quinta-feira, 22 de setembro de 2011
Nenhum deus virá salvar-nos
- Henry Miller, in Carta Aberta a Todos os Surrealistas do Mundo
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
Casa Fernando Pessoa- Apresentação da revista "Cultura Entre Culturas" nº3
http://pt.scribd.com/doc/65755937/Apresentacao-da-revista-Cultura-Entre-Culturas-nº3-por-Luiz-Pires-dos-Reys-na-Casa-Fernando-Pessoa-20-de-Setembro-de-2011
segunda-feira, 19 de setembro de 2011
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
quinta-feira, 15 de setembro de 2011
"Nós sabemos o que os animais fazem..."
"...vamos compreendendo que o ser alheio a nós é também nós e que nos importa sê-lo para sermos"
- José Marinho, "Sobre a compreensão - II", in Teoria do Ser e da Verdade, I, edição de Jorge Croce Rivera, Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 2009, p.335.
quarta-feira, 14 de setembro de 2011
ENTRE....
Na Sé foram as nossas juras de amor
Debaixo da cruz entreguei-me
fazendo jus ao pecado
Abri as pernas e tu choravas
a dor que se adivinhava
despi meus seios
semeei meu leite na tua boca
feito a Virgem Maria.
Na Sé foi o fim do amor
desencontrado no acto
Enquanto te vinhas eu gritava: PARTO!
A viúva chorava a morte tardia do marido embuchado
O cego cantava numa ladainha riscada:
-Senhora dá-me teu leite que também tenho sede
E o orgasmo? O que é feito dele?
Miragem do passado. PARTO
- mas e o fim começou na sé? qual fim? qual sé?
- trocadilhos da mente que as vezes se escapam
domingo, 11 de setembro de 2011
Nikolina Nikoleski: Bho Shambo
Nikolina Nikoleski performing at the ICCR's Festival of foreign artists resident in India,28.5.2008.,Kamani Auditorium,New Delhi
Natuvangam: Padmashree Guru Dr.Saroja Vaidyanathan
Vocal: Smt. Satya Krishnaswami
Mridangam: Shri Chandrashekar
Violin: Shri Chakrapani
sábado, 10 de setembro de 2011
Fúrias
Habitam agora a mais íntima humildade
Do quotidiano. São
Torneira que se estraga atraso de autocarro
Sopa que transborda na panela
Caneta que se perde aspirador que não aspira
Táxi que não há recibo extraviado
Empurrão cotovelada espera
Burocrático desvario
Sem clamor sem olhar
Sem cabelos eriçados de serpentes
Com as meticulosas mãos do dia a dia
Elas nos desfiam
Elas são a peculiar maravilha do mundo moderno
Sem rosto e sem máscara
Sem nome e sem sopro
São as hidras de mil cabeças da eficácia que se avaria
Já não perseguem sacrílegos e parricidas
Preferem vítimas inocentes
Que de forma nenhuma as provocaram
Por elas o dia perde seus longos planos lisos
Seu sumo de fruto
Sua fragrância de flor
Seu marinho alvoroço
E o tempo é transformado
Em tarefa e pressa
A contra tempo
- Sophia de Mello Breyner, 1988
terça-feira, 6 de setembro de 2011
domingo, 4 de setembro de 2011
sábado, 3 de setembro de 2011
sexta-feira, 2 de setembro de 2011
A leitora suspensa de si...
A leitora atravessa o ar no pensamento de uma palavra solta das páginas do livro do mundo. As suas asas voam na imensa distância que vai de si a si. Há um cristal parado no olhar que brilha na cegeuira do outrora. Agora, um continente se abre e o silêncio suspenso é um infinito imóvel e eterno. A leitora está sem mãos para folhear as páginas, a leitora lê-se no espaço entre as palavras. Um tremor de vento suspeso nas folhas bate as asas no coração. A paisagem lê-se de olhos fechados. De dentro, do interior de si, uma paisagem repousa no colo. Como um livro aberto entre paisagens, as águas aquietam-se e desaguam no horizonte que se não vê. Um mundo de palavras e de sensações suspendem o momento, tornam o mundo estreito. As paisagens ausentes debruçam-se no lago. Há peixes na fundura dos rios a prender o silêncio das redes. O perfil irreal dos astros ramifica-se na pele, tece palavras leves na nervura e nos veios das veias. Há jardins submersos no olhar. Aí a leitora desprede-se do livro e do mundo, suspende-se de si para ouvir o silêncio que cresce em ramos de nenhum vento. As páginas ardem longe. Agora, a leitora é um intervalo, uma abertura no céu da boca das palavras.
quinta-feira, 1 de setembro de 2011
"O mestre é o homem que não manda"
- Agostinho da Silva, "Considerações"
"O drama do ser termina na libertação final pelo bem"
- Antero de Quental, "Tendências gerais da filosofia na segunda metade do século XIX".
segunda-feira, 29 de agosto de 2011
Alfabeto vegetal
Alfabeto vegetal
sexta-feira, 26 de agosto de 2011
quinta-feira, 25 de agosto de 2011
"A Filosofia e a Poesia são festas à beira da cratera de um vulcão – e Empédocles é o nosso ídolo"
quarta-feira, 24 de agosto de 2011
Entrevista hoje na RTP N sobre a Cultura ENTRE Culturas
A RTPN passa hoje, no programa "Ler +, Ler melhor", por volta das 14.50 e das 20.50, uma entrevista comigo e com Luiz Pires dos Reys, Director artístico, sobre a revista e o projecto Cultura ENTRE Culturas. O programa escolheu a revista devido à sua elevada qualidade estética e de conteúdo.
Num próximo programa passa outra entrevista comigo sobre o meu último livro, O Teatro da Vacuidade ou a impossibilidade de ser eu (estudos e ensaios pessoanos).
terça-feira, 23 de agosto de 2011
"O que procuramos será real?"
“O que procuramos será real? Ou será o impossível / fruto do desejo sempre latente e indefinível?” – António Ramos Rosa
Talvez o que procuramos seja real, mas não a procura, nem o que julgamos procurar, nem quem procura, nem o que consideramos ser “real”. Talvez tudo isto seja sim “o impossível fruto do desejo sempre latente e indefinível”, isso que sempre se distancia do que busca por imaginar carecer do que em si superabunda.
