quarta-feira, 12 de outubro de 2011
RTP - CAMINHOS
RTP - CAMINHOS
"Um "olhar sphyingico e fatal": Portugal, Europa e Ocidente no primeiro poema da Mensagem" (excerto)
O DOS CASTELLOSA Europa jaz, posta nos cotovellos:
De Oriente a Occidente jaz, fitando,
E toldam-lhe romanticos cabellos
Olhos gregos, lembrando.
O cotovello esquerdo é recuado;
O direito é em angulo disposto.
Aquelle diz Italia onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A mão sustenta, em que se appoia o rosto.
Fita, com olhar sphyingico e fatal,
O Occidente, futuro do passado.
O rosto com que fita é Portugal.
De quem fala o poema e o que diz? O poema fala da Europa, aparentemente figurada, de acordo com as sugestões do seu mapa, como uma mulher que “de Oriente a Occidente” se deita, apoiada “nos cotovellos”, “fitando”, ou seja, olhando fixamente para um alvo diante de si. Um dos cotovelos pousa na Itália e o outro na Inglaterra, sendo este que sustenta a mão “em que se appoia o rosto”, onde a moldura romântica dos cabelos evoca “olhos gregos”. Esse rosto, “o rosto com que fita”, “é Portugal”, o finistérreo extremo-ocidente europeu, voltado para o Oceano, conforme o inspirador imaginário da sua situação e contorno geográficos atlânticos, já presente em significativas referências anteriores
.
Esta tradição configura-se num sugestivo mapa com o título de Europa Regina (Rainha Europa), desenhado em 1537 pelo poeta e matemático austríaco Johann Putsch (1516-1542) para celebrar a hegemonia europeia dos Habsburgos, que teve onze versões gravadas (a gravura aqui reproduzida é da autoria de John Bucius, impressa por Christian Wechel em Paris, em 1537). Portugal (a Lusitânia) é o elo central da coroa que é a Hispânia, posta na cabeça da rainha cujo rosto é a Espanha de Carlos V e cujo corpo constitui a restante Europa. Na cultura portuguesa, esta mesma tradição remonta pelo menos a Camões, no qual a “Ocidental praia lusitana”, limite convertido em limiar de descentramento “por mares nunca de antes navegados” [1], ou o “Reino Lusitano”, se apresentam como “quase cume da cabeça / De Europa toda”, simultaneamente finistérrico coroamento “onde a terra se acaba e o mar começa” e crepuscular lugar ocidental onde declina o movimento aparente do Sol (“onde Febo repousa no Oceano”) [2]. O “Reino Lusitano” coroa na verdade “a nobre Espanha [designando toda a Península Ibérica], / Como cabeça […] da Europa toda” [3]. Depois, no Padre António Vieira, o mesmo perfil finistérrico, extremo-ocidental e atlântico de Portugal, “cabo ou rosto do Ocidente assim lavado do Oceano”, é imagem da sua divina eleição para a partir dele se erguer o Quinto Império universal [4], tema central da Mensagem pessoana. Destacamos todavia o tratamento deste imaginário finistérrico num notável soneto de Miguel de Unamuno, oferecido a Teixeira de Pascoaes e publicado n’A Águia, que Pessoa decerto conheceu e pelo qual foi seguramente influenciado, pois há evidentes afinidades entre ele e o poema inicial da Mensagem. Vejamo-lo:
Portugal
Del Atlántico mar en las orillas
desgreñada y descalza una matrona
se sienta al pié de sierra que corona
triste pinar. Apoya en las rodillas
los codos y en las manos las mejillas
y clava ansiosos ojos de leona
en la puesta del sol. El mar entona
su trágico cantar de maravillas.
Dice de luengas tierras y de azares
mientras ella sus piés en las espumas
bañando sueña en el fatal imperio
que se le hundió en los tenebrosos mares,
y mira como entre agoreras brumas
se alza Don Sebastián rey del misterio [5]
Miguel de Unamuno oferece uma fascinante imagem/leitura de Portugal como uma mulher que contempla o pôr-do-sol no oceano numa posição tipicamente melancólica, temperada apenas pela ânsia do olhar (“Apoya en las rodillas / los codos y en las manos las mejillas / y clava ansiosos ojos de leona / en la puesta del sol”). Esta ânsia ergue a melancolia a uma tonalidade saudosa, em que por um lado se sonha com o império engolido pelas águas, mas por outro já se contempla o desencobrimento do rei redentor. Toda a iconografia da melancolia – e nomeadamente a célebre Melencolia I, de Albrecht Dürer, onde uma mulher angélica apoia igualmente o cotovelo no joelho e o rosto na mão [6] (cf. também "O Pensador", de Rodin) - deve ser convocada para se compreender o pleno sentido desta figura, bem como da Europa-Portugal pessoana que também “jaz, posta nos cotovellos”, fitando, “com olhar sphyngico e fatal, / O Occidente, futuro do passado”.
Por fim, e entre outras ocorrências, destacamos o ressurgimento deste imaginário no apoteótico parágrafo final do Ultimatum de Álvaro de Campos: “Proclamo isto bem alto e bem no auge, na barra do Tejo, de costas pra a Europa, braços erguidos, fitando o Atlantico e saudando abstractamente o Infinito” [7]. Retomaremos este trecho, onde importa desde já destacar o oposto da postura melancólica, taciturna, curvada e cabisbaixa do anjo de Dürer, do qual apenas o olhar se destaca e projecta na contemplação do longínquo: o poeta fita igualmente o Atlântico, mas está de pé, de “braços erguidos” a saudar o “Infinito” e proclama bem alto ao mundo o advento de um “Superhomem” que será “o mais completo”, “complexo” e “harmonico” [8]. Por isso, como veremos, nele se acentua a ruptura com a “Europa”, à qual volta as costas.
[1] CAMÕES, Luís de, Os Lusíadas, I, I.
[2] Cf. Ibid., III, XX.
[3] Cf. Ibid., III, XVII.
