domingo, 19 de junho de 2011

Por um novo paradigma mental, ético e civilizacional

Vivemos hoje uma profunda crise do paradigma antropocêntrico que dominou a humanidade europeia-ocidental e se mundializou: nele o homem vê-se como centro e dono do mundo, reduzindo a natureza e os seres vivos a objectos desprovidos de valor intrínseco, como meros meios destinados a servir os fins e interesses humanos [1]. Se o surgimento da ciência e da tecnologia moderna obedeceu, sobretudo após as duas Revoluções Industriais, à crença no progresso geral da humanidade mediante o domínio da natureza e a exploração ilimitada dos seus recursos, incluindo os seres vivos, vive-se hoje a frustração dessa expectativa de um Paraíso terreno científico-tecnológico e económico: o sonho comum aos projectos liberais e socialistas converteu-se no pesadelo da persistente guerra, fome e pobreza, da crise económico-financeira, da destruição da biodiversidade, do sofrimento humano e animal e da iminência de colapso ecológico. Muitos relatórios científicos mostram o tremendo impacte que o actual modelo de crescimento económico tem sobre a biosfera planetária, acelerando a sexta extinção em massa do Holoceno, com uma redução drástica da biodiversidade, sobretudo nos últimos 50 anos, a um ritmo que pode chegar a 140 000 espécies de plantas e animais por ano, devido a causas humanas: destruição de florestas e outros habitats, caça e pesca, introdução de espécies não-nativas, poluição e mudanças de clima [2].

Manifestação particularmente violenta do antropocentrismo tem sido o especismo, preconceito pelo qual o homem discrimina os membros de outras espécies animais por serem diferentes e vulneráveis, mediante um critério baseado no tipo de inteligência que possuem que ignora a sua comum capacidade de sentirem dor e prazer físicos e psicológicos (a senciência, ou seja, a sensibilidade e o sentimento conscientes de si, distinto da sensitividade das plantas) ou o serem sujeitos-de-uma-vida, consoante as perspectivas de Peter Singer e Tom Regan [3]. A exploração ilimitada de recursos naturais finitos e dos animais não-humanos para fins alimentares, (pseudo-)científicos, de trabalho, vestuário e divertimento, tem causado um grande desequilíbrio ecológico e um enorme sofrimento. O especismo é afim a todas as formas de discriminação e opressão do homem pelo homem, como o sexismo, o racismo e o esclavagismo, embora sem o reconhecimento e combate de que estas têm sido alvo.

A desconsideração ética do mundo natural e da vida animal não só obsta à evolução moral da humanidade como também a lesa, lesando o planeta, como é particularmente evidente nos efeitos do consumo de carne industrial. Além do sofrimento dos animais, criados artificialmente em autênticos campos de concentração [4], além da nocividade da sua carne, saturada de antibióticos e hormonas de crescimento [5], a pecuária intensiva é um mau negócio com um tremendo impacte ecológico: a produção de 1 kg de carne de vaca liberta mais gases com efeito de estufa do que conduzir um carro e deixar todas as luzes de casa ligadas durante 3 dias, consome 13-15 kg de cereais/leguminosas e 15 000 litros de água potável, cuja escassez já causa 1.6 milhões de mortes por ano e novos ciclos bélicos (http://www.ambienteonline.pt/noticias/detalhes.php?id=7788); a pecuária intensiva é responsável por 18% da emissão de gases com efeito de estufa a nível mundial, como o metano, emitido pelo gado bovino, que contribui para o aquecimento global 23 vezes mais do que o dióxido de carbono; 70% do solo agrícola mundial destina-se a alimentar gado e 70% da desflorestação da selva amazónica deve-se à criação de pastagens e cultivo de soja para o alimentar; entre outros índices, destaque-se que toda a proteína vegetal hoje produzida no mundo para alimentar animais para consumo humano poderia nutrir directamente 2 000 milhões de pessoas, um terço da população mundial, enquanto 1 000 milhões padecem fome [6]. Isto leva a ONU a considerar urgente uma dieta sem carne nem lacticínios para alimentar de forma sustentável uma população que deve atingir os 9.1 biliões em 2050 [7].

