terça-feira, 6 de setembro de 2011

abraço a incerteza
nada sei além deste instante

que respiro
fossem os deuses homens

e a hora seria amanhã
fossem os homens deuses

e a vida seria agora.

domingo, 4 de setembro de 2011

Rumo ao pico do Toubkal, 4167m. Subir ao alto é descer ao fundo.


CIGARRA


Enquanto chora, canta
Enquanto dorme, acorda 
Solitária, descobre-se
Dançam borboletas na paisagem verde
Adormece a leoa coberta com amor
Vive a vida a hora, sem pressa 
Morna, suada, preguiçosa.


Calam silenciosas as pedras
Montanha que nos alcança
Voam gaivotas, nasce outra flor
A noite se alonga no amanhecer
o vinho escorrega
pela garganta
aqueçe o corpo
descobre o ventre

encontra a Besta
o Anjo com sede
amor adiado
Desço ao abismo
entre o paraíso e o inferno
existo

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

A leitora suspensa de si...


A leitora atravessa o ar no pensamento de uma palavra solta das páginas do livro do mundo. As suas asas voam na imensa distância que vai de si a si. Há um cristal parado no olhar que brilha na cegeuira do outrora. Agora, um continente se abre e o silêncio suspenso é um infinito imóvel e eterno. A leitora está sem mãos para folhear as páginas, a leitora lê-se no espaço entre as palavras. Um tremor de vento suspeso nas folhas bate as asas no coração. A paisagem lê-se de olhos fechados. De dentro, do interior de si, uma paisagem repousa no colo. Como um livro aberto entre paisagens, as águas aquietam-se e desaguam no horizonte que se não vê. Um mundo de palavras e de sensações suspendem o momento, tornam o mundo estreito. As paisagens ausentes debruçam-se no lago. Há peixes na fundura dos rios a prender o silêncio das redes. O perfil irreal dos astros ramifica-se na pele, tece palavras leves na nervura e nos veios das veias. Há jardins submersos no olhar. Aí a leitora desprede-se do livro e do mundo, suspende-se de si para ouvir o silêncio que cresce em ramos de nenhum vento. As páginas ardem longe. Agora, a leitora é um intervalo, uma abertura no céu da boca das palavras.

Respiramos a cada instante no coração de todas as coisas

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

"O mestre é o homem que não manda"

"O mestre é o homem que não manda; aconselha e canaliza, apazigua e abranda; não é a palavra que incendeia, é a palavra que faz renascer o canto alegre do pastor depois da tempestade; não interessa vencer, nem ficar em boa posição; tornar alguém melhor - eis todo seu programa"
- Agostinho da Silva, "Considerações"

"O drama do ser termina na libertação final pelo bem"

"Se pois a perfeita virtude, a renúncia todo o egoísmo, define completamente a liberdade, e se a liberdade é a inspiração secreta das coisas e o fim último do universo, concluamos que a santidade é o termo de toda a evolução e que o universo não existe nem se move senão para chegar a este supremo resultado. O drama do ser termina na libertação final pelo bem"

- Antero de Quental, "Tendências gerais da filosofia na segunda metade do século XIX".

Escrevemos para que mais resplenda o branco do ser e da página. Escrevemos para que mais se desnude o sem porquê nem para quê.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Alfabeto vegetal




Alfabeto vegetal
(Dedicado a Inês Borges e a Paula Toscano)

As nervuras, as folhas e os veios
Do que à mais luminosa luz se mostra
É o que mais na sombra se desnuda e cala
Rosa entre todas és cega de ti
Em jardins de asas.

Entre rosas e rosas se ergue um muro
E o muro cheira a madressilva e a canela
E no desenho do muro um verso vegetal
Um rio de margem infinita e terna: árvore
Entre a rosa e a Rosa.

Entre mim e mim,
A forma aérea do vento: a árvore, a casa
A claridade de uma pedra acesa…
Uma palavra basta para incendiar o mundo
Nos lábios que tocam a beleza sublime
Do perfil de um mar adocicado e puro.

Uma lira a tocar dentro de um traço
Um gesto de quem desenha o universo
de um só único traço
Traça um rosto devoto, dedicado,
Como quem segue um labirinto em círculos
Que se completam em arcos
como um verso.

(Maria Sarmento)

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Entrevista hoje na RTP N sobre a Cultura ENTRE Culturas




A RTPN passa hoje, no programa "Ler +, Ler melhor", por volta das 14.50 e das 20.50, uma entrevista comigo e com Luiz Pires dos Reys, Director artístico, sobre a revista e o projecto Cultura ENTRE Culturas. O programa escolheu a revista devido à sua elevada qualidade estética e de conteúdo.

Num próximo programa passa outra entrevista comigo sobre o meu último livro, O Teatro da Vacuidade ou a impossibilidade de ser eu (estudos e ensaios pessoanos).