segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Para ligar o espírito com a carne de forma a vencer a morte, o homem deve ligar-se com tudo o que é profundo em si, no seu centro absoluto que é Deus. - V. Soloviev

Vladimir Soloviev (1853-1900)
A união da humanidade não resultará se se der apenas numa dimensão social. A lei da morte divide a própria Igreja Universal em duas partes: uma, visível e terrena, outra, invisível e celestial. O reino da morte está inscrito; a separação do céu e da terra acontece devido ao desejo humano de dominar imediata e materialmente a terra, a existência tida como certa; o homem é sedento de testar e provar tudo sensorialmente. De forma superficial, ele junta o seu espírito celestial com as cinzas terrestres. Tal junção é efémera; tal ligação conduz o homem à morte. Para ligar o espírito com a carne de forma a vencer a morte, o homem deve ligar-se com tudo o que é profundo em si, no seu centro absoluto  que é Deus. O homem ecuménico liga-se ao amor divino que não apenas o eleva a Deus, mas também funde-o internamente com Deus, dando-lhe a oportunidade de abraçar Nele tudo o que há de eterno e indissolúvel. Este amor faz descer à terra a graça de Deus e canta vitória não apenas sobre mal ético, mas também sobre as consequências fisicas que provenientes dele - a doença e a morte. O efeito deste amor é a ressurreição derradeira. E a Igreja, ao transmitir este ensinamento no estudo da revelação, como última parte do seu Símbol, converte-o no seu mistério derradeiro. Deparando-nos com a doença e a face da morte, a Santa Unção é o símbolo e a fiança da nossa imortalidade e da ligação com Deus. O círculo dos Mistérios, o círculo da vida ecuménica completa-se com a ressurreição da carne, fecha-se com a união da humanidade com o todo, numa encarnação final com a Sabedoria Divina.

Vladimir Soloviev, in A Rússia e a Igreja Ecuménica
 http://www.vehi.net/soloviev/vselcerk/312.html
Maldita economia que nos rouba a elegância de uma mesa bem posta.
Joguei contra a parede o último cálice.  Marcava a minha diferença. 
Sou agora tão pobre quanto todos os outros miseráveis. 
Doença epidemica que prolonga a vida.
Não há pão que assista o meu ventre inchado de fome.
Ao meu lado, dorme o cão vadio. 
Maldita economia que nos roubou a elegância de um cão bem posto.
Branco de preferência.

Dançam borboletas na paisagem verde
Adormece a leoa coberta com amor
Vive a vida, a hora, sem pressa
Morna, suada, preguiçosa.
Deixo que o vinho escorregue pela garganta
Desenhe em mim um poema sem regras
Aqueça meu corpo.Encontre meu ventre e procrie.
Criança desejada, semente de amor.

Encontra a Besta o Anjo com sede
Amor adiado.

A Besta e o Anjo

Liberta agora a Besta, encontra o Anjo que nela habita
Não há Norte se não cruzares o Oriente
Mastiga cada palavra santificada, vem-te!
Quando a vida mostrar que o preto é também o branco
Confundirá a Morte o convidado, levando ambos.
A Besta e o Anjo.

"A severidade e a gravidade da vida, a tomada de consciência da morte, a queda de ilusões do mundo externo e a perda de coisas que escravizam o espírito - tudo isto apela à vivência de Deus e da espiritualidade." - N. Berdiaev

A revolução [bolchevique] trouxe danos graves à Rússia dos quais dificilmente recuperará. Por outro lado, a revolução teve consequências positivas no renascimento que houve da Igreja e da Vida religiosa na Rússia. A revolução despoletou um aprofundamento da religiosidade do povo. Muita mentira e hipocrisia se acumularam na nossa vida religiosa. Em muitos de nós predominava uma relação superficial e utilitário-egoísta com a Igreja Ortodoxa. Tornava-se necessário destruir a autoridade da Ortodoxia inerte. No topo das camadas sociais - a nobreza e a burguesia - a religiosidade não era profunda e o cristianismo era vivido futilmente. A religiosidade dos Saduceus tem um carácter oficial e nela, as perspectivas da vida temporal sobrepõem-se às perspectivas da vida eterna. Sinais de necrose obscureciam a nossa vida religiosa. A revolução dissipou a atmosfera falaciosa da Igreja e lavrou o solo sobre o qual resplandece a luz religiosa. Com a revolução, ninguém necessita de se fingir de Ortodoxo, ninguém beneficia materialmente com a Igreja e a religiosidade de Estado deixa de existir. No princípio, a revolução tinha um carácter anti-religioso e anti-cristão. O Cristianismo é perseguido, e é-o de forma horrível. Contudo, as perseguições nunca foram assustadoras para o Cristianismo. É melhor para a Igreja a perseguição do que a protecção coerciva. Durante as perseguições, o Cristianismo cresce e fortalece-se. O Cristianismo é a religião da verdade crucificada. Durante a revolução, as perseguições religiosas tiveram como consequência uma selecção qualitativa. A Igreja perde em quantidade mas ganha em qualidade. O sacrifício é novamente exigido aos filhos fiéis cristãos, o qual foi manifestado com a revolução. Os padres ortodoxos russos, no melhor de si, mantiveram-se fiéis ao seu santuário, corajosamente defenderam a Ortodoxia, corajosamente foram de encontro com o fuzilamento. Os Cristãos mostraram que sabiam morrer. A Igreja Ortodoxa demonstrou que, a nível interno, a sua unidade, a sua luz interior e a sua mística são perenes, mesmo depois da destruição da Igreja a nível exterior. Na Rússia deu-se, sem dúvidas, um aprofundamento religioso. Os Russos, apesar de terem sofrido grandes provações, vivem um ambiente religioso intenso. A severidade e a gravidade da vida, a tomada de consciência da morte, a queda de ilusões do mundo externo e a perda de coisas que escravizam o espírito - tudo isto apela à vivência de Deus e da espiritualidade.

Nicolai Berdiaev, in Reflexão sobre a Revolução Russa, 1923 
http://krotov.info/library/02_b/berdyaev/1924_21.html

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Desomenagem a Agostinho da Silva, no dia em que faria 105 anos



"Acho graça às homenagens
que me prestam,
excelente sinal de ilusões
que a eles restam;

sou tão humano quanto os outros,
com qualidades e defeitos
e mais as manhas que se escondem
em seus peitos;

[...]

de nós nada mais deixamos
que vãs memórias,
só Deus é grande, só Deus é santo
e o demais histórias"

- Agostinho da Silva, Uns Poemas de Agostinho, pp.17-18.

Li este poema no início do lançamento da antologia que organizei de Dispersos, de Agostinho da Silva, em 1988, no Mosteiro dos Jerónimos, numa mesa presidida por um sonolento presidente Mário Soares e perante a ruidosa "fina flor" das elites e da sociedade portuguesa, reunida para homenagear o filósofo que nunca tinham lido e para beberem uns copos à borla. Passados uns minutos, a presidência da mesa, incomodada, estava a pedir-me que parasse de falar...

E hoje o "vagabundo anarquista, como se definiu, continua a ser repasto de todas as aves de rapina.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

"Que pensará isto de aquilo? / Nada pensa nada" - Alberto Caeiro

Colóquio "A Obra e o Pensamento de António Telmo"


O Instituto de Filosofia Luso-Brasileira promove, dias 14 e 15 de Fevereiro, no Palácio da Independência em Lisboa, o Colóquio "A Obra e o Pensamento de António Telmo".

Programa14 de Fevereiro, 2ª feira

10h00: Sessão de Abertura
António Braz Teixeira

11h00: Comunicações
Joaquim Domingues, «António Telmo: o homem e a obra»
Abel de Lacerda, «Um olhar de António Telmo na simbólica de Prestes João»
Roque Braz de Oliveira, «António Telmo e os caminhos da hermenêutica»
Carlos Vargas, «A ironia em António Telmo»

13h00: Intervalo para almoço

14h30: Comunicações
Paulo Teixeira Pinto, «Portugal sem segredos»
Mário Rui, «António Telmo e as Três Tradições do Livro»
Manuel Gandra, «Linhagem seminal e espiritualidades bastardas – finais de todos os tempos e no contexto lusíada»
Luís Paixão, «O número 8 na obra de António Telmo»

16h30: Intervalo para café

17h00: Comunicações
António Carlos Carvalho, «Os nomes de António Telmo»
Cynthia Taveira, «António Telmo e a inversão dos candelabros»
Rui Lopo, «Significado e Valor da Filosofia em António Telmo»
Pedro Martins, «António Telmo e Luís de Camões»

19h30: Jantar no Círculo Eça de Queiroz. Inclui, a partir das 21h, apresentação de uma obra inédita de António Telmo, por Nuno Nazareth Fernandes.