[4] “E certamente não haverá juízo político alheio de paixão, que medindo geometricamente o mundo, e suas partes, na suposição em que imos, de que Deus haja de levantar nele império universal, não reconheça neste cabo ou rosto do Ocidente assim lavado do Oceano, o sítio mais proporcionado e capaz que o supremo Arquitecto tenha destinado para a fábrica de tão alto edifício. […] Ali se desagua o Tejo, esperando entre dois promontórios, como com os braços abertos, não os tributos de que o suave jugo daquele império libertará todas as gentes, mas a voluntária obediência de todas que ali se conhecerão juntas, até as da terra hoje incógnita, que então perderá a injúria deste nome” – VIEIRA, Padre António, Discurso Apologético, Sermões, XV, prefaciados e revistos pelo Padre Gonçalo Alves, Porto, Livraria Chardron de Lello Irmão Editores, 1907-1909, p. 82. Cf. também: “O céu, a terra, o mar, todos concorrem naquele admirável sítio, tanto para a grandeza universal do império, como para a conveniência também universal dos súbditos, posto que tão diversos” - Discurso Apologético, Sermões, XV, p. 83. Cf. BORGES, Paulo, A Plenificação da História em Padre António Vieira. Estudo sobre a ideia de Quinto Império na “Defesa perante o Tribunal do Santo Ofício”, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1995; A Pedra, a Estátua e a Montanha. O V Império no Padre António Vieira, Lisboa, Portugália Editora, 2008.
[5] Cf. UNAMUNO, Miguel de, carta a Teixeira de Pascoaes de 22.XII.1910, in Epistolário Ibérico. Cartas de Unamuno e Pascoaes, introdução de José Bento, Lisboa, Assírio & Alvim, 1986, p.78. Cf. Pablo Javier Pérez López, “Unamuno y “A Águia”: Una lusofilia centenaria y eterna”, Nova Águia, nº5 (Sintra, 2010).
[6] Cf. KLIBANSKY, Raymond, PANOFSKY, Erwin e SAXL, Fritz, Saturne et la Mélancolie. Études historiques et philosophiques: nature, religion, médecine et art, traduzido do inglês e de outras línguas por Fabienne Durand-Bogaert e Louis Évard, Paris, Gallimard, 1989.
[7] PESSOA, Fernando, Sensacionismo e outros ismos, edição crítica de Fernando Pessoa, X, edição de Jerónimo Pizarro, Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2009, p.273.
[8] Cf. PESSOA, Fernando, Sensacionismo e outros ismos, p.273.
terça-feira, 11 de outubro de 2011
Ciclo de Conferências – Fernando Pessoa: Filosofia, Religião e Ciências do Psiquismo Humano - dia 12, 18.30

Visando o avanço dos estudos pessoanos em Portugal e no Brasil o ciclo de conferências «Fernando Pessoa: Filosofia, Religião e Ciências do Psiquismo Humano» ocorrerá na Casa Fernando Pessoa, entre Outubro de 2011 e Junho de 2012, com uma periodicidade mensal. Este ciclo de conferências pretende abrir um espaço de diálogo que premeie o debate sobre a relação entre a criação estética de Pessoa e a reflexão presente nos campos da filosofia, da religião e de ciências do psiquismo como a psiquiatria e a psicanálise. Este ciclo de conferências pretende igualmente dar a conhecer, através da participação de especialistas do âmbito universitário, alguns dos textos inéditos de Pessoa. Com efeito, muitos dos textos do espólio de Pessoa relativos à filosofia, religião, psiquiatria e psicanálise aguardam ainda publicação. Pretende-se, deste modo, convidar estudiosos pessoanos, assim como professores e investigadores das áreas da filosofia e psicanálise, para a discussão de um Pessoa ainda por conhecer.
Conferências de 12 de Outubro: Charles Robert Anon & Alexander Search: Filosofia e Psiquiatria por Cláudia Souza e Nuno Ribeiro; Um "olhar sphyingico e fatal": Portugal, Europa e Ocidente no primeiro poema da Mensagem por Paulo Borges. Sempre às 18h30.
O blogue Estudos Pessoanos: http://www.estudospessoanosportugalebrasil.blogspot.com/
Comissão organizadora: Paulo Borges, Nuno Ribeiro, Cláudia Souza.
domingo, 9 de outubro de 2011
Marquei com ela às cinco no bar. Quando cheguei ainda era dia, ela atrasou-se dez minutos e chegou já noite cerrada. Alta, esguia trazia aos ombros um casaco bege de veludo recheado das histórias que vivi com ele no passado. Não há como não reconhecer que combina melhor com o tamanho dela tão pequena eu sou. Este ano o inverno chegou cedo, abrigou-se nos corpos de quem passeia na vida.
- Tenho comigo as chaves do meu carro que agora é teu, fica com ele por favor...
Olho para o casaco que ela veste com intimidade. Falta-me a força para dizer que não. Viajo no passado – um dia esse casaco que nunca vesti, vestiu o homem que amei sem limites.
- É bom esse casaco, não é? Tem um forro que protege sempre do frio. Vou pedir um chá porque morro de frio, queres um também? Como foi a visita ao médico? Já dormes?
Ela sorri distraída. Está tão escuro no bar que ninguém vai reparar nas lágrimas teimosas que lavam meu rosto.
- O médico é o máximo! Meu casamento ... Desde há quatro anos que vivo em função desse novo amor. Imagina que o médico também leu o livro "As velas ardem até ao fim", incrível!
- Não queres tirar o casaco.? Tens a cara corada – deves estar cheia de calor
- Ele vai se mudar em Janeiro para minha casa. É melhor chamá-lo para tomar um café conosco, não achas? Já tens a chave do carro – fica-te barato. O seguro não é caro, o selo do carro baratíssimo. Estacionei-o à porta da tua casa. Não me deves nada amiga, é todo teu.
sexta-feira, 7 de outubro de 2011
Entre....
igual a in-spiritu
Inefável pulsar
entre o denso e o súbtil.
entre a noite e o dia,
entre o crepúsculo e a onda luminosa.
