segunda-feira, 2 de maio de 2011

Benjamin

Na partida, Benjamin avisou-me que teríamos de fazer uma paragem. Perguntei onde e porquê, mas Benjamin pediu-me paciência.

- Há coisas que não se explicam, Hannah...

O nosso destino era vago:  alcançarmos o Extremo Oriente. Vi homens baixos, vi outros tão altos que mal lhes reconheci o contorno da cabeça. Dormi debaixo de árvores gigantes que me abrigaram nas noites chuvosas. Sem pressa, deixei que o corpo se adaptasse ao calor húmido da floresta e ao ar rarefeito das montanhas. Acompanhei o sol, e a noite foi sendo sempre noite no meu corpo viajante. Alguns dos nossos companheiros ficaram em Goa, outros seguiram caminho para oeste. Eu e Benjamin, continuámos a caminhar para leste.

Benjamin acordou cedo. Retirou da mochila um pião rendado, em prata.
- O que é isso, Ben?
- É a encomenda que tenho de entregar...
Já tinha esquecido. Há tantos meses a viajar, só agora dei conta que o meu amigo limpava a peça todas as manhãs.

Lembro-me do pião que o meu pai me deu, num passe de mágica rodopiava, ganhava velocidade. Da pequena peça de madeira só vislumbrava o tempo que voava. Uma bruma fina envolvia o brinquedo que parecia imóvel, centrado em si mesmo. Depois, cansado, cambaleava como se estivesse bêbado, acabando por cair tombado de lado.

Memórias que o tempo roubou e tu, Benjamin acabas de me devolver.
- Ben, lembras do dreidel*?
- Em cada face uma letra do alfabeto hebraico: Nun, Gimmel, Heh and Shin...
- "Nes Gadol Hayah Sham" ("Um grande Milagre Aconteceu")...

Benjamin é meu amigo infância. Na escola aprendemos a ler, cantámos as letras do alfabeto hebraico, uma a uma a formarem palavras encantadas. Na escola, cantou comigo no Pessah* - Ma Nishtaná halaila hazé micol haleilot? (Porque esta noite não é em nada igual a todas as outras noites?).

- Lembras, Ben? Hailala hazé...

Depois da escola primária, mudei de cidade, cresci longe de Ben. O yiddish foi sendo esquecido e do hebraico só sei escrever o meu nome: הַנְנַה
Um pequeno pião de prata lembrou-me criança.
- Isto é um pião estranho, Ben...
Benjamin sorriu.
- Nem tudo que parece é, Hannah.

Continuámos a viajar, agora junto ao mar. Em cada aldeia, um novo peixe. Nossa pele mudou de cor. Meu corpo salgou no corpo de Benjamin. Semente de um novo amor.
- Por onde me levas, Ben?
Silencioso, Benjamin calava meus lábios na sua boca sempre entreaberta.
À  noite casavamos as nossas vontades. De manhã, ríamos delas.
- Para onde vamos, Ben?
- Sempre a oriente, Hannah...
Quando o corpo está apaixonado pede o corpo do amado. Sem ele, parece morrer. Com ele encontra a morte, feliz, num breve e longo instante.

O dia encontrava a noite. A noite amanhecia. Benjamin, todas as manhãs, delicadamente limpava o pião de prata. Quinze minutos diários, focados na renda fina.
- Que pião é esse, Ben?
- Em breve, Hannah, vais saber. Quando a hora for hora...
Benjamin nunca teve pressa com nada. Quando dança, rodopia, sempre centrado no eixo. Quando pára, tomba devagar.

Um longo abraço marcou o reencontro com Leo, nosso companheiro de viagem.
- Como vieste aqui parar, se seguiste para ocidente? - perguntei
- Fiz um desvio e outro, pelo caminho. Perdi-me, encontrei-me. Entre um e outro, parei...
Os meus amigos sempre foram assim. Entre o sim e o não … existem.

Com Leo, fomos ficando na aldeia à beira-mar. De madrugada, acordavam e partiam com os pescadores. À tarde, regressavam com o jantar. Cansado Ben, salgava meu corpo, lentamente.

- Está na hora de partir, Hannah...
- Quando?
- Amanhã. Não leves nada contigo, a não ser a roupa que trazes vestida. Uma mochila leve, com um pequeno agasalho...
- Mas o que faço com o resto?
- Dá a quem precisa, Hannah. Alivia o peso. Não precisas de mais nada, senão do teu corpo leve.
Contrariada, deixei minha mala de viagem. Nela, meus sapatos novos, livros e roupas usadas. Enrolei meu diário velho no casaco que guardei na mochila.
- Hannah, o que viveste está desenhado no teu corpo...
- Tenho medo de esquecer, Ben.
Nessa noite, adormecemos abraçados. Senti seu coração, ritmado com o meu. Um ar morno, manso, viajou entre as nossas bocas.
Antes do sol nascer, despedimo-nos de Leo. Um abraço prolongado, silencioso, marcou o nosso adeus.

Antes, Ben afagou de novo o pião. Desta vez, enrolou-o cuidadosamente num longo pano de linho branco. Deu voltas e voltas, até que o pião deixasse de ser a peça de prata rendada e não fosse mais que uma trouxa de pano. Em seguida, guardou-o na sua velha mochila.
- É esta a tua única bagagem, querido?
- Sim, Hannah...
Sei quando Ben não quer falar. Aprendi com ele a gostar de cada intervalo pausado, dar espaço a todos ruídos, encontrar o som do vento, identificar o canto diferenciado de cada pássaro, ou simplesmente ouvir o som mudo do silêncio que se alonga no outro.

Caminhámos calados, passo a passo, entre aldeias. Caminhámos de mãos dadas, sem nunca nos tocarmos. Ben seguia ao meu lado, tranquilo. Uma paz estranha tomou conta de mim.
Poucas semanas antes, soube do falecimento da minha avó. Meu coração ficou pequeno. Apertado, encontrou a dor. Chorei de mansinho, junto com a noite - toda a noite. De manhã entreguei ao mar a saudade que sinto dela. Desembocou no oceano, espalhou-se por todos os mares, encontrou outras águas, doces e salgadas, irrigou o campo, semeou a terra. Até já, avó.

O sol disse adeus antes do anoitecer.
- Vamos descansar. Ainda temos umas horas de caminho.
Ben sentou-se em cima de um pedaço de pedra. Eu sentei-me no chão, junto a ele. Com a cabeça em seu colo adormeci.
- Acorda, Hannah. Temos de seguir...
Em que instante mudamos? Uma dor estranha aparece no peito, como uma flor que desabrocha, a mesma que nos acolhe quando nascemos. Quantas vezes mudamos, antes de morrermos?