15 de Fevereiro, 3ª feira

11h00: Comunicações
João Cruz Alves, «Testemunho sobre um homem novo»
António Quadros Ferro, «Correspondência entre António Telmo e António Quadros»
Elísio Gala, «Língua e Pátria»
Renato Epifânio, «A ideia de Pátria em António Telmo»

13h00: Intervalo para almoço

14h30: Comunicações
Carlos Aurélio, «Religiosidade e razão poética em António Telmo»
Paulo Borges, «O último texto de António Telmo: "O acabar da história [...] bruscamente engolida pelo nada que essencialmente é"»
António Cândido Franco, «António Telmo e o Surrealismo»
Rodrigo Sobral Cunha, «O viajante»

16h30: Intervalo para café

17h00: Testemunhos
Manuel Ferreira Patrício
Pedro Sinde
Paulo Santos
Pedro Ribeiro
Pinharanda Gomes

António Telmo Carvalho Vitorino nasceu em Almeida, Beira Alta, a 2 de Maio de 1927. Foi, a convite de Agostinho da Silva e Eudoro de Sousa, durante três anos, professor de Literatura Portuguesa na Universidade de Brasília. Mais tarde, dirigiu a Biblioteca de Sesimbra e leccionou a disciplina de Português em Estremoz. Publicou, entre outras obras, Arte Poética (1963), História Secreta de Portugal (1977), Gramática secreta da língua portuguesa (1981) e Filosofia e Kabbalah (1989). Morreu no dia 21 de Agosto de 2010.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Toska - Saudade - Duhkha

"Se eu escrevesse um diário, registaria constantemente as seguintes palavras: «Tudo me é estranho, sinto-me fragmentado, sempre, sempre aquela "тоска" pelo outro, pelo que me transcende.» Toda a minha existência é "тоска" pelo transcendente." - Nicolai Berdiaev

Tоска, em cirílico - Toska, em latim, é uma palavra de origem eslava e significa dor, tristeza, inquietação, limitação, restrinção, inquietação. Talvez, de alguma forma, "toska" esteja relacionada com "saudade". Segundo Berdiaev, toska é um sentimento direccionado para o mundo transcendente e é acompanhado por um sentimento de vazio, insignificância, perecibilidade do mundo em que nos encontramos. Toska erradia a solidão sentida pelo homem face ao transcendente, solidão essa derivada da experiência da ausência do divino. Toska é um sentimento Entre pois jaz entre o abismo do não-ser (nada niilista) e o transcendente divino. Assim, se toska é desespero, toska também é esperança, salvação.

Tal como "toska", a "saudade" não tem origem nas línguas indo-europeias. Talvez a palavra sânscrita que mais se assemelhe a "toska" e a "saudade" seja "duhkha" que significa impermanência, transitório, dor física, insatisfação, medo, mal-estar, medo de perder, insegurança, estar dividido, partido ao meio, separado de algo.

O homem sente-se separado, fragmentado, só, angustiado, dividido. É a condição humana que toma consciência da sua perecibilidade. A morte. Todavia, esta consciência pode ser um catalizador para uma busca escatológica - Sehnsucht - a busca do Ser. Como buscar? Como encontrar um caminho para trilhar? Podem a religião, a arte, a ciência ou a filosofia encontrar soluções que apaziguem o sofrimento inerente à condição humana? Devemos crer ou ter fé? Devemos acreditar ou experenciar essa Saúde obscurecida que jaz em todos nós? Devemos saber ou saborear?

Crente é pouco sê-te Deus
e para o nada que é tudo
inventa caminhos teus
- Agostinho da Silva

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

"Que se despeça da vida eterna quem não a viva já aqui"



Para o Luiz Reys

"Antes mencionámos o terceiro olho, este terceiro órgão ou faculdade, que nos abre a uma dimensão da realidade que transcende o conhecimento que possamos adquirir através da mente e dos sentidos. Sem um silêncio dos sentidos e da mente esta faculdade permanece atrofiada e então a vida - a experiência da vida, anterior à sua expressão em diferentes actividades: a vida em sua profundidade - escapa-nos; a participação na plenitude cósmica - juntamente com Deuses e demónios - passa-nos desapercebida. Então as nossas vidas, privadas da sua fonte, tornam-se pobres, tristes, medíocres. Para dominar esta miséria recorremos a uma multidão de coisas que a edulcorem, que a enriqueçam, que lhe dêem um sentido, uma relevância, uma dignidade. E identificamo-nos com essa multidão de coisas; esgotamo-nos nessa actividade incessante. E esquecemo-nos que dão maior glória a Deus a flor, o lírio, o passarinho (Mateus, VI, 26-28), que todos os nossos afãs, pressas e carreiras. Suspiramos por outra vida quando não vivemos a vida. Algo disse Jesus sobre a vida eterna que nos prometia agora. Que se despeça da vida eterna, veio a dizer Simeão, o Novo Teológo, quem não a viva já aqui"

- Raimon Panikkar, Iconos del Misterio. La experiencia de Dios, Barcelona, Ediciones Península, 2001, 3ª edição, corrigida e aumentada, pp.44-45.

Ani Choying Drolma


Ani Choying Drolma is a nun from Nepal with a wonderful voice.



Ani Choying Drolma is a great singer from Nepal. She knows the art of singinging and chanting mantras in an authentic and heart opening way.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

"Não ser senão um com todas as coisas vivas, regressar, por um radioso esquecimento de si, ao Todo da Natureza" - Hölderlin

‎"Não ser senão um com todas as coisas vivas, regressar, por um radioso esquecimento de si, ao Todo da Natureza" - Hölderlin

Trailer Shirin de Abbas Kiarostami

Cento e catorze actrizes iranianas e uma estrela francesa: espectadoras mudas da representação teatral Khosrow e Shirin, um poema persa do século XII, encenado por Kiarostami. O desenvolvimento do texto -- que sempre apaixonou os espectadores na Pérsia e no Médio Oriente -- permanece invisível para o espectador do filme. Toda a história é contada pelos rostos intensos e belos das mulheres que assistem ao espectáculo. Um mapa de ricas e pungentes emoções. É um trabalho "fora de campo" levado ao limite.

Cinema

Na escola, aos 16 anos, só gostava dos Lusíadas e da equações matemáticas. Fora dela, a vida acontecia todas as quartas- feiras, às seis da tarde, no cinema Império. Todos os outros dias eram a memória do último filme e o desejo da próxima quarta-feira.
Amores proibidos, paixões escaldantes e sempre um beijo prolongado na boca.
The End -  uma cortina imponente descansava o cinema. Meu corpo estremecia. Saliva na boca, a desejar nos meus lábios todos os beijos. Fui queimada e santificada, mulher da vida em todas as camas. Menina e moça sofri a morte do heroi. Vivi a dor injusta da guerra. Viajei pelo mundo. Andei de bicileta. 
Com o corpo suado dancei o tango nos braços fortes de cada um dos meus amados. Na calada da noite procurei em cada porto, o amor que embarcou sem dizer adeus. Com um lenço branco celebrei a paz. Fui a terra fertil de cada colheita. O sol quente em cada manhã.
Com cinema celebrei este amor sempre fiel, que se deita com todos os filmes. Sem nunca trair.

"Uma parte do ser é o Prolífico, a outra o Devorador" (William Blake)

 
Lambeth, gravura de William Blake, in The Book of Urizen, 1794.