"... e reconheci Deus na erva e nas plantas"
segunda-feira, 22 de agosto de 2011
domingo, 21 de agosto de 2011
Hermes Não-Afoito
Como uma lasca de vento
Meu mergulho não é mais de albatroz
Agora enterro-me no mar
E enáguo-me na terra
Rasgo com o vértice feito por meu caduceu
Uma frincha nas ondas
Espiralada com a força de minhas fagulhas
E vou num voo aquático
E lá
Danço uma falsa valsa
Com os seres translúcidos
De luz azul
terça-feira, 16 de agosto de 2011
A terra não é redonda, tem a forma de melão, com muitas pevides por dentro...
Foi assim que acabei de ler o poema, com meu pai ditando a forma de vida. Ali, onde tudo parecia ser tão simples. O melão tem na mesma planta, flores machos e fémea. Por isso ela pode se auto-fecundar. Acho que foi assim que Deus espalhou homens e mulheres pela terra.
A terra é redonda e dentro dela mora o vazio, tranquilo sereno onde nada acontece e deixa em aberto tudo o que há-de ser, respondi teimosa.
Tenho um metrónomo ao lado do computador que me vigia o compasso da emoção. Assim se meu texto desliza pela tristeza perde o tempo binário e me alerta que o tempo só existe se o meu texto sorrir.
No meu aniversário pais, irmãos, filhos, sobrinhos e companheiro juntaram-se e compraram o metrónomo da emoção.
Tentei avisar a minha família que o metrónomo só me iria fazer mal. Mas a família estava preocupada com o destino da minha poesia. A tristeza dominava o tom da escrita, o metrónomo iria ensinar-me o compasso da felicidade.
O meu metrónomo não me deixa chorar, nem quando ameaço a lágrima ele se comove. Avisa descontrolado que o compasso da vida é outro.
Para acompanhar o tempo da felicidade, tentei adaptar o texto e rosa passou a rimar prosa.
Desde então os meus dias são em allegro, 120 batidas por minuto, em cada meio segundo um sorriso. Sereno ou desenfredao - sorriso. Tic, tac.
Se o metrónomo fosse mecânico eu teria tirado a haste e no lugar dela a ausência definiria a eterna pausa, num compasso desconhecido.
Sem alento fui em busca da pilha, mas o metrónomo digital requer um especialista. Na loja pedi um metrónomo que só medisse o tempo, sem comentários extras.
O rapaz que me atendeu respondeu-me:
- Mas isso é um relógio…
- Não quero nada que meça a hora. Quero um metrómono da emoção porque meu pai está preocupado com o destino da minha escrita
- Mas o seu é excelente. O mais caro da loja..
- Então troque-o por um que esteja avariado e se contente com o tic, tac apenas, em vários BPM.
- Como quiser, mas quem vai lucrar é o gerente
- Dê-me um chinês. Bem parecido na forma, mas que não funcione.
- Desculpe a pergunta, mas porquê se desfaz de uma peça tão cara?
- Este metronomo não me deixa ser feliz…
- Ahhhh, hmmm, okok. Aqui tem este bem avariado.
- Obrigada.
A caminho de casa meu coração encontrou o caminho e chorou. Depois riu.
Tic, tac, clic. Tic, tac, tac, Clic.
A terra é redonda e dentro dela mora o vazio, tranquilo sereno onde nada acontece e deixa em aberto tudo o que há-de ser, respondi teimosa.
Tenho um metrónomo ao lado do computador que me vigia o compasso da emoção. Assim se meu texto desliza pela tristeza perde o tempo binário e me alerta que o tempo só existe se o meu texto sorrir.
No meu aniversário pais, irmãos, filhos, sobrinhos e companheiro juntaram-se e compraram o metrónomo da emoção.
Tentei avisar a minha família que o metrónomo só me iria fazer mal. Mas a família estava preocupada com o destino da minha poesia. A tristeza dominava o tom da escrita, o metrónomo iria ensinar-me o compasso da felicidade.
O meu metrónomo não me deixa chorar, nem quando ameaço a lágrima ele se comove. Avisa descontrolado que o compasso da vida é outro.
Para acompanhar o tempo da felicidade, tentei adaptar o texto e rosa passou a rimar prosa.
Desde então os meus dias são em allegro, 120 batidas por minuto, em cada meio segundo um sorriso. Sereno ou desenfredao - sorriso. Tic, tac.
Se o metrónomo fosse mecânico eu teria tirado a haste e no lugar dela a ausência definiria a eterna pausa, num compasso desconhecido.
Sem alento fui em busca da pilha, mas o metrónomo digital requer um especialista. Na loja pedi um metrónomo que só medisse o tempo, sem comentários extras.
O rapaz que me atendeu respondeu-me:
- Mas isso é um relógio…
- Não quero nada que meça a hora. Quero um metrómono da emoção porque meu pai está preocupado com o destino da minha escrita
- Mas o seu é excelente. O mais caro da loja..
- Então troque-o por um que esteja avariado e se contente com o tic, tac apenas, em vários BPM.
- Como quiser, mas quem vai lucrar é o gerente
- Dê-me um chinês. Bem parecido na forma, mas que não funcione.
- Desculpe a pergunta, mas porquê se desfaz de uma peça tão cara?
- Este metronomo não me deixa ser feliz…
- Ahhhh, hmmm, okok. Aqui tem este bem avariado.
- Obrigada.
A caminho de casa meu coração encontrou o caminho e chorou. Depois riu.
Tic, tac, clic. Tic, tac, tac, Clic.
Quando não se dá conta
Há quem me peça que os ais sejam os uis de quem ri.
Há quem me peça que faça de conta, porque quem não se dá conta, não sofre nem geme.
Enquanto escrevo, sorrio na descoberta do fim.
Depois de hibernar, vem a vontade de voar. No céu encontro o ar, no mar me encontro - sereia.
Entre, é o meu destino próximo. Sono longo, onde nada foi dito ou ouvido.