Quanto mais rápido rodopia o pião, mais imóvel parece ao nosso olhar.
- Ben, para onde nos levas? - perguntou meu coração baixinho. Uma nova flor desabrochava em meu peito.
- Para um lugar sem nome, que te acolhe sem nada te perguntar. - respondeu-me, sem falar.
Já passava da meia-noite quando chegámos a esse lugar, que nada pergunta, nem quer saber. Onde a lua nasce e volta a nascer, todas as noites. Dia após dia.

Não me lembro se vi alguém. A aldeia é pequena. O chão de terra batida, vermelho. As casas pequenas, brancas. Em todas, chega-se à sala depois de descermos três degraus. Parece que nunca saímos do mesmo lugar. Como o pião, veloz. Imóvel.

Benjamin entrou em três casas. De cada uma trouxe uma coisa. Na primeira, um cobertor, na segunda duas tigelas de arroz, na terceira ervas para o chá. Convidou-me a entrar na quarta casa da vila.
- Descansa agora, Hannah. Vou ter de sair.

Quieta, vi Benjamin abrir a mochila, e tirar a trouxa branca de linho. Antes de sair, abraçou-me carinhosamente. Calou meus anseios em seus lábios. Doce, cantou baixinho, Ma Nishtaná halaila hazé micol haleilot...
- Até já, pequena Hannah...

Cansada, adormeci sem nada questionar. Meu corpo colava ao colchão de algodão. Um tapete vermelho, cobria o chão do ar fresco da noite. No ar, o cheiro da madrugada. Meu corpo cansado, fugia da dor anunciada. Não me lembro da cor do céu. Sei das estrelas a dançar de par em par. Não me lembro de nada até aquela manhã, quando acordei quase sem ar. Uma flor nascia no ventre, teimava em desabrochar. Com medo, eu não permitia.
Saí de casa, apressada.

- Ben, qual foi a casa que te abrigou nesta noite que não regressaste ao corpo da mulher amada?
Como resposta, um silêncio profundo pesou no meu corpo.
- Ben! - perguntei sem descanso, numa terra que nada questionava, sequer se importava em saber a resposta.

Uma nuvem branca, saía da chaminé da casa que nos deu de comer: a casa do meio.
Corri, sem pensar. Em algum lugar do meu ser, eu sabia a resposta. Essa que adivinhei desde o primeiro dia da nossa viagem. Alcançar o extremo oriente, era o nosso destino.

Onde fica o extremo do nada? Caminhámos, sem destino sabendo dele, desde que partimos. Onde fica a chegada, se não existe o fim? Se nada existe, explica-me esta dor que dilareça o meu peito, Ben!

A casa tinha a porta aberta. Três degraus levam o visitante à sala. Cheira ao ar manso, morno da boca de Ben. O vento entra e faz rodar um pião de prata rendada. O pião espalha pelo ar, um pó branco, fino, formando uma nuvem branca, por toda a sala. A mesma que vi sair da chaminé.
Aspiro o ar.  “Nes Gadol Hayah Sham”

- Ben! - meus olhos choram, meu corpo treme entre a alegria e a tristeza, canto:

Esperei-te em silêncio,
num recanto qualquer
da minha existência
Esperei sem descanso
tantos abraços dei
enquanto partias
beijos vencidos
na despedida
fosses tu de pedra
inventava o amor eterno
esse que o tempo gasta
sem que os olhos vejam
Divino é o pó
em que tornas ao mundo
na terra, no ar, nos oceanos
Multiplicas-te em todos
em cada um

Esperei-te em silêncio
num recanto qualquer
No meu corpo salgado

Estás em tudo e em todos
Eterno é o teu descanso
Até sempre, Benjamin.

* Dreidel - (Yiddish; sevivon em hebraico) é um pequeno pião quadrado comumente dados as crianças durante Hanukkah (festa que dura oito dias e comemora a reedificacão do templo de Jerusalem feita por Judas Macabeu).

* Pessach -  também conhecida como Páscoa judaica celebra e recorda a libertação do povo de Israel do Egito, conforme narrado no livro de Shemot (Êxodo).

Dota cheshme siaah dari, Bijan Mofid, دوتا چشم سیاه داری

sábado, 30 de abril de 2011

Esperei-te em silêncio, num recanto qualquer da minha existência.
Esperei sem descanso,tua  visita sempre adiada.
Esperei, sem dar conta da hora. Mas tu não vieste.

Faz-me acreditar que o tempo não existe.
Cala os meus lábios nos teus.
tantos abraços dei
enquanto partias
beijos vencidos
na despedida

fosses tu de pedra
inventava o amor eterno
esse que o tempo gasta
sem que os olhos vejam

amor que agora sinto
um dia, tão longe, pó
no corpo, lembrança
tantos abraços te dei
enquanto partias
beijos vencidos
na despedida.

ah, fosses tu de pedra
inventava o amor eterno
esse que o tempo gasta
sem que os olhos vejam

ah, fosses tu a estátua
do amor que agora sinto
um dia tão longe, pó
e eu não dê por nada

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Curso sobre Àlvaro de Campos na Sociedade da Língua Portuguesa, Lisboa, por Isabel Rosete

ÁLVARO DE CAMPOS: «Sentir tudo de todas as maneiras»
Por Isabel Rosete

1ª Sessão: «De monóculo e casaco exageradamente cintado» (sou) «franzino e civilizado» O Campos de Fernando Pessoa(s)
1. O nascimento de Álvaro de Campos («um súbito impulso para escrever e não sei o quê») e a histeria de Fernando Pessoa
2. Campos e o seu Mestre Caeiro: a urgência de sentir e o ser si próprio
3. O canto originário do Poeta: o Ser, o Mistério, a Realidade, a Morte, o Homem, o Enigma da Existência, os deuses, Deus e o Destino
Poemas: «Mestre, meu mestre querido!», «Ah, perante esta única realidade, que é o mistério», «Se te queres matar, porque não te queres matar?»

2ª Sessão: «Nunca fiz mais do que fumar a vida» O Decadentismo
1. O estilo confessional brusco e divagativo de um poeta decadente
2. A nostalgia do além: os sonhos de um Oriente inexistente, o cansaço da civilização e a consolação pela embriaguez do ópio
3. A «Pátria é onde não estou»
4. O aborrecimento de uma alma sensível: o cansaço e horror à vida
Poemas: «Opiário», «O que há em mim é sobretudo cansaço»

3ª Sessão: «Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!/Ser completo como uma máquina!» Sensacionismo e Futurismo
1. Emotivo e sensacionista: um poeta da vertigem, das sensações modernas, da volúpia da imaginação e da energia explosiva
2. O legado de Marinetti e de Whitman, a emergência do Futurismo e a exaltação da Energia, do Progresso e da civilização industrial
3. Uma estética não-aristotélica: da ideia de “beleza” à ideia de “força” e a emotividade individual de uma vitalidade transbordante
Poemas: «Ode Triunfal», «Dois Excertos de Odes», «Ode Marítima», «Saudação a Walt Whitman», «Passagem das Horas»