Os Gigantes que modelaram este mundo e lhe deram existência sensível e parecem agora viver nele acorrentados são, na verdade, as causas da sua vida e as fontes de toda a actividade; mas as correntes são a astúcia de espíritos débeis e submissos, capazes de resistirem à energia; segundo o provérbio, o fraco em coragem é forte em astúcia.
Assim, uma parte do ser é o Prolífico, a outra o Devorador: para este é como se o produtor fosse seu prisioneiro; mas não é assim, ele apenas toma partes da existência e imagina ter o todo.
Mas o Prolífico deixaria de o ser se o Devorador, como um mar, não recebesse o excesso dos seus prazeres.
Alguns dirão:
– Não é Deus o único Prolífico?
Eu respondo:
Deus apenas Age e É nos seres existentes ou Homens.
Estas duas espécies de homens existem sempre sobre a terra e devem ser inimigos: quem quer que tente conciliá-los busca destruir a sua existência.
A Religião é um esforço para os conciliar.

William Blake, A União do Céu e da Terra, tradução de João Ferreira Duarte, Via Editora, Lisboa, 1979, pág.39

Entre partir e chegar - sentar. Apertada na poltrona cada vez mais estreita, coloco o cinto de segurança. Da janela vejo o branco que se perde na escuridão.
Tento dormir mas o queixo encontra o peito e sufoco. Fico com sono.
Tranquilo, viaja de olhos fechados. Um sorriso na face acompanha o homem sereno. Parece um poema contínuo. Sem fim. Contagia meu corpo. Endireito as costas. Pouso as mãos nas minhas coxas. Deixo-me estar. Devagar, escuto o ar que respiro. Meigo é o tempo que agora me abraça. Descoberta que emociona.
Uma lágrima dança na minha boca, como se fosse eu, o horizonte deste caminho novo.
Fecho os olhos. Sem pressa, sorrio.
Ao meu lado adormece o poema inacabado:
Dormi o sono dos justos, sem nunca ter acordado. Encontrei o sonho. Repousei os demónios.
Intervalo de tempo. Passado o engano, na fronteira do indizível encontro o silêncio. Aqui, onde o mar e o rio se unem e separam. Salgado e doce, dentro e fora, a mesma água. Repouso sem adormecer.



terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Se queres saber mais sobre o mundo,
como crescem as árvores, as cotovias, sem os veres crescerem,
olha o teu pai, repara na tua mãe, e finge que entendes
quando uma estrela cai do céu

domingo, 6 de fevereiro de 2011

"Se queremos julgar, viremos os olhos para a parte de dentro"

"Se queremos julgar, viremos os olhos para a parte de dentro, que ainda mal, porque tanto acharemos que julgar, que examinar e que condenar. Se nos julgarmos sem paixão a nós, eu vos prometo que teremos tanto que fazer e tanto que não nos ficará nem tempo, nem ânimo para julgar a outrem" - Padre António Vieira, Sermão da Segunda Dominga do Advento.

Vieira nasceu a 6 de Fevereiro de 1608, em Lisboa.

Surrealimo e Saudade


Existe um certo ponto do espírito de onde a vida e a morte, o
real e o imaginário, o passado e o futuro, o comunicável e o
incomunicável, o alto e o baixo deixam de ser percebidos como
coisas contraditórias. Ora, seria falso atribuir à actividade
surrealista qualquer motivação que não fosse a esperança de
determinar esse ponto.

(Breton - Manifesto Surrealista)


Esse ponto do espírito, cerne de toda a supra-realidade, esse ponto que não é nenhum lugar e em
nenhum espaço se encontra, é um ponto indeterminável, que podemos designar de um EnTre, sem centro e sem existência real. Um salto no desconhecido, previsto a Liberdade e o Amor. Neste sentido, esse não lugar rodeia tudo, e a tudo enche, sem, contudo, ter forma ou existência concreta e racional. No plano material das coisas que vemos fora do sonho ou da lembrança. Esse entre é inexistente.

O “ponto” de que fala Breton, metáfora de um além-real, situa-se dentro e fora da existência do mundo real, é um Outro em que tudo se transmuta e transforma. É uma realidade que não é, nem não é. Não pode estar nem não estar no mundo e buscá-lo é nunca o encontrar. As coisas que são, para os que buscam a esperança de encontrar esse lugar, são uma indeterminação no plano real. São ideias, anjos do real. Mas, porque são e não são, ao mesmo tempo, e em todos os lugares e não lugares, são a eternidade indeterminável. As coisas reais, como as entendem os que sonham acordados, um desvanecimento. É aqui que a esperança dos surrealistas encontra a sua mesma busca. É aqui que a Saudade se encontra com o surreal. É nesse ponto, em que ambos os caminhos se cruzam, melhor dizendo, se fazem ponte, que a esperança supravive e se quer futuro.

Nesse athanor alquímico da alma, as coisas apresentam-se não como uma ex-istência, senão como uma lembrança. Podemos então descer, com AML, as escadas com o Sol do lado Direito e a Lua do Esquerdo, tendo ao centro, o Fogo onde tudo arde nos olhos da Deusa.

Surrealismo e Saudade, ambas as visões se dirigem para esse ponto, esse Fogo sagrado, por labirintos onde a palavra se sacraliza e se transforma, servindo-se dos arquétipos onde o inconsciente se une ao consciente e se apresenta como "laboratório" do real e da palavra. Como transformar esse “menos”, essa inexistência de Ser essencial nas coisas existentes, no "mais" que o plano do imaginário possibilita? Esse vislumbre do real é restituído ao homem pela lembrança e pelo sonho, pella imagem transformadora, pela Poesia, o lugar do ser heideggeriano.

Esse ponto imaginal, que buscam os saudosos e os surrealistas, é a impossibilidade possível da Poesia. Isso que em reminiscência e desejo busca o Uno, a Origem, o Indiferenciado. O que é e não, simultaneamente, sem contradição. Esse “Isso” que unifica o “em cima e em baixo”, “futuro e passado”, “real e o imaginário” e, em clarão de síntese, o “mais” que a tudo subjaz, pois nele vive e se faz o "lugar" onde se dá o Encontro.

É essa Realidade, creio eu, esse olhar cego, olhar que queima, olhar livre, que buscam os sábios, os santos, os poetas e os místicos de todas as religiões. É esse “Ser tal qual se é”; essa visão branca de pleno vazio a arder de Plenitude que o coração guarda em si, em tesouro, e que é preciso desvelar para que arda em Liberdade e Amor. Por isso se mata Buda , por falso, quando imaginamos vê-lo, e se mata Cristo, para que nos morra sem morte, ressuscitado em Espírito onde somos Ele. Eesse nenhum espaço e nenhum lugar é a radiosa estrela, a grande aventura surreal. Buscá-lo, só pode ser a Esperança, determiná-lo, o erro do Homem. Viver os contrários, superá-los, talvez seja a única possibilidade irreal ou a única impossibilidade real desta e de outras aventuras poéticas.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Ainda que tropeçes numa Visão, saberás
no entanto, a realidade em que te encontras.
E assim, cair, é sinónimo da tua Procura!

Poesia é um barulho da vida

A tradição européia liga a poesia à primavera. Essa foi uma convenção estabelecida como tantas outras. O que determina o aparecimento da poesia ou a composição de um poema é de ordem mais sutil e subjetiva. Assunto para um tratado dos grandes – e ao mesmo tempo quase nada. A natureza e o mundo que nos cerca, o tempo, a interação com os outros, sentimentos, emoções, o que se aprendeu e experimentou desempenham um papel importante no fazer poético.
Hoje em dia, quando o modo de vida nas cidades (e mesmo fora delas) exige de nós tanta contenção e causa tanto desgaste emocional; quando os problemas crescem na razão direta das exigências que não conseguimos satisfazer; quando o que se espera de cada um é talvez muito mais do que seria razoável esperar de seres humanos perdidos em nossas babéis em ritmo de globalização caótica; quando cada pessoa é confrontada com desempenhos consagrados e inteiramente inalcançáveis para a absoluta maioria; quando nossos limites são testados e desafiados dia a dia no trabalho, na família, na rua, é claro que a poesia tem que refletir isso.
Não só a linguagem mudou. O modo de sentir o mundo e reagir aos estímulos se tornou mais tenso, mais áspero, porque é preciso ativar as defesas para não se ferir a toda hora.
Nada no entanto impediu que continuassem surgindo poetas verdadeiros neste mundo difícil e tantas vezes cruel. Parece que enquanto existir gente na Terra, existirão poetas. Poetas que falam não só de amor e flor, mas da humana condição, da falta permanente de alguma coisa que amenize a inquietação e a angústia, das coisas que os afetam, da própria circunstância do poema. Específico da poesia é o sentimento súbito do que toca a pele, da percepção aguçada que se amplia, instigadora, e num certo momento irrompe e mobiliza alguém a expressá-la. Mas para isso é preciso que haja um silêncio interior, uma certa contemplação desse processo, condição para ouvir o “barulho” da poesia. Desse barulho de que fala Ferreira Gullar, num poema que expressa quase a essência da questão:

Todo poema é feito de ar
apenas: a mão do poeta
não rasga a madeira
não fere
o metal
a pedra
não tinge de azul
os dedos
quando escreve manhã
ou brisa
ou blusa de mulher.
O poema
é sem matéria palpável
tudo
o que há nele
é barulho
quando rumoreja
ao sopro da leitura.