Compreende-se assim a urgência de um novo paradigma mental, ético e civilizacional que veja que as agressões aos animais e à natureza são agressões da humanidade a si mesma, que não separe as causas humanitária, animal e ecológica e que reconheça um valor intrínseco e não apenas instrumental aos seres sencientes e ao mundo natural, consagrando juridicamente o direito dos primeiros à vida e ao bem-estar e o do segundo à preservação e integridade (no que respeita aos animais, Portugal possui um dos Códigos Civis mais atrasados, considerando-os meras coisas, o que urge alterar) [8]. Sem este novo paradigma, de uma nova humanidade, não antropocêntrica, em que o homem seja responsável pelo bem de tudo e de todos [9], não parece viável haver futuro.


[1] Kant considera o homem o “senhor da natureza”, que tem nele o seu “fim último” – Critique de la faculté de juger, 83, Paris, Vrin, 1982. O mesmo autor considera que os animais “não têm consciência de si mesmos e não são, por conseguinte, senão meios em vista de um fim. Esse fim é o homem”, que não tem “nenhum dever imediato para com eles” – Leçons d’éthique, Paris, LGF, 1997, p.391.
[2] Peter Raven escreve no Atlas of Population and Environment: "Impulsionamos a taxa de extinção biológica, a perda permanente de espécies, até centenas de vezes acima dos níveis históricos, e há a ameaça da perda da maioria de todas as espécies no fim do século XXI”. A equipa internacional liderada pelo biólogo Miguel Araújo, da Universidade de Évora, publicou recentemente um importante artigo na revista Nature sobre as consequências na “árvore da vida” das mutações climáticas antropogénicas: http://www.nature.com/nature/journal/v470/n7335/full/nature09705.html
[3] Cf. Peter Singer, Libertação Animal [1975], Porto, Via Óptima, 2008; Tom Regan, The Case for Animal Rights [1983], Berkeley, University of California Press, 2004, 3ª edição. Peter Singer segue a perspectiva utilitarista herdada de Jeremy Bentham e baseia-se na igualdade de interesses dos animais humanos e não-humanos em experimentarem o prazer e evitarem a dor, enquanto Tom Regan estende a muitos dos animais não-humanos a perspectiva deontológica de Kant, considerando-os indivíduos com identidade, iniciativas e objectivos e assim com direitos intrínsecos à vida, à liberdade e integridade. Cf. Os animais têm direitos? Perspectivas e argumentos, introd., org. e trad. de Pedro Galvão, Lisboa, Dinalivro, 2011.
[4] Cf. Peter Singer, Libertação Animal; Jonathan S. Foer, Comer Animais [2009], Lisboa, Bertrand, 2010.
[5] Segundo a Organização Mundial de Saúde, mais de 75% das doenças mais mortais nos países industrializados advêm do consumo de carne.
[6] Cf. um relatório de 2006 da FAO, Food and Agriculture Organization, da ONU, Livestock’s Long Shadow: environmental issues and options: http://www.fao.org/docrep/010/a0701e/a0701e00.HTM
[7] http://www.guardian.co.uk/environment/2010/jun/02/un-report-meat-free-diet
[8] Para uma introdução às diferentes perspectivas e questões éticas e jurídicas relacionadas com a natureza e os animais, cf. Fernando Araújo, A Hora dos Direitos dos Animais, Coimbra, Almedina, 2003; Maria José Varandas, Ambiente. Uma Questão de Ética, Lisboa, Esfera do Caos, 2009; Stéphane Ferret, Deepwater Horizon. Éthique de la Nature et Philosophie de la Crise Écologique, Paris, Seuil, 2011.
[9] Cf. Hans Jonas, Das Prinzip Verantwortung, Frankfurt am Mein, Insel Verlag, 1979.

sábado, 18 de junho de 2011

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Filosofia e Poesia - Uma mesma luz, outra mesma linguagem.


O que é, na verdade, o conhecimento para a Filosofia? E para os Poetas, seus irmãos, será outro que o conhecimento do ser!? Para os Poetas, que encontram a palavra na semente de onde ela germina, na Origem da Saudade do Céu, conhecer é ser linguagem estelar. Não para a razão de ser, a linguagem, o mais soprado som da voz que a silencia, mas antes para o espanto de ser o mundo uma outra linguagem, um outro ser no mesmo ser desvelado. Conhecer é participar do ser, porventura seja “isso” a criação de outro que seja o fio, o anel dessa passagem pela (des)razão do ser que há. Para os Poetas, profetas da cegueira, é a visão que melhor conhece o que não tem como, pois de dentro e de fora do mistério é. Esse de que falam os poetas, o denso e obscuro mistério que em tudo habita e em tudo é constelação de nada, extingue-se na voz e na boca, para o nascer futuro de outra boca que o diga. A morte é a revelação de toda a claridade na obscuridade do mistério. Nisso, o poeta é “apóstolo” de uma ciência rara de ser e de estar, do “é” e do “há”.

