a Fernando Pessoa

A sessão terminará com a apresentação do livro “O teatro da vacuidade ou a impossibilidade de ser eu”, de Paulo Borges, e do Nº 3 da Revista “Cultura Entre Culturas”, dedicado a Fernando Pessoa, por José Meirinhos (FLUP/IF).
[Entrada livre]
Mais Informações: http://ifilosofia.up.pt/gfmc/?p=activities&a=ver&id=327

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

GREVE GERAL

Precisamente há um ano escrevi e publiquei este texto, na véspera da última Greve Geral. Reli-o agora e, infelizmente, não vejo motivos para alterar uma vírgula. Publico-o pois de novo. Que despertemos e que cada um se assuma como a solução para a crise.

Abraços

GREVE GERAL

24 de Novembro é dia de Greve Geral. Sim, façamos Greve Geral. Paralisemos todas as nossas actividades, como protesto contra um país mal organizado, mal governado, eticamente decadente e social e economicamente injusto, cada vez mais vergado à grande finança internacional, à ganância dos especuladores e ao consequente desprezo pelas necessidades básicas da população. Paremos totalmente, como protesto contra um país refém dos grandes grupos e potências económico-financeiras em todas as áreas, do trabalho à saúde, educação e política.

Façamos pois Greve Geral, em protesto contra todos os governos e oposições que, não só agora, mas desde a fundação de Portugal, contribuíram para o estado em que estamos. Todavia, façamos Greve Geral sobretudo em protesto contra nós próprios, que maioritariamente votamos sempre nos mesmos ou nos abstemos de votar e, principalmente, de criar alternativas à classe política e aos partidos em que desde há muito não acreditamos. Façamos Greve Geral, sim, mas também à nossa passividade e conformismo cívicos, à nossa preguiça e indolência, à nossa tremenda indiferença. Façamos Greve Geral ao nosso hábito inveterado de criticar tudo e todos e nada fazer, ficando sempre à espera que alguém faça, que os outros resolvam, que D. Sebastião apareça. Façamos Greve Geral à ideia de que basta fazer um dia de Greve Geral exterior, em prol de mudanças sociais, económicas e políticas, deixando tudo igual nos outros dias e dentro de cada um de nós. Sim, façamos definitivamente Greve Geral à demissão de sermos desde já, sempre e cada vez mais a diferença que queremos ver no mundo, em todas as frentes, sem exclusão de nenhuma: espiritual, cultural, ética, social, económica e política.

Façamos pois Greve Geral à nossa cumplicidade com o rumo de uma civilização que caminha aceleradamente para a sua perda, à nossa colaboração com a ganância e futilidade da hiperprodução e do hiperconsumo que violam a natureza e instrumentalizam e escravizam os seres vivos, homens e animais, em nome de um progresso e de um bem-estar que é sempre apenas o de uma pequena minoria de senhores do mundo. Façamos Greve Geral à intoxicação quotidiana de uma comunicação social que só deixa passar a versão da realidade que interessa aos vários poderes e contrapoderes. Façamos Greve Geral à imbecilização colectiva de muitos programas de televisão e seus outros avatares informáticos, que nos deixam pregados no sofá e nos ecrãs quando há crianças a morrer de fome, mulheres apedrejadas até à morte, velhos abandonados, defensores dos direitos humanos torturados e a apodrecer nas prisões, trabalhadores explorados, povos vítimas de agressão militar e genocídio, animais produzidos em série para os nossos pratos e a agonizar nos canis, matadouros, laboratórios e arenas, a natureza e o planeta a serem devastados… Façamos Greve Geral a todas as nossas ilusões e distracções, a todo o fazer de conta, a toda a conversa fútil no café, telemóvel, blogues e facebook, a todo o voltar a cara para o lado ante a realidade profunda das coisas e toda a nossa hipócrita cumplicidade com o que mais criticamos e condenamos.