De Carlos Drummond de Andrade, um poema instrutivo, que fala das palavras, da serenidade e do silêncio, três colunas mestras de um poema:

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intacta.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros.
Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consuma
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.

Reparem como Paulo Leminski incorpora a turbulência de nossos dias sem deixar de seguir essas receitas:

maldito
o que não deixa cantar
o canto é fraco
maldito
o que não deixa cantar
o canto é forte
maldito
o que não deixa cantar
o canto gera outro canto
maldito
o que não deixa cantar
o canto nunca deixa de cantar

Poesia não é antídoto de nada, não é remédio, não relaxa, não dá sono. Ignora rótulos e visões preconcebidas. Como tudo nesta vida, tem suas formas próprias, que devem e precisam ser bem cuidadas para que o poema soe verdadeiro, mas que pouco valem se o que se diz for fraco, falso, artificial, pretensioso. Os puristas que me perdoem, mas um poema tem que ser do mundo, dos outros, da morte, e sempre, sempre da precariedade humana que se recria em palavras. Isso vale também para poemas que falam de uma realidade interior, de sentimentos subjetivos, porque, já dizia Vinicius, “a vida só se dá pra quem se deu”. E acho que não está errado dizer que fazer poesia é um modo bem-sofrido de viver – e por bem-sofrido quero dizer a dor e a alegria, o amor e seus avessos experimentados em profundidade.
O que legitima um poema são as marcas, as cicatrizes, os efeitos concretos da realidade sobre quem o escreve; é a experiência vivida – embora precise existir “calma e frescura na superfície intacta” para deixar que venha à tona e se estruture. Importa muito pouco se é um soneto, um haicai, se são trovas, versos livres e brancos ou redondilhas. Cada poema deve se impor por si mesmo, “com seu poder de palavra / e seu poder de silêncio.”

Da Lira, por Isabel Rosete


Orfeu! Ah, Orfeu!
Tu, ó deus da lira e do canto,
Da katarsis musical,
Que me moves o corpo
E adoças a alma
Nos desígnios do Amor
Puro e leve,
Trágico e terrível.
Sempre presente
Estiveste, ó Orfeu, saudado e desejado,
No reino dos vivos e dos mortos,
Amando, sofrendo,
Lamentando-te pelo Amor perdido.
Orfeu! Ah, Orfeu!
Tu, ó grande dádiva de magia
Que até os rochedos comovias.
Não tens limites,
Ultrapassas todas as fronteiras,
Infindas, que só a arte das Musas alcança.

Orfeu! Ah, Orfeu!
Como me revejo nesse teu Amor
Des-graçado, penitente, nunca recuperado.

Também eu des-pedaçada,
Não pelas mãos das Ménades
Embriagadas por Diónisos,
Mas pelas garras dos amantes
Que não me amaram,
Dos amantes que me possuíram
E nunca me conquistaram.

Isabel Rosete



Uma crónica de Delhi de José Eduardo Reis, do Conselho de Direcção da ENTRE

Acabei de ter o meu primeiro banho de multidao. Delhi, avenida Mahatma Gandi, fim de tarde, hora de ponta. O ruido permanente das buzinas tem uma funcao preventiva e ordenadora. E (devia ter acento) a dimensao audivel do transito estratificado por castas: do ricoxo a lambretas-taxis, de motoretas (numa iam tres pessoas e uma delas, de pe, bracejava como um policia sinaleiro para facilitar a travessia em contra-mao, na diagonal e aos zigzagues, a avenida) a autocarros sem luzes e outros com poucas luzes, uns apinhados com gente a sair pelas portas traseiras, outros semi-vazios, carcacas de latao fumegantes mas decorados com fitas douradas pendentes dos vidros traseiros, e muitos automoveis, alguns teimando em circular contra a corrente formada por uma massa continua de veiculos motorizados que aparentemente se deslocavam numa arteria de sentido unico. Um verdadeiro trafego darwinista.Mas incrivelemente nao vi, apesar de muitas ameacas, uma unica colisao. Percebe-se que ha um codigo que funciona. As buzinas dao o tom a este sistema mais que dinamico, um caos de milhares de unidades discretas que para o meu olhar estupefacto e contemplativo parece um fluxo, uma corrente que avanca ininterrupta, um hino a diversidade da luta pela vida.

- José Eduardo Reis, Nova Delhi, 5.2.2011 (sem acentos, para respeitar o original)

Da rectidão louca

Como deverás ser recto? Isso deve-se entender de duas maneiras, segundo as palavras do profeta que diz: «Mas, ao chegar a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho» (Gl 4,4). A plenitude do tempo existe de duas maneiras. Pois uma coisa é plena quando ela chegou ao seu fim, assim como o dia é pleno com a sua noite. Por isso o tempo será pleno, quando o todo o tempo se desprender de ti. A segunda maneira é quando o tempo chega ao seu fim, o que quer dizer: à eternidade; pois aí todo o tempo tem um fim, porque aí não existe nem antes em depois. Aí, tudo o que é, é presente e novo, e ai tens numa contemplação presente o que sempre aconteceu e acontecerá. Aí não há antes nem depois, tudo aí é presente; e nessa contemplação presente eu conservo todas as coisas em minha posse. Isso é a plenitude do tempo, e assim serei recto, e assim sou verdadeiramente o filho único e Cristo.
Que Deus nos ajude a alcançarmos essa plenitude do tempo. Ámen.

Mestre Eckhart, Tratados e Sermões, Paulinas Editora, p.240

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Helena, esquecida, largou a estação da vida

As cores definidas, o contorno do olhar desenhando a fronteira do nosso esquecimento. Ao longe- gargalhadas. Foi na ilha, que ouvi  contar, a história de Helena Serena.
A campainha insistente soou feito um lamento contínuo, sofrido. Helena Serena esqueceu o presente. Abriu a porta e como se fosse um jogo,  escondeu-se noutro tempo. Passou a conjugar o presente no  passado. Helena, esquecida, largou a estação da vida.
- Senhor Manuel, quanto custa o aipim?
- O senhor Manuel, morreu Helena Serena…
Nebuloso o olhar triste de Helena. Seu realejo cantou a saudade doutro tempo. Desafinado, embalou o engano.Nunca soube o fim da história.
Andei pelo bairro da Boa Morte, perguntei por Helena. Na rua os meninos gritaram:
- Brasileirinha. Branca. Helena viveu num tempo inventado. Serena se foi numa hora sem hora. Perdida perdeu-se no espaço…Brasileirinha, procuras que tempo?
- Procuro o tempo… que Helena perdeu
- Vens de onde, brasileira?
- Venho de um compasso desafinado. Procuro quem roubou o tempo de Helena, que também era meu
- Brasileirinha olha o horizonte, vês?
-….
- Vês o sol a dizer até amanhã?
-….
- Sempre o mesmo todos os dias. Enquanto te perdes por Helena Serena, perdes quem te visita todos os dias.
O galo acorda as seis da manhã. Na roça, o cacau está quase maduro. Seis da tarde, há peixe pescado na rede do pescador. Meu olhar desenha o contorno da vida, tão presente o sorriso dela. O sol é tão laranja!
Quero um homem feminino que faça amor, quando se deita comigo. E no momento do prazer, que o dele seja o meu, tão feliz eu fico com seu deleite.
Ressureição:

Por que vivemos os dias, todos os dias,
com uma morte escondida em cada mão?