4ª Sessão: «Não posso querer ser nada./À parte disso, tenho em mim todos os sonhos do mundo» Da Inquietação e da Abulia do Campos ele-mesmo
1. Álvaro de Campos irmão do Pessoa ortónimo
1.1. «A consciência da ilusão do não-sentido do mundo» e as reminiscências saudosas do mundo fantástico da infância
1.2. O cepticismo e a dor de pensar
2. Solidão interior e angústia existencial: o poeta do abatimento e da atonia, cosmopolita, decaído e melancólico
3. Desassossego, náusea, tédio, negatividade do real e do eu
Poemas: «Dactilografia», «Tabacaria», «A Casa Branca Nau Preta»

Isabel Rosete
A partir de 19 de Maio 4 Sessões, sempre às Quintas-feiras, das 19.00h -20.30 h

Lançamento do nº3 da revista "Cultura Entre Culturas", um número duplo dedicado a Fernando Pessoa: Dia 4 de Maio, às 20,00 horas, na Universidade Nova de Lisboa – Faculdade de Ciências Sociais – Sala Multiusos 3, edifício ID (no âmbito do "Colóquio Internacional Nietzsche Pessoa e Freud", a decorrer entre 3 e 5 de Maio).

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Juras de amor

em cada beijo trocado
teu corpo embriagado
compasso binário
meu corpo no teu
eterna é a pausa

Português venceu o "Urban Photographer of the Year"

Fotografia vencedora do concurso DR/Victor Melo


Victor Melo, um fotógrafo amador, venceu o concurso internacional de fotografia, o "Urban Photographer of the Year", com uma fotografia de um artesão tunisino.
O júri do concurso, promovido pela multinacional norte-americana CB Richard Ellis, escolheu a fotografia do português entre as mais de dez mil submetidas a concurso, um número recorde, segundo escreveu a organização num comunicado.
O "Urban Photographer of the Year" existe desde 2006 e conta todos os anos com a participação de fotógrafos profissionais e amadores da Europa, Médio Oriente e África.
Do júri fazem parte apenas fotógrafos profissionais e especialistas da área que este ano escolheram a imagem captada pelo fotógrafo de Coimbra, que mostra um artesão a trabalhar o bronze em Tunis. Esta foi a forma de Victor Melo responder ao tema do concurso da edição deste ano, "Cidades a trabalhar".
Apesar de ser um fotógrafo amador, Victor Melo, residente em Sintra, já teve alguns trabalhos publicados em revistas nacionais e internacionais, organizou exposições individuais e fez algumas campanhas publicitárias.
O vencedor ganha um safari fotográfico para duas pessoas na Turquia.
Dois outros portugueses foram distinguidos nos melhores momentos das 24 horas, uma proposta do concurso que desafiou os concorrentes a representarem horas diferentes com as fotografias, António Manuel Leão Gonçalves de Sousa, da Charneca de Caparica por uma fotografia às 4 horas e Ana Filipa Infante de la Cerda Garin Scarpa, de Santarém, por uma fotografia às 9 horas.
19.04.2011 - PÚBLICO

Iris Murdoch and Jiddu Krishnamurti




I'm not sure how this came about, but British philosopher-novelist Iris Murdoch has a nearly two-hour long talk with Krishnamurti about his ideas. October 18, 1984.

quando chega a primavera
desabrocha a flor, o beija -flor
espalha o polen, a borboleta
encontra a noite o amanhecer

ama sem tento, com intento
semeia meu corpo manso.

terça-feira, 26 de abril de 2011

quando o nosso olhar
vazio, procurar o tempo
serei tua noite quente
estarei contigo na despedida
no despertar, entre o que sou

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Entre-Existir Project (ou A ARTE DE VIVER)

Tanto quanto nos parece, somos nascidos no espaço certo, no tempo certo, que por boas razões tantas vezes nos unimos, constituindo uma frente comum única, sobretudo artística, e que logo é também religiosa, cultural e política, com uma potencial extraordinária leveza...

O que de mais interessante poderá advir no entre-existindo é o potenciar do desenvolvimento artístico, do processo criativo, que se ajuste a necessidades particulares em estudos gerais.

Há liberdade e libertação,
há ocupação criativa em vez de trabalhos forçados,
desfrute comunitário no lugar de serviço político fracionário,
construção de um ideal em troca de insegurança individual,
e, em vez, de só televisão a cores, iluminação das vias interiores.
Mas ainda há mais...

E não será que se pode dar "um passo em frente..." ENTRE tanta gente?

Pela arte de viver, em paz, apostando numa evolução sensata, não nos esquecendo nunca da criança que em nós nasceu, como representação simbólica daquilo que nos é mais Sagrado.

luis santos

BRISA DE OESTE - Pintura de João Serrano

Deixa-me voltar atrás. Prometeste-me a brisa de oeste. Abriste a janela. Deixaste entrar o vento e com ele o resto. Prometeste-me a maresia, odor ausente. Salgado. 
Tuas mãos pintaram a cor... no meu corpo febril.
Prometeste-me a brisa, abriste a janela … vento de oeste, maresia perdida.
Tuas mãos azuis no meu corpo vermelho. 
 Devolve-me o branco antes que eu aconteça!

"Se fosse possível explicar-te tudo não precisarias de perceber nada" - Agostinho da Silva, "Pensamento à Solta".

domingo, 24 de abril de 2011

Páscoa - uma reflexão incómoda

Comemora-se hoje o Domingo de Páscoa, uma das grandes festas da Cristandade e da cultura ocidental. Religiosos ou não, milhões de seres humanos, em Portugal e no mundo, estão a reunir-se em família à volta dos mais diversos petiscos e iguarias, comungando e celebrando a alegria e o prazer de estarem juntos na maravilhosa aventura da vida.

É humano. Mas será também humano não terem consciência ou procurarem esquecer que, ao fazê-lo, estão na imensa maioria dos casos a usufruir de uma alegria e de um prazer obtidos à custa do sacrifício involuntário, forçado, violento e doloroso de muitos milhões de vidas de animais, indivíduos conscientes e sencientes que, tal como nós, têm um interesse fundamental em estar vivos, com liberdade e bem-estar?

Páscoa, do hebreu Pésah, deriva provavelmente do verbo pasah, “saltar por cima” e assumiu o sentido de passagem, correspondendo nos nossos calendários a um tempo de regeneração. O filósofo judeu Fílon de Alexandria, contemporâneo de Cristo, viu a Páscoa como a libertação do espírito do domínio das paixões obscuras. E Cristo foi assumido pelos cristãos como aquele que dá a vida e o sangue pelos outros, pondo fim a todo o sacrifício sangrento do outro, humano ou animal. É nessa mutação ética e espiritual que consiste a verdadeira Ressurreição, que nos evangelhos gnósticos, como o de Filipe, é algo a viver desde já, em vida, e não após a morte. Algo a viver a cada instante e não só num Domingo por ano.