Sim, e sobretudo façamos Greve Geral à raiz de tudo isso, a todos os nossos pensamentos, emoções, palavras e acções iludidos, inúteis e nocivos a nós e a todos. Greve Geral a todos os juízos e opiniões que visam sempre autopromover-nos em detrimento dos outros. Greve Geral a colocarmo-nos sempre em primeiro lugar, a nós e aos “nossos”, familiares, amigos, membros da mesma nação, clube, partido, religião ou espécie, em detrimento dos “outros”, sempre a menorizar, desprezar, combater, dominar ou abater. Pois façamos Greve Geral, total e radical, não só um dia, mas para sempre, a toda a ignorância dualista, apego e aversão e à sua combinação em todo o egocentrismo, possessividade, orgulho, inveja e ciúme, avareza e avidez, ódio e cólera, preguiça e torpor. Paremos para sempre de produzir e consumir isto, cessemos de poluir mental e emocionalmente o planeta e deixemos espaço para que em nós floresça e frutifique a sabedoria, o amor, a compaixão imparciais e incondicionais, a paz e a alegria profundas e duradouras.

Façamos Greve Geral, agora e para sempre! E deixemo-nos contaminar pela Revolução doce e silenciosa de uma mente desperta e sensível ao Bem de todos os seres sencientes, que nada pense, diga e faça que não o vise, a cada instante, seja em que esfera for, também na economia e na política. Desta Greve Geral saem um Homem e um Mundo Novos.

Paulo Borges
23.11.2010 / 23.11.2011

terça-feira, 22 de novembro de 2011

"Vários teóricos interrogaram-se sobre que tipo de ética e filosofia "pós-humanista" poderia emergir se tomarmos o rosto do animal, o olhar do animal e a nossa comunicação com os animais como o ponto de partida da teorização. Um tal lance poderia "ameaçar profundamente a soberania do sujeito de consciência ocidental" (Rohman 2009: 12) e conduzir a novas concepções acerca de como deveria ser uma teoria ética para a idade "pós-humanista" (Wolfe 2003)"
- Andrew Brennan / Y. S. Lo, "Understanding Environmental Philosophy", Durham, Acumen Publishing, 2010, pp.53-54.

Da saudade como peso, pêsame e pesadelo



“Temos todos experiência – pessoal e social – de que a saudade pesa. Mais do que em muitos corações palpitantes de vida, é no imaginário cardiológico de alguns, apostados em mistificar passado, presente e futuro, que a saudade se anicha como pêsame nos roteiros da história. Não se trata de mero acidente idiossincrásico, respeitável como todas as delicadezas patéticas, mesmo que não partilhadas; trata-se da exacerbação, exploração e distorsão de um sentimento humano apoteoticamente alcandorado a destinação de raça e a promessa de nublados porvires. Pode descambar em pesadelo.
Importa, por isso, sopesar a saudade”

– José BARATA-MOURA, “Peso, pêsame, pesadelo – para um sopesamento (não saudosista) da saudade”, in Estudos de Filosofia Portuguesa, Lisboa, Editorial Caminho, 1998, p.197.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

“Antes de haver meu e teu, havia amor"



“Antes de haver meu e teu, havia amor, porque eu amava-vos a vós e vós a mim: mas tanto que o meu e teu se meteu de permeio, e se atravessou entre nós, logo se acabou o amor; porque vós já me não amais a mim, senão o meu, nem eu vos amo a vós, senão o vosso. No princípio do mundo, como gravemente pondera Séneca, porque não havia guerras ? Porque usavam os homens da terra como do céu. O sol, a lua, as estrelas e o uso da sua luz é comum a todos e assim era a terra no princípio: porém depois que a terra se dividiu em diferentes senhores, logo houve guerras e batalhas e se acabou a paz, porque houve meu e teu”

– Padre António Vieira, Sermão da Segunda Dominga da Quaresma, Sermões, III, p.70.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Quarta 16/11, às 22h, no Chapitô (Lisboa) - Regresso às "conversas vadias" com... Fernando Dacosta

Conversas que pensam que nos pensam que se pensam. Resgatamos à televisão dos anos 90 as "conversas vadias" e os entrevistadores que popularizaram Agostinho da Silva junto do público português. Desta vez o convidado é Fernando Dacosta que, tomando como ponto de partida a entrevista realizada por Herman José ao professor, relembra esta figura e as suas grandes visões e utopias.

Passagem do episódio "Conversas Vadias" (entrevista de Herman José a Agostinho da Silva), 27', seguida de conversa informal. Estarão presentes membros da Direcção da Associação Agostinho da Silva.