No vórtice dessa avalanche de plenitude de ser desocultado, os Poetas abrem à filosofia uma via de rosas, um florir que ao sublime chamamento da alma sobe em jardins de antes de haver mundo e haver. Porque a boca do ser desenha o Silêncio que o poeta fala, para ouvir. Que bocas desenham, os poetas-filósofos, que não a outra face do mesmo milagre? Os filósofos a dizem na selva de uma linguagem, uma metalinguagem, para além da linguagem. Ansiosos, talvez, de tocar o nada com um dedo. Uma via hermenêutica que o Poeta revela, como se as nascidas palavras lhe crescessem na boca, na desordem harmónica de um caos sibilado em vozes. Cada uma seguindo o labirinto da sua mesma e esquecida Voz. O poeta é também a sua mesma lembrança, a sua Saudade de ser.

Afinal nada somos mais do que simples imagens do cosmos, com os braços abertos e o coração em estrela. Conhecer é participar do todo com o corpo e a voz. Mistério da encarnação, Logos de súbito acontecimento acontecido. Relâmpago e fulgor. Dizer é fazer acontecer, silenciar é orar. A ninguém oram os poetas e os filósofos. São bocas interditas. Tocam a luz e a treva com os dedos. Num mesmo gesto de ser.

Cada coisa é o seu mesmo mistério e espelho dele. Os Poetas e os Filósofos não pensam o mundo, não o explicam, que o mundo o não pode ser, sob o risco de deixar de ser, evidentemente, mistério e ser. Os poetas e os Filósofos estão no pensamento do mundo, percorrendo um labirinto debaixo de outro labirinto. Uma espiral enrolada sobre outra espiral girando em sentidos inversos e a vibrações complementares. O Poeta quer ser completo com o mundo, não apenas o que o homem também é: semente, luz, plano, vibração, um nada de uma vibração musical que crie o mundo e o nosso mesmo Silêncio de ser e de conceber, e, simultanamente, a mais completa sinfonia que reside nesse mesmo mistério.

Por isso mesmo, os poetas criam-se a si mesmos, e não têm que pedir desculpa a Deus. O Poeta deixa que a Palavra seja Silêncio e o silêncio se sagre em palavra. Os Poetas, pobres bocas pedintes, inspiram o mesmo mundo e envenenam a alma de mistérios segredados. Participam dos mitos, criando-se nadas com voz. Caminham por desertos de que conhecem os contornos indistintos das montanhas mágicas e sobem pelos anéis do sol, como se sagrados, no cume de si lhes nascessem asas ou bicos para furar a transparência de si mesmos, até ao recôndito abismo, de onde o Nada talvez grite e cante a uma mesma voz. Os poetas-filósofos são um terrível e sublime lugar de rios cruzados. Linhas de voz, pautas de sinfonias inventadas, dentro da vibração multiversal do mundo. Desocultam, desvelam, criam o ser e o não ser. Vão por florestas, clareiras, de novo, abraçadas: a terra e a terra. O mundo e o seu mistério engolem a voz, sopram-na para dentro de um poço tapado. (Des)labirintam-se em verdade. Encontram-se em montanhas tocadas pela voz que canta o ser da voz que o diz.

"Nada peças nem perguntes, inventa o mundo"

- Agostinho da Silva, Cortina 1 [inédito].

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Da conversação com as coisas mudas

“Assi com cousas mudas conversando, / Com mais quietação delas aprendo, / Que de outras, que ensinar querem falando. // Se pelejo, se grito, se contendo / Com armas, com razões, com argumentos, / Elas só com calar ficam vencendo”

– Frei Agostinho da Cruz, Elegia II, “Da Arrábida”.

sábado, 11 de junho de 2011

"Tenho por vezes o sentimento de não ser um verdadeiro ser humano"

"Tenho por vezes o sentimento de não ser um verdadeiro ser humano, mas uma ave ou um qualquer animal que houvesse tomado forma humana"

- Rosa Luxemburgo, "Cartas da Prisão".