Parece evidente não ser esse o exemplo que seguimos, quando nos banqueteamos com a carne dos animais (terrestres ou aquáticos). Parece evidente que na Páscoa que inconscientemente celebramos nada há de “saltar por cima”, de transcender, de ir além dos nossos apetites mais irracionais e dos nossos hábitos familiares e sociais mais enraizados. Parece evidente que nesta Páscoa nada há de pascal, como no Natal nada há de natalício, sempre que um homem novo não nasça no presépio da alma.

Mas se é humano ter hábitos, mais humano ainda é reflectir sobre eles e questioná-los. Apelo por isso a que hoje, quando nos debruçarmos sobre as mesas familiares adornadas e repletas dos mais apetecíveis manjares, sejamos capazes de contemplar nem que seja um minuto a crua realidade de estarem cheias dos corpos dilacerados de seres antes vivos como nós, a maioria deles criados em condições de holocausto e abatidos para nos proporcionarem uns brevíssimos minutos de prazer sensorial e fútil, que logo se desvanece para nos deixar com a mesma insatisfação de sempre. E então, se não somos ainda capazes de renunciar a esse alimento, levemo-lo à boca, mastiguemo-lo e engulamo-lo. Mas com um mínimo de consciência e compaixão pelo companheiro de existência a quem fazemos passar pelo que mais tememos e menos desejamos: a morte violenta, sem que a nossa vida disso dependa.

Será incómodo, decerto, mas valerá a pena. Tornará a nossa Páscoa menos cega e mais pascal, mais propícia a uma transformação da consciência, a uma passagem, a um ir para além da nossa ignorância e insensibilidade. Será um daqueles incómodos que nos tornam seres humanos melhores. Sobretudo se, na nossa tomada de consciência do sofrimento dos animais, não esquecermos o dos homens, o de todos os seres, abrindo o coração à infinita compaixão pela dor do mundo. É isso que nos pode abrir o caminho da grande e verdadeira Alegria, a de ver que é possível acabar com o sofrimento, começando por aquele de que somos directamente responsáveis.

24.04.2011 - Domingo de Páscoa

sexta-feira, 22 de abril de 2011

"Natureza e animais no Budismo", 27 Abril, 4ª, 21.15, R. Santa Catarina, 730 - 2º, Porto

Estarei no Porto para uma palestra sobre o tema "NATUREZA E ANIMAIS NO BUDISMO", no dia 27 de Abril, quarta-feira, às 21:15, na sede da Campo Aberto, rua de Santa Catarina, 730-2.º, no Porto (perto já da rua Gonçalo Cristóvão)

Prosseguindo o ciclo "A Natureza nas Religiões e nas Filosofias", esta tertúlia insere-se numa revisão das várias perspectivas filosóficas e religiosas que buscam dar sentido à relação da humanidade com a Natureza.

Entrada livre e gratuita. Convida-se no entanto a uma participação nas despesas, voluntária e fixada pelo próprio, a entregar à entrada na mesa de publicações. Sugere-se a título indicativo 2 euros por pessoa, que serão retribuídos com um exemplar do último número da revista Ar Livre, editada pela Campo Aberto. Os sócios, que receberam já a revista gratuitamente, poderão optar por outras publicações.

Ética cristã e ética cósmica






“O amor pela criatura em geral, pelos animais, plantas, minerais, pela terra e pelas estrelas, não foi de todo desenvolvido na ética cristã. É um problema de ética cósmica e tem de ser ainda formulado”; “A consciência cristã não desenvolveu ainda uma relação moral com os animais e a natureza em geral. A sua atitude para com a natureza foi demasiado a de indiferença espiritual. E todavia o olhar nos olhos de um animal indefeso dá-nos uma experiência moral e metafísica de prodigiosa profundidade” [1].
[1] Nicolas Berdiaev, The Destiny of Man, tradução do russo de Natalie Duddington, New York, Harper & Brothers, 1960, pp.188 e 193.

ROTINA

Adriano chegou ontem mais cedo. Fiquei perturbada com a mudança. A rotina era chegar sempre mais tarde. Nunca conseguíamos jantar antes das nove e meia. Teimosa colocava a mesa sempre às oito - esperança vã.
Ainda não são sete da noite e Adriano já está em casa.
- Aconteceu alguma coisa?
- Não - responde-me, sorridente.
Meu coração dispara. Se ele está assim é porque aconteceu mesmo alguma coisa e não me quer contar. Disfarço o medo.
- Tens fome? Ainda não tenho jantar feito. Sempre chegas tarde. Logo hoje que me atraso, tu adiantas-te...
- Querida, está tudo bem. Queres ir jantar fora?
Meu corpo treme de raiva. Como pode ele convidar-me assim do nada. Nunca o fez em mais de uma decada de casamento. Nem antes, quando namorávamos.
- Queres jantar fora, amor?
- Adriano, por favor, diz-me. O que se passa?
Franze o sobrolho, começa a ficar zangado. Vira-me as costas. Vai para o quarto e regressa de pijama.
- Faltam-te as pantufas, não vês que estás descalço?
Sem responder, senta-se em frente à televisão. Devagar despe a camisa, em seguida as calças. Sem expressão pergunta-me:
- O que falta agora?
Fujo para a cozinha. Assim nem às dez jantamos!
É sempre a mesma coisa. Detesto a rotina.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

MARESIA

Vem de oeste o vento
maresia
doce vontade de continuar

Ama sem nunca acabar de amar
Invade o corpo sem pressa
Intervalo que prolonga a vida

Vem de oeste o vento
tudo traz sem nada ter
momento desperto - vazio

segunda-feira, 11 de abril de 2011

sabíamos que o teu pai podia chegar, enquanto
eu te mostrava o amor, as calças de domingo e
a palavra nova que li num livro muito grosso.
e tu sonhaste inclinada para a liberdade até
que o silêncio engravidasse e abrisse mãos ao
caminho. sabíamos que os filhos nascem por ali
porque éramos os dois a pensar por debaixo da
tua saia de nuvem. e sonhámos tanto que
construímo-nos, janelámos a casa do sempre,
ainda que soubéssemos que o teu pai podia
chegar e que a vida é um abismo em flor.

Vida

Temos os olhos postos na Vida
Sempre tivemos os olhos postos na vida e no que a sucede
ENTRE, onde se está.

Por isso, tanto nos interessa a palavra de profetas, santos e sábios
Com muita curiosidade olhamos o Projecto que clama o reino do Paráclito na terra,
ou nos universos que se interligam.

Tudo é sagrado
Homens, animais, plantas, pedras
Tudo É diferente.