Intervalo presente - liberdade.
segunda-feira, 15 de agosto de 2011
Labirintos e “Entre-te-ni-mentos”
A seiva que corre dentro do corpo dos jardins é uma transfusão de luz na alma. Depois chove e a água não pode ser excessiva. Depois vem o sol e o sol não pode secar as folhas, os caules e as raízes. As árvores e as plantas mais pequenas e variadas devem bebê-la na quantidade que mais lhes convém, em harmonia com a sua necessidade e segundo a vontade natural. Assim deveria ser a vida do homem com a natureza. Todo o excesso e falta matam e destroem. É preciso deixar a Natureza fazer o seu trabalho e ao Homem pensá-lo e respeitá-lo. À Poesia, à Religião e à Filosofia, cabem a arte de fazer transbordar e transgredir. Para que se abra o Real, mostrando-o “Outro” no Mesmo. A Árvore na árvore, a Pedra na pedra. E no intervalo disso, no meio de onde não há meio, porque não há medida, no “Entre” de tudo isso, algum deus saudoso nos acena, como uma encoberta ilha.
A arte de “entrar” nessa Realidade não tem porta nem passagem, está para além das portas. Está para além das passagens. É de uma natureza outra, segundo uma nova ordenação. Coberta de sombras, essa fenda, essa passagem, esse interval de luz e de treva iluminados é onde o Poeta vê as palavras como se tocasse um mundo novo e Original: invisível e velado. Este é o mistério do mundo: ser e não ser. Os poetas e os contempladores vivem no «entre-ser» de tudo. As suas vidas são devir saudoso. Porque a “Saudade” é o “entre-tempo” e o “entre-espaço”: uma sombra real, uma luz velada, um mistério e um milagre maiores do que a vida que nos sentimos viver. Aí, o olhar é cegueira iluminada. Existir Isso, tonar-se visível Isso é a possibilidade de haver mundo e vida e a sua mesma impossibilidade. O homem é um paradoxo de si mesmo e a “arte” uma impossibilidade tornada possível. Viver a arte é cair nesse “intervalo”. Uma queda no abismo, “entre-realidades”. E, contudo, elas são a mesma, de uma outra maneira. Viver a Saudade é não existir. É ser do mundo, não estando nele nem fora dele, porque o não podemos estar e ser.
“Estar” e “ser” são dois estados. Verbos de Poetas e filósofos. No “intervalo” sonha-nos o mundo de olhos abertos, como veias por onde cresce a realidade e “nevoeiros” de onde se avista o véu da ilha que sonha vir ao nosso encontro, impossível juntá-los nesta ilusória dimensão. Segundo a Necessidade, a Beleza e o Amor, nos tornamos anjos, ninfas e nereides. Talvez cisnes, para adornar jardins. Segundo a Justiça e o Bem, nos tornaremos solitários. Como aqueles que se afastam para o deserto, hesicastas da alma, “amerímnios” do “estar”. Também como os que sobem montanhas e delas se salvam, como se tivessem “aprendido” a voar; como os derviches na saudação dos átomos e do amor que salva na dança, para que no movimento giratório tudo seja o mesmo no encontro com tudo. Às águias e aos falcões a natureza deu, em medida certa e justa, as “ferramentas” necessárias e originais. Aos “magos” o poder da transformação e da ilusão. Transformar em ouro na alquimia do coração, o real, é uma via morosa: é uma “combustão muito lenta, muito paciente”, como um esquecimento que se quer lembrado, um tempo que se quer eterno; um som que se ouve divinamente ausente. Silêncio que se quer Silêncio. No “intervalo”, ninguém se encontra e até o silêncio se ouve distinto. Como erguer pontes sobre o abismo entre uma coisa e outra coisa? É como aprender a ler sem necessidade de alfabetos ou de conceitos. É ver. O segredo é ver o invisível e pensar o impensável. Pensar a vitória sobre o Minotauro que somos é entrar no labirinto sem temor. Neste labirinto não há entrada nem saída, há mutação. Há sempre o que morrer em nós. Somos peles ressequidas em mudança e nunca deixaremos de existir. Podemos cobrir de penas essa nova pele. Criar um novo animal em nós? Não é o que somos, finalmente? ... “animais divinos” criados por nós? … Entretenimentos e interlúdios entre ser e ser? Amo as rosas que existiram: a-manhã!…
domingo, 14 de agosto de 2011
AMANTE
Limou as arestas, limpou o pó. Do que restou, ficou com o vermelho da paixão.
Ela é a sombra que não me acompanha e rouba a parte de mim que sonha.
Deixou comigo a dor da ausência.
Com um sorriso generoso ocupou meu lugar. Roubou meus gemidos na cama.
Inventou a tormenta quando ouviu a promessa amor eterno.
Deu-me de volta a fadiga de vida.
quinta-feira, 11 de agosto de 2011
Devagar toquei cada um dos seus pequenos dedos,
tentando que os meus se encaixassem nos dele.
Se o desejo fosse, só por si, suficiente,
todas as crianças do mundo seriam felizes.
Dor que trago agora no peito, tão escondido que mal posso suportar.
A violência fechada e tumultuada nas ruas, entre torpedos de ira.
Bolas de sabão que se multiplicam no abandono de uma nova civilização.
Sofrimento que invade meu corpo, pela tristeza
De todos os seres que se traiem na existência
Por tudo lhes ter sido negado à nascença.
Se o desejo fosse, só por si suficiente,
nenhuma criança morreria à fome
Teriam por sofrimento único
a ignorância do não sofrimento.
terça-feira, 9 de agosto de 2011
quarta-feira, 27 de julho de 2011
"Não é mais uma revista, é uma NOVA revista" - apresentação da ENTRE 3 por Miguel Real

FNAC/CHIADO – 26 – 7 - 2011
Apresentação de “ENTRE”, 3
Agradeço fortemente à direcção da revista, sobretudo a Paulo Borges e a Luís Reys o convite para apresentar “Cultura ENTRE Culturas”, acrescido do prazer de estar sentado ao lado de um estudioso e ficcionista que tanto admiro como o António Cândido Franco e de um editor que também há muito admiro, o dr. Baptista Lopes da “Âncora Editora”.
Como os três números publicados o evidenciam, “ENTRE” é uma NOVA revista de cultura. Não é mais uma revista, é uma NOVA revista, questionando possibilidades até agora desconhecidas do pensamento português, não a partir de um enfoque predeterminado, mas a partir do “Não-Lugar, “convertendo fronteiras em pontos de passagem, termos em mediações, limites em limiares” ” (nº 1, primavera-verão de 2010, texto de “Apresentação”).
