Residência Faria Mantero
Praça de Dio, n.º 3
1400-102 Lisboa
(a 10 minutos da estação de comboios de Belém e a 5 minutos do Centro Cultural de Belém).
Localização:
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O DOS CASTELLOS.
Esta tradição configura-se num sugestivo mapa com o título de Europa Regina (Rainha Europa), desenhado em 1537 pelo poeta e matemático austríaco Johann Putsch (1516-1542) para celebrar a hegemonia europeia dos Habsburgos, que teve onze versões gravadas (a gravura aqui reproduzida é da autoria de John Bucius, impressa por Christian Wechel em Paris, em 1537). Portugal (a Lusitânia) é o elo central da coroa que é a Hispânia, posta na cabeça da rainha cujo rosto é a Espanha de Carlos V e cujo corpo constitui a restante Europa. Na cultura portuguesa, esta mesma tradição remonta pelo menos a Camões, no qual a “Ocidental praia lusitana”, limite convertido em limiar de descentramento “por mares nunca de antes navegados” [1], ou o “Reino Lusitano”, se apresentam como “quase cume da cabeça / De Europa toda”, simultaneamente finistérrico coroamento “onde a terra se acaba e o mar começa” e crepuscular lugar ocidental onde declina o movimento aparente do Sol (“onde Febo repousa no Oceano”) [2]. O “Reino Lusitano” coroa na verdade “a nobre Espanha [designando toda a Península Ibérica], / Como cabeça […] da Europa toda” [3]. Depois, no Padre António Vieira, o mesmo perfil finistérrico, extremo-ocidental e atlântico de Portugal, “cabo ou rosto do Ocidente assim lavado do Oceano”, é imagem da sua divina eleição para a partir dele se erguer o Quinto Império universal [4], tema central da Mensagem pessoana. Destacamos todavia o tratamento deste imaginário finistérrico num notável soneto de Miguel de Unamuno, oferecido a Teixeira de Pascoaes e publicado n’A Águia, que Pessoa decerto conheceu e pelo qual foi seguramente influenciado, pois há evidentes afinidades entre ele e o poema inicial da Mensagem. Vejamo-lo:
Portugal
Del Atlántico mar en las orillas
desgreñada y descalza una matrona
se sienta al pié de sierra que corona
triste pinar. Apoya en las rodillas
los codos y en las manos las mejillas
y clava ansiosos ojos de leona
en la puesta del sol. El mar entona
su trágico cantar de maravillas.
Dice de luengas tierras y de azares
mientras ella sus piés en las espumas
bañando sueña en el fatal imperio
que se le hundió en los tenebrosos mares,
y mira como entre agoreras brumas
se alza Don Sebastián rey del misterio [5]
Miguel de Unamuno oferece uma fascinante imagem/leitura de Portugal como uma mulher que contempla o pôr-do-sol no oceano numa posição tipicamente melancólica, temperada apenas pela ânsia do olhar (“Apoya en las rodillas / los codos y en las manos las mejillas / y clava ansiosos ojos de leona / en la puesta del sol”). Esta ânsia ergue a melancolia a uma tonalidade saudosa, em que por um lado se sonha com o império engolido pelas águas, mas por outro já se contempla o desencobrimento do rei redentor. Toda a iconografia da melancolia – e nomeadamente a célebre Melencolia I, de Albrecht Dürer, onde uma mulher angélica apoia igualmente o cotovelo no joelho e o rosto na mão [6] (cf. também "O Pensador", de Rodin) - deve ser convocada para se compreender o pleno sentido desta figura, bem como da Europa-Portugal pessoana que também “jaz, posta nos cotovellos”, fitando, “com olhar sphyngico e fatal, / O Occidente, futuro do passado”.
Por fim, e entre outras ocorrências, destacamos o ressurgimento deste imaginário no apoteótico parágrafo final do Ultimatum de Álvaro de Campos: “Proclamo isto bem alto e bem no auge, na barra do Tejo, de costas pra a Europa, braços erguidos, fitando o Atlantico e saudando abstractamente o Infinito” [7]. Retomaremos este trecho, onde importa desde já destacar o oposto da postura melancólica, taciturna, curvada e cabisbaixa do anjo de Dürer, do qual apenas o olhar se destaca e projecta na contemplação do longínquo: o poeta fita igualmente o Atlântico, mas está de pé, de “braços erguidos” a saudar o “Infinito” e proclama bem alto ao mundo o advento de um “Superhomem” que será “o mais completo”, “complexo” e “harmonico” [8]. Por isso, como veremos, nele se acentua a ruptura com a “Europa”, à qual volta as costas.