Não podemos deixar de querer para cada outro, aquilo que para nós rogamos
Aquele que mente é a si próprio que mente
Aquele que rouba, a si mesmo se rouba
(conselhos para políticos).

Somos desejosos de uma vida cheia de graças e boas aventuranças
Viva a Liberdade,
até de não ser livre.

Amém.

Abril/2011
Luis Santos

domingo, 10 de abril de 2011

Qual Páscoa?
Por Isabel Rosete


Bebi esse delicioso vinho, símbolo eterno do sangue de Cristo, que agora e sempre nos vivifica a alma e nos enobrece os corações, para que o ódio neles se apague, para que a raiva sempre desprezem, para que à comunhão e ao perpétuo renascimento permaneçam abertos.

Cristo, pelas mãos do seu próprio povo, os Judeus, foi sacrificado. Por eles, e por nós também, sofreu e morreu, no auge da sua maturidade, aos 33 anos de idade. Pelo menos, assim rezam as Escrituras.

Apenas mais uma norte de um ideólogo alucinado? Perguntarão aqueles que, à luz da Verdade, a História não leram. Não. Claro que não. Estão completamente enganados. Responderão essoutros que as alegorias bíblicas souberam interpretar literariamente

Não se trata, de facto, assim o penso, nem de mais de uma morte, nem uma morte qualquer. A morte de Cristo é uma metáfora, uma simbolização metafórica que, com precisão, devemos saber analisar.

O que verdadeiramente importa – pelo menos assim o vejo aquando de olhos postos no Mundo – não é a sua morte ou a sua dor física, não é o seu frágil corpo açoitado e ensanguentado, mas a sua morte e dor espiritual, que até hoje se perpétua, denotação perfeita da crueldade, da cobardia e da insanidade humana, que da desgraça alheia se alimenta, petrificada num estado de exacerbação do prazer próprio, assombrada pela “glória” que não vêem mais como sinónimo da sua própria imbecilidade.

A morte de Cristo, Deus feito Homem, é a exemplificação, "claramente vista", da ignorância das gentes, que em histeria colectiva entram, ao som da voz de um líder movido por uma infundada sede de vingança, sem saberem exactamente por que causa lutam.

Eles, os Judeus, preferiram soltar Barrabás e crucificar Cristo. Escolheram salvar o mal, o crime, a bestialidade, em vez de conservarem a pureza de uma alma que pelo Bem e pela Justiça sempre lutou, aceitando, pacificamente, mesmo num atroz sofrimento universal, o destino que o Pai lhe havia confiado, a selvajaria norteada pela mais inconcebível inversão de valores que a humanidade devia, deve, banir convictamente de todos os seus pensamentos e, principalmente, de todas as seus actos.

Cristo lutou, honrosamente, em nome da filosofia que o movia. Defendeu-a, com toda a convicção, em prol de um mundo mais humano, onde imperasse essa costela de bondade, de verdade e de rectidão do carácter, que nem sempre des-ocultamos. Morreu por ela, manifestando toda a sua coragem e lealdade ideológica, até mesmo nos momentos em que a sua dimensão humana se encontrava estarrecida.

Caminhou, a passos largos, sem medo de assumir essa penosa tarefa de ser “Persona no grata” a um sistema corrupto, degenerativo, completamente desqualificado.

Podemos considerá-lo um herói histórico? Claro. Podemos e Devemos. É a minha tese, que passo a defender num intercâmbio de perguntas e respostas.

O que representa ou simboliza este herói? Um mártire, entre tantos outros, que a Historia nos apresenta? A resposta parece-me simples e clara: Cristo foi, é, o símbolo da essência do Humano, na sua grandeza e na sua miséria. Mostrou, mostra, aos Homens – hoje tão cegos e tão surdos como os do seu tempo – como a irracionalidade e o puro instinto são o cancro de todos os Povos, de todas as Nações, em todas as épocas.

Lamentavelmente, esta lição não foi, ainda, por nós interiorizada. E porquê?

1. Porque não convém aos “donos” do poder uma humanidade marcada pela racionalidade do dever, pelo respeito pelas liberdades fundamentais, na sua igualitária e natural diferença;

2. Porque continua a reinar a hipocrisia, a mentira, a inveja e a intolerância.

A “Caixa de Pandora” abriu-se. Lançou sobre a Terra toda a espécie de males. Nela ainda se encontra Esperança, guardada a sete chaves e, quiçá, só libertada quando os Homens desnorteados, pautados por valores desonrosos, indignos e insolentes, encontrarem o seu verdadeiro caminho.

Será que, um dia, chegará esse tão ansiado momento? A mundividência que os nossos olhos diariamente des-velam, parece mostrar que jamais há possibilidade de voltarmos ao “Paraíso Perdido”. Senão vejamos: vivemos o ódio e a disputa desenfreada entre as Nações que, por interesses económicos ou políticos se dispõem a matar, a destruir, brutalmente, todos os obstáculos que à sua frente se apresentam e tendem a coarctar as ideias indigentes dos sistemas totalitários intencionalmente disfarçados.

O valor da dignidade humana, tomada em si mesma e por si mesma, foi aniquilado pela maioria dos Países que, só em teoria, o respeitam. Em primeiro lugar estão os valores da Pátria (que grande mentira!) encobertos pelo frenesim económico do lucro pelo lucro, pelo prazer do poder pelo poder, circunscrito a uma minoria que se auto-classifica como peremptoriamente capaz de defender os Direitos Humanos, por detrás das armas que, indiscriminadamente, fazem jorrar o sangue puro dos inocentes.

Alucinados nos mantemos neste céu de trevas, obscurecedor dos espíritos manipulados por uma escala axiológica inversa, comandada pelo valor imperativo do dinheiro, por sua vez, acompanhado pelo poder político, sem escrúpulos, que o faz crescer, nas mãos de uma pequena e perversa minoria que o mundo (des)governa.

Nesta corda bamba, não mais manobrada pelo equilibrista, continuamos a assistir ao subdesenvolvimento dos países do 3º Mundo, onde reina a fome, a escravidão, a insolência, a má fé, a falsa solidariedade e a intransigência, o des-humano, ou para sermos mais claros e realistas, o Inferno vivido em vida, entre outros anti-valores de que os nossos rostos, sorridentes, se deviam envergonhar, aquando de cada lágrima derramada dos olhos das crianças, que já nem o céu têm como horizonte possível.

Assistimos, todos os dias, pela televisão ou pelos jornais, a estes cenários degradantes. E nenhum de nós se pode declarar como intocável, ou como irresponsável perante estas mazelas que por todo o Mundo assomam, de forma mais ou menos visível. Até nos podemos lamentar. No entanto, nada fazemos para as eliminar ou minimizar.

Sabemos que o palco do Mundo caminha nas franjas da barbárie (nem sempre des-ocultada), de um modo cada vez mais assustador. Mesmo assim, permanecemos calados ou mostramos, apenas, a nossa revolta num restrito grupo de amigos, cuja voz ali se encerra, olhando os “coitados” que sofrem.

