quinta-feira, 24 de novembro de 2011

GREVE GERAL

Precisamente há um ano escrevi e publiquei este texto, na véspera da última Greve Geral. Reli-o agora e, infelizmente, não vejo motivos para alterar uma vírgula. Publico-o pois de novo. Que despertemos e que cada um se assuma como a solução para a crise.

Abraços

GREVE GERAL

24 de Novembro é dia de Greve Geral. Sim, façamos Greve Geral. Paralisemos todas as nossas actividades, como protesto contra um país mal organizado, mal governado, eticamente decadente e social e economicamente injusto, cada vez mais vergado à grande finança internacional, à ganância dos especuladores e ao consequente desprezo pelas necessidades básicas da população. Paremos totalmente, como protesto contra um país refém dos grandes grupos e potências económico-financeiras em todas as áreas, do trabalho à saúde, educação e política.

Façamos pois Greve Geral, em protesto contra todos os governos e oposições que, não só agora, mas desde a fundação de Portugal, contribuíram para o estado em que estamos. Todavia, façamos Greve Geral sobretudo em protesto contra nós próprios, que maioritariamente votamos sempre nos mesmos ou nos abstemos de votar e, principalmente, de criar alternativas à classe política e aos partidos em que desde há muito não acreditamos. Façamos Greve Geral, sim, mas também à nossa passividade e conformismo cívicos, à nossa preguiça e indolência, à nossa tremenda indiferença. Façamos Greve Geral ao nosso hábito inveterado de criticar tudo e todos e nada fazer, ficando sempre à espera que alguém faça, que os outros resolvam, que D. Sebastião apareça. Façamos Greve Geral à ideia de que basta fazer um dia de Greve Geral exterior, em prol de mudanças sociais, económicas e políticas, deixando tudo igual nos outros dias e dentro de cada um de nós. Sim, façamos definitivamente Greve Geral à demissão de sermos desde já, sempre e cada vez mais a diferença que queremos ver no mundo, em todas as frentes, sem exclusão de nenhuma: espiritual, cultural, ética, social, económica e política.

Façamos pois Greve Geral à nossa cumplicidade com o rumo de uma civilização que caminha aceleradamente para a sua perda, à nossa colaboração com a ganância e futilidade da hiperprodução e do hiperconsumo que violam a natureza e instrumentalizam e escravizam os seres vivos, homens e animais, em nome de um progresso e de um bem-estar que é sempre apenas o de uma pequena minoria de senhores do mundo. Façamos Greve Geral à intoxicação quotidiana de uma comunicação social que só deixa passar a versão da realidade que interessa aos vários poderes e contrapoderes. Façamos Greve Geral à imbecilização colectiva de muitos programas de televisão e seus outros avatares informáticos, que nos deixam pregados no sofá e nos ecrãs quando há crianças a morrer de fome, mulheres apedrejadas até à morte, velhos abandonados, defensores dos direitos humanos torturados e a apodrecer nas prisões, trabalhadores explorados, povos vítimas de agressão militar e genocídio, animais produzidos em série para os nossos pratos e a agonizar nos canis, matadouros, laboratórios e arenas, a natureza e o planeta a serem devastados… Façamos Greve Geral a todas as nossas ilusões e distracções, a todo o fazer de conta, a toda a conversa fútil no café, telemóvel, blogues e facebook, a todo o voltar a cara para o lado ante a realidade profunda das coisas e toda a nossa hipócrita cumplicidade com o que mais criticamos e condenamos.

Sim, e sobretudo façamos Greve Geral à raiz de tudo isso, a todos os nossos pensamentos, emoções, palavras e acções iludidos, inúteis e nocivos a nós e a todos. Greve Geral a todos os juízos e opiniões que visam sempre autopromover-nos em detrimento dos outros. Greve Geral a colocarmo-nos sempre em primeiro lugar, a nós e aos “nossos”, familiares, amigos, membros da mesma nação, clube, partido, religião ou espécie, em detrimento dos “outros”, sempre a menorizar, desprezar, combater, dominar ou abater. Pois façamos Greve Geral, total e radical, não só um dia, mas para sempre, a toda a ignorância dualista, apego e aversão e à sua combinação em todo o egocentrismo, possessividade, orgulho, inveja e ciúme, avareza e avidez, ódio e cólera, preguiça e torpor. Paremos para sempre de produzir e consumir isto, cessemos de poluir mental e emocionalmente o planeta e deixemos espaço para que em nós floresça e frutifique a sabedoria, o amor, a compaixão imparciais e incondicionais, a paz e a alegria profundas e duradouras.

Façamos Greve Geral, agora e para sempre! E deixemo-nos contaminar pela Revolução doce e silenciosa de uma mente desperta e sensível ao Bem de todos os seres sencientes, que nada pense, diga e faça que não o vise, a cada instante, seja em que esfera for, também na economia e na política. Desta Greve Geral saem um Homem e um Mundo Novos.

Paulo Borges
23.11.2010 / 23.11.2011

terça-feira, 22 de novembro de 2011

"Vários teóricos interrogaram-se sobre que tipo de ética e filosofia "pós-humanista" poderia emergir se tomarmos o rosto do animal, o olhar do animal e a nossa comunicação com os animais como o ponto de partida da teorização. Um tal lance poderia "ameaçar profundamente a soberania do sujeito de consciência ocidental" (Rohman 2009: 12) e conduzir a novas concepções acerca de como deveria ser uma teoria ética para a idade "pós-humanista" (Wolfe 2003)"
- Andrew Brennan / Y. S. Lo, "Understanding Environmental Philosophy", Durham, Acumen Publishing, 2010, pp.53-54.