O matrimônio mais dificultoso e infinitamente distante Verbo / Humanidade


"O matrimônio mais dificultoso e infinitamente distante (que foi o do Verbo com a humanidade) concordou-se em um instante; mas as opiniões dos entendimentos angélicos sobre este mesmo mistério, não se hão de concordar por toda a eternidade. Tanto mais fácil é unir distâncias e vontades, que casar opiniões e entendimentos. Poderem casar as pessoas sem o breve, era opinião; poderem casar as opiniões sem o breve, era impossível, por isso mandou Deus o breve."

Sermão Histórico Panegírico nos Anos da Rainha D. Maria Francisca de Sabóia, de Padre António Vieira.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

"Duerme Lisboa", canção-poema de Pablo Guerrero




"Puerto hacia islas que antes has soñado
ropa en el viento tendida.
Gente que mira a los ojos despacio
mientras finge estar dormida.

Duerme Lisboa lugar de la luz blanca,
lugar de los encuentros del corazón y el mar.
Quien te visita conoce su destino,
ciudad de los amantes que saben naufragar.

Haces presente el tiempo de la infancia
magia de las calles perdidas.
Bebe, viajero el vino verde y limpio
de toda la melancolía.

Duerme Lisboa lugar de la luz blanca,
lugar de los encuentros del corazón y el mar.
Quien te visita conoce su destino,
ciudad de los amantes que saben naufragar.

Si alguna vez nací, nací en Lisboa"

"I dream in my dream all the dreams of the other dreamers"

"I dream in my dream all the dreams of the other dreamers, /
And I become the other dreamers"

- Walt Whitman, Leaves of Grass.

"O bom português é várias pessoas"

"Sendo nós portugueses, convém saber o que é que somos.
a) adaptabilidade, que no mental dá a instabilidade, e portanto a diversificação do indivíduo dentro de si mesmo. O bom português é várias pessoas.
b) a predominância da emoção sobre a paixão. Somos ternos e pouco intensos, ao contrário dos espanhóis — nossos absolutos contrários — que são apaixonados e frios.
Nunca me sinto tão portuguesmente eu como quando me sinto diferente de mim — Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Fernando Pessoa, e quantos mais haja havidos ou por haver"

- Fernando Pessoa, Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação, p. 94.

terça-feira, 7 de junho de 2011

"EXCOMMUNICATION"

"―EXCOMMUNICATION

I, Charles Robert Anon, being, animal, mammal, tetrapod, primate, placental, ape, catarrhynce, (...)man;
eighteen years of age, not married (except at odd moments), megalomaniac, with touches of dipsomania,
dégénéré superior, poet, with pretensions to written humour, citizen of the world, idealistic philosopher,
etc. etc. (to spare the reader further pains)"

- um inédito de Fernando Pessoa sobre um dos seus primeiros heterónimos.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Agostinho da Silva - Penseur, écrivain, éducateur


Título : Agostinho da Silva
Autor : Borges, Paulo
Autor : Manuel Da Costa Esteves, José
Autor : Muzart Fonseca dos Santos, Idelette
Editor : Harmattan
Data de publicação : 2011
Assunto : Métiers et formations
Assunto : Ludique
Assunto : Histoire & culture
Língua : Françês
Formato : application/pdf
Senha : 9782296451742
Descrição : Agostinho da Silva était plusieurs personnages à la fois ; intellectuel et aventurier, pédagogue et philosophe, conseiller de présidents... Presque totalement inconnu en France, il l'est encore assez peu dans son pays natal, le Portugal. Révéré ou dédaigné, admiré ou vilipendé, il a fait tant de choses, lancé tant de projets, montré des facettes si différentes de sa personnalité ou de ses passions, qu'il est aujourd'hui encore un auteur à découvrir.
Procedência : izibook

Agustina Bessa Luis: Nasci Adulta Morrerei Criança

terça-feira, 24 de maio de 2011

O PRATO - POEMA - SYLVIA BEIRUTE





















O PRATO

o poema vai reagir aos olhos do rei.
quando as suas palavras se perderem
noutras palavras.
em cada segunda-feira.
em cada fernando pessoa de madrugada
e instante.
e por cada vergonha, um beijo
vale a pena
pela observação linguística do facto,
pelo cansaço da subida
na metafísica das mãos coladas.
o poema vai reagir aos olhos do rei.
daqui a pouco.
num prato de perguntas. numa mesa
de respostas
onde comer uma uva é recitar a memória
que cumpre um dever.