Maria Flávia de Monsarraz (Recados de um Mestre Interno)
sexta-feira, 30 de setembro de 2011
Miguel Sousa Tavares ou A Queda de um Anjo

Confesso que resisti muito tempo a escrever alguma coisa sobre o ainda recente comentário de Miguel Sousa Tavares na SIC sobre a abolição das touradas na Catalunha. Resisti porque os argumentos de MST se refutam a si mesmos e, sobretudo, porque tenho pudor em acrescentar alguma coisa aos vários tiros que o comentador deu em público na sua própria imagem pública. E cada vez mais, agora, ao ver as reacções e insultos de que é objecto por parte de muitos cidadãos, justamente indignados com o que disse (embora não me reveja na violência de muitos ataques pessoais), sinto pena deste homem. Sinto pena de um homem que entrou na fase de estrela decadente, tanto mais baça e em queda acelerada quanto mais pretende brilhar à custa de atacar causas justas e de defender o indefensável. Sinto pena por mais esta “Queda de um Anjo”, para recordar o romance do grande Camilo Castelo Branco.
Não me quero alongar sobre o que disse MST, que já teve no Facebook várias respostas à altura, entre as quais a de Lucília São Lourenço, de Mário Amorim (CAPT) e do meu cunhado Richard Warrell. Noto apenas, com tristeza, a incapacidade, de MST e dos que apoiam as touradas (ou a caça e todas as formas de violência sobre animais), de se colocarem na perspectiva e no lugar do outro, que neste caso é o animal, violentamente sujeito ao sofrimento para diversão do homem. Não ser capaz de se colocar no lugar do outro, não ser capaz desta exigência indispensável de toda a ética, e não perceber que é esta a razão pela qual há tanta e cada vez mais gente que se opõe às touradas - e não uma simples questão subjectiva de gostar ou não gostar de um espectáculo - , é uma terrível limitação da sensibilidade e da inteligência. Mas MST e os que pensam como ele, como o autarca Moita Flores, sem perceberem que porventura se estão a ver ao espelho, têm ainda o desplante de afirmar que são os outros que têm “falta de cultura” e que seguem o “caminho da estupidez”… Isto é triste. Muito estúpido e triste.
Muito estúpido e triste também, mas grave, muito mais grave, é a comparação da violência nas touradas, imposta pelos homens aos animais indefesos, com os perigos voluntariamente assumidos pelos participantes nos combates de boxe e nas corridas de automóveis (ou ainda o considerar a parvoíce de um programa televisivo, que se pode desligar a qualquer momento, mais violenta do que as touradas). Este raciocínio, além de só mostrar desonestidade ou falta de rigor intelectual ou as duas coisas, o que tenta é branquear a violência dos mais fortes contra os mais fracos reduzindo-a a desporto. Isto é preocupante, pois nesta ordem de ideias o que nos impede de considerar desporto as violações, os assassínios e todo o tipo de atentados contra a integridade dos seres humanos? Se obviamente repugna a todos nós considerar que as mulheres, as crianças e as vítimas de violação e homicídio participam de um espectáculo desportivo, se não aceitamos ser saudável ou estar no pleno uso da sua razão quem assim pense, o que dizer dos argumentos de MST?...
Mas isto não acaba aqui, não acaba na existência de ideias como as de MST. A gravidade de tudo isto continua e aumenta na promoção das pessoas que defendem estas ideias a “opinion makers”, a pessoas influentes na opinião pública, transmitidas em directo no horário mais nobre de um noticiário televisivo para milhões de espectadores, sem uma voz que exerça a função do contraditório e perante a manifesta impotência ou desistência da jornalista Clara de Sousa quanto ao exercício dessa função. E depois vem MST acusar os opositores das touradas de atentarem contra a “liberdade” e a “democracia”, quando ele é o primeiro beneficiário destes atentados que privilegiam sistematicamente na comunicação social os aficionados e silenciam quase por completo as vozes opostas!...
É isto que hoje mais me preocupa e não tanto a existência de pessoas com as ideias de Miguel Sousa Tavares, Moita Flores e outros que, sem se renovarem interiormente, arriscam-se a ter atingido e ultrapassado o limite do prazo de validade, em termos de sensibilidade humana e probidade intelectual. Espero que assim não seja, mas temo que deles já não haja nada a esperar, a não ser uma deterioração cada vez mais acelerada. O que me preocupa é que, num país e num mundo onde cada vez mais ganha volume uma nova corrente e movimento de opinião, que exige um tratamento ético dos animais (humanos e não-humanos) e se insurge contra as violências a que são sujeitos – corrente e movimento que vejo como o embrião de uma nova cultura e de uma nova civilização - , os nossos órgãos de comunicação social continuem a dar voz apenas aos mesmos de sempre, com os graves preconceitos e ideias aqui expostos. São estas as figuras públicas que nos representam? É este o Portugal que queremos?
Termino pedindo aos leitores que não lancemos mais pedras a MST, Moita Flores e outros. Tenhamos por eles a mesma compaixão que pelos touros e por todos os seres sencientes, humanos e não-humanos. Quem pensa, fala e age em defesa da violência, ou a pratica, não pode estar bem. Peguemos antes nessas pedras e lancemo-las àquilo que em nós houver também de ignorância, preconceito e insensibilidade. E que seja por compaixão por todos – incluindo toureiros, aficionados e todos os que praticam ou apoiam a violência sobre outros seres - , e não movidos pelo ódio e pela raiva, que continuemos a manifestar a nossa justa indignação e a lutar por um mundo onde o direito de todos os seres sencientes à integridade e bem-estar físicos e psíquicos seja consagrado na lei e integralmente respeitado.
quinta-feira, 29 de setembro de 2011
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
segunda-feira, 26 de setembro de 2011
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
se a pomba está ao teu alcançe
abraça-a com ternura
como se a mim abraçasses
e se ela foge e recua
canta que ela regressa ao encanto
se for branca, a pomba-rola
coloca em seu bico, uma rosa vermelha
segreda-lhe a minha morada
e se eu tiver partido
com destino desconhecido
entrega a pomba-rola
a rosa vermelha ao mundo
Nenhum deus virá salvar-nos
- Henry Miller, in Carta Aberta a Todos os Surrealistas do Mundo
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
Casa Fernando Pessoa- Apresentação da revista "Cultura Entre Culturas" nº3
http://pt.scribd.com/doc/65755937/Apresentacao-da-revista-Cultura-Entre-Culturas-nº3-por-Luiz-Pires-dos-Reys-na-Casa-Fernando-Pessoa-20-de-Setembro-de-2011
segunda-feira, 19 de setembro de 2011
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
quinta-feira, 15 de setembro de 2011
"Nós sabemos o que os animais fazem..."