Da saudade como peso, pêsame e pesadelo



“Temos todos experiência – pessoal e social – de que a saudade pesa. Mais do que em muitos corações palpitantes de vida, é no imaginário cardiológico de alguns, apostados em mistificar passado, presente e futuro, que a saudade se anicha como pêsame nos roteiros da história. Não se trata de mero acidente idiossincrásico, respeitável como todas as delicadezas patéticas, mesmo que não partilhadas; trata-se da exacerbação, exploração e distorsão de um sentimento humano apoteoticamente alcandorado a destinação de raça e a promessa de nublados porvires. Pode descambar em pesadelo.
Importa, por isso, sopesar a saudade”

– José BARATA-MOURA, “Peso, pêsame, pesadelo – para um sopesamento (não saudosista) da saudade”, in Estudos de Filosofia Portuguesa, Lisboa, Editorial Caminho, 1998, p.197.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

“Antes de haver meu e teu, havia amor"



“Antes de haver meu e teu, havia amor, porque eu amava-vos a vós e vós a mim: mas tanto que o meu e teu se meteu de permeio, e se atravessou entre nós, logo se acabou o amor; porque vós já me não amais a mim, senão o meu, nem eu vos amo a vós, senão o vosso. No princípio do mundo, como gravemente pondera Séneca, porque não havia guerras ? Porque usavam os homens da terra como do céu. O sol, a lua, as estrelas e o uso da sua luz é comum a todos e assim era a terra no princípio: porém depois que a terra se dividiu em diferentes senhores, logo houve guerras e batalhas e se acabou a paz, porque houve meu e teu”

– Padre António Vieira, Sermão da Segunda Dominga da Quaresma, Sermões, III, p.70.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Quarta 16/11, às 22h, no Chapitô (Lisboa) - Regresso às "conversas vadias" com... Fernando Dacosta

Conversas que pensam que nos pensam que se pensam. Resgatamos à televisão dos anos 90 as "conversas vadias" e os entrevistadores que popularizaram Agostinho da Silva junto do público português. Desta vez o convidado é Fernando Dacosta que, tomando como ponto de partida a entrevista realizada por Herman José ao professor, relembra esta figura e as suas grandes visões e utopias.

Passagem do episódio "Conversas Vadias" (entrevista de Herman José a Agostinho da Silva), 27', seguida de conversa informal. Estarão presentes membros da Direcção da Associação Agostinho da Silva.

"(...) sentir-se terra é perceber-se dentro de uma complexa comunidade de outros filhos e filhas da Terra"

"(...) sentir-se terra é perceber-se dentro de uma complexa comunidade de outros filhos e filhas da Terra. A Terra não produz apenas a nós, seres humanos. Produz a miríade de micro-organismos que compõem 90% de toda a rede da vida, os insetos que constituem a biomassa mais importante da biodiversidade. Produz as águas, a capa verde com a infinita diversidade de plantas, flores e frutos. Produz a diversidade incontável de seres vivos, animais, pássaros e peixes, nossos companheiros dentro da unidade sagrada da vida porque em todos estão presentes os vinte aminoácidos que entram na composição da vida. Para todos produz as condições de subsistência, de evolução e de alimentação, no solo, no subsolo e no ar. Sentir-se Terra é mergulhar na comunidade terrenal, no mundo dos irmãos e das irmãs, todos filhos e filhas da grande e generosa Mãe-Terra, nosso lar comum"

- Leonardo Boff, "Ecologia e ecoespiritualidade", Petrópolis, Vozes, 2011, pp.78-79.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

"Estamos à beira de uma nova Era"



"E, na verdade, este período histórico é bem semelhante ao período da decadência de Roma.
Dum lado, as classes superiores, egoístas, cépticas, esterilizadas como a terra onde existiram os grandes focos de civilização. Pierre Loti nota que as localidades dos antigos centros populosos se transformaram em lugares desertos.
Dum lado, esta gente esgotada, mumificada em formas de ser já mortas, colorindo a lividez cadavérica da alma com frios sorrisos de ironia...
Do outro lado, a alma dos Povos, ébria de seiva, rumorejando novas criações espirituais que apenas afloram, no vago, no indeciso, em que surgem as madrugadas. Estamos à beira de uma nova Era"
- Teixeira de Pascoaes, "O génio português na sua expressão filosófica, poética e religiosa", 1913.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Porque enxotas o silêncio?
- Para dar de beber ao pensamento-casa

Porque morres todas as noites?
- Para aprender o instinto das libélulas

Porque amas as iniciadas flores?
- Para encontrar a fuga dentro do sono

Porque lês as mãos?
- Porque sou uma mulher amena, a inclinação da tarde.

Entrevista de Paulo Borges à revista "Pessoal", de Nov. 2011, sobre "Mindfulness"/meditação nas empresas

1. O “mindfulness” procura que o indivíduo se foque no momento presente e abandone o estado de “piloto automático”. É possível aplicar este objectivo às empresas? Em que termos e com que resultados?

A prática de “mindfulness”, a atenção plena ao que fazemos a cada instante, baseada em métodos milenares de meditação oriental, mas sem qualquer aspecto religioso, está a ser difundida em todo o mundo, com resultados cientificamente comprovados em laboratórios nos EUA, como o prestigiado MIT. Procuram-na não só os indivíduos, como via para uma maior saúde psicossomática, mas também cada vez mais instituições onde as pessoas estão sujeitas a condições adversas, como hospitais e prisões, ou de grande exigência em termos de trabalho e de relações humanas, como escolas e empresas. Empresas como a Mitsubishi e a Sanyo, entre muitas outras, na Europa, nos EUA, no Brasil e no Japão, já introduziram a prática de “mindfulness”.
Os resultados nas empresas são claros: melhoria da saúde dos funcionários e redução do absentismo por doença; melhoria das relações humanas, reforço do espírito de equipa e maior capacidade de gerir e solucionar conflitos; maior satisfação no trabalho e aumento da produtividade; redução do stress, maior concentração e criatividade.

2. Aconselharia as nossas empresas a oferecerem programas de mindfulness aos seus trabalhadores? Em que moldes é que acha que isso poderia ser feito?

Aconselho vivamente e já tenho sido contactado nesse sentido. O que tenho feito e que sugiro é que se facultem cursos de introdução à prática de “mindfulness” em cada empresa e que depois se constitua um grupo de prática regular orientada por um formador qualificado.

3. Os tempos conturbados e de crise económico-financeira que vivemos provocam desânimo e desmotivação nas pessoas. O “mindfulness” pode ser uma ajuda para inverter esta situação?

Certamente. Estou convicto, por 30 anos de prática e pelo que tenho visto nos praticantes regulares, mesmo recentes, que “mindfulness” é uma das vias para sairmos da actual crise civilizacional. Quando a mente deixa de lado preocupações com o passado e o futuro e foca a atenção na respiração e no aqui e agora, deixamos de nos identificar com pensamentos e emoções que nos fazem ver tudo negro e sem saída. A mente recupera a serenidade e criatividade naturais, há mais energia e as soluções surgem.

4. E relativamente à gestão do stress, também poderá ser útil?

O stress vem de se estar a fazer uma coisa pensando em mil outras ao mesmo tempo, em particular no que temos que fazer no futuro, o que só aumenta a ansiedade e nos impede de fazer bem o que temos em mãos no presente. A prática de “mindfulness”, focando-nos no que estamos a fazer e numa coisa de cada vez, suprime o stress e permite desempenhar melhor e com mais rapidez qualquer tarefa.