Afinal, jamais deixamos de pensar: «Quem sou eu para mudar o Mundo?». E assim voltamos à apatia de sempre, bem mais cómoda do que qualquer cogitação de uma possível luta pelos ideais em que acreditamos. Acrescentamos – a esta frase feita, e sem excepção – que a culpa é do Governo, o eterno bode expiatório das culpas que do nosso cartório, estamos sempre prontos a descartar.

Não convém à minoria, que este palco suporta por detrás de um permanente não dito, que sobre esta realidade meditemos. Levados pelas correntes da demagogia, vendamos os olhos, para que as atrocidades não nos façam pesar a consciência. Rolhamos os ouvidos, para que não ouçamos os gritos aflitos de milhões de pessoas – nossos semelhantes, por essência – que amarguradamente clamam em busca de um simples pedaço de pão, que os seus corpos nutrifique, em demanda de um simples sorriso ou de uma palavra, actuantemente solidária, que os seus acabrunhados espíritos console.

Não fazemos mais jorrar o sangue de Cristo pelas almas sedentas de paz. Não dividimos mais o pão por todos os outros de nós mesmos, também sobreviventes, neste Mundo marcado pelo egoísmo, por falsas promessas, ou por promessas sempre adiadas.

Isabel Rosete

Curso sobre Vergílio Ferreira, por Isabel Rosete. Ainda está a tempo de se inscrever


Urge lembrar e celebrar os grandes literatos e pensadores portugueses, vivificar a nossa Cultura e solidificar o nosso saber com os grandes homens que etermizaram a Língua e a Alma Lusa. Este é um dos objectivos centrais deste meu curso sobre Vergílio Ferreira (programa abaixo) que estou a leccionar no âmbito dos Cursos MIL (Movimento Internacional Lusófono), na Sociedade de Língua Portuguesa.

CURSOS MIL – por Isabel Rosete

VERGÍLIO FERREIRA: NA FACE DO MISTÉRIO, O PENSAMENTO E A VOZ DO SILÊNCIO

«Há o ódio e o sonho e a inquietação do nada. O enigma, o absurdo. O não sei quê que perdura como a fome que volta sempre. O mistério que renasce do que o resolveu. E a beleza. A que vem depois de todas as coisas belas. Elas envelhecem, o acento da beleza noutro lado. Mesmo Deus retira-se para além de Deus. A procura intérmina ofegante. Silêncio.», Vergílio Ferreira
1ª Sessão: Traços de um pensamento e as vozes do silêncio
1. Entre o silêncio, a morte e o enigma do Eu
2. A obra como escrita da vida ou escrita do silêncio
3. O novo humanismo: o lugar da infância e a instauração de uma poética do humano
4. No caminho da interrogação: o olhar preconceptual
2ª Sessão: Uma escrita, uma época e a revelação do destino historial do homem
1. Nos limiares da revelação: o espanto originário como fonte da criação
2. A atmosfera literária e ideológica contemporânea e a escrita vergiliana
3. Uma sensibilidade pós-moderna
4. Uma escrita existencialista
3ª Sessão: A problemática do romance – II
1. Destino e morte das palavras: fala e silêncio
1.1. A palavra como essência do pensamento e o pensamento poético em detrimento da vacuidade do discurso
1.2. A dimensão ontológica da linguagem como meio de hominização do mundo
2. O fim do romance ou do romance viável: sob o signo da mudança
4ª Sessão: A problemática do romance – II
1. Do romance-espectáculo ao romance-problema
2. O tratamento romanesco do tempo

Isabel Rosete

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Morríamos até às onze da noite, depois fugíamos cada um para sua casa. eu deitava-me na cama, quieto, feliz como um homem gordo. tu, talvez fizesses o mesmo, ou talvez risses para as paredes. ou simplesmente dormisses sobre a minha morte. seja como for, até às onze da noite de todas as noites éramos onze vezes maiores que um Deus a parir o seu mundo. talvez pela certeza das mãos, ou do silêncio, que depois de dissolvido na terra, fazia crescer novo dia. seja como for, depois das onze da noite fugíamos cada um para sua casa, porque o amor ainda era uma criança.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

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A mitologia da superioridade humana



"As pessoas da tua cultura agarram-se com uma tenacidade fanática à ideia de que o homem é especial. Querem desesperadamente perceber um imenso abismo entre o homem e o resto da criação. Esta mitologia da superioridade humana justifica que façam o que muito bem entendam com o mundo, assim como a mitologia da superioridade ariana de Hitler justificou que fizesse ele o que muito bem entendeu com a Europa"

- Daniel Quinn, Ismael. Como o mundo veio a ser o que é, Porto, Via Óptima, 2001, p.118.

A superior possibilidade do homem pode ser a de estar ao serviço do bem dos outros seres, não a de se servir deles...

domingo, 3 de abril de 2011

Eduardo Souto de Moura - Pritzker 2011



ENTRE

Boa acção
Revelação:
Canas da Índia, bambú
plantadas aqui, de lá
para lá da linguagem
e das letras
sem tempo, quase sem vida
nem nada.
Um silêncio cheio
um instante que se acendeu

Não faz sentido a ausência
Não vale a pena o cansaço


Março/Abril.2011
Luis Santos

sexta-feira, 1 de abril de 2011

3, 4 e 5 de Maio - Colóquio Internacional Nietzsche Pessoa e Freud

A imagem de fundo do cartaz reproduz um trabalho de Lélia Parreira-Duarte, 
inspirado numa obra de Júlio Pomar


3, 4 e 5 de Maio de 2011
1º Dia: 3 de Maio (Universidade de Lisboa)

Manhã
9:30 - 10:00
Sessão de Abertura – Membros da Comissão organizadora e científica

10: 30 - 11:45
Paulo Borges (Portugal) – As "Ilhas Afortunadas" em Fernando Pessoa ou de como a intencionalidade limita a consciência
Markus Gabriel (Alemanha)  – “A temporalidade do inconsciente.”
12:00 - 13:15
Leyla Perrone-Moisés (Brasil) – Pessoa e Freud: “translação”  e “sublimação”
Cláudia Souza (Brasil) – «Todos deveríamos ser Freuds» - Freud e a multiplicidade literária em Pessoa

Tarde
14:30 - 15:45
Nuno Venturinha (Portugal) - O Pensamento Dinâmico em Wittgenstein e Pessoa
Nuno Ribeiro (Portugal) - Pessoa e a Construção do Estilo Filosófico – os textos filosóficos do espólio pessoano

16:00 - 17:15
João Constâncio (Portugal) – O 'Sujeito-Multiplicidade' em Nietzsche e Pessoa
Steffen Dix (Alemanha) – Um “Lob des Polytheismus” em Pessoa e Nietzsche
17:30 – 19:45
Jorge Uribe (Colômbia) – Proving the Unprovable: uma tarefa adiada de Thomas Crosse
Carlos Silva (Portugal) - Pessoa entre o Despudor da Vontade e o Fingimento da Patologia
    José Almeida (Portugal) – (Título a anunciar)

20:00
Lançamento do Livro: Olhares Europeus sobre Pessoa (org. Paulo Borges).  