Primeiro passo na internacionalização do pensamento e obra de Agostinho da Silva



AGOSTINHO DA SILVA, Penseur, écrivain, éducateur, organização de Paulo Borges, José Manuel Da Costa Esteves, Idelette Muzart-Fonseca dos Santos, colecção Mondes Lusophones, Paris, L'Harmattan, 2010, 330 páginas.

Foi dado o primeiro passo para a internacionalização do pensamento e obra de Agostinho da Silva, com este volume que inclui uma antologia de textos seus (organizada por Paulo Borges e Rui Lopo) e as actas do colóquio em sua homenagem, no dia do seu aniversário, 13 de Fevereiro de 2007, no Centro Calouste Gulbenkian, em Paris.

Estão já prontas outras traduções, para italiano e alemão.

Uma vida de cão...



Gostariam de experimentar?

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Ruído e Silêncio em Vergílio Ferreira (excerto), Isabel Rosete

O ruído omnipresente, tão característico da sociedade contemporânea, tornou-se um meio identitário, um modo de ser estar ocupado e preenchido, mas não um modo de ser do indivíduo. A modernidade abriu caça a todas as formas de silêncio. Exorciza-o, conserva-o à distância, considera-o politicamente incorrecto. Somos incapazes de nos abrirmos a uma «aprendizagem serena do silêncio», de escutar as vozes silenciosas da Terra, as vozes ermas dos campos «no calor parado da tarde». Perdemos, definitivamente, a serenidade e não somos mais capazes de fruir o «riso sem som», de nos determos a escutar, de nos calarmos, de percebermos, pois, que até «Deus entreabre um olhar no silêncio do campo em ruínas». Enfim, de regressarmos «ao silêncio fundamental».
       Justifica-se, presentemente, a sua fobia, pois a palavra é o único antídoto para a as múltiplas formas de totalitarismo que procuram reduzir a sociedade ao silêncio. É a grande estratégia dos políticos, das figuras públicas mais influentes. Mas não usam eles os totalitarismos, a palavra como formas de calar a voz dos que ainda escutam os desígnios insondáveis do Ser, da Vida e da Morte?
.......Seja como for, o silêncio deixou de fazer parte da nossa cultura, e o pensar vergiliano é bem a memória recôndita, mas des-velada deste estado insuportável da humanidade. O silêncio tornou-se um intruso, um abismo no seio do discurso, até mesmo um factor de desconforto, qual circunstância penosa, assunto particularmente impopular nos dia que correm na agonia da demagogia barata que tanto ilude muitas das mentes ditas mais esclarecidas, que comove as massas, sedentas de ouvir qualquer coisa que soe bem, mas, no entanto, incapazes de escutar o ser essencial das palavras de origem, esse modo de ser da linguagem, onde a verdade e autenticidade das coisas nascem e são.
.......A situação é, contudo paradoxal: a saturação da palavra, dos discursos eloquentes, mas vazios de conteúdo significante, das mis engendradas tagarelices dos renascidos Sofistas, induzem, cada vez mais, ao fascínio do silêncio. Ambivalente, suscita o amor e o ódio. Ousar falar dele, torna-se um tema provocatório, quiçá, contracultural, contribuindo para subverter o conformismo pacóvio, o efeito anestesiante e dissolvente do ruído incessante, que nos impede de ouvir, mesmo a «boca aberta num grito» . Os nossos ouvidos estão cobertos de «lixo orgânico», e até «mesmo Deus que é um chato», «tem sempre uma palavra a dizer»; e as nossas casas jamais adormecem no silêncio .
.......Mas o silêncio também assume uma função reparadora, eminentemente terapêutica, repondo pelo discurso inteligente, de que obra de Vergílio Ferreira é dos exemplos mais eminentes de toda a Literatura Portuguesa – um bem escasso, aliás – a necessidade vital de integridade. Mostra-nos o nosso escritor que, sem ele, perdemo-nos nas palavras, perdemos o fio condutor no crescente labirinto do discurso: essa infindável imensidão do silêncio rodeia qualquer escrito, qualquer assunto, qualquer existência humana, deixando-lhe justamente a possibilidade do seu encaminhamento ao longo de uma margem sem princípio nem fim. Sem norte, sem destino. Nas basta aprender a ouvir. Para escutar o mundo e outro, é preciso saber partir do silêncio. Esta é uma das grandes mensagens do nosso escritor, tal como foi de le Breton, tão inspirado na soberba escrita do Silêncio.

Isabel Rosete

Da filosofia ocidental e oriental - por Ranga Karakuran

Os filósofos do Ocidente, mesmo os melhores de todos, limitam-se a ser bons oradores. Os filósofos do Oriente são frequentemente maus oradores mas isso não interessa. Não é a oratória que conta. A filosofia oriental é pragmática e operacional, tal como a filosofia da física moderna - isto se exceptuarmos o facto de as operações em questão serem psicológicas e os resultados transcendentes. Os metafísicos ocidentais fazem afirmações acerca da natureza do Homem e do Universo, mas não oferecem ao leitor os meios de verificar a verdade de tais afirmações. E nós, quando fazemos afirmações, acompanhamo-las de uma lista de experiências que se podem utilizar na comprovação da validade do que acabamos de afirmar. Por exemplo: Tat twam asi «tu és isto». É este o núcleo de toda a nossa filosofia. Tat twam asi [...] é como uma proposição metafísica, mas aquilo a que essa frase diz realmente respeito é a uma experiência psicológica, e as operações por meio das quais a experiência pode ser vivida são descritas pelos nossos filósofos, de maneira que quem deseje realizar as citadas operações pode verificar por si próprio a validade do Tat twam asi. Essas operações têm o nome de ioga ou diana ou Zen, ou, ainda, em circunstâncias especiais, o de maituna.

- Ranga Karakuran
Falar de mim é fácil. Acordo todos os dias. Umas vezes feliz, noutras triste ou nem por isso. Falar das coisas, de tudo que faço parte e me acolhe, não sei. Assim, aproximo o meu olhar. Colo meus olhos no fio de cabelo. Sem perceber como o desconhecido volta a encontrar-se comigo e eu assustada distancio-me.

Falar de mim era fácil. Desde essa viagem, deixei de saber onde começo e acabo. Perdi o meu eu, antes tão bem delimitado.
Olho-me ao espelho e vejo-me a continuar no outro e no outro sem dar conta de todos os outros onde pareço existir. Meu perfume na flor que desabrocha. O leito do rio que desagua em mim. Falar de mim é falar das coisas. Que faço parte e me acolhem. Ainda, não sei.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Mística, despertar e sono em Karl Jaspers



“Designamos esta situação fundamental da nossa existência pensante por cisão em sujeito e objecto. Estamos nesta situação sempre que a nossa consciência é vígil. […]

Qual será o significado deste mistério, a todo o instante presente, da cisão em sujeito e objecto? Parece evidente que o ser na sua totalidade não pode ser objecto nem sujeito; terá de ser o “englobante”, que nesta cisão se manifesta.
O ser em absoluto não pode evidentemente ser objecto. Tudo o que para mim é objecto surge-me do englobante e eu próprio, enquanto sujeito, também dele provenho. O objecto é um ser determinado para o eu. O englobante é obscuro para a minha consciência”.

“Pela nossa operação filosófica fundamental desatámos os laços que nos prendem aos objectos como ser presumível e assim entendemos o sentido da mística. Há milénios que os filósofos da China, da Índia e do Ocidente afirmaram algo de idêntico em toda a parte em todas as épocas embora em multiformes modos de comunicação: o homem pode transpor a cisão entre sujeito e objecto alcançando a total união em que desaparecem todos os objectos e se apaga o eu. Nesse transe se abre o ser autêntico e ao despertar para a consciência deixa um rastro do mais profundo e inesgotável significado. Para aquele, porém, que teve a experiência dessa união ela é o autêntico despertar e o acordar para a consciência da cisão sujeito-objecto é, pelo contrário, o sono”

– Karl Jaspers, Iniciação Filosófica, tradução de Manuela Pinto dos Santos, Lisboa, Guimarães Editores, 1998, 9ª edição, pp.34-35 e 38.