"(...) sentir-se terra é perceber-se dentro de uma complexa comunidade de outros filhos e filhas da Terra"

"(...) sentir-se terra é perceber-se dentro de uma complexa comunidade de outros filhos e filhas da Terra. A Terra não produz apenas a nós, seres humanos. Produz a miríade de micro-organismos que compõem 90% de toda a rede da vida, os insetos que constituem a biomassa mais importante da biodiversidade. Produz as águas, a capa verde com a infinita diversidade de plantas, flores e frutos. Produz a diversidade incontável de seres vivos, animais, pássaros e peixes, nossos companheiros dentro da unidade sagrada da vida porque em todos estão presentes os vinte aminoácidos que entram na composição da vida. Para todos produz as condições de subsistência, de evolução e de alimentação, no solo, no subsolo e no ar. Sentir-se Terra é mergulhar na comunidade terrenal, no mundo dos irmãos e das irmãs, todos filhos e filhas da grande e generosa Mãe-Terra, nosso lar comum"

- Leonardo Boff, "Ecologia e ecoespiritualidade", Petrópolis, Vozes, 2011, pp.78-79.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

"Estamos à beira de uma nova Era"



"E, na verdade, este período histórico é bem semelhante ao período da decadência de Roma.
Dum lado, as classes superiores, egoístas, cépticas, esterilizadas como a terra onde existiram os grandes focos de civilização. Pierre Loti nota que as localidades dos antigos centros populosos se transformaram em lugares desertos.
Dum lado, esta gente esgotada, mumificada em formas de ser já mortas, colorindo a lividez cadavérica da alma com frios sorrisos de ironia...
Do outro lado, a alma dos Povos, ébria de seiva, rumorejando novas criações espirituais que apenas afloram, no vago, no indeciso, em que surgem as madrugadas. Estamos à beira de uma nova Era"
- Teixeira de Pascoaes, "O génio português na sua expressão filosófica, poética e religiosa", 1913.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Porque enxotas o silêncio?
- Para dar de beber ao pensamento-casa

Porque morres todas as noites?
- Para aprender o instinto das libélulas

Porque amas as iniciadas flores?
- Para encontrar a fuga dentro do sono

Porque lês as mãos?
- Porque sou uma mulher amena, a inclinação da tarde.

Entrevista de Paulo Borges à revista "Pessoal", de Nov. 2011, sobre "Mindfulness"/meditação nas empresas

1. O “mindfulness” procura que o indivíduo se foque no momento presente e abandone o estado de “piloto automático”. É possível aplicar este objectivo às empresas? Em que termos e com que resultados?

A prática de “mindfulness”, a atenção plena ao que fazemos a cada instante, baseada em métodos milenares de meditação oriental, mas sem qualquer aspecto religioso, está a ser difundida em todo o mundo, com resultados cientificamente comprovados em laboratórios nos EUA, como o prestigiado MIT. Procuram-na não só os indivíduos, como via para uma maior saúde psicossomática, mas também cada vez mais instituições onde as pessoas estão sujeitas a condições adversas, como hospitais e prisões, ou de grande exigência em termos de trabalho e de relações humanas, como escolas e empresas. Empresas como a Mitsubishi e a Sanyo, entre muitas outras, na Europa, nos EUA, no Brasil e no Japão, já introduziram a prática de “mindfulness”.
Os resultados nas empresas são claros: melhoria da saúde dos funcionários e redução do absentismo por doença; melhoria das relações humanas, reforço do espírito de equipa e maior capacidade de gerir e solucionar conflitos; maior satisfação no trabalho e aumento da produtividade; redução do stress, maior concentração e criatividade.

2. Aconselharia as nossas empresas a oferecerem programas de mindfulness aos seus trabalhadores? Em que moldes é que acha que isso poderia ser feito?

Aconselho vivamente e já tenho sido contactado nesse sentido. O que tenho feito e que sugiro é que se facultem cursos de introdução à prática de “mindfulness” em cada empresa e que depois se constitua um grupo de prática regular orientada por um formador qualificado.

