sábado, 30 de abril de 2011

Esperei-te em silêncio, num recanto qualquer da minha existência.
Esperei sem descanso,tua  visita sempre adiada.
Esperei, sem dar conta da hora. Mas tu não vieste.

Faz-me acreditar que o tempo não existe.
Cala os meus lábios nos teus.
tantos abraços dei
enquanto partias
beijos vencidos
na despedida

fosses tu de pedra
inventava o amor eterno
esse que o tempo gasta
sem que os olhos vejam

amor que agora sinto
um dia, tão longe, pó
no corpo, lembrança
tantos abraços te dei
enquanto partias
beijos vencidos
na despedida.

ah, fosses tu de pedra
inventava o amor eterno
esse que o tempo gasta
sem que os olhos vejam

ah, fosses tu a estátua
do amor que agora sinto
um dia tão longe, pó
e eu não dê por nada

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Curso sobre Àlvaro de Campos na Sociedade da Língua Portuguesa, Lisboa, por Isabel Rosete

ÁLVARO DE CAMPOS: «Sentir tudo de todas as maneiras»
Por Isabel Rosete

1ª Sessão: «De monóculo e casaco exageradamente cintado» (sou) «franzino e civilizado» O Campos de Fernando Pessoa(s)
1. O nascimento de Álvaro de Campos («um súbito impulso para escrever e não sei o quê») e a histeria de Fernando Pessoa
2. Campos e o seu Mestre Caeiro: a urgência de sentir e o ser si próprio
3. O canto originário do Poeta: o Ser, o Mistério, a Realidade, a Morte, o Homem, o Enigma da Existência, os deuses, Deus e o Destino
Poemas: «Mestre, meu mestre querido!», «Ah, perante esta única realidade, que é o mistério», «Se te queres matar, porque não te queres matar?»

2ª Sessão: «Nunca fiz mais do que fumar a vida» O Decadentismo
1. O estilo confessional brusco e divagativo de um poeta decadente
2. A nostalgia do além: os sonhos de um Oriente inexistente, o cansaço da civilização e a consolação pela embriaguez do ópio
3. A «Pátria é onde não estou»
4. O aborrecimento de uma alma sensível: o cansaço e horror à vida
Poemas: «Opiário», «O que há em mim é sobretudo cansaço»

3ª Sessão: «Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!/Ser completo como uma máquina!» Sensacionismo e Futurismo
1. Emotivo e sensacionista: um poeta da vertigem, das sensações modernas, da volúpia da imaginação e da energia explosiva
2. O legado de Marinetti e de Whitman, a emergência do Futurismo e a exaltação da Energia, do Progresso e da civilização industrial
3. Uma estética não-aristotélica: da ideia de “beleza” à ideia de “força” e a emotividade individual de uma vitalidade transbordante
Poemas: «Ode Triunfal», «Dois Excertos de Odes», «Ode Marítima», «Saudação a Walt Whitman», «Passagem das Horas»

4ª Sessão: «Não posso querer ser nada./À parte disso, tenho em mim todos os sonhos do mundo» Da Inquietação e da Abulia do Campos ele-mesmo
1. Álvaro de Campos irmão do Pessoa ortónimo
1.1. «A consciência da ilusão do não-sentido do mundo» e as reminiscências saudosas do mundo fantástico da infância
1.2. O cepticismo e a dor de pensar
2. Solidão interior e angústia existencial: o poeta do abatimento e da atonia, cosmopolita, decaído e melancólico
3. Desassossego, náusea, tédio, negatividade do real e do eu
Poemas: «Dactilografia», «Tabacaria», «A Casa Branca Nau Preta»

Isabel Rosete
A partir de 19 de Maio 4 Sessões, sempre às Quintas-feiras, das 19.00h -20.30 h

Lançamento do nº3 da revista "Cultura Entre Culturas", um número duplo dedicado a Fernando Pessoa: Dia 4 de Maio, às 20,00 horas, na Universidade Nova de Lisboa – Faculdade de Ciências Sociais – Sala Multiusos 3, edifício ID (no âmbito do "Colóquio Internacional Nietzsche Pessoa e Freud", a decorrer entre 3 e 5 de Maio).

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Juras de amor

em cada beijo trocado
teu corpo embriagado
compasso binário
meu corpo no teu
eterna é a pausa

Português venceu o "Urban Photographer of the Year"