5. Um dos temas mais relevantes para a Gestão dos Recursos Humanos é a liderança. Não será contraproducente um líder adoptar uma das regras de “mindfulness” que aconselha a não pensar “estou em A como é que chego a B, mas antes estando em A chego a B”?

Não creio e a prova é haver cada vez mais líderes interessados em “mindfulness”. Por um lado, porque nos ajuda a pôr de lado hábitos e automatismos mentais compulsivos, tornando a mente mais criativa. Estando plenamente em A, mais facilmente intuo como chegar a B, sem repetir o modo como cheguei a A, que pode não se adequar a B. Por outro, porque “mindfulness” é inseparável de uma ética do desenvolvimento sustentável ao serviço da felicidade e do bem-comum e isso é hoje cada vez mais um factor de crescimento das empresas, de motivação dos funcionários e da sua apreciação pelo público.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

S. Martinho em torno de Agostinho, na Casa Bocage, Setúbal, Sábado, 16h

Caros Amigos e Amigas

A Associação Agostinho da Silva e a Casa Bocage (Divisão de Museus da Câmara Municipal de Setúbal)convidam-vos para o encontro "S. Martinho em torno de Agostinho", última sessão do ciclo de tertúlias "Em torno de Agostinho da Silva na Casa Bocage", no próximo sábado, 12 de Novembro, pelas 16 horas.
A sessão será preenchida com as seguintes intervenções:

"Agostinho da Silva e Fernando Pessoa: A coragem de ser outro", por Paulo Borges

"A Introdução aos grandes autores e a divulgação cultural de Agostinho da Silva nos anos 30", por Duarte Drumond Braga

"Uma leitura de Agostinho da Silva, à luz da actualidade", por Bruno Ferro

Exposição (venda) de retrato de Agostinho da Silva (técnica mista) de José Manuel Capelo, por João Raposo Nunes
Música com &FUSION
Confraternização entre os presentes (com Magusto).

Saudações cordiais
Maurícia Teles e Bruno Ferro

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

O problema do antropocentrismo

"Uma grande quantidade de trabalho teorizou a patologia das crises ambientais contemporâneas, sugerindo que algumas das nossas subjacentes crenças e atitudes culturais, religiosas e políticas são responsáveis por nos comportarmos mal para com o ambiente. Por outras palavras, as nossas visões religiosas do mundo, as nossas ideias políticas e sociais básicas, não são ambientalmente inocentes. O centramento humano - antropocentrismo - é o suspeito número um. A perspectiva antropocêntrica é que, de uma maneira geral, os seres humanos são as únicas coisas intrinsecamente valiosas na terra e que tudo o mais existe para servir as nossas carências e necessidades"
- Andrew Brennan / Y. S. Lo, "Understanding Environmental Philosophy", Durham, Acumen Publishing, 2010, pp.7-8.

sábado, 29 de outubro de 2011

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

XXVI Encontro Inter-religioso de Meditação - Mesquita de Lisboa, 2.11.2011



António Ramos Rosa no dia da homenagem/lançamento da Cultura ENTRE Culturas


Filipe Nobre Gomes, António Ramos Rosa e Paulo Borges, num fim de tarde memorável.

"Não queiras mais que a gratuita lucidez / do instante sem caminho" - ARR

Lançamento da Cultura ENTRE Culturas nº4




Lançamento da Cultura ENTRE Culturas, nº4. Da esquerda para a direita: Paulo Borges, Maria Teresa Dias Furtado, António Cândido Franco e Luiz Pires dos Reys.

Da ilusão como matriz da cultura: o jovem Nietzsche









“É um fenómeno eterno: sempre a Vontade insaciável, pela ilusão que derrama sobre as coisas, encontra um meio de ligar as suas criaturas à existência e de as forçar a continuar a viver. Este deixa-se fascinar pelo prazer socrático do conhecimento e pela ilusão de poder sanar com ele a eterna chaga da existência; aquele sente-se fascinado pelo véu sedutor da beleza que a arte deixa flutuar diante dos seus olhos; outro deixa-se, por sua vez, seduzir pela consolação metafísica de que, sob o turbilhão das aparências, a vida eterna prossegue o seu curso indestrutível: para não falar das ilusões mais comuns e mais fortes ainda que a vontade é capaz de suscitar a todo o instante. Estes três graus de ilusão são, de resto, reservados às naturezas mais nobres, nas quais o peso e a miséria da existência suscitam um desgosto mais profundo, mas que podem fugir a tal desgosto escolhendo estimulantes adequados. Com tais estimulantes se constituiu tudo o que designamos por civilização: de acordo com o seu doseamento obteremos, preferencialmente, ou uma cultura socrática, ou artística ou trágica, ou melhor, se formos buscar exemplos à história, teremos então ou uma cultura alexandrina, ou helénica ou budista” [1].
[1] Friedrich Nietzsche, A Origem da Tragédia, 18, tradução, apresentação e comentário de Luís Lourenço, Lisboa, Lisboa Editora, 2004, p.152.

“Há muitas coisas espantosas, mas nada / há mais espantoso/inquietante (deinón) do que o homem”

- Sófocles, "Antígona"

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Lançamento do nº 4 da revista "Cultura Entre Culturas" - homenagem a António Ramos Rosa - 25 de Outubro, às 18,30 horas. A apresentação será feita pela Profª Maria Teresa Dias Furtado (Univ. Lisboa) e pelo Prof. António Cândido Franco (Univ. Évora). Estarão presentes o director, Paulo Borges, o director de arte, Luiz Pires dos Reys, e o editor, Dr. Baptista Lopes (Âncora Editora).


No próximo dia 25 de Outubro, terça-feira, às 18,30 horas, é lançado o nº 4 da revista Cultura Entre Culturas, em número que dedica a António Ramos Rosa um caderno especial de 60 páginas, com poemas e desenhos inéditos do poeta, bem como diversos estudos e testemunhos de figuras destacadas da nossa Cultura. 
A apresentação será feita pela Profª Maria Teresa Dias Furtado (Univ. Lisboa) e pelo Prof. António Cândido Franco (Univ. Évora).
Estarão presentes o director da publicação, Prof. Paulo Borges, o director de arte, Luiz Pires dos Reys, e o editor, Dr. Baptista Lopes (Âncora Editora).
A sessão tem lugar no local onde reside hoje o poeta: 


Residência Faria Mantero 
Praça de Dio, n.º 3
1400-102 Lisboa 
(a 10 minutos da estação de comboios de Belém e a 5 minutos do Centro Cultural de Belém).
Localização:
De automóvel: http://g.co/maps/fqvqd
De comboio:  http://g.co/maps/qehqc

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

RTP - CAMINHOS

Emissão da União Budista Portuguesa na RTP 2 sobre a meditação na sociedade ocidental contemporânea, com a presença de Gonçalo Pereira, Paulo Borges e Isabel Correia. A prática regular da meditação começa a chegar às escolas, empresas, hospitais e prisões. Em Portugal dão-se os primeiros passos.