"...vamos compreendendo que o ser alheio a nós é também nós e que nos importa sê-lo para sermos"
- José Marinho, "Sobre a compreensão - II", in Teoria do Ser e da Verdade, I, edição de Jorge Croce Rivera, Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 2009, p.335.
quarta-feira, 14 de setembro de 2011
ENTRE....
Na Sé foram as nossas juras de amor
Debaixo da cruz entreguei-me
fazendo jus ao pecado
Abri as pernas e tu choravas
a dor que se adivinhava
despi meus seios
semeei meu leite na tua boca
feito a Virgem Maria.
Na Sé foi o fim do amor
desencontrado no acto
Enquanto te vinhas eu gritava: PARTO!
A viúva chorava a morte tardia do marido embuchado
O cego cantava numa ladainha riscada:
-Senhora dá-me teu leite que também tenho sede
E o orgasmo? O que é feito dele?
Miragem do passado. PARTO
- mas e o fim começou na sé? qual fim? qual sé?
- trocadilhos da mente que as vezes se escapam
domingo, 11 de setembro de 2011
Nikolina Nikoleski: Bho Shambo
Nikolina Nikoleski performing at the ICCR's Festival of foreign artists resident in India,28.5.2008.,Kamani Auditorium,New Delhi
Natuvangam: Padmashree Guru Dr.Saroja Vaidyanathan
Vocal: Smt. Satya Krishnaswami
Mridangam: Shri Chandrashekar
Violin: Shri Chakrapani
sábado, 10 de setembro de 2011
Fúrias
Habitam agora a mais íntima humildade
Do quotidiano. São
Torneira que se estraga atraso de autocarro
Sopa que transborda na panela
Caneta que se perde aspirador que não aspira
Táxi que não há recibo extraviado
Empurrão cotovelada espera
Burocrático desvario
Sem clamor sem olhar
Sem cabelos eriçados de serpentes
Com as meticulosas mãos do dia a dia
Elas nos desfiam
Elas são a peculiar maravilha do mundo moderno
Sem rosto e sem máscara
Sem nome e sem sopro
São as hidras de mil cabeças da eficácia que se avaria
Já não perseguem sacrílegos e parricidas
Preferem vítimas inocentes
Que de forma nenhuma as provocaram
Por elas o dia perde seus longos planos lisos
Seu sumo de fruto
Sua fragrância de flor
Seu marinho alvoroço
E o tempo é transformado
Em tarefa e pressa
A contra tempo
- Sophia de Mello Breyner, 1988
terça-feira, 6 de setembro de 2011
domingo, 4 de setembro de 2011
sábado, 3 de setembro de 2011
sexta-feira, 2 de setembro de 2011
A leitora suspensa de si...
A leitora atravessa o ar no pensamento de uma palavra solta das páginas do livro do mundo. As suas asas voam na imensa distância que vai de si a si. Há um cristal parado no olhar que brilha na cegeuira do outrora. Agora, um continente se abre e o silêncio suspenso é um infinito imóvel e eterno. A leitora está sem mãos para folhear as páginas, a leitora lê-se no espaço entre as palavras. Um tremor de vento suspeso nas folhas bate as asas no coração. A paisagem lê-se de olhos fechados. De dentro, do interior de si, uma paisagem repousa no colo. Como um livro aberto entre paisagens, as águas aquietam-se e desaguam no horizonte que se não vê. Um mundo de palavras e de sensações suspendem o momento, tornam o mundo estreito. As paisagens ausentes debruçam-se no lago. Há peixes na fundura dos rios a prender o silêncio das redes. O perfil irreal dos astros ramifica-se na pele, tece palavras leves na nervura e nos veios das veias. Há jardins submersos no olhar. Aí a leitora desprede-se do livro e do mundo, suspende-se de si para ouvir o silêncio que cresce em ramos de nenhum vento. As páginas ardem longe. Agora, a leitora é um intervalo, uma abertura no céu da boca das palavras.
quinta-feira, 1 de setembro de 2011
"O mestre é o homem que não manda"
- Agostinho da Silva, "Considerações"
"O drama do ser termina na libertação final pelo bem"
- Antero de Quental, "Tendências gerais da filosofia na segunda metade do século XIX".
segunda-feira, 29 de agosto de 2011
Alfabeto vegetal
Alfabeto vegetal
sexta-feira, 26 de agosto de 2011
quinta-feira, 25 de agosto de 2011
"A Filosofia e a Poesia são festas à beira da cratera de um vulcão – e Empédocles é o nosso ídolo"
quarta-feira, 24 de agosto de 2011
Entrevista hoje na RTP N sobre a Cultura ENTRE Culturas
A RTPN passa hoje, no programa "Ler +, Ler melhor", por volta das 14.50 e das 20.50, uma entrevista comigo e com Luiz Pires dos Reys, Director artístico, sobre a revista e o projecto Cultura ENTRE Culturas. O programa escolheu a revista devido à sua elevada qualidade estética e de conteúdo.
Num próximo programa passa outra entrevista comigo sobre o meu último livro, O Teatro da Vacuidade ou a impossibilidade de ser eu (estudos e ensaios pessoanos).
terça-feira, 23 de agosto de 2011
"O que procuramos será real?"
“O que procuramos será real? Ou será o impossível / fruto do desejo sempre latente e indefinível?” – António Ramos Rosa
Talvez o que procuramos seja real, mas não a procura, nem o que julgamos procurar, nem quem procura, nem o que consideramos ser “real”. Talvez tudo isto seja sim “o impossível fruto do desejo sempre latente e indefinível”, isso que sempre se distancia do que busca por imaginar carecer do que em si superabunda.