Fotografia vencedora do concurso DR/Victor Melo


Victor Melo, um fotógrafo amador, venceu o concurso internacional de fotografia, o "Urban Photographer of the Year", com uma fotografia de um artesão tunisino.
O júri do concurso, promovido pela multinacional norte-americana CB Richard Ellis, escolheu a fotografia do português entre as mais de dez mil submetidas a concurso, um número recorde, segundo escreveu a organização num comunicado.
O "Urban Photographer of the Year" existe desde 2006 e conta todos os anos com a participação de fotógrafos profissionais e amadores da Europa, Médio Oriente e África.
Do júri fazem parte apenas fotógrafos profissionais e especialistas da área que este ano escolheram a imagem captada pelo fotógrafo de Coimbra, que mostra um artesão a trabalhar o bronze em Tunis. Esta foi a forma de Victor Melo responder ao tema do concurso da edição deste ano, "Cidades a trabalhar".
Apesar de ser um fotógrafo amador, Victor Melo, residente em Sintra, já teve alguns trabalhos publicados em revistas nacionais e internacionais, organizou exposições individuais e fez algumas campanhas publicitárias.
O vencedor ganha um safari fotográfico para duas pessoas na Turquia.
Dois outros portugueses foram distinguidos nos melhores momentos das 24 horas, uma proposta do concurso que desafiou os concorrentes a representarem horas diferentes com as fotografias, António Manuel Leão Gonçalves de Sousa, da Charneca de Caparica por uma fotografia às 4 horas e Ana Filipa Infante de la Cerda Garin Scarpa, de Santarém, por uma fotografia às 9 horas.
19.04.2011 - PÚBLICO

Iris Murdoch and Jiddu Krishnamurti




I'm not sure how this came about, but British philosopher-novelist Iris Murdoch has a nearly two-hour long talk with Krishnamurti about his ideas. October 18, 1984.

quando chega a primavera
desabrocha a flor, o beija -flor
espalha o polen, a borboleta
encontra a noite o amanhecer

ama sem tento, com intento
semeia meu corpo manso.

terça-feira, 26 de abril de 2011

quando o nosso olhar
vazio, procurar o tempo
serei tua noite quente
estarei contigo na despedida
no despertar, entre o que sou

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Entre-Existir Project (ou A ARTE DE VIVER)

Tanto quanto nos parece, somos nascidos no espaço certo, no tempo certo, que por boas razões tantas vezes nos unimos, constituindo uma frente comum única, sobretudo artística, e que logo é também religiosa, cultural e política, com uma potencial extraordinária leveza...

O que de mais interessante poderá advir no entre-existindo é o potenciar do desenvolvimento artístico, do processo criativo, que se ajuste a necessidades particulares em estudos gerais.

Há liberdade e libertação,
há ocupação criativa em vez de trabalhos forçados,
desfrute comunitário no lugar de serviço político fracionário,
construção de um ideal em troca de insegurança individual,
e, em vez, de só televisão a cores, iluminação das vias interiores.
Mas ainda há mais...

E não será que se pode dar "um passo em frente..." ENTRE tanta gente?

Pela arte de viver, em paz, apostando numa evolução sensata, não nos esquecendo nunca da criança que em nós nasceu, como representação simbólica daquilo que nos é mais Sagrado.

luis santos

BRISA DE OESTE - Pintura de João Serrano

Deixa-me voltar atrás. Prometeste-me a brisa de oeste. Abriste a janela. Deixaste entrar o vento e com ele o resto. Prometeste-me a maresia, odor ausente. Salgado. 
Tuas mãos pintaram a cor... no meu corpo febril.
Prometeste-me a brisa, abriste a janela … vento de oeste, maresia perdida.
Tuas mãos azuis no meu corpo vermelho. 
 Devolve-me o branco antes que eu aconteça!

"Se fosse possível explicar-te tudo não precisarias de perceber nada" - Agostinho da Silva, "Pensamento à Solta".

domingo, 24 de abril de 2011

Páscoa - uma reflexão incómoda

Comemora-se hoje o Domingo de Páscoa, uma das grandes festas da Cristandade e da cultura ocidental. Religiosos ou não, milhões de seres humanos, em Portugal e no mundo, estão a reunir-se em família à volta dos mais diversos petiscos e iguarias, comungando e celebrando a alegria e o prazer de estarem juntos na maravilhosa aventura da vida.

É humano. Mas será também humano não terem consciência ou procurarem esquecer que, ao fazê-lo, estão na imensa maioria dos casos a usufruir de uma alegria e de um prazer obtidos à custa do sacrifício involuntário, forçado, violento e doloroso de muitos milhões de vidas de animais, indivíduos conscientes e sencientes que, tal como nós, têm um interesse fundamental em estar vivos, com liberdade e bem-estar?

Páscoa, do hebreu Pésah, deriva provavelmente do verbo pasah, “saltar por cima” e assumiu o sentido de passagem, correspondendo nos nossos calendários a um tempo de regeneração. O filósofo judeu Fílon de Alexandria, contemporâneo de Cristo, viu a Páscoa como a libertação do espírito do domínio das paixões obscuras. E Cristo foi assumido pelos cristãos como aquele que dá a vida e o sangue pelos outros, pondo fim a todo o sacrifício sangrento do outro, humano ou animal. É nessa mutação ética e espiritual que consiste a verdadeira Ressurreição, que nos evangelhos gnósticos, como o de Filipe, é algo a viver desde já, em vida, e não após a morte. Algo a viver a cada instante e não só num Domingo por ano.

Parece evidente não ser esse o exemplo que seguimos, quando nos banqueteamos com a carne dos animais (terrestres ou aquáticos). Parece evidente que na Páscoa que inconscientemente celebramos nada há de “saltar por cima”, de transcender, de ir além dos nossos apetites mais irracionais e dos nossos hábitos familiares e sociais mais enraizados. Parece evidente que nesta Páscoa nada há de pascal, como no Natal nada há de natalício, sempre que um homem novo não nasça no presépio da alma.