Assim, NOVO, no caso de “ENTRE”, não significa a novidade que atrai a curiosidade, ou a originalidade académica, que atrai o espírito hermenêutico no interior de um mesmo modelo de pensamento. Não! Repete-se: - traz o novo, não a novidade. A novidade é a aparência nova do antigo, é o já sabido vestido de outras roupagens, outros métodos, outros conceitos, outra ideologia; o novo é violento, rompe com consensos, impõe-se pela força da argumentação, dá um outro e diferente sentido aos textos antigos e obriga os livros já firmados, as histórias do pensamento, a reverem os seus capítulos."
NOVO, no caso de “ENTRE”, significa um pensamento raramente pensado, uma visão ou teoria nunca socialmente aceite, uma concepção nunca levada a sério no campo da prática, sempre remetida até para o campo da marginalidade poética ou mística.
Dito de outro modo, NOVO, no caso de “ENTRE”, significa entreabrir uma porta para um OUTRO LUGAR, expressamente diferente do nosso lugar, isto é, significa abrir a porta do futuro e dar como efectiva a possibilidade de uma outra maneira de pensar e viver:
1. – pensar e viver sem a cristalização em blocos culturais identitários;
2. – pensar e viver sem favorecer um dos pólos da tensão metafísica entre ser e não-ser, entre bem e mal, matéria e espírito, corpo e alma, sujeito e objecto;
3. – pensar e viver sem a oposição cristalizada entre Ocidente e Oriente;
4. – pensar e viver libertando-nos dos cadáveres que 2 500 anos de civilização europeia nos penduraram nos ombros, que nos prendem ao passado, não nos deixam caminhar, arrastando-nos para uma terra repleta de campas fúnebres onde havia outrora o que exaltava a vida – as árvores, os rios, os animais, as crianças, os homens generosos;
5. – pensar e viver sem a clivagem maléfica entre vida e ser, existência humana e existência natural, harmonizando de novo homem e natureza.
“ENTRE” é a certeza de que esse outro lugar, outro mundo, outra vida – é possível, basta estar já a ser pensada hoje para ser possível no futuro; se hoje é sentida como necessária, no futuro tornar-se-á realidade. Como os 5 “Propósitos” de “ENTRE” reclamam no primeiro número – e como tudo o que o Paulo Borges e o Luiz Reys fazem – a revista consiste no anúncio da possibilidade de uma nova existência, hoje apenas “entre”vista, no futuro certamente experienciada e vivida diariamente.
Neste sentido, “ENTRE” corta com a retórica encomiástica do passado cultural de Portugal – os seus artigos sobre autores do passado são enquadrados numa visão de futuro segundo o novo modelo civilizacional – ser “vário”, ser uno e múltiplo ao mesmo tempo, ser nada e tudo simultaneamente, não estar preso à rocha da terra ou ao barco do mar, estar “entre” terra e mar, porventura na desordenada e caótica espuma da rebentação, não saber do norte e do sul e inventar nomadamente o caminho em cada curva da estrada.
O primeiro número dava-nos conta, afinal, de que “ENTRE” era, pelas suas propostas e propósitos, insituável: não era académica nem plebeia, não era neutra nem testemunha de um projecto intercultural subsidiado pela Comunidade Europeia, não louvaminhava o passado e abria-se a um futuro ainda vazio, que ambicionava preencher, auto-descobrindo-se dia a dia.
Como preencher um vazio com um conteúdo que ainda não existe? – ESTE O GRANDE, GRANDE PROBLEMA DE “ENTRE”.
No primeiro número, “ENTRE” namora o futuro através de artigos de Paulo Borges, Paulo Feitais, Carlos Silva, Raimon Pannikar, Hans Küng, Jean-Yves Leloup, François Jullien e Vilém Flusser – autores heterodoxos ao pensamento europeu normalizado – todos eles fazem explodir a actual cultura materialista e consumista europeia, apontando outros caminhos, que, de certo modo, são – também – os caminhos da “ENTRE”.
No segundo número, a procura de caminho continua – mas o solo torna-se mais consistente: a “vacuidade” assume-se como menos densa: artigos de Paulo Borges sobre Pessoa, Amon Pinho, Rui Lopo, Carlos João Correia, mas também Matthieu Ricard, Françoise Bonardel, Khyentse Rinpoche, Longchenpa, Rumi – e a grande conclusão sintetizada nos “Nove sutras sobre a paz” do falecido Raimon Pannikar – sobretudo o primeiro, muito premente ao espírito dos “Propósitos” da “ENTRE”: “Paz é a participação na harmonia do ritmo do ser”. Eis aqui o vazio do futuro a ser preenchido: a paz reside na harmonia do espírito da Terra, eis um grande, grande propósito orientador, capaz de tornar a nossa civilização às avessas.
Finalmente, o terceiro número, onde se aponta não um TEMA, como o 1º (“Que diálogo entre culturas?”) e como o 2º (“Encontro Ocidente – Oriente”) e mais um EXEMPLO: a vida e obra de Fernando Pessoa como um dos portugueses que, no nosso passado, viveu todos os tempos, e, não tendo tido biografia, viveu todas as maneiras de vida, todas as sensibilidades e racionalidades, postando-se, menos aqui ou além, e mais “ENTRE”. Pessoa, diferente de Pascoaes (António Cândido Franco), Pessoa exprimindo na poesia uma vivência da consciência diferente da redução transcendental da consciência de Husserl, apontando para a existência de um plano da experiência superadora da cisão sujeito – objecto (Paulo Borges), Pessoa e a Saudade “do presente (Bruno Béu), Pessoa e a superação da consciência temporalizada (António Faria), os espantosos artigos de Raquel Nobre Guerra e Luiz Pires dos Reys sobre a “surrealidade” em Pessoa e António Maria Lisboa, os estudos sobre a perspectiva de Pessoa e as culturas muçulmana e oriental, a questão da dupla autoria do Livro do Desassossego de Bernardo Soares e Vicente Guedes, os escritos filosóficos inéditos de Pessoa tematizados por Nuno Ribeiro segundo a sua conhecida tese defendida no livro Fernando Pessoa e Nietzsche: o pensamento da pluralidade, e mais Pessoa, mais Pessoa, mais Pessoa…
Ou seja, o nº 3 de “ENTRE” não só apresenta a vida e obra de Fernando Pessoa como um EXEMPLO de possibilidade de vida que rompe com o paradigma civilizacional fundado na cisão sujeito – objecto, como presta à cultura portuguesa um grande, grande favor, registando um óptimo dossier sobre a obra de Pessoa.