"... e reconheci Deus na erva e nas plantas"
segunda-feira, 22 de agosto de 2011
domingo, 21 de agosto de 2011
Hermes Não-Afoito
Como uma lasca de vento
Meu mergulho não é mais de albatroz
Agora enterro-me no mar
E enáguo-me na terra
Rasgo com o vértice feito por meu caduceu
Uma frincha nas ondas
Espiralada com a força de minhas fagulhas
E vou num voo aquático
E lá
Danço uma falsa valsa
Com os seres translúcidos
De luz azul
terça-feira, 16 de agosto de 2011
A terra não é redonda, tem a forma de melão, com muitas pevides por dentro...
Foi assim que acabei de ler o poema, com meu pai ditando a forma de vida. Ali, onde tudo parecia ser tão simples. O melão tem na mesma planta, flores machos e fémea. Por isso ela pode se auto-fecundar. Acho que foi assim que Deus espalhou homens e mulheres pela terra.
A terra é redonda e dentro dela mora o vazio, tranquilo sereno onde nada acontece e deixa em aberto tudo o que há-de ser, respondi teimosa.
Tenho um metrónomo ao lado do computador que me vigia o compasso da emoção. Assim se meu texto desliza pela tristeza perde o tempo binário e me alerta que o tempo só existe se o meu texto sorrir.
No meu aniversário pais, irmãos, filhos, sobrinhos e companheiro juntaram-se e compraram o metrónomo da emoção.
Tentei avisar a minha família que o metrónomo só me iria fazer mal. Mas a família estava preocupada com o destino da minha poesia. A tristeza dominava o tom da escrita, o metrónomo iria ensinar-me o compasso da felicidade.
O meu metrónomo não me deixa chorar, nem quando ameaço a lágrima ele se comove. Avisa descontrolado que o compasso da vida é outro.
Para acompanhar o tempo da felicidade, tentei adaptar o texto e rosa passou a rimar prosa.
Desde então os meus dias são em allegro, 120 batidas por minuto, em cada meio segundo um sorriso. Sereno ou desenfredao - sorriso. Tic, tac.
Se o metrónomo fosse mecânico eu teria tirado a haste e no lugar dela a ausência definiria a eterna pausa, num compasso desconhecido.
Sem alento fui em busca da pilha, mas o metrónomo digital requer um especialista. Na loja pedi um metrónomo que só medisse o tempo, sem comentários extras.
O rapaz que me atendeu respondeu-me:
- Mas isso é um relógio…
- Não quero nada que meça a hora. Quero um metrómono da emoção porque meu pai está preocupado com o destino da minha escrita
- Mas o seu é excelente. O mais caro da loja..
- Então troque-o por um que esteja avariado e se contente com o tic, tac apenas, em vários BPM.
- Como quiser, mas quem vai lucrar é o gerente
- Dê-me um chinês. Bem parecido na forma, mas que não funcione.
- Desculpe a pergunta, mas porquê se desfaz de uma peça tão cara?
- Este metronomo não me deixa ser feliz…
- Ahhhh, hmmm, okok. Aqui tem este bem avariado.
- Obrigada.
A caminho de casa meu coração encontrou o caminho e chorou. Depois riu.
Tic, tac, clic. Tic, tac, tac, Clic.
A terra é redonda e dentro dela mora o vazio, tranquilo sereno onde nada acontece e deixa em aberto tudo o que há-de ser, respondi teimosa.
Tenho um metrónomo ao lado do computador que me vigia o compasso da emoção. Assim se meu texto desliza pela tristeza perde o tempo binário e me alerta que o tempo só existe se o meu texto sorrir.
No meu aniversário pais, irmãos, filhos, sobrinhos e companheiro juntaram-se e compraram o metrónomo da emoção.
Tentei avisar a minha família que o metrónomo só me iria fazer mal. Mas a família estava preocupada com o destino da minha poesia. A tristeza dominava o tom da escrita, o metrónomo iria ensinar-me o compasso da felicidade.
O meu metrónomo não me deixa chorar, nem quando ameaço a lágrima ele se comove. Avisa descontrolado que o compasso da vida é outro.
Para acompanhar o tempo da felicidade, tentei adaptar o texto e rosa passou a rimar prosa.
Desde então os meus dias são em allegro, 120 batidas por minuto, em cada meio segundo um sorriso. Sereno ou desenfredao - sorriso. Tic, tac.
Se o metrónomo fosse mecânico eu teria tirado a haste e no lugar dela a ausência definiria a eterna pausa, num compasso desconhecido.
Sem alento fui em busca da pilha, mas o metrónomo digital requer um especialista. Na loja pedi um metrónomo que só medisse o tempo, sem comentários extras.
O rapaz que me atendeu respondeu-me:
- Mas isso é um relógio…
- Não quero nada que meça a hora. Quero um metrómono da emoção porque meu pai está preocupado com o destino da minha escrita
- Mas o seu é excelente. O mais caro da loja..
- Então troque-o por um que esteja avariado e se contente com o tic, tac apenas, em vários BPM.
- Como quiser, mas quem vai lucrar é o gerente
- Dê-me um chinês. Bem parecido na forma, mas que não funcione.
- Desculpe a pergunta, mas porquê se desfaz de uma peça tão cara?
- Este metronomo não me deixa ser feliz…
- Ahhhh, hmmm, okok. Aqui tem este bem avariado.
- Obrigada.
A caminho de casa meu coração encontrou o caminho e chorou. Depois riu.
Tic, tac, clic. Tic, tac, tac, Clic.
Quando não se dá conta
Há quem me peça que os ais sejam os uis de quem ri.
Há quem me peça que faça de conta, porque quem não se dá conta, não sofre nem geme.
Enquanto escrevo, sorrio na descoberta do fim.
Depois de hibernar, vem a vontade de voar. No céu encontro o ar, no mar me encontro - sereia.
Entre, é o meu destino próximo. Sono longo, onde nada foi dito ou ouvido.