2º dia 4 de Maio (Universidade Nova de Lisboa)

Manhã
9:00 - 10:15
Lélia Parreira-Duarte (Brasil) – «A arte tem valia, porque nos tira de aqui»
Jerónimo Pizarro (Colômbia) – «Sobre um caso de internamento»
10: 30 - 11:45
Fabrizio Boscaglia (Itália) – A influência do «espírito árabe» no pensamento de Fernando Pessoa: o entusiasmo da imaginação.
Giangiorgio Pasqualotto (Itália) – "Oltre il soggetto:Pessoa, Nietzsche, il Buddha"
12:00 - 13:15
Pablo Javier Pérez López (Espanha) – Fernando Pessoa: o autor de Jorge Luis Borges
Julia Alonso Diéguez (Espanha) – Nietzsche y Pessoa: la voluntad de «Poder ser lo que se es»

Tarde
14:30 - 15:45
Antonio Cardiello (Itália) – (Algumas) Origens exógenas da ontologia pessoana
Alfonso Cariolato (Itália)– L’abissale brusio della superficie: l’esistenza in Pessoa e Nietzsche

16:00 - 17:15
Duarte Braga (Portugal) – Entre a “Índia Nova” e o Atlantismo: O Pensamento de Pessoa entre colonialismo Neo-romântico e Horizonte Pós-Colonial
     Bruno Béu de Carvalho (Portugal) – Fernando Pessoa: o presente saudoso e a infinita distância 

17:30 – 19:45:
Daniel Duarte (Portugal) – Pontos de vista nietzschianos sobre a apreciação pessoana do «Freudismo».
Luís Filipe Teixeira (Portugal) – Pessoa/Mora/Nietzsche: Em defesa do Eterno Retorno/Regresso dos Deuses ou o Filósofo como «Médico da Cultura» 
Raquel Nobre Guerra (Portugal) – Surrealidade mística em Álvaro de Campos - transcendência, absoluto e subitaneidade
Rui Lopo (Portugal) - Presenças do Budismo na Obra em Prosa de Fernando Pessoa

20:00
Lançamento do nº 3 da revista Cultura ENTRE Culturas, dedicado a Fernando Pessoa.


3º dia – 5 de Maio (Fundação Calouste Gulbenkian)

Manhã
9:00 - 10:15
José Martinho (Portugal) – O nó das personalidades múltiplas
Filipe Pereirinha (Portugal) – Uma época singular, à luz de Freud e Pessoa
10: 30 - 11:45
Ciprian Valcan (Roménia) – Le cas Nietzsche : folie ou simulation ?
Teresa Oñate (Espanha) – “Tocados por el rayo del lenguaje divino: F. Nietzsche Y F. Pessoa”
12:00 - 13:15
Fernando Ribeiro (Portugal) – «Do Sonho em Pessoa ao Sonho de Pessoa»
Paulo de Medeiros (Holanda) – Pessoa and Women 

Tarde
14:30 - 15:15
Audemaro Taranto (Brasil) – “O livro Mensagem de Pessoa: uma obra que avançou no tempo”
Teresa Rita Lopes  (Portugal) – Pessoa e Nietzsche: “Religião individual”-Metafísica recreativa.
15:30 – 16:15
Eduardo Lourenço - Conferência de Encerramento  

16:30
Mesa Redonda de Escritores – “O processo criativo”:
Nuno Júdice (Portugal)
Miguel Real (Portugal)
Ismahelson Andrade (Brasil)
Teresa Rita Lopes (Portugal)
João Pereira de Matos (Portugal)
António Cândido Franco (Portugal)

17:30 – Mesa de apresentação de Livros

quinta-feira, 31 de março de 2011

AUGUSTO

Augusto acordou com um peso estranho na cabeça. A noite tinha corrido sem tempo medido – escura. Melancólica. Nauseado  levou  a mão à boca  numa tentativa frustrada para conter as tripas revoltas. Limpas as vísceras, resta um cheiro desobediente que invade toda existência.  Se conseguisse lembrar como é a primavera talvez aliviasse este presente fétido. Há momentos em que a memória inventa o passado, traindo a verdade do sofrimento. Como inventar a dignidade se ela fugiu sem avisar da partida?

Augusto forra o colchão com os últimos lençóis limpos. Um branco fingido veste a cama. Algumas nódoas fazem prova das noites descuidadas. Mesmo que tingisse de preto não conseguiria disfarçar o passado. E preto, nem pensar! Passaria a noite acordado com um medo de morte. Na mesa de cabeceira improvisada repousa um cinzeiro imundo. Nenhum candeeiro resistiu às quedas diárias. No tecto uma lâmpada mal ilumina o chão gasto, disfarçando a poeira acumulada de anos. Um móvel de estilo rococó, encontrado no lixo, arruma o que resta da vida deste homem cansado.

Em pé recorda as noites felizes vividas naqueles lençóis. Uma lágrima tímida dança em seu rosto. Quem inventou que a felicidade não magoa? Assim são as tempestades, furacões, terramotos, tsunamis. Belos quadros recheados de dor.


Deitado quer sonhar, ocupar o tempo que resta entre hoje e amanhã.
Augusto lembra-se do rio que banhava o terreno da casa dos pais. Nem sempre acolhia o obstáculo. Às vezes sem força dividia-se em dois. Tantas vezes Augusto fugiu da dor que dividiu-se em pedaços cada vez mais fracos. De costas encontra o tecto. De bruços encontra o cheiro das penas de um travesseiro antigo.
Longe vai o tempo das caminhadas em Sintra. Qual era o caminho que o distanciava do abismo? Fosse ele qual fosse Augusto o desprezou.

Torturado leva a mão a cabeça. É aí que dói. Nesta ferida que não pára de abrir. Entretido Augusto pesquisa cada saliência. Um líquido desconhecido molha seus dedos. Em  criança bastava o leite para alimentar a fome. Depois aprendeu a ler e saciou a curiosidade de outras vidas. Foi temperando o pensamento de condimentos sofisticados.

Talvez o corpo estivesse expulsando o excesso. Esperança de uma nova vida – que seja drenado o pântano. Augusto procura seu canivete – presente da mulher que o amou um dia. Leva devagar, com cuidado a lâmina à ferida. Sem hesitar vai abrindo a cabeça como se construísse um caminho. Doía mas Augusto não sofria, tal era a esperança de um ser renovado.