Muito obrigado.
segunda-feira, 25 de julho de 2011
O eucalipto nasce de uma bola pequena
Há quem ganhe a forma de uma mulher.
Entre a galinha e o ovo,
aos que a sorte foi companheira,
nascem com tempo até morrer
Mudam de forma até envelhecer.
Aos que a sorte foi inimiga,
nascem com fome e morrem com ela
Mudam de forma antes de envelhecer.
testemunhamos a vida.
sexta-feira, 22 de julho de 2011
Fotos do lançamento de "O Teatro da Vacuidade ou a impossibilidade de ser eu"
quinta-feira, 21 de julho de 2011
"Nós não viemos a este mundo: viemos dele, como as folhas de uma árvore"
- Alan Watts, O Livro do Tabu.
Mulher
seria teu amor esculpido
em cada um dos teus beijos
fosse ela eterna
de pedra seria
teu amor perdido
em cada despedida
Ah, se ela fosse a noiva
que te senta ao colo
e abriga teu corpo
sem medo
serias o jovem poeta,
feliz com a descoberta.
TORMENTA
deixar explodir
tudo o que eu não sei
e sequer
dou conta que sinto
meu corpo caia
sem peso
no peso do teu
fossem as estrelas
a luz de cada abraço
esquecido pelo caminho
teus doces lábios
nos meus
vazio que anseio
tormenta diária
" [...] a greater reality than reality itself"
- Fernando Pessoa, "The dream of Buddha" (excerto inédito).
terça-feira, 19 de julho de 2011
A memória de antes de existir é o mais íntimo segredo da saudade.
"A coisa mais antiga de que me lembro é uma tarde de Primavera em que eu talvez ainda não tivesse nascido"

"A coisa mais antiga de que me lembro é uma tarde de Primavera em que eu talvez ainda não tivesse nascido. Pelo menos não me lembro de estar ali - só me lembro da claridade difusa daquele quarto em que a Primavera entrava. Uma calma infinita poisava sobre as coisas - como se fosse o princípio do mundo e tudo estivesse ainda intocado"
- Sophia de Mello Breyner Andresen (inédito do espólio)
segunda-feira, 18 de julho de 2011
Convite para "O Teatro da Vacuidade ou a impossibilidade de ser eu"

"Neste livro pensam-se com e a partir de Fernando Pessoa alguns dos temas com ele comungados: a experiência da vida como teatro heteronímico; a ficcional (im)possibilidade do(s) eu(s) e do mundo como i-lusão ou jogo criador; o vislumbre do entre-ser, isso que (não) há entre uma coisa e outra, consoante a revista Cultura ENTRE Culturas; estados não conceptuais nem intencionais de consciência; os sentidos múltiplos de Portugal, Lusofonia e Quinto Império, na linha de Uma Visão Armilar do Mundo. Pessoa redescoberto pela filosofia, também em diálogo com António Machado, Jorge Luis Borges e Emil Cioran"
domingo, 17 de julho de 2011
Mado Robin sings the Bell Song from Lakmé
Our sweet Mado performs, for the french radio once again, the famous Bell Song from Léo Delibes' Lakmé (in 1956).
sábado, 16 de julho de 2011
Tudo certo
até ao meio-dia
e ao fim da tarde, uma Avé Maria
Consultar o médico
confiando irremediavelmente em nós
pulsar, de intuição pura
Condicionar o ar e desligar
tomar refresco
até não se constipar
Compor o corpo, marchar
a estudar as leis da Física
e aplicar, um Pai Nosso
Fortalecer o corpo para lutar
pela paz, por ti
como um filho de Ghandi
Rebentar de boa ação, redenção
Redentor de mil e um e-vento
como pôr fim ao sofrimento
Ou ficar toda a semana
debaixo da figueira com Gautama, islâmico
o Encoberto cabalista de sempre
Não há morte para a alma
invisíveis alados por todos os lados
a estudar se atingem bons resultados
Não é mais a criação
dos deuses, do que uma boa ideia
adornada por palavras certas
E, por fim, voltando ao principio
acautelando uma boa briga
para descanso geral da barriga
Também ao mundo não virá mal
se dermos meio a que Portugal, revele
esse infinito espírito santo
Luis Santos
P.S.: Com votos de bons resultados para o Seminário "Aflições" budistas e "pecados" cristãos.
terça-feira, 5 de julho de 2011
Country 2011
Época desta cegueira
Da mais branca neblina.
Todos os poetas se transcendem de humanismo,
Todos os audazes se concebem decadentes,
A vitória abstracta mundialmente falando,
E a derrota constante é um lugar abençoado.
Peso português na roda universal,
Carregando a vida pelas chagas de Cristo,
Arrasta em segredo o engenho capital,
Detective dos mares, reformado imprevisto.
De outrora esqueceu-se actual,
Povo de virtudes abismais,
Se de momento é hipnótico banal,
Verdade vindoura esquecerá Portugal.
Ilustre reacção imprescindível,
O rei morreu e África engrandeceu,
Se o conjunto suor tropeça e o rei não vem,
Aii de nós nostalgia, rainha o império é teu.
Diogo Correia
10/06/2011
Dia de Portugal
não andei de camelo,
banhei-me no mar egeu
e fui tida como turca
Ao verbo respondi
com um sorriso
desconcertados
devolveram-me outro
em Londres, calei a fala
em Bodrum, inventei o silêncio
dona e senhora
da palavra esquecida
nunca pronunciada
entre turcos e ingleses
balbuciei a existência
no regresso
dei-te um beijo
em pensamento
ainda não deste por ele
sexta-feira, 1 de julho de 2011
terça-feira, 28 de junho de 2011
domingo, 26 de junho de 2011
Giro derviche. Sheikh Ahmed Dede. La Vera
quarta-feira, 22 de junho de 2011
Dhikr SUFI na União Budista Portuguesa, Sábado 25 de Junho às 21,30, participação livre e gratuita

O dhikr ('menção', 'recordação') é uma das técnicas utilizadas pelos Sufis. Trata-se da repetição salmodiada dos Nomes Divinos, que nutre o coração e acalma a mente, abrindo uma janela sobre o mundo invisível. O dhikr pode ser individual ou grupal, silencioso ou salmodiado e ainda acompanhado por instrumentos musicais e danças místicas.