Intervalo presente - liberdade.
segunda-feira, 15 de agosto de 2011
Labirintos e “Entre-te-ni-mentos”
A seiva que corre dentro do corpo dos jardins é uma transfusão de luz na alma. Depois chove e a água não pode ser excessiva. Depois vem o sol e o sol não pode secar as folhas, os caules e as raízes. As árvores e as plantas mais pequenas e variadas devem bebê-la na quantidade que mais lhes convém, em harmonia com a sua necessidade e segundo a vontade natural. Assim deveria ser a vida do homem com a natureza. Todo o excesso e falta matam e destroem. É preciso deixar a Natureza fazer o seu trabalho e ao Homem pensá-lo e respeitá-lo. À Poesia, à Religião e à Filosofia, cabem a arte de fazer transbordar e transgredir. Para que se abra o Real, mostrando-o “Outro” no Mesmo. A Árvore na árvore, a Pedra na pedra. E no intervalo disso, no meio de onde não há meio, porque não há medida, no “Entre” de tudo isso, algum deus saudoso nos acena, como uma encoberta ilha.
A arte de “entrar” nessa Realidade não tem porta nem passagem, está para além das portas. Está para além das passagens. É de uma natureza outra, segundo uma nova ordenação. Coberta de sombras, essa fenda, essa passagem, esse interval de luz e de treva iluminados é onde o Poeta vê as palavras como se tocasse um mundo novo e Original: invisível e velado. Este é o mistério do mundo: ser e não ser. Os poetas e os contempladores vivem no «entre-ser» de tudo. As suas vidas são devir saudoso. Porque a “Saudade” é o “entre-tempo” e o “entre-espaço”: uma sombra real, uma luz velada, um mistério e um milagre maiores do que a vida que nos sentimos viver. Aí, o olhar é cegueira iluminada. Existir Isso, tonar-se visível Isso é a possibilidade de haver mundo e vida e a sua mesma impossibilidade. O homem é um paradoxo de si mesmo e a “arte” uma impossibilidade tornada possível. Viver a arte é cair nesse “intervalo”. Uma queda no abismo, “entre-realidades”. E, contudo, elas são a mesma, de uma outra maneira. Viver a Saudade é não existir. É ser do mundo, não estando nele nem fora dele, porque o não podemos estar e ser.
“Estar” e “ser” são dois estados. Verbos de Poetas e filósofos. No “intervalo” sonha-nos o mundo de olhos abertos, como veias por onde cresce a realidade e “nevoeiros” de onde se avista o véu da ilha que sonha vir ao nosso encontro, impossível juntá-los nesta ilusória dimensão. Segundo a Necessidade, a Beleza e o Amor, nos tornamos anjos, ninfas e nereides. Talvez cisnes, para adornar jardins. Segundo a Justiça e o Bem, nos tornaremos solitários. Como aqueles que se afastam para o deserto, hesicastas da alma, “amerímnios” do “estar”. Também como os que sobem montanhas e delas se salvam, como se tivessem “aprendido” a voar; como os derviches na saudação dos átomos e do amor que salva na dança, para que no movimento giratório tudo seja o mesmo no encontro com tudo. Às águias e aos falcões a natureza deu, em medida certa e justa, as “ferramentas” necessárias e originais. Aos “magos” o poder da transformação e da ilusão. Transformar em ouro na alquimia do coração, o real, é uma via morosa: é uma “combustão muito lenta, muito paciente”, como um esquecimento que se quer lembrado, um tempo que se quer eterno; um som que se ouve divinamente ausente. Silêncio que se quer Silêncio. No “intervalo”, ninguém se encontra e até o silêncio se ouve distinto. Como erguer pontes sobre o abismo entre uma coisa e outra coisa? É como aprender a ler sem necessidade de alfabetos ou de conceitos. É ver. O segredo é ver o invisível e pensar o impensável. Pensar a vitória sobre o Minotauro que somos é entrar no labirinto sem temor. Neste labirinto não há entrada nem saída, há mutação. Há sempre o que morrer em nós. Somos peles ressequidas em mudança e nunca deixaremos de existir. Podemos cobrir de penas essa nova pele. Criar um novo animal em nós? Não é o que somos, finalmente? ... “animais divinos” criados por nós? … Entretenimentos e interlúdios entre ser e ser? Amo as rosas que existiram: a-manhã!…
domingo, 14 de agosto de 2011
AMANTE
Limou as arestas, limpou o pó. Do que restou, ficou com o vermelho da paixão.
Ela é a sombra que não me acompanha e rouba a parte de mim que sonha.
Deixou comigo a dor da ausência.
Com um sorriso generoso ocupou meu lugar. Roubou meus gemidos na cama.
Inventou a tormenta quando ouviu a promessa amor eterno.
Deu-me de volta a fadiga de vida.
quinta-feira, 11 de agosto de 2011
Devagar toquei cada um dos seus pequenos dedos,
tentando que os meus se encaixassem nos dele.
Se o desejo fosse, só por si, suficiente,
todas as crianças do mundo seriam felizes.
Dor que trago agora no peito, tão escondido que mal posso suportar.
A violência fechada e tumultuada nas ruas, entre torpedos de ira.
Bolas de sabão que se multiplicam no abandono de uma nova civilização.
Sofrimento que invade meu corpo, pela tristeza
De todos os seres que se traiem na existência
Por tudo lhes ter sido negado à nascença.
Se o desejo fosse, só por si suficiente,
nenhuma criança morreria à fome
Teriam por sofrimento único
a ignorância do não sofrimento.
terça-feira, 9 de agosto de 2011
quarta-feira, 27 de julho de 2011
"Não é mais uma revista, é uma NOVA revista" - apresentação da ENTRE 3 por Miguel Real

FNAC/CHIADO – 26 – 7 - 2011
Apresentação de “ENTRE”, 3
Agradeço fortemente à direcção da revista, sobretudo a Paulo Borges e a Luís Reys o convite para apresentar “Cultura ENTRE Culturas”, acrescido do prazer de estar sentado ao lado de um estudioso e ficcionista que tanto admiro como o António Cândido Franco e de um editor que também há muito admiro, o dr. Baptista Lopes da “Âncora Editora”.