[1] CAMÕES, Luís de, Os Lusíadas, I, I.
[2] Cf. Ibid., III, XX.
[3] Cf. Ibid., III, XVII.
[4] “E certamente não haverá juízo político alheio de paixão, que medindo geometricamente o mundo, e suas partes, na suposição em que imos, de que Deus haja de levantar nele império universal, não reconheça neste cabo ou rosto do Ocidente assim lavado do Oceano, o sítio mais proporcionado e capaz que o supremo Arquitecto tenha destinado para a fábrica de tão alto edifício. […] Ali se desagua o Tejo, esperando entre dois promontórios, como com os braços abertos, não os tributos de que o suave jugo daquele império libertará todas as gentes, mas a voluntária obediência de todas que ali se conhecerão juntas, até as da terra hoje incógnita, que então perderá a injúria deste nome” – VIEIRA, Padre António, Discurso Apologético, Sermões, XV, prefaciados e revistos pelo Padre Gonçalo Alves, Porto, Livraria Chardron de Lello Irmão Editores, 1907-1909, p. 82. Cf. também: “O céu, a terra, o mar, todos concorrem naquele admirável sítio, tanto para a grandeza universal do império, como para a conveniência também universal dos súbditos, posto que tão diversos” - Discurso Apologético, Sermões, XV, p. 83. Cf. BORGES, Paulo, A Plenificação da História em Padre António Vieira. Estudo sobre a ideia de Quinto Império na “Defesa perante o Tribunal do Santo Ofício”, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1995; A Pedra, a Estátua e a Montanha. O V Império no Padre António Vieira, Lisboa, Portugália Editora, 2008.
[5] Cf. UNAMUNO, Miguel de, carta a Teixeira de Pascoaes de 22.XII.1910, in Epistolário Ibérico. Cartas de Unamuno e Pascoaes, introdução de José Bento, Lisboa, Assírio & Alvim, 1986, p.78. Cf. Pablo Javier Pérez López, “Unamuno y “A Águia”: Una lusofilia centenaria y eterna”, Nova Águia, nº5 (Sintra, 2010).
[6] Cf. KLIBANSKY, Raymond, PANOFSKY, Erwin e SAXL, Fritz, Saturne et la Mélancolie. Études historiques et philosophiques: nature, religion, médecine et art, traduzido do inglês e de outras línguas por Fabienne Durand-Bogaert e Louis Évard, Paris, Gallimard, 1989.
[7] PESSOA, Fernando, Sensacionismo e outros ismos, edição crítica de Fernando Pessoa, X, edição de Jerónimo Pizarro, Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2009, p.273.
[8] Cf. PESSOA, Fernando, Sensacionismo e outros ismos, p.273.


Nikolina Nikoleski performing at the ICCR's Festival of foreign artists resident in India,28.5.2008.,Kamani Auditorium,New Delhi
Natuvangam: Padmashree Guru Dr.Saroja Vaidyanathan
Vocal: Smt. Satya Krishnaswami
Mridangam: Shri Chandrashekar
Violin: Shri Chakrapani
A leitora atravessa o ar no pensamento de uma palavra solta das páginas do livro do mundo. As suas asas voam na imensa distância que vai de si a si. Há um cristal parado no olhar que brilha na cegeuira do outrora. Agora, um continente se abre e o silêncio suspenso é um infinito imóvel e eterno. A leitora está sem mãos para folhear as páginas, a leitora lê-se no espaço entre as palavras. Um tremor de vento suspeso nas folhas bate as asas no coração. A paisagem lê-se de olhos fechados. De dentro, do interior de si, uma paisagem repousa no colo. Como um livro aberto entre paisagens, as águas aquietam-se e desaguam no horizonte que se não vê. Um mundo de palavras e de sensações suspendem o momento, tornam o mundo estreito. As paisagens ausentes debruçam-se no lago. Há peixes na fundura dos rios a prender o silêncio das redes. O perfil irreal dos astros ramifica-se na pele, tece palavras leves na nervura e nos veios das veias. Há jardins submersos no olhar. Aí a leitora desprede-se do livro e do mundo, suspende-se de si para ouvir o silêncio que cresce em ramos de nenhum vento. As páginas ardem longe. Agora, a leitora é um intervalo, uma abertura no céu da boca das palavras.