RTP - CAMINHOS

"Um "olhar sphyingico e fatal": Portugal, Europa e Ocidente no primeiro poema da Mensagem" (excerto)

O DOS CASTELLOS

A Europa jaz, posta nos cotovellos:
De Oriente a Occidente jaz, fitando,
E toldam-lhe romanticos cabellos
Olhos gregos, lembrando.

O cotovello esquerdo é recuado;
O direito é em angulo disposto.
Aquelle diz Italia onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A mão sustenta, em que se appoia o rosto.

Fita, com olhar sphyingico e fatal,
O Occidente, futuro do passado.

O rosto com que fita é Portugal.

De quem fala o poema e o que diz? O poema fala da Europa, aparentemente figurada, de acordo com as sugestões do seu mapa, como uma mulher que “de Oriente a Occidente” se deita, apoiada “nos cotovellos”, “fitando”, ou seja, olhando fixamente para um alvo diante de si. Um dos cotovelos pousa na Itália e o outro na Inglaterra, sendo este que sustenta a mão “em que se appoia o rosto”, onde a moldura romântica dos cabelos evoca “olhos gregos”. Esse rosto, “o rosto com que fita”, “é Portugal”, o finistérreo extremo-ocidente europeu, voltado para o Oceano, conforme o inspirador imaginário da sua situação e contorno geográficos atlânticos, já presente em significativas referências anteriores


.
Esta tradição configura-se num sugestivo mapa com o título de Europa Regina (Rainha Europa), desenhado em 1537 pelo poeta e matemático austríaco Johann Putsch (1516-1542) para celebrar a hegemonia europeia dos Habsburgos, que teve onze versões gravadas (a gravura aqui reproduzida é da autoria de John Bucius, impressa por Christian Wechel em Paris, em 1537). Portugal (a Lusitânia) é o elo central da coroa que é a Hispânia, posta na cabeça da rainha cujo rosto é a Espanha de Carlos V e cujo corpo constitui a restante Europa. Na cultura portuguesa, esta mesma tradição remonta pelo menos a Camões, no qual a “Ocidental praia lusitana”, limite convertido em limiar de descentramento “por mares nunca de antes navegados” [1], ou o “Reino Lusitano”, se apresentam como “quase cume da cabeça / De Europa toda”, simultaneamente finistérrico coroamento “onde a terra se acaba e o mar começa” e crepuscular lugar ocidental onde declina o movimento aparente do Sol (“onde Febo repousa no Oceano”) [2]. O “Reino Lusitano” coroa na verdade “a nobre Espanha [designando toda a Península Ibérica], / Como cabeça […] da Europa toda” [3]. Depois, no Padre António Vieira, o mesmo perfil finistérrico, extremo-ocidental e atlântico de Portugal, “cabo ou rosto do Ocidente assim lavado do Oceano”, é imagem da sua divina eleição para a partir dele se erguer o Quinto Império universal [4], tema central da Mensagem pessoana. Destacamos todavia o tratamento deste imaginário finistérrico num notável soneto de Miguel de Unamuno, oferecido a Teixeira de Pascoaes e publicado n’A Águia, que Pessoa decerto conheceu e pelo qual foi seguramente influenciado, pois há evidentes afinidades entre ele e o poema inicial da Mensagem. Vejamo-lo:

Portugal

Del Atlántico mar en las orillas
desgreñada y descalza una matrona
se sienta al pié de sierra que corona
triste pinar. Apoya en las rodillas

los codos y en las manos las mejillas
y clava ansiosos ojos de leona
en la puesta del sol. El mar entona
su trágico cantar de maravillas.

Dice de luengas tierras y de azares
mientras ella sus piés en las espumas
bañando sueña en el fatal imperio

que se le hundió en los tenebrosos mares,
y mira como entre agoreras brumas
se alza Don Sebastián rey del misterio [5]

Miguel de Unamuno oferece uma fascinante imagem/leitura de Portugal como uma mulher que contempla o pôr-do-sol no oceano numa posição tipicamente melancólica, temperada apenas pela ânsia do olhar (“Apoya en las rodillas / los codos y en las manos las mejillas / y clava ansiosos ojos de leona / en la puesta del sol”). Esta ânsia ergue a melancolia a uma tonalidade saudosa, em que por um lado se sonha com o império engolido pelas águas, mas por outro já se contempla o desencobrimento do rei redentor. Toda a iconografia da melancolia – e nomeadamente a célebre Melencolia I, de Albrecht Dürer, onde uma mulher angélica apoia igualmente o cotovelo no joelho e o rosto na mão [6] (cf. também "O Pensador", de Rodin) - deve ser convocada para se compreender o pleno sentido desta figura, bem como da Europa-Portugal pessoana que também “jaz, posta nos cotovellos”, fitando, “com olhar sphyngico e fatal, / O Occidente, futuro do passado”.





Por fim, e entre outras ocorrências, destacamos o ressurgimento deste imaginário no apoteótico parágrafo final do Ultimatum de Álvaro de Campos: “Proclamo isto bem alto e bem no auge, na barra do Tejo, de costas pra a Europa, braços erguidos, fitando o Atlantico e saudando abstractamente o Infinito” [7]. Retomaremos este trecho, onde importa desde já destacar o oposto da postura melancólica, taciturna, curvada e cabisbaixa do anjo de Dürer, do qual apenas o olhar se destaca e projecta na contemplação do longínquo: o poeta fita igualmente o Atlântico, mas está de pé, de “braços erguidos” a saudar o “Infinito” e proclama bem alto ao mundo o advento de um “Superhomem” que será “o mais completo”, “complexo” e “harmonico” [8]. Por isso, como veremos, nele se acentua a ruptura com a “Europa”, à qual volta as costas.