Sylvia Beirute
publicado no blogue "uma casa em beirute"

sexta-feira, 20 de maio de 2011

fosses tu
o meu desejo
eu seria o compasso
em que respiras

em cada beijo
um sopro suave
feito da vontade
de outro beijo

fosses tu
o meu desejo
eu seria o vazio
que se completa

fosses tu
quem eu sou agora
um corpo suado
molhado, em ti

foz de um novo rio.

domingo, 15 de maio de 2011

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Deixa que o rio se estreite. Conta-me tudo, sem pressa. Conta-me o resto.As casas decimais estão sempre a fugir.esquece a vírgula,  coloca outro zero. as contas nunca se acertam. Deixa-me agora descansar nesse teu estar. Devagar, estar em ti. No cheiro que adormece preguiçoso em teu corpo, Deixa-me estar entre a vontade e o desejo de continuar a estar. Deixa-me agora, que durmo  em silêncio enquanto me esqueço...

sábado, 7 de maio de 2011

Cultivar a consciência ecológica

"(...) cultivar a consciência ecológica. Esse processo implica que nos tornemos mais conscientes da efectiva realidade das rochas, dos lobos, das árvores e dos rios - o cultivo da intuição segundo a qual tudo está ligado com tudo. Cultivar a consciência ecológica é um processo em que se aprende a apreciar o silêncio e a solidão e a redescobrir a capacidade de escutar. Em que se aprende como ser mais receptivo, confiante, holístico na percepção, enraízado numa visão não-exploradora da ciência e da tecnologia"

- Bill Devall / George Sessions, "Ecologia Profunda. Dar prioridade à natureza na nossa vida", Águas Santas, Edições Sempre-Em-Pé, 2004, p.23.

Figure de la Barque inventée en 1709 : [estampe]

Amr Al-Maghraby

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Índice do nº 3 da revista Cultura Entre Culturas, dedicada a Fernando Pessoa : a apresentação é hoje, dia 4, às 20,00 h, na Univ. Nova


CULTURA ENTRE CULTURAS Nº 3
ÍNDICE
editorial
fernando pessoa
tanto Pessoa Entre tantos Pessoa

ensaios   
antónio cândido franco
sentido do dissídio entre Teixeira de Pascoaes e Fernando Pessoa   
paulo borges
a mensagem da Mensagem: “sem saber de ouvir ouvimos” ou de como a intencionalidade reduz a consciência   
bruno béu de carvalho
fernando pessoa e a saudade do presente – uma aproximação
antónio faria
o “tempo” e os 35 sonetos de fernando pessoa (breves apontamentos)
joão marques lopes
fernando pessoa: da Mensagem à “elegia na sombra” 

Dossier Pessoa:  paralelas, tangentes e secantes  
raquel nobre guerra
surrealismo místico em António Maria Lisboa e Fernando Pessoa transcendência, absoluto e subitaneidade  
luiz pires dos reys
isso hoje único: erro próprio na navegação da mensagem da des’Hora - corolários de certos entrecampos de enMagi[n]ação do [i]Real em fernando pessoa e antónio maria lisboa   

fotografia |  poesia    

antónio ramos rosa
desenho 
gisela ramos rosa
dos rostos 
antónio cândido franco 
isabel de Aragão
luiz pacheco
joana serrado
2. luttikhuizen
een demiurg (um demiurgo)
de afzinkbare brug (a ponte escorregadia) 
met de zuiderzoon vertrekken (Partir com o filho posto)  
casimiro de brito (de "Amar a Vida Inteira")
amo-te. basta-me um pássaro
o jogo extremo dos amantes
branco no branco, cantou
ana f. cravo
e, ........................................é como um sol em passos 
dirk hennrich
Linha de Cascais  96
frederico mira george
4 poemas de: «satã» 2º parte - «demon est Deus inverse»
maurícia teles da silva
dez  asanas  em  louvor da Terra  101
abdul cadre
mensagem psicoplágica
a saudade e a memória (Ou como os olhos ficam e as velas partem)