3. Os tempos conturbados e de crise económico-financeira que vivemos provocam desânimo e desmotivação nas pessoas. O “mindfulness” pode ser uma ajuda para inverter esta situação?

Certamente. Estou convicto, por 30 anos de prática e pelo que tenho visto nos praticantes regulares, mesmo recentes, que “mindfulness” é uma das vias para sairmos da actual crise civilizacional. Quando a mente deixa de lado preocupações com o passado e o futuro e foca a atenção na respiração e no aqui e agora, deixamos de nos identificar com pensamentos e emoções que nos fazem ver tudo negro e sem saída. A mente recupera a serenidade e criatividade naturais, há mais energia e as soluções surgem.

4. E relativamente à gestão do stress, também poderá ser útil?

O stress vem de se estar a fazer uma coisa pensando em mil outras ao mesmo tempo, em particular no que temos que fazer no futuro, o que só aumenta a ansiedade e nos impede de fazer bem o que temos em mãos no presente. A prática de “mindfulness”, focando-nos no que estamos a fazer e numa coisa de cada vez, suprime o stress e permite desempenhar melhor e com mais rapidez qualquer tarefa.

5. Um dos temas mais relevantes para a Gestão dos Recursos Humanos é a liderança. Não será contraproducente um líder adoptar uma das regras de “mindfulness” que aconselha a não pensar “estou em A como é que chego a B, mas antes estando em A chego a B”?

Não creio e a prova é haver cada vez mais líderes interessados em “mindfulness”. Por um lado, porque nos ajuda a pôr de lado hábitos e automatismos mentais compulsivos, tornando a mente mais criativa. Estando plenamente em A, mais facilmente intuo como chegar a B, sem repetir o modo como cheguei a A, que pode não se adequar a B. Por outro, porque “mindfulness” é inseparável de uma ética do desenvolvimento sustentável ao serviço da felicidade e do bem-comum e isso é hoje cada vez mais um factor de crescimento das empresas, de motivação dos funcionários e da sua apreciação pelo público.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

S. Martinho em torno de Agostinho, na Casa Bocage, Setúbal, Sábado, 16h

Caros Amigos e Amigas

A Associação Agostinho da Silva e a Casa Bocage (Divisão de Museus da Câmara Municipal de Setúbal)convidam-vos para o encontro "S. Martinho em torno de Agostinho", última sessão do ciclo de tertúlias "Em torno de Agostinho da Silva na Casa Bocage", no próximo sábado, 12 de Novembro, pelas 16 horas.
A sessão será preenchida com as seguintes intervenções:

"Agostinho da Silva e Fernando Pessoa: A coragem de ser outro", por Paulo Borges

"A Introdução aos grandes autores e a divulgação cultural de Agostinho da Silva nos anos 30", por Duarte Drumond Braga

"Uma leitura de Agostinho da Silva, à luz da actualidade", por Bruno Ferro

Exposição (venda) de retrato de Agostinho da Silva (técnica mista) de José Manuel Capelo, por João Raposo Nunes
Música com &FUSION
Confraternização entre os presentes (com Magusto).

Saudações cordiais
Maurícia Teles e Bruno Ferro

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

O problema do antropocentrismo

"Uma grande quantidade de trabalho teorizou a patologia das crises ambientais contemporâneas, sugerindo que algumas das nossas subjacentes crenças e atitudes culturais, religiosas e políticas são responsáveis por nos comportarmos mal para com o ambiente. Por outras palavras, as nossas visões religiosas do mundo, as nossas ideias políticas e sociais básicas, não são ambientalmente inocentes. O centramento humano - antropocentrismo - é o suspeito número um. A perspectiva antropocêntrica é que, de uma maneira geral, os seres humanos são as únicas coisas intrinsecamente valiosas na terra e que tudo o mais existe para servir as nossas carências e necessidades"
- Andrew Brennan / Y. S. Lo, "Understanding Environmental Philosophy", Durham, Acumen Publishing, 2010, pp.7-8.

sábado, 29 de outubro de 2011

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

XXVI Encontro Inter-religioso de Meditação - Mesquita de Lisboa, 2.11.2011



António Ramos Rosa no dia da homenagem/lançamento da Cultura ENTRE Culturas


Filipe Nobre Gomes, António Ramos Rosa e Paulo Borges, num fim de tarde memorável.