[1] CAMÕES, Luís de, Os Lusíadas, I, I.
[2] Cf. Ibid., III, XX.
[3] Cf. Ibid., III, XVII.
[4] “E certamente não haverá juízo político alheio de paixão, que medindo geometricamente o mundo, e suas partes, na suposição em que imos, de que Deus haja de levantar nele império universal, não reconheça neste cabo ou rosto do Ocidente assim lavado do Oceano, o sítio mais proporcionado e capaz que o supremo Arquitecto tenha destinado para a fábrica de tão alto edifício. […] Ali se desagua o Tejo, esperando entre dois promontórios, como com os braços abertos, não os tributos de que o suave jugo daquele império libertará todas as gentes, mas a voluntária obediência de todas que ali se conhecerão juntas, até as da terra hoje incógnita, que então perderá a injúria deste nome” – VIEIRA, Padre António, Discurso Apologético, Sermões, XV, prefaciados e revistos pelo Padre Gonçalo Alves, Porto, Livraria Chardron de Lello Irmão Editores, 1907-1909, p. 82. Cf. também: “O céu, a terra, o mar, todos concorrem naquele admirável sítio, tanto para a grandeza universal do império, como para a conveniência também universal dos súbditos, posto que tão diversos” - Discurso Apologético, Sermões, XV, p. 83. Cf. BORGES, Paulo, A Plenificação da História em Padre António Vieira. Estudo sobre a ideia de Quinto Império na “Defesa perante o Tribunal do Santo Ofício”, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1995; A Pedra, a Estátua e a Montanha. O V Império no Padre António Vieira, Lisboa, Portugália Editora, 2008.
[5] Cf. UNAMUNO, Miguel de, carta a Teixeira de Pascoaes de 22.XII.1910, in Epistolário Ibérico. Cartas de Unamuno e Pascoaes, introdução de José Bento, Lisboa, Assírio & Alvim, 1986, p.78. Cf. Pablo Javier Pérez López, “Unamuno y “A Águia”: Una lusofilia centenaria y eterna”, Nova Águia, nº5 (Sintra, 2010).
[6] Cf. KLIBANSKY, Raymond, PANOFSKY, Erwin e SAXL, Fritz, Saturne et la Mélancolie. Études historiques et philosophiques: nature, religion, médecine et art, traduzido do inglês e de outras línguas por Fabienne Durand-Bogaert e Louis Évard, Paris, Gallimard, 1989.
[7] PESSOA, Fernando, Sensacionismo e outros ismos, edição crítica de Fernando Pessoa, X, edição de Jerónimo Pizarro, Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2009, p.273.
[8] Cf. PESSOA, Fernando, Sensacionismo e outros ismos, p.273.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Ciclo de Conferências – Fernando Pessoa: Filosofia, Religião e Ciências do Psiquismo Humano - dia 12, 18.30



Visando o avanço dos estudos pessoanos em Portugal e no Brasil o ciclo de conferências «Fernando Pessoa: Filosofia, Religião e Ciências do Psiquismo Humano» ocorrerá na Casa Fernando Pessoa, entre Outubro de 2011 e Junho de 2012, com uma periodicidade mensal. Este ciclo de conferências pretende abrir um espaço de diálogo que premeie o debate sobre a relação entre a criação estética de Pessoa e a reflexão presente nos campos da filosofia, da religião e de ciências do psiquismo como a psiquiatria e a psicanálise. Este ciclo de conferências pretende igualmente dar a conhecer, através da participação de especialistas do âmbito universitário, alguns dos textos inéditos de Pessoa. Com efeito, muitos dos textos do espólio de Pessoa relativos à filosofia, religião, psiquiatria e psicanálise aguardam ainda publicação. Pretende-se, deste modo, convidar estudiosos pessoanos, assim como professores e investigadores das áreas da filosofia e psicanálise, para a discussão de um Pessoa ainda por conhecer.

Conferências de 12 de Outubro: Charles Robert Anon & Alexander Search: Filosofia e Psiquiatria por Cláudia Souza e Nuno Ribeiro; Um "olhar sphyingico e fatal": Portugal, Europa e Ocidente no primeiro poema da Mensagem por Paulo Borges. Sempre às 18h30.

O blogue Estudos Pessoanos: http://www.estudospessoanosportugalebrasil.blogspot.com/

Comissão organizadora: Paulo Borges, Nuno Ribeiro, Cláudia Souza.

domingo, 9 de outubro de 2011

 O Casaco bege


Em criança pensava que umas pessoas nasciam nas esquinas e outras na maternidade. Quem nasce na maternidade cresce devagar, quem vem da esquina já nasce com rugas e morre  sem dentes. Quem determina que entre nascer e morrer alguns enlouqueçam de dor?

No inverno muda a hora. O sol diz-nos adeus antes da hora marcada.  O hábito se assusta e pede ao sol que se despeça devagar até que a noite seja companheira.
 
Marquei com ela às cinco no bar. Quando cheguei ainda era dia, ela atrasou-se dez minutos e  chegou já noite cerrada. Alta, esguia trazia aos ombros um casaco  bege de veludo recheado das histórias que vivi com ele no passado. Não há como não reconhecer que combina melhor com o tamanho dela tão pequena eu sou. Este ano o inverno  chegou cedo, abrigou-se nos corpos de quem passeia na vida.

- Tenho comigo as chaves do meu carro que agora é teu, fica com ele por favor...

Olho para o casaco  que ela veste com intimidade. Falta-me a força para dizer que não. Viajo no passado – um dia esse casaco que nunca vesti, vestiu o homem que amei sem limites.

- É bom esse casaco, não é? Tem um forro que protege sempre do frio.  Vou pedir um chá porque morro de frio, queres um também? Como foi a visita ao médico? Já dormes?

Ela sorri distraída. Está tão escuro no bar que ninguém vai reparar nas lágrimas teimosas que lavam meu rosto.

- O médico é o máximo! Meu casamento ... Desde há quatro anos que vivo em função desse novo amor. Imagina que o médico também leu o livro "As velas ardem até ao fim", incrível!

- Não queres tirar o casaco.? Tens a cara corada – deves estar cheia de calor

- Ele vai se mudar em Janeiro para minha casa. É melhor chamá-lo para tomar um café conosco, não achas? Já tens a chave do carro – fica-te barato. O seguro não é caro, o selo do carro baratíssimo. Estacionei-o à porta da tua casa. Não me deves nada amiga, é todo teu.

Não digo que sim, não digo que não. Despeço-me com um beijo. Meu coração combina com a chuva da noite - fria.

Esqueci as chaves do carro dela em cima da mesa do bar.  Se eu tivesse um casaco daqueles nunca sentiria frio.