Como os três números publicados o evidenciam, “ENTRE” é uma NOVA revista de cultura. Não é mais uma revista, é uma NOVA revista, questionando possibilidades até agora desconhecidas do pensamento português, não a partir de um enfoque predeterminado, mas a partir do “Não-Lugar, “convertendo fronteiras em pontos de passagem, termos em mediações, limites em limiares” ” (nº 1, primavera-verão de 2010, texto de “Apresentação”).
Assim, NOVO, no caso de “ENTRE”, não significa a novidade que atrai a curiosidade, ou a originalidade académica, que atrai o espírito hermenêutico no interior de um mesmo modelo de pensamento. Não! Repete-se: - traz o novo, não a novidade. A novidade é a aparência nova do antigo, é o já sabido vestido de outras roupagens, outros métodos, outros conceitos, outra ideologia; o novo é violento, rompe com consensos, impõe-se pela força da argumentação, dá um outro e diferente sentido aos textos antigos e obriga os livros já firmados, as histórias do pensamento, a reverem os seus capítulos."
NOVO, no caso de “ENTRE”, significa um pensamento raramente pensado, uma visão ou teoria nunca socialmente aceite, uma concepção nunca levada a sério no campo da prática, sempre remetida até para o campo da marginalidade poética ou mística.
Dito de outro modo, NOVO, no caso de “ENTRE”, significa entreabrir uma porta para um OUTRO LUGAR, expressamente diferente do nosso lugar, isto é, significa abrir a porta do futuro e dar como efectiva a possibilidade de uma outra maneira de pensar e viver:
1. – pensar e viver sem a cristalização em blocos culturais identitários;
2. – pensar e viver sem favorecer um dos pólos da tensão metafísica entre ser e não-ser, entre bem e mal, matéria e espírito, corpo e alma, sujeito e objecto;
3. – pensar e viver sem a oposição cristalizada entre Ocidente e Oriente;
4. – pensar e viver libertando-nos dos cadáveres que 2 500 anos de civilização europeia nos penduraram nos ombros, que nos prendem ao passado, não nos deixam caminhar, arrastando-nos para uma terra repleta de campas fúnebres onde havia outrora o que exaltava a vida – as árvores, os rios, os animais, as crianças, os homens generosos;
5. – pensar e viver sem a clivagem maléfica entre vida e ser, existência humana e existência natural, harmonizando de novo homem e natureza.
“ENTRE” é a certeza de que esse outro lugar, outro mundo, outra vida – é possível, basta estar já a ser pensada hoje para ser possível no futuro; se hoje é sentida como necessária, no futuro tornar-se-á realidade. Como os 5 “Propósitos” de “ENTRE” reclamam no primeiro número – e como tudo o que o Paulo Borges e o Luiz Reys fazem – a revista consiste no anúncio da possibilidade de uma nova existência, hoje apenas “entre”vista, no futuro certamente experienciada e vivida diariamente.
Neste sentido, “ENTRE” corta com a retórica encomiástica do passado cultural de Portugal – os seus artigos sobre autores do passado são enquadrados numa visão de futuro segundo o novo modelo civilizacional – ser “vário”, ser uno e múltiplo ao mesmo tempo, ser nada e tudo simultaneamente, não estar preso à rocha da terra ou ao barco do mar, estar “entre” terra e mar, porventura na desordenada e caótica espuma da rebentação, não saber do norte e do sul e inventar nomadamente o caminho em cada curva da estrada.
O primeiro número dava-nos conta, afinal, de que “ENTRE” era, pelas suas propostas e propósitos, insituável: não era académica nem plebeia, não era neutra nem testemunha de um projecto intercultural subsidiado pela Comunidade Europeia, não louvaminhava o passado e abria-se a um futuro ainda vazio, que ambicionava preencher, auto-descobrindo-se dia a dia.
Como preencher um vazio com um conteúdo que ainda não existe? – ESTE O GRANDE, GRANDE PROBLEMA DE “ENTRE”.
No primeiro número, “ENTRE” namora o futuro através de artigos de Paulo Borges, Paulo Feitais, Carlos Silva, Raimon Pannikar, Hans Küng, Jean-Yves Leloup, François Jullien e Vilém Flusser – autores heterodoxos ao pensamento europeu normalizado – todos eles fazem explodir a actual cultura materialista e consumista europeia, apontando outros caminhos, que, de certo modo, são – também – os caminhos da “ENTRE”.
No segundo número, a procura de caminho continua – mas o solo torna-se mais consistente: a “vacuidade” assume-se como menos densa: artigos de Paulo Borges sobre Pessoa, Amon Pinho, Rui Lopo, Carlos João Correia, mas também Matthieu Ricard, Françoise Bonardel, Khyentse Rinpoche, Longchenpa, Rumi – e a grande conclusão sintetizada nos “Nove sutras sobre a paz” do falecido Raimon Pannikar – sobretudo o primeiro, muito premente ao espírito dos “Propósitos” da “ENTRE”: “Paz é a participação na harmonia do ritmo do ser”. Eis aqui o vazio do futuro a ser preenchido: a paz reside na harmonia do espírito da Terra, eis um grande, grande propósito orientador, capaz de tornar a nossa civilização às avessas.