"Não queiras mais que a gratuita lucidez / do instante sem caminho" - ARR

Lançamento da Cultura ENTRE Culturas nº4




Lançamento da Cultura ENTRE Culturas, nº4. Da esquerda para a direita: Paulo Borges, Maria Teresa Dias Furtado, António Cândido Franco e Luiz Pires dos Reys.

Da ilusão como matriz da cultura: o jovem Nietzsche









“É um fenómeno eterno: sempre a Vontade insaciável, pela ilusão que derrama sobre as coisas, encontra um meio de ligar as suas criaturas à existência e de as forçar a continuar a viver. Este deixa-se fascinar pelo prazer socrático do conhecimento e pela ilusão de poder sanar com ele a eterna chaga da existência; aquele sente-se fascinado pelo véu sedutor da beleza que a arte deixa flutuar diante dos seus olhos; outro deixa-se, por sua vez, seduzir pela consolação metafísica de que, sob o turbilhão das aparências, a vida eterna prossegue o seu curso indestrutível: para não falar das ilusões mais comuns e mais fortes ainda que a vontade é capaz de suscitar a todo o instante. Estes três graus de ilusão são, de resto, reservados às naturezas mais nobres, nas quais o peso e a miséria da existência suscitam um desgosto mais profundo, mas que podem fugir a tal desgosto escolhendo estimulantes adequados. Com tais estimulantes se constituiu tudo o que designamos por civilização: de acordo com o seu doseamento obteremos, preferencialmente, ou uma cultura socrática, ou artística ou trágica, ou melhor, se formos buscar exemplos à história, teremos então ou uma cultura alexandrina, ou helénica ou budista” [1].
[1] Friedrich Nietzsche, A Origem da Tragédia, 18, tradução, apresentação e comentário de Luís Lourenço, Lisboa, Lisboa Editora, 2004, p.152.

“Há muitas coisas espantosas, mas nada / há mais espantoso/inquietante (deinón) do que o homem”

- Sófocles, "Antígona"

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Lançamento do nº 4 da revista "Cultura Entre Culturas" - homenagem a António Ramos Rosa - 25 de Outubro, às 18,30 horas. A apresentação será feita pela Profª Maria Teresa Dias Furtado (Univ. Lisboa) e pelo Prof. António Cândido Franco (Univ. Évora). Estarão presentes o director, Paulo Borges, o director de arte, Luiz Pires dos Reys, e o editor, Dr. Baptista Lopes (Âncora Editora).


No próximo dia 25 de Outubro, terça-feira, às 18,30 horas, é lançado o nº 4 da revista Cultura Entre Culturas, em número que dedica a António Ramos Rosa um caderno especial de 60 páginas, com poemas e desenhos inéditos do poeta, bem como diversos estudos e testemunhos de figuras destacadas da nossa Cultura. 
A apresentação será feita pela Profª Maria Teresa Dias Furtado (Univ. Lisboa) e pelo Prof. António Cândido Franco (Univ. Évora).
Estarão presentes o director da publicação, Prof. Paulo Borges, o director de arte, Luiz Pires dos Reys, e o editor, Dr. Baptista Lopes (Âncora Editora).
A sessão tem lugar no local onde reside hoje o poeta: 


Residência Faria Mantero 
Praça de Dio, n.º 3
1400-102 Lisboa 
(a 10 minutos da estação de comboios de Belém e a 5 minutos do Centro Cultural de Belém).
Localização:
De automóvel: http://g.co/maps/fqvqd
De comboio:  http://g.co/maps/qehqc

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

RTP - CAMINHOS

Emissão da União Budista Portuguesa na RTP 2 sobre a meditação na sociedade ocidental contemporânea, com a presença de Gonçalo Pereira, Paulo Borges e Isabel Correia. A prática regular da meditação começa a chegar às escolas, empresas, hospitais e prisões. Em Portugal dão-se os primeiros passos.

RTP - CAMINHOS

"Um "olhar sphyingico e fatal": Portugal, Europa e Ocidente no primeiro poema da Mensagem" (excerto)

O DOS CASTELLOS

A Europa jaz, posta nos cotovellos:
De Oriente a Occidente jaz, fitando,
E toldam-lhe romanticos cabellos
Olhos gregos, lembrando.