O sangue banhou a cama. Majestoso, partiu sem dizer adeus.

terça-feira, 29 de março de 2011

Qual é a cor do mar de agora?

Vila Celeste, 11 de Maio de 2000

Um panfleto circulou pelas ruas chamando o povo. Rezava assim a publicidade:
Não perca o  "Primeiro Desfile Primavera/Verão das Trabalhadoras de Sexo

Da aldeia meia dúzia de jovens, meia centena de velhos. Mais de um milhar de estrangeiros curiosos. Maria envergonhada escondia a mão direita nervosa. A  velha espiava pelos binóculos do falecido. Seu José na esquina lambia os beiços. No palco, uma bandeira esvoaçava ao som do refrão:

Somos putas, somos putas
a mais velha profissão
Somos putas, porque não?


Ninoca,  trabalhadora da ONG distribuia sorrisos. Com uma embalagem na mão esquerda, gritava:
- Sexo é bom com camisinha! Verdes, amarelas, azuis com sabor a hortelã...
 Nenhum partido polí­tico compareceu. Nem para apoiar ou censurar. Nestes eventos os polí­ticos perdem-se. Um ou outro ousou aparecer disfarçado de povo.
Com um sorriso desavergonhado, Oncinha anunciou:

- Povo Celestino! Esta é uma data histórica para todas nós, mulheres.  Aqui nesta vila com o nome da nossa padroeira, inauguramos o nosso primeiro desfile.Uma roupa democrática que não escraviza gordas, ou magras e não escolhe idade. A estudante, a senhora casada e até a viúva enlutada pode vestir. Uma roupa que atende a ricos e pobres.

Entre santos e pecadores, o sexo comercial foi legalizado, contra a vontade da igreja pela voz de Régio.

Em Novembro desse ano, Dario resolve moralizar  os costumes e toma o poder com Régio.
Anuncia novos impostos. Joga golfe todos os dias. Num campo verde de mentira, feito a dor que a gente sente.
Brutti, sporchi e cattivi e o povo unido jamais será vencido!

Nosso povo virou plástico. Ao menor sinal de fogo - derrete!
Um ginásio a cada esquina. No bar, tofu e aguardente. Em cada semáforo um oriental falsificado que faz Tai-Chi. Na mão direita envergam uma bandeira vermelha.

Queimaram os filmes e do mar só resta o som. Desde então o céu mudou de cor - cinzento. No horizonte ergueu-se um muro a esconder o infinito.

Deus segreda todos os dias qual a cor do mar de outrora. Não sabe qual a cor dele agora.

Recepções do Neoplatonismo no Renascimento e na Proto-Modernidade



III Workshop do Projecto "Recepções do Neoplatonismo na História do Pensamento Europeu"
31 de Março e 1 de Abril de 2011
FLUL – Sala 5.2 (Sala de Mestrados)

31 de Março
Moderador: Leonel Ribeiro dos Santos
10:00 Gregorio Piaia (Università di Padova, Itália) Neoplatonismo: Origine e svilluppo di una categoria storico- filosofica
11:00 Pausa para café
Moderador: Paulo Renato de Jesus
11:15 António Pedro Mesquita (Univ. do Minho e CFUL) O comentário neoplatónico alexandrino de Aristóteles
12:00 António Moreira Teixeira (Univ. Aberta e CFUL) Francisco de Holanda e o Neoplatonismo estético no Renascimento

Debate

13:00 Almoço dos Conferencistas
Moderador: Maria Leonor Xavier
15:00 Manuel Duarte Oliveira (IHSIS) Relação entre Neoplatonismo e Pensamento Judaico – Torat ha-Tzimtzum (Theory of Contraction) e a Criação do Universo em fontes do Hassidismo Judaico
15:45 Pausa para café
Moderadora: Filipa Afonso
16:00 António Rocha Martins (CFUL) A recepção de Proclo no pensamento político medieval
16:45 Giampaolo Abbate (CFUL) Aristotelismo e Neoplatonismo na obra Conciliator differentiarum philosophorum et medicorum por Pietro d’Abano
17:30 Maria José Vaz Pinto (FCSH e IFL-UNL) Marsilio Ficino e a mediação plotiniana na redescoberta de Platão

Debate

1 de Abril
Moderadora: Maria Luísa Ribeiro Ferreira
10:00 João Vila-Chã (Università Gregoriana, Roma, Itália) Descobrindo a harmonia entre Platão e Moisés: Leão Hebreu (Juda Abravanel) e o Neoplatonismo do Renascimento
11:00 Pausa para café
Moderadora: Maria Luísa Ribeiro Ferreira
11:15 Paulo Borges (CFUL) "«... e esse nada era Deus». A visão de Deus em Mestre Eckhart"
12:00 Paulo Renato de Jesus (Univ. Lusófona,Porto e CFUL) A reflexividade da ignorância como movimento da verdade: Montaigne e as sombras platónicas

Debate

13:00 Almoço dos Conferencistas
Moderador: Leonel Ribeiro dos Santos
15:00 Guiomar Mafalda Blanc (CFUL) Malebranche e o problema da fundação onto-metafísica da razão
15:45 Pausa para café
Moderador: António Moreira Teixeira
16:00 Maria Luísa Ribeiro Ferreira (CFUL) Ralph Cudworth, um filósofo em contra corrente
16:45 Adelino Cardoso (CHC-UNL) O problema da vida no pensamento de Leibniz
Debate
17:45 Lançamento da obra de Anne Conway, Os Princípios da Filosofia mais Antiga e Moderna. Apresentação por Leonel Ribeiro dos Santos.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Apelo aos Lisboetas

De amores se perde
A cidade ao cair da noite.
Flores são necessárias para
Enfeitar quem do amor está perdido.

Tragam tudo o que der e couber
Na cidade em tom romântico,
Escrevam cartas a anunciar
A paixão urbana que vos preenche.

A verdade está na realeza dos vossos gestos.
A noite mantém–se mais limpa
E a cidade agradece.

OBRIGADO!


Diogo Correia

domingo, 27 de março de 2011

O sábio e o estratega



“[…] o pensamento chinês pensou, não o fim e o resultado, mas o interesse ou o proveito, li. Se este proveito é procurado à escala mundial, ele faz o Sábio (como no Clássico das Mutações, Yiking, pensando a globalidade dos processos); a uma escala reduzida, e numa relação antagonista, faz o estratega (e o termo pode ser então marcado negativamente; cf. Mêncio). Nem um nem outro constroem uma ordem dos fins nem visam o que poderia ser um objectivo (skopos, em grego). Mas tendem sempre a tirar partido da situação […]: para o bem de todos os homens e numa intenção moral (o Sábio); ou por conta de um príncipe rivalizando com outros: o estratega”

– François Jullien, Conférence sur l’efficacité, Paris, PUF, 2005, p.38.