Estarão presentes, além dos representantes de Mawlana Shaykh Nazim (Mestre da ordem Sufi Naqshbandi) em Portugal, dois importantes representantes internacionais do Sufismo:
Shaykh Ahmad Dedé, iniciado nas ordem Sufis Mevlevi e Naqshbandi, autorizado ao ensino da dança rodopiante Sufi por Mawlana Shaykh Nazim al-Haqqani ar-Rabbani de Chipre (Mestre da ordem Sufi Naqshbandi); de origem indonésia, vive com a família dele em Holanda; com doçura e humildade conduz seminários de meditação, cantos e dança Sufi onde o despertar espiritual é alcançado tocando as vibrantes cordas do coração;http://blip.tv/naqshbandi/episodio-10-taller-de-giro-derviche-sheikh-ahmed-dede-la-vera-5223234
Shaykh 'Umar Margarit, representante e responsável da ordem Sufi Naqshbandi e de Mawlana Shaykh Nazim na Espanha.
A comunidade Sufi Naqshbandi agradece a União Budista Portuguesa pela fraterna disponibilização do espaço onde realizarmos o dhikr.
Sejam bem-vindos/as!
-- السلام عليكم - as-Salâm 'alaykum!
A comunidade Sufi Naqshbandi portuguesa
http://oceanosdemisericordia.blogspot.com
terça-feira, 21 de junho de 2011
Programa do Ciclo "Em Torno de Agostinho da Silva", na Casa Bocage, em Setúbal
25 de Junho - Sábado - 18h
Apresentação do ciclo de tertúlias "Em Torno de Agostinho da Silva” na Casa Bocage, por Maurícia Teles e Bruno Ferro
Apresentação do Portal Agostinho da Silva - "O Espólio", por Rui Lopo e Ricardo Ventura Apresentação do mais recente número da Revista "Cultura Entre Culturas", nº3, por Paulo Borges
16 de Julho - Sábado - 17h
"Agostinho da Silva, prefigurador da Comunidade Lusófona - nos 15 anos da CPLP" e apresentação do mais recente número da Revista "Nova Águia", por Renato Epifânio
10 de Setembro - Sábado - 17h
"O que é a Filosofia - de Kertchy Navarro? As Sete Cartas a um Jovem Filósofo de Agostinho da Silva", por Dirk Hennrich
15 de Outubro - Sábado - 17h
"Agostinho da Silva e a Cultura Portuguesa", por Miguel Real
12 de Novembro - Sábado - 16h
"São Martinho em Torno de Agostinho" (Título a definir), por Duarte Drumond Braga
(Título a definir), por Bruno Ferro
Leilão de um retrato de Agostinho da Silva (técnica mista) de José Manuel Capelo, por João Raposo Nunes
Piano improvisado, por Paulo Costa (a confirmar)
Participação livre e confraternização entre os presentes (com água pé, castanhas e afins)
domingo, 19 de junho de 2011
24º Encontro Inter-Religioso de Meditação - 21 de Junho - 18h
18h00 - Recepção/bhajan
18h45 - Leitura de breves textos, das várias tradições, intervalados por pausa de 1 minuto de silêncio.
Meditação tradicional Hare Krishna - 10 minutos
Meditação em silêncio - 25 minutos
Partilha de experiências
Breve oração colectiva pela paz e união entre todos
Pequeno convívio
Rua Dona Estefânia, 91
tel: 215320038
Janaki dd: 936935075
Krsna Puja: 918966583
Por um novo paradigma mental, ético e civilizacional
Manifestação particularmente violenta do antropocentrismo tem sido o especismo, preconceito pelo qual o homem discrimina os membros de outras espécies animais por serem diferentes e vulneráveis, mediante um critério baseado no tipo de inteligência que possuem que ignora a sua comum capacidade de sentirem dor e prazer físicos e psicológicos (a senciência, ou seja, a sensibilidade e o sentimento conscientes de si, distinto da sensitividade das plantas) ou o serem sujeitos-de-uma-vida, consoante as perspectivas de Peter Singer e Tom Regan [3]. A exploração ilimitada de recursos naturais finitos e dos animais não-humanos para fins alimentares, (pseudo-)científicos, de trabalho, vestuário e divertimento, tem causado um grande desequilíbrio ecológico e um enorme sofrimento. O especismo é afim a todas as formas de discriminação e opressão do homem pelo homem, como o sexismo, o racismo e o esclavagismo, embora sem o reconhecimento e combate de que estas têm sido alvo.
A desconsideração ética do mundo natural e da vida animal não só obsta à evolução moral da humanidade como também a lesa, lesando o planeta, como é particularmente evidente nos efeitos do consumo de carne industrial. Além do sofrimento dos animais, criados artificialmente em autênticos campos de concentração [4], além da nocividade da sua carne, saturada de antibióticos e hormonas de crescimento [5], a pecuária intensiva é um mau negócio com um tremendo impacte ecológico: a produção de 1 kg de carne de vaca liberta mais gases com efeito de estufa do que conduzir um carro e deixar todas as luzes de casa ligadas durante 3 dias, consome 13-15 kg de cereais/leguminosas e 15 000 litros de água potável, cuja escassez já causa 1.6 milhões de mortes por ano e novos ciclos bélicos (http://www.ambienteonline.pt/noticias/detalhes.php?id=7788); a pecuária intensiva é responsável por 18% da emissão de gases com efeito de estufa a nível mundial, como o metano, emitido pelo gado bovino, que contribui para o aquecimento global 23 vezes mais do que o dióxido de carbono; 70% do solo agrícola mundial destina-se a alimentar gado e 70% da desflorestação da selva amazónica deve-se à criação de pastagens e cultivo de soja para o alimentar; entre outros índices, destaque-se que toda a proteína vegetal hoje produzida no mundo para alimentar animais para consumo humano poderia nutrir directamente 2 000 milhões de pessoas, um terço da população mundial, enquanto 1 000 milhões padecem fome [6]. Isto leva a ONU a considerar urgente uma dieta sem carne nem lacticínios para alimentar de forma sustentável uma população que deve atingir os 9.1 biliões em 2050 [7].