O cotovello esquerdo é recuado;
O direito é em angulo disposto.
Aquelle diz Italia onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A mão sustenta, em que se appoia o rosto.

Fita, com olhar sphyingico e fatal,
O Occidente, futuro do passado.

O rosto com que fita é Portugal.

De quem fala o poema e o que diz? O poema fala da Europa, aparentemente figurada, de acordo com as sugestões do seu mapa, como uma mulher que “de Oriente a Occidente” se deita, apoiada “nos cotovellos”, “fitando”, ou seja, olhando fixamente para um alvo diante de si. Um dos cotovelos pousa na Itália e o outro na Inglaterra, sendo este que sustenta a mão “em que se appoia o rosto”, onde a moldura romântica dos cabelos evoca “olhos gregos”. Esse rosto, “o rosto com que fita”, “é Portugal”, o finistérreo extremo-ocidente europeu, voltado para o Oceano, conforme o inspirador imaginário da sua situação e contorno geográficos atlânticos, já presente em significativas referências anteriores


.
Esta tradição configura-se num sugestivo mapa com o título de Europa Regina (Rainha Europa), desenhado em 1537 pelo poeta e matemático austríaco Johann Putsch (1516-1542) para celebrar a hegemonia europeia dos Habsburgos, que teve onze versões gravadas (a gravura aqui reproduzida é da autoria de John Bucius, impressa por Christian Wechel em Paris, em 1537). Portugal (a Lusitânia) é o elo central da coroa que é a Hispânia, posta na cabeça da rainha cujo rosto é a Espanha de Carlos V e cujo corpo constitui a restante Europa. Na cultura portuguesa, esta mesma tradição remonta pelo menos a Camões, no qual a “Ocidental praia lusitana”, limite convertido em limiar de descentramento “por mares nunca de antes navegados” [1], ou o “Reino Lusitano”, se apresentam como “quase cume da cabeça / De Europa toda”, simultaneamente finistérrico coroamento “onde a terra se acaba e o mar começa” e crepuscular lugar ocidental onde declina o movimento aparente do Sol (“onde Febo repousa no Oceano”) [2]. O “Reino Lusitano” coroa na verdade “a nobre Espanha [designando toda a Península Ibérica], / Como cabeça […] da Europa toda” [3]. Depois, no Padre António Vieira, o mesmo perfil finistérrico, extremo-ocidental e atlântico de Portugal, “cabo ou rosto do Ocidente assim lavado do Oceano”, é imagem da sua divina eleição para a partir dele se erguer o Quinto Império universal [4], tema central da Mensagem pessoana. Destacamos todavia o tratamento deste imaginário finistérrico num notável soneto de Miguel de Unamuno, oferecido a Teixeira de Pascoaes e publicado n’A Águia, que Pessoa decerto conheceu e pelo qual foi seguramente influenciado, pois há evidentes afinidades entre ele e o poema inicial da Mensagem. Vejamo-lo:

Portugal

Del Atlántico mar en las orillas
desgreñada y descalza una matrona
se sienta al pié de sierra que corona
triste pinar. Apoya en las rodillas

los codos y en las manos las mejillas
y clava ansiosos ojos de leona
en la puesta del sol. El mar entona
su trágico cantar de maravillas.

Dice de luengas tierras y de azares
mientras ella sus piés en las espumas
bañando sueña en el fatal imperio

que se le hundió en los tenebrosos mares,
y mira como entre agoreras brumas
se alza Don Sebastián rey del misterio [5]

Miguel de Unamuno oferece uma fascinante imagem/leitura de Portugal como uma mulher que contempla o pôr-do-sol no oceano numa posição tipicamente melancólica, temperada apenas pela ânsia do olhar (“Apoya en las rodillas / los codos y en las manos las mejillas / y clava ansiosos ojos de leona / en la puesta del sol”). Esta ânsia ergue a melancolia a uma tonalidade saudosa, em que por um lado se sonha com o império engolido pelas águas, mas por outro já se contempla o desencobrimento do rei redentor. Toda a iconografia da melancolia – e nomeadamente a célebre Melencolia I, de Albrecht Dürer, onde uma mulher angélica apoia igualmente o cotovelo no joelho e o rosto na mão [6] (cf. também "O Pensador", de Rodin) - deve ser convocada para se compreender o pleno sentido desta figura, bem como da Europa-Portugal pessoana que também “jaz, posta nos cotovellos”, fitando, “com olhar sphyngico e fatal, / O Occidente, futuro do passado”.