donis de frol guilhade
olor de lys  
esplende além tejo o que silente brota (furores em como espelho oco : ecos, como de Char) 
as sete incan-descentes palavras de um lugar[-in]comum - e mais uma, fora do [sem] lugar 
abóbada lysa ~ crematório dos passos inúteis 
mariis capela
(“Desde a obscuridade de tudo que tudo é inocente”)   
fernando pessoa
quatro poemas tirados a esmo e atirados ao desa’rumo: mais “o vento lá fora”…

caderno pessoa | i n é d i t o s 
fabrizio boscaglia
Khayyām na obra e na biblioteca de Pessoa: entre poesia, filosofia e ecos de sabedoria Sufi  
jerónimo pizarro, patricio ferrari, antonio cardiello
os Orientes de Fernando Pessoa   
cláudia souza
Vicente Guedes e Bernardo Soares: para além do Desasocego
nuno filipe ribeiro
«tive em mim milhares de filosofias» - questões para a edição dos escritos filosóficos inéditos de Pessoa 

sobre Pessoa | outras vozes: d’além   
ciprian valcan

os sonhos de Bernardo Soares 

julia alonso dieguez
fernando pessoa y josé angel valente: una poética de la ausencia 
pablo Javier pérez lópez
metafísica y locura en fernando pessoa 

sobre Pessoa | outras vozes: d’aqui    
josé almeida
emoção e racionalidade em A Educação do Estóico   
joaquim miguel patrício
uma perspectiva pessoana e actualista da língua portuguesa  


outras  | artes  : outras   vozes  outros textos 
inês do carmo borges
os labirintos quinhentistas do Trattato di Architettura de Filarete e a imagem dual do arquitecto-prisioneiro em Fernando Pessoa  
pedro casteleiro
de amor e desamor(e outros indícios)
luiz pires dos reys
mar  y  pousa de mim: janus sustenido menor
colaboradores  notas bio-bibliográficas 

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Benjamin

Na partida, Benjamin avisou-me que teríamos de fazer uma paragem. Perguntei onde e porquê, mas Benjamin pediu-me paciência.

- Há coisas que não se explicam, Hannah...

O nosso destino era vago:  alcançarmos o Extremo Oriente. Vi homens baixos, vi outros tão altos que mal lhes reconheci o contorno da cabeça. Dormi debaixo de árvores gigantes que me abrigaram nas noites chuvosas. Sem pressa, deixei que o corpo se adaptasse ao calor húmido da floresta e ao ar rarefeito das montanhas. Acompanhei o sol, e a noite foi sendo sempre noite no meu corpo viajante. Alguns dos nossos companheiros ficaram em Goa, outros seguiram caminho para oeste. Eu e Benjamin, continuámos a caminhar para leste.

Benjamin acordou cedo. Retirou da mochila um pião rendado, em prata.
- O que é isso, Ben?
- É a encomenda que tenho de entregar...
Já tinha esquecido. Há tantos meses a viajar, só agora dei conta que o meu amigo limpava a peça todas as manhãs.

Lembro-me do pião que o meu pai me deu, num passe de mágica rodopiava, ganhava velocidade. Da pequena peça de madeira só vislumbrava o tempo que voava. Uma bruma fina envolvia o brinquedo que parecia imóvel, centrado em si mesmo. Depois, cansado, cambaleava como se estivesse bêbado, acabando por cair tombado de lado.

Memórias que o tempo roubou e tu, Benjamin acabas de me devolver.
- Ben, lembras do dreidel*?
- Em cada face uma letra do alfabeto hebraico: Nun, Gimmel, Heh and Shin...
- "Nes Gadol Hayah Sham" ("Um grande Milagre Aconteceu")...

Benjamin é meu amigo infância. Na escola aprendemos a ler, cantámos as letras do alfabeto hebraico, uma a uma a formarem palavras encantadas. Na escola, cantou comigo no Pessah* - Ma Nishtaná halaila hazé micol haleilot? (Porque esta noite não é em nada igual a todas as outras noites?).

- Lembras, Ben? Hailala hazé...