Tenho rugas na face – é como se tivesse acabado de nascer numa esquina desconhecida.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Entre....

~
Inspiração
igual a in-spiritu
Inefável pulsar
entre o denso e o súbtil.
entre a noite e o dia,
entre o crepúsculo e a onda luminosa.

Maria Flávia de Monsarraz (Recados de um Mestre Interno)

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Miguel Sousa Tavares ou A Queda de um Anjo




Confesso que resisti muito tempo a escrever alguma coisa sobre o ainda recente comentário de Miguel Sousa Tavares na SIC sobre a abolição das touradas na Catalunha. Resisti porque os argumentos de MST se refutam a si mesmos e, sobretudo, porque tenho pudor em acrescentar alguma coisa aos vários tiros que o comentador deu em público na sua própria imagem pública. E cada vez mais, agora, ao ver as reacções e insultos de que é objecto por parte de muitos cidadãos, justamente indignados com o que disse (embora não me reveja na violência de muitos ataques pessoais), sinto pena deste homem. Sinto pena de um homem que entrou na fase de estrela decadente, tanto mais baça e em queda acelerada quanto mais pretende brilhar à custa de atacar causas justas e de defender o indefensável. Sinto pena por mais esta “Queda de um Anjo”, para recordar o romance do grande Camilo Castelo Branco.

Não me quero alongar sobre o que disse MST, que já teve no Facebook várias respostas à altura, entre as quais a de Lucília São Lourenço, de Mário Amorim (CAPT) e do meu cunhado Richard Warrell. Noto apenas, com tristeza, a incapacidade, de MST e dos que apoiam as touradas (ou a caça e todas as formas de violência sobre animais), de se colocarem na perspectiva e no lugar do outro, que neste caso é o animal, violentamente sujeito ao sofrimento para diversão do homem. Não ser capaz de se colocar no lugar do outro, não ser capaz desta exigência indispensável de toda a ética, e não perceber que é esta a razão pela qual há tanta e cada vez mais gente que se opõe às touradas - e não uma simples questão subjectiva de gostar ou não gostar de um espectáculo - , é uma terrível limitação da sensibilidade e da inteligência. Mas MST e os que pensam como ele, como o autarca Moita Flores, sem perceberem que porventura se estão a ver ao espelho, têm ainda o desplante de afirmar que são os outros que têm “falta de cultura” e que seguem o “caminho da estupidez”… Isto é triste. Muito estúpido e triste.

Muito estúpido e triste também, mas grave, muito mais grave, é a comparação da violência nas touradas, imposta pelos homens aos animais indefesos, com os perigos voluntariamente assumidos pelos participantes nos combates de boxe e nas corridas de automóveis (ou ainda o considerar a parvoíce de um programa televisivo, que se pode desligar a qualquer momento, mais violenta do que as touradas). Este raciocínio, além de só mostrar desonestidade ou falta de rigor intelectual ou as duas coisas, o que tenta é branquear a violência dos mais fortes contra os mais fracos reduzindo-a a desporto. Isto é preocupante, pois nesta ordem de ideias o que nos impede de considerar desporto as violações, os assassínios e todo o tipo de atentados contra a integridade dos seres humanos? Se obviamente repugna a todos nós considerar que as mulheres, as crianças e as vítimas de violação e homicídio participam de um espectáculo desportivo, se não aceitamos ser saudável ou estar no pleno uso da sua razão quem assim pense, o que dizer dos argumentos de MST?...

Mas isto não acaba aqui, não acaba na existência de ideias como as de MST. A gravidade de tudo isto continua e aumenta na promoção das pessoas que defendem estas ideias a “opinion makers”, a pessoas influentes na opinião pública, transmitidas em directo no horário mais nobre de um noticiário televisivo para milhões de espectadores, sem uma voz que exerça a função do contraditório e perante a manifesta impotência ou desistência da jornalista Clara de Sousa quanto ao exercício dessa função. E depois vem MST acusar os opositores das touradas de atentarem contra a “liberdade” e a “democracia”, quando ele é o primeiro beneficiário destes atentados que privilegiam sistematicamente na comunicação social os aficionados e silenciam quase por completo as vozes opostas!...

É isto que hoje mais me preocupa e não tanto a existência de pessoas com as ideias de Miguel Sousa Tavares, Moita Flores e outros que, sem se renovarem interiormente, arriscam-se a ter atingido e ultrapassado o limite do prazo de validade, em termos de sensibilidade humana e probidade intelectual. Espero que assim não seja, mas temo que deles já não haja nada a esperar, a não ser uma deterioração cada vez mais acelerada. O que me preocupa é que, num país e num mundo onde cada vez mais ganha volume uma nova corrente e movimento de opinião, que exige um tratamento ético dos animais (humanos e não-humanos) e se insurge contra as violências a que são sujeitos – corrente e movimento que vejo como o embrião de uma nova cultura e de uma nova civilização - , os nossos órgãos de comunicação social continuem a dar voz apenas aos mesmos de sempre, com os graves preconceitos e ideias aqui expostos. São estas as figuras públicas que nos representam? É este o Portugal que queremos?

Termino pedindo aos leitores que não lancemos mais pedras a MST, Moita Flores e outros. Tenhamos por eles a mesma compaixão que pelos touros e por todos os seres sencientes, humanos e não-humanos. Quem pensa, fala e age em defesa da violência, ou a pratica, não pode estar bem. Peguemos antes nessas pedras e lancemo-las àquilo que em nós houver também de ignorância, preconceito e insensibilidade. E que seja por compaixão por todos – incluindo toureiros, aficionados e todos os que praticam ou apoiam a violência sobre outros seres - , e não movidos pelo ódio e pela raiva, que continuemos a manifestar a nossa justa indignação e a lutar por um mundo onde o direito de todos os seres sencientes à integridade e bem-estar físicos e psíquicos seja consagrado na lei e integralmente respeitado.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

se há estrelas
casas com a lua
inventas promessas
branca e negra
é tua a saudade
serena é a noite
quando te encontras

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

se a pomba está ao teu alcançe
abraça-a com ternura
como se a mim abraçasses
e se ela foge e recua
canta que ela regressa ao encanto
se for branca, a pomba-rola
coloca em seu bico, uma rosa vermelha
segreda-lhe a minha morada
e se eu tiver partido
com destino desconhecido
entrega a pomba-rola
a rosa vermelha ao mundo

Nenhum deus virá salvar-nos

"Quando, por fim, todos os homens perceberem que não há nada a esperar de Deus, nem da sociedade, nem dos amigos, nem dos tiranos benevolentes, nem dos governos democráticos, nem dos santos, nem dos salvadores, nem sequer da mais sagrada das coisas sagradas, a educação, quando todos os homens perceberem que terão que se salvar por obra das suas prórias mãos e que não precisam da piedade de ninguém, talvez então... Talvez! Mesmo nessa altura, tendo em conta a massa humana de que somos feitos, duvido. O que interessa é que estamos condenados. Talvez morramos amanhã, talvez daqui a cinco minutos. Façamos o nosso balanço. Podemos fazer com que os últimos cinco minutos valham a pena, sejam agradáveis e talvez alegres, se preferirem. Ou dissipá-los como fizemos com as horas, os dias, os meses, os anos e os séculos. Nenhum deus virá salvar-nos. Nenhum sistema de governo, nenhuma crença nos dará essa liberdade e essa justiça por que os homens anseiam mesmo no estertor da morte."