Por fim, e entre outras ocorrências, destacamos o ressurgimento deste imaginário no apoteótico parágrafo final do Ultimatum de Álvaro de Campos: “Proclamo isto bem alto e bem no auge, na barra do Tejo, de costas pra a Europa, braços erguidos, fitando o Atlantico e saudando abstractamente o Infinito” [7]. Retomaremos este trecho, onde importa desde já destacar o oposto da postura melancólica, taciturna, curvada e cabisbaixa do anjo de Dürer, do qual apenas o olhar se destaca e projecta na contemplação do longínquo: o poeta fita igualmente o Atlântico, mas está de pé, de “braços erguidos” a saudar o “Infinito” e proclama bem alto ao mundo o advento de um “Superhomem” que será “o mais completo”, “complexo” e “harmonico” [8]. Por isso, como veremos, nele se acentua a ruptura com a “Europa”, à qual volta as costas.





[1] CAMÕES, Luís de, Os Lusíadas, I, I.
[2] Cf. Ibid., III, XX.
[3] Cf. Ibid., III, XVII.
[4] “E certamente não haverá juízo político alheio de paixão, que medindo geometricamente o mundo, e suas partes, na suposição em que imos, de que Deus haja de levantar nele império universal, não reconheça neste cabo ou rosto do Ocidente assim lavado do Oceano, o sítio mais proporcionado e capaz que o supremo Arquitecto tenha destinado para a fábrica de tão alto edifício. […] Ali se desagua o Tejo, esperando entre dois promontórios, como com os braços abertos, não os tributos de que o suave jugo daquele império libertará todas as gentes, mas a voluntária obediência de todas que ali se conhecerão juntas, até as da terra hoje incógnita, que então perderá a injúria deste nome” – VIEIRA, Padre António, Discurso Apologético, Sermões, XV, prefaciados e revistos pelo Padre Gonçalo Alves, Porto, Livraria Chardron de Lello Irmão Editores, 1907-1909, p. 82. Cf. também: “O céu, a terra, o mar, todos concorrem naquele admirável sítio, tanto para a grandeza universal do império, como para a conveniência também universal dos súbditos, posto que tão diversos” - Discurso Apologético, Sermões, XV, p. 83. Cf. BORGES, Paulo, A Plenificação da História em Padre António Vieira. Estudo sobre a ideia de Quinto Império na “Defesa perante o Tribunal do Santo Ofício”, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1995; A Pedra, a Estátua e a Montanha. O V Império no Padre António Vieira, Lisboa, Portugália Editora, 2008.
[5] Cf. UNAMUNO, Miguel de, carta a Teixeira de Pascoaes de 22.XII.1910, in Epistolário Ibérico. Cartas de Unamuno e Pascoaes, introdução de José Bento, Lisboa, Assírio & Alvim, 1986, p.78. Cf. Pablo Javier Pérez López, “Unamuno y “A Águia”: Una lusofilia centenaria y eterna”, Nova Águia, nº5 (Sintra, 2010).
[6] Cf. KLIBANSKY, Raymond, PANOFSKY, Erwin e SAXL, Fritz, Saturne et la Mélancolie. Études historiques et philosophiques: nature, religion, médecine et art, traduzido do inglês e de outras línguas por Fabienne Durand-Bogaert e Louis Évard, Paris, Gallimard, 1989.
[7] PESSOA, Fernando, Sensacionismo e outros ismos, edição crítica de Fernando Pessoa, X, edição de Jerónimo Pizarro, Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2009, p.273.
[8] Cf. PESSOA, Fernando, Sensacionismo e outros ismos, p.273.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Ciclo de Conferências – Fernando Pessoa: Filosofia, Religião e Ciências do Psiquismo Humano - dia 12, 18.30