Compreende-se assim a urgência de um novo paradigma mental, ético e civilizacional que veja que as agressões aos animais e à natureza são agressões da humanidade a si mesma, que não separe as causas humanitária, animal e ecológica e que reconheça um valor intrínseco e não apenas instrumental aos seres sencientes e ao mundo natural, consagrando juridicamente o direito dos primeiros à vida e ao bem-estar e o do segundo à preservação e integridade (no que respeita aos animais, Portugal possui um dos Códigos Civis mais atrasados, considerando-os meras coisas, o que urge alterar) [8]. Sem este novo paradigma, de uma nova humanidade, não antropocêntrica, em que o homem seja responsável pelo bem de tudo e de todos [9], não parece viável haver futuro.
[1] Kant considera o homem o “senhor da natureza”, que tem nele o seu “fim último” – Critique de la faculté de juger, 83, Paris, Vrin, 1982. O mesmo autor considera que os animais “não têm consciência de si mesmos e não são, por conseguinte, senão meios em vista de um fim. Esse fim é o homem”, que não tem “nenhum dever imediato para com eles” – Leçons d’éthique, Paris, LGF, 1997, p.391.
[2] Peter Raven escreve no Atlas of Population and Environment: "Impulsionamos a taxa de extinção biológica, a perda permanente de espécies, até centenas de vezes acima dos níveis históricos, e há a ameaça da perda da maioria de todas as espécies no fim do século XXI”. A equipa internacional liderada pelo biólogo Miguel Araújo, da Universidade de Évora, publicou recentemente um importante artigo na revista Nature sobre as consequências na “árvore da vida” das mutações climáticas antropogénicas: http://www.nature.com/nature/journal/v470/n7335/full/nature09705.html
[3] Cf. Peter Singer, Libertação Animal [1975], Porto, Via Óptima, 2008; Tom Regan, The Case for Animal Rights [1983], Berkeley, University of California Press, 2004, 3ª edição. Peter Singer segue a perspectiva utilitarista herdada de Jeremy Bentham e baseia-se na igualdade de interesses dos animais humanos e não-humanos em experimentarem o prazer e evitarem a dor, enquanto Tom Regan estende a muitos dos animais não-humanos a perspectiva deontológica de Kant, considerando-os indivíduos com identidade, iniciativas e objectivos e assim com direitos intrínsecos à vida, à liberdade e integridade. Cf. Os animais têm direitos? Perspectivas e argumentos, introd., org. e trad. de Pedro Galvão, Lisboa, Dinalivro, 2011.
[4] Cf. Peter Singer, Libertação Animal; Jonathan S. Foer, Comer Animais [2009], Lisboa, Bertrand, 2010.
[5] Segundo a Organização Mundial de Saúde, mais de 75% das doenças mais mortais nos países industrializados advêm do consumo de carne.
[6] Cf. um relatório de 2006 da FAO, Food and Agriculture Organization, da ONU, Livestock’s Long Shadow: environmental issues and options: http://www.fao.org/docrep/010/a0701e/a0701e00.HTM
[7] http://www.guardian.co.uk/environment/2010/jun/02/un-report-meat-free-diet
[8] Para uma introdução às diferentes perspectivas e questões éticas e jurídicas relacionadas com a natureza e os animais, cf. Fernando Araújo, A Hora dos Direitos dos Animais, Coimbra, Almedina, 2003; Maria José Varandas, Ambiente. Uma Questão de Ética, Lisboa, Esfera do Caos, 2009; Stéphane Ferret, Deepwater Horizon. Éthique de la Nature et Philosophie de la Crise Écologique, Paris, Seuil, 2011.
[9] Cf. Hans Jonas, Das Prinzip Verantwortung, Frankfurt am Mein, Insel Verlag, 1979.
sábado, 18 de junho de 2011
"A INTELLIGENCIA NÃO É DESTE MUNDO. É EXTRANHA À SUBSTANCIA DO MUNDO"
- Fernando Pessoa [inédito].
sexta-feira, 17 de junho de 2011
Filosofia e Poesia - Uma mesma luz, outra mesma linguagem.

O que é, na verdade, o conhecimento para a Filosofia? E para os Poetas, seus irmãos, será outro que o conhecimento do ser!? Para os Poetas, que encontram a palavra na semente de onde ela germina, na Origem da Saudade do Céu, conhecer é ser linguagem estelar. Não para a razão de ser, a linguagem, o mais soprado som da voz que a silencia, mas antes para o espanto de ser o mundo uma outra linguagem, um outro ser no mesmo ser desvelado. Conhecer é participar do ser, porventura seja “isso” a criação de outro que seja o fio, o anel dessa passagem pela (des)razão do ser que há. Para os Poetas, profetas da cegueira, é a visão que melhor conhece o que não tem como, pois de dentro e de fora do mistério é. Esse de que falam os poetas, o denso e obscuro mistério que em tudo habita e em tudo é constelação de nada, extingue-se na voz e na boca, para o nascer futuro de outra boca que o diga. A morte é a revelação de toda a claridade na obscuridade do mistério. Nisso, o poeta é “apóstolo” de uma ciência rara de ser e de estar, do “é” e do “há”.
No vórtice dessa avalanche de plenitude de ser desocultado, os Poetas abrem à filosofia uma via de rosas, um florir que ao sublime chamamento da alma sobe em jardins de antes de haver mundo e haver. Porque a boca do ser desenha o Silêncio que o poeta fala, para ouvir. Que bocas desenham, os poetas-filósofos, que não a outra face do mesmo milagre? Os filósofos a dizem na selva de uma linguagem, uma metalinguagem, para além da linguagem. Ansiosos, talvez, de tocar o nada com um dedo. Uma via hermenêutica que o Poeta revela, como se as nascidas palavras lhe crescessem na boca, na desordem harmónica de um caos sibilado em vozes. Cada uma seguindo o labirinto da sua mesma e esquecida Voz. O poeta é também a sua mesma lembrança, a sua Saudade de ser.
Afinal nada somos mais do que simples imagens do cosmos, com os braços abertos e o coração em estrela. Conhecer é participar do todo com o corpo e a voz. Mistério da encarnação, Logos de súbito acontecimento acontecido. Relâmpago e fulgor. Dizer é fazer acontecer, silenciar é orar. A ninguém oram os poetas e os filósofos. São bocas interditas. Tocam a luz e a treva com os dedos. Num mesmo gesto de ser.