A seiva que corre dentro do corpo dos jardins é uma transfusão de luz na alma. Depois chove e a água não pode ser excessiva. Depois vem o sol e o sol não pode secar as folhas, os caules e as raízes. As árvores e as plantas mais pequenas e variadas devem bebê-la na quantidade que mais lhes convém, em harmonia com a sua necessidade e segundo a vontade natural. Assim deveria ser a vida do homem com a natureza. Todo o excesso e falta matam e destroem. É preciso deixar a Natureza fazer o seu trabalho e ao Homem pensá-lo e respeitá-lo. À Poesia, à Religião e à Filosofia, cabem a arte de fazer transbordar e transgredir. Para que se abra o Real, mostrando-o “Outro” no Mesmo. A Árvore na árvore, a Pedra na pedra. E no intervalo disso, no meio de onde não há meio, porque não há medida, no “Entre” de tudo isso, algum deus saudoso nos acena, como uma encoberta ilha.
A arte de “entrar” nessa Realidade não tem porta nem passagem, está para além das portas. Está para além das passagens. É de uma natureza outra, segundo uma nova ordenação. Coberta de sombras, essa fenda, essa passagem, esse interval de luz e de treva iluminados é onde o Poeta vê as palavras como se tocasse um mundo novo e Original: invisível e velado. Este é o mistério do mundo: ser e não ser. Os poetas e os contempladores vivem no «entre-ser» de tudo. As suas vidas são devir saudoso. Porque a “Saudade” é o “entre-tempo” e o “entre-espaço”: uma sombra real, uma luz velada, um mistério e um milagre maiores do que a vida que nos sentimos viver. Aí, o olhar é cegueira iluminada. Existir Isso, tonar-se visível Isso é a possibilidade de haver mundo e vida e a sua mesma impossibilidade. O homem é um paradoxo de si mesmo e a “arte” uma impossibilidade tornada possível. Viver a arte é cair nesse “intervalo”. Uma queda no abismo, “entre-realidades”. E, contudo, elas são a mesma, de uma outra maneira. Viver a Saudade é não existir. É ser do mundo, não estando nele nem fora dele, porque o não podemos estar e ser.
“Estar” e “ser” são dois estados. Verbos de Poetas e filósofos. No “intervalo” sonha-nos o mundo de olhos abertos, como veias por onde cresce a realidade e “nevoeiros” de onde se avista o véu da ilha que sonha vir ao nosso encontro, impossível juntá-los nesta ilusória dimensão. Segundo a Necessidade, a Beleza e o Amor, nos tornamos anjos, ninfas e nereides. Talvez cisnes, para adornar jardins. Segundo a Justiça e o Bem, nos tornaremos solitários. Como aqueles que se afastam para o deserto, hesicastas da alma, “amerímnios” do “estar”. Também como os que sobem montanhas e delas se salvam, como se tivessem “aprendido” a voar; como os derviches na saudação dos átomos e do amor que salva na dança, para que no movimento giratório tudo seja o mesmo no encontro com tudo. Às águias e aos falcões a natureza deu, em medida certa e justa, as “ferramentas” necessárias e originais. Aos “magos” o poder da transformação e da ilusão. Transformar em ouro na alquimia do coração, o real, é uma via morosa: é uma “combustão muito lenta, muito paciente”, como um esquecimento que se quer lembrado, um tempo que se quer eterno; um som que se ouve divinamente ausente. Silêncio que se quer Silêncio. No “intervalo”, ninguém se encontra e até o silêncio se ouve distinto. Como erguer pontes sobre o abismo entre uma coisa e outra coisa? É como aprender a ler sem necessidade de alfabetos ou de conceitos. É ver. O segredo é ver o invisível e pensar o impensável. Pensar a vitória sobre o Minotauro que somos é entrar no labirinto sem temor. Neste labirinto não há entrada nem saída, há mutação. Há sempre o que morrer em nós. Somos peles ressequidas em mudança e nunca deixaremos de existir. Podemos cobrir de penas essa nova pele. Criar um novo animal em nós? Não é o que somos, finalmente? ... “animais divinos” criados por nós? … Entretenimentos e interlúdios entre ser e ser? Amo as rosas que existiram: a-manhã!…