Visando o avanço dos estudos pessoanos em Portugal e no Brasil o ciclo de conferências «Fernando Pessoa: Filosofia, Religião e Ciências do Psiquismo Humano» ocorrerá na Casa Fernando Pessoa, entre Outubro de 2011 e Junho de 2012, com uma periodicidade mensal. Este ciclo de conferências pretende abrir um espaço de diálogo que premeie o debate sobre a relação entre a criação estética de Pessoa e a reflexão presente nos campos da filosofia, da religião e de ciências do psiquismo como a psiquiatria e a psicanálise. Este ciclo de conferências pretende igualmente dar a conhecer, através da participação de especialistas do âmbito universitário, alguns dos textos inéditos de Pessoa. Com efeito, muitos dos textos do espólio de Pessoa relativos à filosofia, religião, psiquiatria e psicanálise aguardam ainda publicação. Pretende-se, deste modo, convidar estudiosos pessoanos, assim como professores e investigadores das áreas da filosofia e psicanálise, para a discussão de um Pessoa ainda por conhecer.

Conferências de 12 de Outubro: Charles Robert Anon & Alexander Search: Filosofia e Psiquiatria por Cláudia Souza e Nuno Ribeiro; Um "olhar sphyingico e fatal": Portugal, Europa e Ocidente no primeiro poema da Mensagem por Paulo Borges. Sempre às 18h30.

O blogue Estudos Pessoanos: http://www.estudospessoanosportugalebrasil.blogspot.com/

Comissão organizadora: Paulo Borges, Nuno Ribeiro, Cláudia Souza.

domingo, 9 de outubro de 2011

 O Casaco bege


Em criança pensava que umas pessoas nasciam nas esquinas e outras na maternidade. Quem nasce na maternidade cresce devagar, quem vem da esquina já nasce com rugas e morre  sem dentes. Quem determina que entre nascer e morrer alguns enlouqueçam de dor?

No inverno muda a hora. O sol diz-nos adeus antes da hora marcada.  O hábito se assusta e pede ao sol que se despeça devagar até que a noite seja companheira.
 
Marquei com ela às cinco no bar. Quando cheguei ainda era dia, ela atrasou-se dez minutos e  chegou já noite cerrada. Alta, esguia trazia aos ombros um casaco  bege de veludo recheado das histórias que vivi com ele no passado. Não há como não reconhecer que combina melhor com o tamanho dela tão pequena eu sou. Este ano o inverno  chegou cedo, abrigou-se nos corpos de quem passeia na vida.

- Tenho comigo as chaves do meu carro que agora é teu, fica com ele por favor...

Olho para o casaco  que ela veste com intimidade. Falta-me a força para dizer que não. Viajo no passado – um dia esse casaco que nunca vesti, vestiu o homem que amei sem limites.

- É bom esse casaco, não é? Tem um forro que protege sempre do frio.  Vou pedir um chá porque morro de frio, queres um também? Como foi a visita ao médico? Já dormes?

Ela sorri distraída. Está tão escuro no bar que ninguém vai reparar nas lágrimas teimosas que lavam meu rosto.

- O médico é o máximo! Meu casamento ... Desde há quatro anos que vivo em função desse novo amor. Imagina que o médico também leu o livro "As velas ardem até ao fim", incrível!

- Não queres tirar o casaco.? Tens a cara corada – deves estar cheia de calor

- Ele vai se mudar em Janeiro para minha casa. É melhor chamá-lo para tomar um café conosco, não achas? Já tens a chave do carro – fica-te barato. O seguro não é caro, o selo do carro baratíssimo. Estacionei-o à porta da tua casa. Não me deves nada amiga, é todo teu.

Não digo que sim, não digo que não. Despeço-me com um beijo. Meu coração combina com a chuva da noite - fria.

Esqueci as chaves do carro dela em cima da mesa do bar.  Se eu tivesse um casaco daqueles nunca sentiria frio.

Tenho rugas na face – é como se tivesse acabado de nascer numa esquina desconhecida.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Entre....

~
Inspiração
igual a in-spiritu
Inefável pulsar
entre o denso e o súbtil.
entre a noite e o dia,
entre o crepúsculo e a onda luminosa.

Maria Flávia de Monsarraz (Recados de um Mestre Interno)