Depois da escola primária, mudei de cidade, cresci longe de Ben. O yiddish foi sendo esquecido e do hebraico só sei escrever o meu nome: הַנְנַה
Um pequeno pião de prata lembrou-me criança.
- Isto é um pião estranho, Ben...
Benjamin sorriu.
- Nem tudo que parece é, Hannah.

Continuámos a viajar, agora junto ao mar. Em cada aldeia, um novo peixe. Nossa pele mudou de cor. Meu corpo salgou no corpo de Benjamin. Semente de um novo amor.
- Por onde me levas, Ben?
Silencioso, Benjamin calava meus lábios na sua boca sempre entreaberta.
À  noite casavamos as nossas vontades. De manhã, ríamos delas.
- Para onde vamos, Ben?
- Sempre a oriente, Hannah...
Quando o corpo está apaixonado pede o corpo do amado. Sem ele, parece morrer. Com ele encontra a morte, feliz, num breve e longo instante.

O dia encontrava a noite. A noite amanhecia. Benjamin, todas as manhãs, delicadamente limpava o pião de prata. Quinze minutos diários, focados na renda fina.
- Que pião é esse, Ben?
- Em breve, Hannah, vais saber. Quando a hora for hora...
Benjamin nunca teve pressa com nada. Quando dança, rodopia, sempre centrado no eixo. Quando pára, tomba devagar.

Um longo abraço marcou o reencontro com Leo, nosso companheiro de viagem.
- Como vieste aqui parar, se seguiste para ocidente? - perguntei
- Fiz um desvio e outro, pelo caminho. Perdi-me, encontrei-me. Entre um e outro, parei...
Os meus amigos sempre foram assim. Entre o sim e o não … existem.

Com Leo, fomos ficando na aldeia à beira-mar. De madrugada, acordavam e partiam com os pescadores. À tarde, regressavam com o jantar. Cansado Ben, salgava meu corpo, lentamente.

- Está na hora de partir, Hannah...
- Quando?
- Amanhã. Não leves nada contigo, a não ser a roupa que trazes vestida. Uma mochila leve, com um pequeno agasalho...
- Mas o que faço com o resto?
- Dá a quem precisa, Hannah. Alivia o peso. Não precisas de mais nada, senão do teu corpo leve.
Contrariada, deixei minha mala de viagem. Nela, meus sapatos novos, livros e roupas usadas. Enrolei meu diário velho no casaco que guardei na mochila.
- Hannah, o que viveste está desenhado no teu corpo...
- Tenho medo de esquecer, Ben.
Nessa noite, adormecemos abraçados. Senti seu coração, ritmado com o meu. Um ar morno, manso, viajou entre as nossas bocas.
Antes do sol nascer, despedimo-nos de Leo. Um abraço prolongado, silencioso, marcou o nosso adeus.

Antes, Ben afagou de novo o pião. Desta vez, enrolou-o cuidadosamente num longo pano de linho branco. Deu voltas e voltas, até que o pião deixasse de ser a peça de prata rendada e não fosse mais que uma trouxa de pano. Em seguida, guardou-o na sua velha mochila.
- É esta a tua única bagagem, querido?
- Sim, Hannah...
Sei quando Ben não quer falar. Aprendi com ele a gostar de cada intervalo pausado, dar espaço a todos ruídos, encontrar o som do vento, identificar o canto diferenciado de cada pássaro, ou simplesmente ouvir o som mudo do silêncio que se alonga no outro.

Caminhámos calados, passo a passo, entre aldeias. Caminhámos de mãos dadas, sem nunca nos tocarmos. Ben seguia ao meu lado, tranquilo. Uma paz estranha tomou conta de mim.
Poucas semanas antes, soube do falecimento da minha avó. Meu coração ficou pequeno. Apertado, encontrou a dor. Chorei de mansinho, junto com a noite - toda a noite. De manhã entreguei ao mar a saudade que sinto dela. Desembocou no oceano, espalhou-se por todos os mares, encontrou outras águas, doces e salgadas, irrigou o campo, semeou a terra. Até já, avó.

O sol disse adeus antes do anoitecer.
- Vamos descansar. Ainda temos umas horas de caminho.
Ben sentou-se em cima de um pedaço de pedra. Eu sentei-me no chão, junto a ele. Com a cabeça em seu colo adormeci.
- Acorda, Hannah. Temos de seguir...
Em que instante mudamos? Uma dor estranha aparece no peito, como uma flor que desabrocha, a mesma que nos acolhe quando nascemos. Quantas vezes mudamos, antes de morrermos?