- Henry Miller, in Carta Aberta a Todos os Surrealistas do Mundo
O meu corpo novo, esse onde existo sem forma, é abrigo do poeta.
Embriagado de vida resiste ao tempo, e no tempo, dele se despede.

Descobre o vazio onde o texto encontra o silêncio.
Nele o abandono sublime do amor.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Casa Fernando Pessoa- Apresentação da revista "Cultura Entre Culturas" nº3




Transcrevemos aqui, por sugestão de Paulo Borges, as palavras de apresentação do nº 3 da revista "Cultura Entre Culturas", proferidas ontem na Casa Fernando Pessoa por Luiz Pires dos Reys, director de arte da publicação. 
Integraram a mesa Paulo Borges (director), António Baptista Lopes (Âncora Editora), Miguel Real (romancista e ensaista) e Luiz Pires dos Reys (director de arte).

A leitura do texto integral pode ser feita mediante download a partir do link no final deste post.
Acredite-se ou não, entro hoje pela primeira vez nesta Casa. 
Mas, será a, por assim dizer, primeira vez a primeira vez de qualquer coisa? Ou será a decisão de entrar, um dia, nesta ou noutra casa o que é verdadeiramente primeiro?
Chamando a mim adequadas palavras de Casimiro de Brito, a abrir o seu Labyrinthus – entro aqui “devagar e subterrado”.
Devagar, porque este lugar é para ser visitado com vagar. Subterrado, porque é o seu quê esmagador o que aqui se respira. Não que seja sufocante, mas porque, pelo contrário, tem algo da vastidão de um deserto: árido e sufocante apenas para quem não saiba, como eu porventura talvez não saiba como atravessá-lo incólume. 
Entrar é propriamente consentir - sentir com, portanto. Consentir, ou consentir-se, é aceder ao entre (esse âmbito desprovido de verdadeiro espaço mas, ainda assim, não menos real) ao entre que vai da soleira da porta até ao ponto mais recôndito, difuso e quase esquecido que há dentro, passando pelo d’entre que, deste modo, se insinua manifesto entre mim e esse, digamos, antro que vai entrando por mim adentro. 
É portanto, como se vê, pura inter-penetração o movimento de entrar, onde quer que o esbocemos. Aliás, apetecia-me dizer inter-penentração, não fora isso mais perplexivo do que propriamente aclarador. 
O que isso quereria dizer é que eu (ou outro alguém) que entro na casa, nesta casa, sou,  mediante tal acto, posto no âmbito entre que, misteriosamente, medeia o aquém da porta e o além dela.  Isso, que displicentemente supomos saber, não sabemos realmente o que seja. 
É porventura apenas o não ser uma coisa nem outra, nem fora nem dentro, nem porventura sequer o transcurso de um para o outro.
A casa, acolhe-me assim como o que é abertura de receptividade, pública, digamos – abrindo-se-me, no abrir-me o seu espaço interno. Mas, este espaço interior é mais propriamente impasse, para quem entre, e (perdoe-se-me a bizarria da expressão) impasse entre-ior.
O dentro da casa é sempre o fora de mim, e abre-se-me em intimidade na medida apenas em que eu sinta que ela, a casa - qualquer casa ou espaço, âmbito ou contexto que seja - me convida a entrar nele, e me acolhe assim.
O seio da casa, contanto que eu o não sinta intimidante, e o adopte por assim dizer como intrínseco ao meu diálogo com o seu espaço visitável ou habitável, passará a ser parte de mim e, deste modo - ainda que já interior também a mim, em certa medida - mantém-se relativo a um campo sempre re-visitável, que nesse sentido me permanecerá sempre exterior.
O que medeia entre uma coisa e a outra, isto é, entre a intimidação de alguma eventual estranheza e a intimidade por assim dizer con-cêntrica comigo - isso é, propriamente, aquele campo, aquele âmbito, que aqui designamos por Entre.




http://pt.scribd.com/doc/65755937/Apresentacao-da-revista-Cultura-Entre-Culturas-nº3-por-Luiz-Pires-dos-Reys-na-Casa-Fernando-Pessoa-20-de-Setembro-de-2011

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

"Nós sabemos o que os animais fazem..."

"Nós sabemos o que os animais fazem, quais são as necessidades do castor, do urso, do salmão e das outras criaturas, porque, outrora, os homens casavam-se com eles e adquiriram este saber das suas esposas animais (...). Os Brancos viveram pouco tempo neste país e não conhecem grande coisa a respeito dos animais; nós, nós estamos aqui desde há milhares de anos e há muito tempo que os próprios animais nos instruíram. Os Brancos anotam tudo num livro, para não esquecer; mas os nossos ancestrais desposaram os animais, aprenderam todos os seus usos e fizeram passar estes conhecimentos de gerações em gerações" - declarações dos Índios a um antropólogo canadiano citadas por Claude Lévi-Strauss, em "La Pensée Sauvage".

"...vamos compreendendo que o ser alheio a nós é também nós e que nos importa sê-lo para sermos"

"Quando surgimos para a consciência, tendemos a distinguir-nos e a afirmar-nos como diferentes. Mas, na medida em que o nosso pensamento se desenvolve, vamos compreendendo que o ser alheio a nós é também nós e que nos importa sê-lo para sermos. Eis a origem profunda do amor e eis aquilo que a razão humana tem de ter em conta sob pena de não alcançar a verdade mais alta"

- José Marinho, "Sobre a compreensão - II", in Teoria do Ser e da Verdade, I, edição de Jorge Croce Rivera, Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 2009, p.335.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

ENTRE....