"Peregrinação às Fontes", um grande livro de Lanza del Vasto



"Não compreenderemos nada da política de Gandhi, se ignorarmos que a finalidade da sua política não é uma vitória política mas espiritual"

- Lanza del Vasto, Peregrinação às Fontes, Águas Santas, Edições Sempre-Em-Pé, 2010, p.117.

Um grande livro sobre a peregrinação de Lanza del Vasto à Índia e o encontro com Gandhi, finalmente publicado em Portugal, na excelente tradução de Helena Langrouva, graças à subscrição de vários amigos.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Não há nada que dure para sempre...

Sempre acreditei o contrário. Nunca tinha visto a vida acabar. Mas agora, havia uma despedida, e eu tinha de aceitar que Miguel dizia-me a verdade. Nesse dia, a dor casou-se com o sofrimento. Perdi o amanhecer, não dei conta da noite.
Mais do que a dor da despedida, roubaram-me a eternidade. Viver debaixo deste postulado, determinando que tudo tem um fim, fez do meu mundo um corredor estreito.
Começar tudo de novo. O tempo foi definido em intervalos. O dia acaba. A noite finda. Uma largarta morre. Uma borboleta nasce. "Tudo acaba um dia". Foi com essa afirmação que o meu corpo quase assumiu o seu fim.
O dia se prolonga na noite, todos os dias. Umas vezes fria e escura, à espera da cor no dia seguinte. Noutras quente e suada, pede o fresco do amanhecer. Muda a cor, muda a temperatura e é dia e noite todos os dias. Na Primavera, Verão, Outono, Inverno e de novo a Primavera o dia é sempre dia. A lagarta cresce bem devagar até ganhar a asas da borboleta.
Meu mundo cresceu, lá fora o dia é dia de novo. A borboleta nasce e morre. Entre nascer e morrer, voa.

Fosse a vida finita
com um início e um fim
o pecado seria só um
acreditar que a vida
não tem fim

quando tudo parece findar
nasces de novo
sem dares por isso

sorriso que prolonga no riso,
antes o pranto
outro sorriso de novo

entre inspirar e expirar
respiras
entre amanhecer e anoitecer
é dia

Quando voltar a ver Miguel, com um abraço, segredo bem de mansinho:

- A vida não existe sem mudança...

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

"Sou tudo o que foi, é e será"



"Sou tudo o que foi, é e será, e jamais algum mortal levantou o meu véu" [inscrição na estátua de Ísis, em Saïs, no Egipto]
- Plutarco, Ísis e Osíris, 9, 354 c.

"Um deles aí chegou - levantou o véu da deusa de Saïs. Mas que viu ele? Viu maravilha das maravilhas! - ele mesmo"
- Novalis, Os discípulos em Saïs, Paralipómenos, 2, Petits écrits, tradução e introdução por G. Bianquis, Paris, 1947, p.257.

Ísis foi assumida na tradição ocidental como uma figura da Natureza. Quem lhe ergue o véu e se vê a si mesmo transcende a condição mortal? E quem a viola, como a civilização prometeica contemporânea?

domingo, 30 de janeiro de 2011

Se levarem Vénus...

Mais um capítulo só para Clara distrair-se. Revejo textos antigos. O do diospiro encaixa no meu livro.

Clara chega sempre sorridente. Fala baixo. Ouve só o que quer.

- Então Ana?

Feliz, digo que escrevi, escrevi, escrevi, escrevi! Na estante todos meus desabafos (alguém conhecido assim condenou a minha escrita). Orgulhosa mostro quase 20 páginas A4.

Enquanto acomoda-se no sofá, faço um chá - Flores da Paixão – chá verde com rosas.

Clara avisou-me que ia apontar todos os erros. Aceito como um exercício de humildade.

- Ana, falta a ligação... Não estás a escrever só para ti. Nada é tão óbvio.

- hm

- E depois os diospiros não se descascam!

- Nunca os comi, apenas imaginei.

- Mas está errado amiga. O diospiro abre-se. Chupa-se.

- Deixa-me descacar a fruta Clara. Deixa-me dar dentadas na laranja.

- Eu deixo. Mas está mal. Olha, não te vou largar. Vou ser uma chata. Só vais alterar se achares bem. Mas não te vou poupar.

Hoje, David enviou-me uma mensagem a dizer que eu comesse o fruto como bem quisesse. Quando menos espero apetece-me morder um ananás com casca. Ferir os lábios, sangrar. No meio da dor o suco da fruta a fazer-me feliz.

- Quero mostrar-te a carta que escrevi a Cleo quando Gabriel saiu de casa. Quero expulsar a dor que resta. Importas-te?

- Claro que não.

Ontem, disseram-me que uma energia intrusa tomou conta da mim. Baco, Vénus, Sansão e Dalila moram comigo. Se os expulsar o que vai restar de mim?

Estou tão cansada desta convivência! Por isso, não resisto. Que venha à superfície o que sou.

Como sempre, sigo o meu impulso. Meu Deus que procuro eu? Mostrar que valho a pena? Esta modéstia mentirosa. Vou tirando o disfarce. Dalila não me cortes o cabelo!

A febre volta a tomar conta de mim. Deliro. Quero embebedar-me. Esquecer. Tirar a roupa, perder-me de desejo.

Se me levarem Vénus como vou existir?

- Ana. Acorda linda. Vai correr tudo bem. Contenta-te com o que tens.

Água salgada que limpa o meu rosto. Lágrimas uma seguir as outras. Na garganta um nó! Mãe aparece, dá-me o teu colo que eu hoje sou criança de novo. Faz de conta que me deixo engolir pela onda e tu dizes que sim. Não me puxes para norte mãe, eu quero o sul.

Olha meu corpo cheio de nódoas. Esta é a cor da dor mãe – roxa. Tem um som fundo, quase silencioso. Vem do estômago este grito que ninguém ouve.

Uma bofetada me acorda, Clara assustada, implora:

- Ana... Ana, ACORDA

Na minha face um sorriso mostra que a febre passou. Não sei qual o arquétipo que me ressuscita, sempre que beiro a loucura. Como se nada tivesse acontecido levanto.

No toca-discos Cássia canta:

“Antes de me despedir, o meu pedido final,

Não deixa o samba morrer, não deixa o samba acabar”

Clara pede a carta que escrevi a Cleo.



Lisboa, 15 de Junho de 2005



Querida Cleo,

Um dia ele chegou, abriu a porta e saiu. Eu ainda nem bem tinha começado a saber ajustar minhas omoplatas, adequar a postura correcta, saber inspirar e expirar. Não deu tempo porque a porta se fechava no meu movimento esquecido de respirar.

Na capoeira as galinhas correm para o milho, debicam um a um, gritam desassossegadas, abrem as asas e não voam. Ensurdecedor o ruído das galinhas na capoeira.

Fico pensando que prometi escrever, você está longe do outro lado do mar, lá onde os homens são mais baixos, olhos puxados, hábitos outros. Você está por aí tentando adivinhar se respiro. Confesso que tento, ai como tento fingir que tudo isto aconteceu para meu bem. E assim esotérica vejo na desgraça a luz.

A minha ginecologista diz que tenho quistos no colo do útero porque engoli as palavras e cultivei um jardim de bolinhas sebosas na entrada do meu sexo. Receitou florais de bach, um para o coração, outro para o sono e finalmente, outro para a timidez.. O do coração é para quem sofre de ciúmes e possessividade. Tão bem se ajusta a mim que sempre amei tomando posse do meu amado. O do sono é tão óbvio, serve para dormir! O da timidez para que eu me expresse. Parece que meus quistos assim explodem e dos meus lábios as palavras aparecerão a contar a minha dor.