Finalmente, o terceiro número, onde se aponta não um TEMA, como o 1º (“Que diálogo entre culturas?”) e como o 2º (“Encontro Ocidente – Oriente”) e mais um EXEMPLO: a vida e obra de Fernando Pessoa como um dos portugueses que, no nosso passado, viveu todos os tempos, e, não tendo tido biografia, viveu todas as maneiras de vida, todas as sensibilidades e racionalidades, postando-se, menos aqui ou além, e mais “ENTRE”. Pessoa, diferente de Pascoaes (António Cândido Franco), Pessoa exprimindo na poesia uma vivência da consciência diferente da redução transcendental da consciência de Husserl, apontando para a existência de um plano da experiência superadora da cisão sujeito – objecto (Paulo Borges), Pessoa e a Saudade “do presente (Bruno Béu), Pessoa e a superação da consciência temporalizada (António Faria), os espantosos artigos de Raquel Nobre Guerra e Luiz Pires dos Reys sobre a “surrealidade” em Pessoa e António Maria Lisboa, os estudos sobre a perspectiva de Pessoa e as culturas muçulmana e oriental, a questão da dupla autoria do Livro do Desassossego de Bernardo Soares e Vicente Guedes, os escritos filosóficos inéditos de Pessoa tematizados por Nuno Ribeiro segundo a sua conhecida tese defendida no livro Fernando Pessoa e Nietzsche: o pensamento da pluralidade, e mais Pessoa, mais Pessoa, mais Pessoa…
Ou seja, o nº 3 de “ENTRE” não só apresenta a vida e obra de Fernando Pessoa como um EXEMPLO de possibilidade de vida que rompe com o paradigma civilizacional fundado na cisão sujeito – objecto, como presta à cultura portuguesa um grande, grande favor, registando um óptimo dossier sobre a obra de Pessoa.
Muito obrigado.
segunda-feira, 25 de julho de 2011
O eucalipto nasce de uma bola pequena
Há quem ganhe a forma de uma mulher.
Entre a galinha e o ovo,
aos que a sorte foi companheira,
nascem com tempo até morrer
Mudam de forma até envelhecer.
Aos que a sorte foi inimiga,
nascem com fome e morrem com ela
Mudam de forma antes de envelhecer.
testemunhamos a vida.
sexta-feira, 22 de julho de 2011
Fotos do lançamento de "O Teatro da Vacuidade ou a impossibilidade de ser eu"
quinta-feira, 21 de julho de 2011
"Nós não viemos a este mundo: viemos dele, como as folhas de uma árvore"
- Alan Watts, O Livro do Tabu.
Mulher
seria teu amor esculpido
em cada um dos teus beijos
fosse ela eterna
de pedra seria
teu amor perdido
em cada despedida
Ah, se ela fosse a noiva
que te senta ao colo
e abriga teu corpo
sem medo
serias o jovem poeta,
feliz com a descoberta.
TORMENTA
deixar explodir
tudo o que eu não sei
e sequer
dou conta que sinto
meu corpo caia
sem peso
no peso do teu
fossem as estrelas
a luz de cada abraço
esquecido pelo caminho
teus doces lábios
nos meus
vazio que anseio
tormenta diária
" [...] a greater reality than reality itself"
- Fernando Pessoa, "The dream of Buddha" (excerto inédito).
terça-feira, 19 de julho de 2011
A memória de antes de existir é o mais íntimo segredo da saudade.
"A coisa mais antiga de que me lembro é uma tarde de Primavera em que eu talvez ainda não tivesse nascido"

"A coisa mais antiga de que me lembro é uma tarde de Primavera em que eu talvez ainda não tivesse nascido. Pelo menos não me lembro de estar ali - só me lembro da claridade difusa daquele quarto em que a Primavera entrava. Uma calma infinita poisava sobre as coisas - como se fosse o princípio do mundo e tudo estivesse ainda intocado"
- Sophia de Mello Breyner Andresen (inédito do espólio)
segunda-feira, 18 de julho de 2011
Convite para "O Teatro da Vacuidade ou a impossibilidade de ser eu"

"Neste livro pensam-se com e a partir de Fernando Pessoa alguns dos temas com ele comungados: a experiência da vida como teatro heteronímico; a ficcional (im)possibilidade do(s) eu(s) e do mundo como i-lusão ou jogo criador; o vislumbre do entre-ser, isso que (não) há entre uma coisa e outra, consoante a revista Cultura ENTRE Culturas; estados não conceptuais nem intencionais de consciência; os sentidos múltiplos de Portugal, Lusofonia e Quinto Império, na linha de Uma Visão Armilar do Mundo. Pessoa redescoberto pela filosofia, também em diálogo com António Machado, Jorge Luis Borges e Emil Cioran"
domingo, 17 de julho de 2011
Mado Robin sings the Bell Song from Lakmé
Our sweet Mado performs, for the french radio once again, the famous Bell Song from Léo Delibes' Lakmé (in 1956).
sábado, 16 de julho de 2011
Tudo certo
até ao meio-dia
e ao fim da tarde, uma Avé Maria
Consultar o médico
confiando irremediavelmente em nós
pulsar, de intuição pura
Condicionar o ar e desligar
tomar refresco
até não se constipar
Compor o corpo, marchar
a estudar as leis da Física
e aplicar, um Pai Nosso
Fortalecer o corpo para lutar
pela paz, por ti
como um filho de Ghandi
Rebentar de boa ação, redenção
Redentor de mil e um e-vento
como pôr fim ao sofrimento
Ou ficar toda a semana
debaixo da figueira com Gautama, islâmico
o Encoberto cabalista de sempre
Não há morte para a alma
invisíveis alados por todos os lados
a estudar se atingem bons resultados
Não é mais a criação
dos deuses, do que uma boa ideia
adornada por palavras certas
E, por fim, voltando ao principio
acautelando uma boa briga
para descanso geral da barriga
Também ao mundo não virá mal
se dermos meio a que Portugal, revele
esse infinito espírito santo
Luis Santos
P.S.: Com votos de bons resultados para o Seminário "Aflições" budistas e "pecados" cristãos.
terça-feira, 5 de julho de 2011
Country 2011
Época desta cegueira
Da mais branca neblina.
Todos os poetas se transcendem de humanismo,
Todos os audazes se concebem decadentes,
A vitória abstracta mundialmente falando,
E a derrota constante é um lugar abençoado.
Peso português na roda universal,
Carregando a vida pelas chagas de Cristo,
Arrasta em segredo o engenho capital,
Detective dos mares, reformado imprevisto.
De outrora esqueceu-se actual,
Povo de virtudes abismais,
Se de momento é hipnótico banal,
Verdade vindoura esquecerá Portugal.
Ilustre reacção imprescindível,
O rei morreu e África engrandeceu,
Se o conjunto suor tropeça e o rei não vem,
Aii de nós nostalgia, rainha o império é teu.
Diogo Correia
10/06/2011
Dia de Portugal