Fotografia de Mariis Capela


Há entre mim e o real um véu
À própria concepção impenetrável.
Não me concebo amando, combatendo,
Vivendo como os outros. Há em mim,
Uma impossibilidade de existir
De que [abdiquei], vivendo.

Fernando Pessoa
Na Sé foram as nossas juras de amor
Debaixo da cruz entreguei-me
fazendo jus ao pecado
Abri as pernas e tu choravas
a dor que se adivinhava
despi meus seios
semeei meu leite na tua boca
feito a Virgem Maria.
Na Sé foi o fim do amor
desencontrado no acto
Enquanto te vinhas eu gritava: PARTO!

A viúva chorava a morte tardia do marido embuchado
O cego cantava numa ladainha riscada:
-Senhora dá-me teu leite que também tenho sede

E o orgasmo? O que é feito dele?
Miragem do passado. PARTO

- mas e o fim começou na sé? qual fim? qual sé?
- trocadilhos da mente que as vezes se escapam
Reserva-me um lugar silencioso
verde de preferência
Um dois por quatro – tenho fetiche com os pares
Rodeia esse espaço de gente

Inventa a semente – sem mente

domingo, 11 de setembro de 2011

Nikolina Nikoleski: Bho Shambo






Nikolina Nikoleski performing at the ICCR's Festival of foreign artists resident in India,28.5.2008.,Kamani Auditorium,New Delhi

Natuvangam: Padmashree Guru Dr.Saroja Vaidyanathan
Vocal: Smt. Satya Krishnaswami
Mridangam: Shri Chandrashekar
Violin: Shri Chakrapani

deixa que o céu encontre a terra
o mar durma na areia
a chuva fermente o pão
deixa que o que nunca teve 
paragem certa fique onde está
sem nunca ficar
Voam as pombas na capela,
e só tu dás por elas
deixam no ar o cheiro do orvalho
e só tu dás por ele
choram como se o dia fosse noite
e só tu cuidas delas
poisa a pomba na cruz
e só tu deixas-te ir
teu sorriso de criança
deu -me o dia antes da noite
teu olhar sem dor
deu-me a manhã antes do dia
esqueço a hora que partes
descanso meu corpo no teu
canta o beija-flor
e o dia é ontem todo o dia
desde ontem

sábado, 10 de setembro de 2011

Fúrias

Escorraçadas do pecado e do sagrado
Habitam agora a mais íntima humildade
Do quotidiano. São
Torneira que se estraga atraso de autocarro
Sopa que transborda na panela
Caneta que se perde aspirador que não aspira
Táxi que não há recibo extraviado
Empurrão cotovelada espera
Burocrático desvario

Sem clamor sem olhar
Sem cabelos eriçados de serpentes
Com as meticulosas mãos do dia a dia
Elas nos desfiam

Elas são a peculiar maravilha do mundo moderno
Sem rosto e sem máscara
Sem nome e sem sopro
São as hidras de mil cabeças da eficácia que se avaria

Já não perseguem sacrílegos e parricidas
Preferem vítimas inocentes
Que de forma nenhuma as provocaram
Por elas o dia perde seus longos planos lisos
Seu sumo de fruto
Sua fragrância de flor
Seu marinho alvoroço
E o tempo é transformado
Em tarefa e pressa
A contra tempo

- Sophia de Mello Breyner, 1988
seja a ausencia, desejo
que cresce na ausencia
amor que nos desperta

terça-feira, 6 de setembro de 2011

abraço a incerteza
nada sei além deste instante

que respiro
fossem os deuses homens

e a hora seria amanhã
fossem os homens deuses

e a vida seria agora.

domingo, 4 de setembro de 2011

Rumo ao pico do Toubkal, 4167m. Subir ao alto é descer ao fundo.


CIGARRA


Enquanto chora, canta
Enquanto dorme, acorda 
Solitária, descobre-se
Dançam borboletas na paisagem verde
Adormece a leoa coberta com amor
Vive a vida a hora, sem pressa 
Morna, suada, preguiçosa.


Calam silenciosas as pedras
Montanha que nos alcança
Voam gaivotas, nasce outra flor
A noite se alonga no amanhecer
o vinho escorrega
pela garganta
aqueçe o corpo
descobre o ventre

encontra a Besta
o Anjo com sede
amor adiado
Desço ao abismo
entre o paraíso e o inferno
existo

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

A leitora suspensa de si...


A leitora atravessa o ar no pensamento de uma palavra solta das páginas do livro do mundo. As suas asas voam na imensa distância que vai de si a si. Há um cristal parado no olhar que brilha na cegeuira do outrora. Agora, um continente se abre e o silêncio suspenso é um infinito imóvel e eterno. A leitora está sem mãos para folhear as páginas, a leitora lê-se no espaço entre as palavras. Um tremor de vento suspeso nas folhas bate as asas no coração. A paisagem lê-se de olhos fechados. De dentro, do interior de si, uma paisagem repousa no colo. Como um livro aberto entre paisagens, as águas aquietam-se e desaguam no horizonte que se não vê. Um mundo de palavras e de sensações suspendem o momento, tornam o mundo estreito. As paisagens ausentes debruçam-se no lago. Há peixes na fundura dos rios a prender o silêncio das redes. O perfil irreal dos astros ramifica-se na pele, tece palavras leves na nervura e nos veios das veias. Há jardins submersos no olhar. Aí a leitora desprede-se do livro e do mundo, suspende-se de si para ouvir o silêncio que cresce em ramos de nenhum vento. As páginas ardem longe. Agora, a leitora é um intervalo, uma abertura no céu da boca das palavras.

Respiramos a cada instante no coração de todas as coisas

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

"O mestre é o homem que não manda"

"O mestre é o homem que não manda; aconselha e canaliza, apazigua e abranda; não é a palavra que incendeia, é a palavra que faz renascer o canto alegre do pastor depois da tempestade; não interessa vencer, nem ficar em boa posição; tornar alguém melhor - eis todo seu programa"
- Agostinho da Silva, "Considerações"

"O drama do ser termina na libertação final pelo bem"

"Se pois a perfeita virtude, a renúncia todo o egoísmo, define completamente a liberdade, e se a liberdade é a inspiração secreta das coisas e o fim último do universo, concluamos que a santidade é o termo de toda a evolução e que o universo não existe nem se move senão para chegar a este supremo resultado. O drama do ser termina na libertação final pelo bem"

- Antero de Quental, "Tendências gerais da filosofia na segunda metade do século XIX".

Escrevemos para que mais resplenda o branco do ser e da página. Escrevemos para que mais se desnude o sem porquê nem para quê.