O meu amor abriu a porta e saiu. Lá na casa dele, só entro se pedir autorização. Na geladeira dele as frutas e legumes fazem a festa. Almofadas cor de laranja, Bilal na parede a contar em quadrinhos, histórias de amor. Os discos – são tantos- ainda moram aqui, assim quando me viro à direita e vejo o passado, dos clássicos ao jazz, do rock ao pop, os meus brasileiros ainda desarrumados. Quando me visita vai à estante e tira um par de discos. Pouco a pouco a nossa história vai ficando sem peças.

Hoje, disse como está feliz. Abriu a porta de nossa casa, fechou e saiu. Lá na casa dele sozinho acorda quando quer. Se tem companhia para dar o bom dia não sei. Sei que na minha cama tomei seu lugar, me viro a direita e vejo o vazio. Por mais que me toque não vem o orgasmo, estou sozinha.

Da rua vejo sua janela, indiscreta adivinho sua rotina. Por vezes telefona-me e vamos ao supermercado. E assim os dois nos encontramos nos corredores das frutas e congelados. Tão grande foi o ultimo super que só lá voltaremos talvez daqui a dois meses. Assim, não sei que pretexto teremos para estarmos juntos de novo. Tão feliz está ele a viver sozinho.

Meu cunhado telefona e diz que temos de facturar, “Tu não estás motivada”. O informático aproveita e diz que seus erros são fruto da minha tristeza.

Fui trabalhar e doente fiquei, tão mal cabia naquele espaço. Prometi escrever, mas só lembro da porta fechando. Você que está aí desse lado do outro lado do mar adivinhando se ainda respiro. Eu te digo que por vezes me sonho no mar, por vezes me vejo na lama. Seja onde for espirro vezes sem conta porque estou alérgica ao ar.

Assim descanse que entre um espirro e outro vou respirando.



Clara devolve a carta. Calada, sempre calada me abraça. Não há o que corrigir nesse texto

sábado, 29 de janeiro de 2011

Esteve vinte anos a pintar Deus com as mais variadas tintas,
e eis que do nada o vê na absoluta transparência


sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Lançamento do livro "O Solar de Santana, Museu Municipal de Tondela e a Arquitectura Senhorial da Região", de Inês do Carmo Borges, colaboradora da revista "Cultura Entre Culturas"


No próximo dia 16 de Fevereiro de 2011, quarta-feira, pelas 15 horas, no Museu Municipal de Tondela, será apresentado  pelo Prof. Dr. António Filipe Pimentel, Director do Museu Nacional de Arte Antiga, o livro "O Solar de Santana, Museu Municipal de Tondela e a Arquitectura Senhorial da Região", da Dra. Inês do Carmo Borges, colaboradora da revista Entre, desde o seu primeiro número. Na ocasião estará igualmente presente o editor, Dr. Jorge Fragoso, da Editora Palimage.
A obra será lançada também em Lisboa, em data e local a anunciar, do que daremos conta oportunamente. 

A fotografia da capa é da autoria de Marcus Garcia Moreira, já aqui muito justamente destacado no blogue da Entre (ver: http://arevistaentre.blogspot.com/2010/05/marcus-garcia-moreira.html).
O projecto gráfico da capa é da responsabilidade de Luiz Pires dos Reys,  tendo a  execução ficado a cabo de Xénia Pereira Reys, ambos da equipa da revista Entre.

Não se deixe entretanto de visitar o belíssimo blogue da autora, sempre povoado por imagens, palavras e sons de muito encantar: 
http://musicaescarlate.blogspot.com
 
 
adormece teus lábios nos meus até amanhã de manhã,
quando acordares, leva esse amor que de nós sobeja
rega com ele a flor, semeia o campo, convida o beija-flor
amor multiplicado - teu nos meus lábios.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

MELODIA

calam silenciosas as pedras
montanha que nos alcança
sem pressa,voam gaivotas
nasce outra flor, sem dono.

abraço teu corpo no meu
antes que seja noite
melodia que se repete
pausa que tarda
promessa de novo compasso

dança enquanto a noite
se alonga no amanhecer
e eu te diga adeus
outra vez

Palavras de apresentação da revista "Cultura Entre Culturas", por Luiz Pires dos Reys, ontem na FNAC-Chiado

Pede-me Paulo Borges, director da Cultura Entre Culturas, para que aqui dê a público as palavras proferidas ontem por Luiz Pires dos Reys, director de arte, membro do Conselho de Direcção e colaborador, por ocasião de mais uma sessão de apresentação da revista, desta vez na FNAC-Chiado, em Lisboa. 
À mesa da sessão, a que presidiu o director da publicação, Prof. Paulo Borges, estiveram presentes igualmente o Prof. António Cândido Franco (Univ. de Évora) e o editor, Dr. António Baptista Lopes, responsável da Âncora Editora. Do evento aqui publicaremos, muito em breve, registo fotográfico.

A seguir transcrevemos, pois, os parágrafos iniciais da comunicação acima referida, podendo, quem deseje ler o texto na íntegra, fazê-lo através do link seguinte: 
 


"Quero deixar desde já claro que não venho aqui hoje apresentar revista nenhuma. Lamento, mas “Cultura Entre Culturas” não é uma …revista.
Uma revista é, por definição – eu diria quase, por definhação –, aquele tipo de objecto, cultural ou não, que (como a própria palavra procura, embora desastrada e algo uroboricamente, dizer) cuida de rever, passar em revista alguma coisa de algum assunto.
Entendendo revista neste sentido, no sentido do media que revê o actual ou o acontecido há pouco, receio que devamos concluir que uma revista é coisa o seu quê funerária, posto que regista e trata e fala do que já não existe senão na memória, ainda que recente nos factos e ainda que verificável nos seus efeitos.
Mas, só pela âncora da memória, pelas emoções que nela tenhamos plasmado ou pelos pensamentos que ela haja suscitado em nós, tais factos permanecem realmente: não já o advento deles, não mais o seu evento. Esses desapareceram já, no fumo do tempo, como em tudo o que faz, ou não, história: e tudo a faz, ainda que mínima. São, pois, puros fantasmas e espectros remanescendo em nós: na memória – sensitiva, emocional ou intelectiva.
Por outro lado, o que pode ser re-visto do que quer que seja de entre – o entre cada coisa e cada outra coisa, o entre cada ser e cada outro ser, o entre cada pessoa e cada outra pessoa, o entre cada acto e cada outro acto, o entre cada tema e cada outro tema, e o entre todos uns e todos os outros – o que pode ser re-visto do que quer que seja de entre, repito, não tem, na verdade, entre-campo ou entre-domínio alguns que lhes seja fundo e fundamento próprios, ou que sequer haja enquanto puro entre-meio ou simples de per-meio. 
O entre é propriamente o que não ex-siste: ou porque ainda não suscitou manifestação entre as margens que de si a si apelam diálogo e encontro, ou porque não haverá nada disso de manifestar-se. Ele é, deste modo, o que não é pertença de ninguém e a todos, no entanto, é de comum e livre e permanente acesso."

[...]

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

HOJE, 3ª feira, 25, 18.30, FNAC - CHIADO - apresentação do nº2 da Cultura ENTRE Culturas



O nº 2 da revista Cultura ENTRE Culturas será apresentado no dia 25 de Janeiro, pelas 18.30, na FNAC - Chiado, pelo Prof. Dr. António Cândido Franco (Univ. Évora), bem como pelo Director, Paulo Borges, e pelo Director artístico, Luiz Pires dos Reys.

Este número tem como tema "Encontro Ocidente-Oriente" e publica ensaio, poesia, fotografia e pintura.

Colaboradores nacionais: Carlos João Correia, Paulo Borges, Rui Lopo, Ricardo Ventura, Duarte Braga, Maria Sarmento, Ethel Feldman, Sylvia Beirute, Donis de Frol Guilhade, Flávio Lopes da Silva, Miguel Gullander, Miguel Real e Abdul Cadre. Colaboradores estrangeiros: pintor Rômulo de Andrade (Brasil), fotógrafo João Paulo Farkas (Brasil), Dzongsar Khyentse Rinpoche (Butão), monge e cientista Matthieu Ricard (França-Nepal), professores Françoise Bonardel (Sorbonne - França) e Giangiorgio Pasqualotto (Universidade de Pádua - Itália), poeta Vicente Franz Cecim (Brasil), psicólogo Sam Cyrous (Uruguai-Brasil).