Mas se é humano ter hábitos, mais humano ainda é reflectir sobre eles e questioná-los. Apelo por isso a que hoje, quando nos debruçarmos sobre as mesas familiares adornadas e repletas dos mais apetecíveis manjares, sejamos capazes de contemplar nem que seja um minuto a crua realidade de estarem cheias dos corpos dilacerados de seres antes vivos como nós, a maioria deles criados em condições de holocausto e abatidos para nos proporcionarem uns brevíssimos minutos de prazer sensorial e fútil, que logo se desvanece para nos deixar com a mesma insatisfação de sempre. E então, se não somos ainda capazes de renunciar a esse alimento, levemo-lo à boca, mastiguemo-lo e engulamo-lo. Mas com um mínimo de consciência e compaixão pelo companheiro de existência a quem fazemos passar pelo que mais tememos e menos desejamos: a morte violenta, sem que a nossa vida disso dependa.

Será incómodo, decerto, mas valerá a pena. Tornará a nossa Páscoa menos cega e mais pascal, mais propícia a uma transformação da consciência, a uma passagem, a um ir para além da nossa ignorância e insensibilidade. Será um daqueles incómodos que nos tornam seres humanos melhores. Sobretudo se, na nossa tomada de consciência do sofrimento dos animais, não esquecermos o dos homens, o de todos os seres, abrindo o coração à infinita compaixão pela dor do mundo. É isso que nos pode abrir o caminho da grande e verdadeira Alegria, a de ver que é possível acabar com o sofrimento, começando por aquele de que somos directamente responsáveis.

24.04.2011 - Domingo de Páscoa

sexta-feira, 22 de abril de 2011

"Natureza e animais no Budismo", 27 Abril, 4ª, 21.15, R. Santa Catarina, 730 - 2º, Porto

Estarei no Porto para uma palestra sobre o tema "NATUREZA E ANIMAIS NO BUDISMO", no dia 27 de Abril, quarta-feira, às 21:15, na sede da Campo Aberto, rua de Santa Catarina, 730-2.º, no Porto (perto já da rua Gonçalo Cristóvão)

Prosseguindo o ciclo "A Natureza nas Religiões e nas Filosofias", esta tertúlia insere-se numa revisão das várias perspectivas filosóficas e religiosas que buscam dar sentido à relação da humanidade com a Natureza.

Entrada livre e gratuita. Convida-se no entanto a uma participação nas despesas, voluntária e fixada pelo próprio, a entregar à entrada na mesa de publicações. Sugere-se a título indicativo 2 euros por pessoa, que serão retribuídos com um exemplar do último número da revista Ar Livre, editada pela Campo Aberto. Os sócios, que receberam já a revista gratuitamente, poderão optar por outras publicações.

Ética cristã e ética cósmica






“O amor pela criatura em geral, pelos animais, plantas, minerais, pela terra e pelas estrelas, não foi de todo desenvolvido na ética cristã. É um problema de ética cósmica e tem de ser ainda formulado”; “A consciência cristã não desenvolveu ainda uma relação moral com os animais e a natureza em geral. A sua atitude para com a natureza foi demasiado a de indiferença espiritual. E todavia o olhar nos olhos de um animal indefeso dá-nos uma experiência moral e metafísica de prodigiosa profundidade” [1].
[1] Nicolas Berdiaev, The Destiny of Man, tradução do russo de Natalie Duddington, New York, Harper & Brothers, 1960, pp.188 e 193.

ROTINA

Adriano chegou ontem mais cedo. Fiquei perturbada com a mudança. A rotina era chegar sempre mais tarde. Nunca conseguíamos jantar antes das nove e meia. Teimosa colocava a mesa sempre às oito - esperança vã.
Ainda não são sete da noite e Adriano já está em casa.
- Aconteceu alguma coisa?
- Não - responde-me, sorridente.
Meu coração dispara. Se ele está assim é porque aconteceu mesmo alguma coisa e não me quer contar. Disfarço o medo.
- Tens fome? Ainda não tenho jantar feito. Sempre chegas tarde. Logo hoje que me atraso, tu adiantas-te...
- Querida, está tudo bem. Queres ir jantar fora?
Meu corpo treme de raiva. Como pode ele convidar-me assim do nada. Nunca o fez em mais de uma decada de casamento. Nem antes, quando namorávamos.
- Queres jantar fora, amor?
- Adriano, por favor, diz-me. O que se passa?
Franze o sobrolho, começa a ficar zangado. Vira-me as costas. Vai para o quarto e regressa de pijama.
- Faltam-te as pantufas, não vês que estás descalço?
Sem responder, senta-se em frente à televisão. Devagar despe a camisa, em seguida as calças. Sem expressão pergunta-me:
- O que falta agora?
Fujo para a cozinha. Assim nem às dez jantamos!
É sempre a mesma coisa. Detesto a rotina.