Cada coisa é o seu mesmo mistério e espelho dele. Os Poetas e os Filósofos não pensam o mundo, não o explicam, que o mundo o não pode ser, sob o risco de deixar de ser, evidentemente, mistério e ser. Os poetas e os Filósofos estão no pensamento do mundo, percorrendo um labirinto debaixo de outro labirinto. Uma espiral enrolada sobre outra espiral girando em sentidos inversos e a vibrações complementares. O Poeta quer ser completo com o mundo, não apenas o que o homem também é: semente, luz, plano, vibração, um nada de uma vibração musical que crie o mundo e o nosso mesmo Silêncio de ser e de conceber, e, simultanamente, a mais completa sinfonia que reside nesse mesmo mistério.
Por isso mesmo, os poetas criam-se a si mesmos, e não têm que pedir desculpa a Deus. O Poeta deixa que a Palavra seja Silêncio e o silêncio se sagre em palavra. Os Poetas, pobres bocas pedintes, inspiram o mesmo mundo e envenenam a alma de mistérios segredados. Participam dos mitos, criando-se nadas com voz. Caminham por desertos de que conhecem os contornos indistintos das montanhas mágicas e sobem pelos anéis do sol, como se sagrados, no cume de si lhes nascessem asas ou bicos para furar a transparência de si mesmos, até ao recôndito abismo, de onde o Nada talvez grite e cante a uma mesma voz. Os poetas-filósofos são um terrível e sublime lugar de rios cruzados. Linhas de voz, pautas de sinfonias inventadas, dentro da vibração multiversal do mundo. Desocultam, desvelam, criam o ser e o não ser. Vão por florestas, clareiras, de novo, abraçadas: a terra e a terra. O mundo e o seu mistério engolem a voz, sopram-na para dentro de um poço tapado. (Des)labirintam-se em verdade. Encontram-se em montanhas tocadas pela voz que canta o ser da voz que o diz.
quarta-feira, 15 de junho de 2011
Da conversação com as coisas mudas
– Frei Agostinho da Cruz, Elegia II, “Da Arrábida”.
sábado, 11 de junho de 2011
"Tenho por vezes o sentimento de não ser um verdadeiro ser humano"
- Rosa Luxemburgo, "Cartas da Prisão".
O matrimônio mais dificultoso e infinitamente distante Verbo / Humanidade

"O matrimônio mais dificultoso e infinitamente distante (que foi o do Verbo com a humanidade) concordou-se em um instante; mas as opiniões dos entendimentos angélicos sobre este mesmo mistério, não se hão de concordar por toda a eternidade. Tanto mais fácil é unir distâncias e vontades, que casar opiniões e entendimentos. Poderem casar as pessoas sem o breve, era opinião; poderem casar as opiniões sem o breve, era impossível, por isso mandou Deus o breve."
Sermão Histórico Panegírico nos Anos da Rainha D. Maria Francisca de Sabóia, de Padre António Vieira.
sexta-feira, 10 de junho de 2011
"É melhor ser português do que ser feliz" - Fernando Pessoa (inédito)
quinta-feira, 9 de junho de 2011
"Duerme Lisboa", canção-poema de Pablo Guerrero

"Puerto hacia islas que antes has soñado
ropa en el viento tendida.
Gente que mira a los ojos despacio
mientras finge estar dormida.
Duerme Lisboa lugar de la luz blanca,
lugar de los encuentros del corazón y el mar.
Quien te visita conoce su destino,
ciudad de los amantes que saben naufragar.
Haces presente el tiempo de la infancia
magia de las calles perdidas.
Bebe, viajero el vino verde y limpio
de toda la melancolía.
Duerme Lisboa lugar de la luz blanca,
lugar de los encuentros del corazón y el mar.
Quien te visita conoce su destino,
ciudad de los amantes que saben naufragar.
Si alguna vez nací, nací en Lisboa"
"I dream in my dream all the dreams of the other dreamers"
And I become the other dreamers"
- Walt Whitman, Leaves of Grass.
"O bom português é várias pessoas"
a) adaptabilidade, que no mental dá a instabilidade, e portanto a diversificação do indivíduo dentro de si mesmo. O bom português é várias pessoas.
b) a predominância da emoção sobre a paixão. Somos ternos e pouco intensos, ao contrário dos espanhóis — nossos absolutos contrários — que são apaixonados e frios.
Nunca me sinto tão portuguesmente eu como quando me sinto diferente de mim — Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Fernando Pessoa, e quantos mais haja havidos ou por haver"
- Fernando Pessoa, Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação, p. 94.
terça-feira, 7 de junho de 2011
"EXCOMMUNICATION"
I, Charles Robert Anon, being, animal, mammal, tetrapod, primate, placental, ape, catarrhynce, (...)man;
eighteen years of age, not married (except at odd moments), megalomaniac, with touches of dipsomania,
dégénéré superior, poet, with pretensions to written humour, citizen of the world, idealistic philosopher,
etc. etc. (to spare the reader further pains)"
- um inédito de Fernando Pessoa sobre um dos seus primeiros heterónimos.
quinta-feira, 2 de junho de 2011
Agostinho da Silva - Penseur, écrivain, éducateur
Título : Agostinho da Silva
Autor : Borges, Paulo
Autor : Manuel Da Costa Esteves, José
Autor : Muzart Fonseca dos Santos, Idelette
Editor : Harmattan
Data de publicação : 2011
Assunto : Métiers et formations
Assunto : Ludique
Assunto : Histoire & culture
Língua : Françês
Formato : application/pdf
Senha : 9782296451742
Descrição : Agostinho da Silva était plusieurs personnages à la fois ; intellectuel et aventurier, pédagogue et philosophe, conseiller de présidents... Presque totalement inconnu en France, il l'est encore assez peu dans son pays natal, le Portugal. Révéré ou dédaigné, admiré ou vilipendé, il a fait tant de choses, lancé tant de projets, montré des facettes si différentes de sa personnalité ou de ses passions, qu'il est aujourd'hui encore un auteur à découvrir.
Procedência : izibook