Quanto mais rápido rodopia o pião, mais imóvel parece ao nosso olhar.
- Ben, para onde nos levas? - perguntou meu coração baixinho. Uma nova flor desabrochava em meu peito.
- Para um lugar sem nome, que te acolhe sem nada te perguntar. - respondeu-me, sem falar.
Já passava da meia-noite quando chegámos a esse lugar, que nada pergunta, nem quer saber. Onde a lua nasce e volta a nascer, todas as noites. Dia após dia.

Não me lembro se vi alguém. A aldeia é pequena. O chão de terra batida, vermelho. As casas pequenas, brancas. Em todas, chega-se à sala depois de descermos três degraus. Parece que nunca saímos do mesmo lugar. Como o pião, veloz. Imóvel.

Benjamin entrou em três casas. De cada uma trouxe uma coisa. Na primeira, um cobertor, na segunda duas tigelas de arroz, na terceira ervas para o chá. Convidou-me a entrar na quarta casa da vila.
- Descansa agora, Hannah. Vou ter de sair.

Quieta, vi Benjamin abrir a mochila, e tirar a trouxa branca de linho. Antes de sair, abraçou-me carinhosamente. Calou meus anseios em seus lábios. Doce, cantou baixinho, Ma Nishtaná halaila hazé micol haleilot...
- Até já, pequena Hannah...

Cansada, adormeci sem nada questionar. Meu corpo colava ao colchão de algodão. Um tapete vermelho, cobria o chão do ar fresco da noite. No ar, o cheiro da madrugada. Meu corpo cansado, fugia da dor anunciada. Não me lembro da cor do céu. Sei das estrelas a dançar de par em par. Não me lembro de nada até aquela manhã, quando acordei quase sem ar. Uma flor nascia no ventre, teimava em desabrochar. Com medo, eu não permitia.
Saí de casa, apressada.

- Ben, qual foi a casa que te abrigou nesta noite que não regressaste ao corpo da mulher amada?
Como resposta, um silêncio profundo pesou no meu corpo.
- Ben! - perguntei sem descanso, numa terra que nada questionava, sequer se importava em saber a resposta.

Uma nuvem branca, saía da chaminé da casa que nos deu de comer: a casa do meio.
Corri, sem pensar. Em algum lugar do meu ser, eu sabia a resposta. Essa que adivinhei desde o primeiro dia da nossa viagem. Alcançar o extremo oriente, era o nosso destino.

Onde fica o extremo do nada? Caminhámos, sem destino sabendo dele, desde que partimos. Onde fica a chegada, se não existe o fim? Se nada existe, explica-me esta dor que dilareça o meu peito, Ben!

A casa tinha a porta aberta. Três degraus levam o visitante à sala. Cheira ao ar manso, morno da boca de Ben. O vento entra e faz rodar um pião de prata rendada. O pião espalha pelo ar, um pó branco, fino, formando uma nuvem branca, por toda a sala. A mesma que vi sair da chaminé.
Aspiro o ar.  “Nes Gadol Hayah Sham”

- Ben! - meus olhos choram, meu corpo treme entre a alegria e a tristeza, canto:

Esperei-te em silêncio,
num recanto qualquer
da minha existência
Esperei sem descanso
tantos abraços dei
enquanto partias
beijos vencidos
na despedida
fosses tu de pedra
inventava o amor eterno
esse que o tempo gasta
sem que os olhos vejam
Divino é o pó
em que tornas ao mundo
na terra, no ar, nos oceanos
Multiplicas-te em todos
em cada um

Esperei-te em silêncio
num recanto qualquer
No meu corpo salgado

Estás em tudo e em todos
Eterno é o teu descanso
Até sempre, Benjamin.

* Dreidel - (Yiddish; sevivon em hebraico) é um pequeno pião quadrado comumente dados as crianças durante Hanukkah (festa que dura oito dias e comemora a reedificacão do templo de Jerusalem feita por Judas Macabeu).

* Pessach -  também conhecida como Páscoa judaica celebra e recorda a libertação do povo de Israel do Egito, conforme narrado no livro de Shemot (Êxodo).

Dota cheshme siaah dari, Bijan Mofid, دوتا چشم سیاه داری