A revista publica ainda poesia e textos de Raimon Pannikar, Rumi, Longchenpa, Simeão, o Novo Teólogo, T. S. Eliot e Vergílio Ferreira, bem como dois textos do recentemente falecido pensador António Telmo, entre eles o último que escreveu e deixou inédito.

Uma revista de Todo o Mundo.

arevistaentre.blogspot.com

O próximo número é dedicado a Fernando Pessoa, com um caderno especial sobre Fernando Pessoa e o Oriente, contendo muitos inéditos transcritos do espólio.

À venda nas melhores livrarias do país e na Livraria Couceiro (Santiago de Compostela).

Assinaturas:

Pedidos à editora: 1 Ano (2 números) / 2 Anos (4 números) Portugal: € 30.00 / € 55.00; Europa: € 35.00 / € 65.00; Extra-Europa: € 40.00 / € 75.00.
Pagamento: cheque ou transferência bancária

Âncora Editora - Avenida Infante Santo 52 - 3º esq. 1350-179 Lisboa
tel + 351 213 951 223 fax + 351 213 951 222
e-mail: ancora.editora@ancora-editora.pt
web http://www.ancora-editora.pt

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

"O índio pode salvar a América"

Porque não uma escola de Pensamento Índio, construída segundo padrões índios e orientada por instrutores índios? Porque não uma escola de arte tribal?
Porque razão a América não se há-de conhecer a si mesma? Porque não há-de estar consciente da sua identidade? Em resumo, porque razão a América não deve ser preservada?
Havia ideias e práticas na vida dos meus antepassados que não foram ultrapassadas pela civilização actual. Havia na nossa cultura elementos benéficos e influências que podiam dilatar qualquer vida. O facto de quase toda a opinião pública precisar de ser alertada sobre isto não é motivo de desânimo. Durante muitos séculos o espírito humano laborou sob a ilusão de que o mundo era plano e milhares de homens acreditaram que os céus eram suportados pela força de um Atlas. O espírito humano ainda não está livre do raciocínio falacioso; ainda não se tornou num espírito aberto e os seus recessos mais profundos ainda não foram varridos de erros.
Mas agora chegou o tempo de inverter uma ordem destrutiva, e é bom que outras raças fiquem a saber que a cultura aborígene da América não era desprovida de beleza. E ainda mais, ao negar-se ao índio os seus direitos e heranças ancestrais, a raça branca está a roubar-se a si mesma. Porém, a América pode ser revitalizada e rejuvenescida se reconhecer uma escola do pensamento nativo. O índio pode salvar a América.

Lutero Urso Em Pé, A Escola de Pensamento Índio, in Miguel Castro Henriques (org. e trad.), O Sopro das Vozes Textos de Índios Americanos, Assírio e Alvim, p.233

domingo, 23 de janeiro de 2011

Entre tudo e nada: alguma coisa

«Penso
Que o silêncio é imenso.
Entanto,
Se um grilo canta no silêncio,
O seu ínfimo canto
Vence-o.»
- Carlos Queirós, «Breve tratado de não-versificação»

"Ninguém tem necessidade de ir para qualquer outro lado. Todos nós já lá estamos; só falta sabermos que de facto assim é"



"Ninguém tem necessidade de ir para qualquer outro lado. Todos nós já lá estamos; só falta sabermos que de facto assim é. Se eu soubesse realmente quem sou, deixaria de proceder como a pessoa que julgo ser e, se eu deixasse de proceder como a pessoa que suponho ser, saberia quem sou. O que de facto sou - isto se o maniqueu que eu julgo ser me deixar descobrir o que realmente sou - a reconciliação do sim e do não, subsistindo em aceitação total e na abençoada experiêencia do Não-Dois. Em matéria de religião, todas as palavras são obscenas. Toda a criatura que discorre eloquentemente acerca de Buda, de Deus ou de Cristo, merecia que lhe desinfectassem a boca com fenol.

Em virtude da sua aspiração a perpetuar unicamente o sim em todos os pares de coisas antagónicas, o maniqueu que julgo ser não poderá jamais realizar-se na natureza das coisas; condena-se a si próprio a uma frustração incessantemente repetida; a conflitos incessantemente repetidos com outros maniqueus igualmente ambiciosos e frustrados.

Conflitos e frustrações - eis o tema de toda a história e de quase todas as biografias. "Mostrar-te-ei a tristeza" - eis uma frase realista do Buda. Mas ele mostrou igualmente o termo dessa tristeza - o autoconhecimento de cada um, a abençoada experiência do Não-Dois"

- Aldous Huxley, A Ilha, Lisboa, Livros do Brasil, 1999, pp.48-49.

sábado, 22 de janeiro de 2011

Quando tua boca beber o leite do seio materno
Julgares ser o Deus menino e tua mãe imaculada
nota as palavras que o vento te roubou
mostrando-te o vazio que procuravas no intervalo

ténue fronteira inexistente
não ajas como uma sombra,
não sejas devoto da perspectiva;
sê um corpo com bússola de vento

"De todas as coisas que fiz, numa vida comprida como a minha, a melhor foi fazer amor, [...] porque através de um corpo está todo o universo"



- Da esquerda para a direita: Délio Vargas, Artur do Cruzeiro Seixas, Paulo Borges, Alexandre Vargas e António Cândido Franco.

"De todas as coisas que fiz, numa vida comprida como a minha, a melhor foi fazer amor, fazer amor com pessoas, tocar com as mãos um corpo, porque através de um corpo está todo o universo. Isso é o mais importante, muito mais do que a pintura, a arte, os intelectuais, os livros, essas coisas todas" - Artur do Cruzeiro Seixas (citação de memória), no final de um video ontem projectado no Botequim da Graça, na apresentação do livro de António Cândido Franco, Teixeira de Pascoaes nas palavras do surrealismo em português.

Uma noite histórica, acima documentada, com a presença do próprio Cruzeiro Seixas, que será entrevistado e publicará obras suas no nº4 da Cultura ENTRE Culturas.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

3ª feira, 25, 18.30, FNAC - CHIADO - apresentação do nº2 da Cultura ENTRE Culturas



O nº 2 da revista Cultura ENTRE Culturas será apresentado no dia 25 de Janeiro, pelas 18.30, na FNAC - Chiado, pelo Prof. Dr. António Cândido Franco (Univ. Évora), bem como pelo Director, Paulo Borges, e pelo Director artístico, Luiz Pires dos Reys.

Este número tem como tema "Encontro Ocidente-Oriente" e publica ensaio, poesia, fotografia e pintura.

Colaboradores nacionais: Carlos João Correia, Paulo Borges, Rui Lopo, Ricardo Ventura, Duarte Braga, Maria Sarmento, Ethel Feldman, Sylvia Beirute, Donis de Frol Guilhade, Flávio Lopes da Silva, Miguel Gullander, Miguel Real e Abdul Cadre. Colaboradores estrangeiros: pintor Rômulo de Andrade (Brasil), fotógrafo João Paulo Farkas (Brasil), Dzongsar Khyentse Rinpoche (Butão), monge e cientista Matthieu Ricard (França-Nepal), professores Françoise Bonardel (Sorbonne - França) e Giangiorgio Pasqualotto (Universidade de Pádua - Itália), poeta Vicente Franz Cecim (Brasil), psicólogo Sam Cyrous (Uruguai-Brasil).

A revista publica ainda poesia e textos de Raimon Pannikar, Rumi, Longchenpa, Simeão, o Novo Teólogo, T. S. Eliot e Vergílio Ferreira, bem como dois textos do recentemente falecido pensador António Telmo, entre eles o último que escreveu e deixou inédito.

Uma revista de Todo o Mundo.

arevistaentre.blogspot.com

O próximo número é dedicado a Fernando Pessoa, com um caderno especial sobre Fernando Pessoa e o Oriente, contendo muitos inéditos transcritos do espólio.

À venda nas melhores livrarias do país e na Livraria Couceiro (Santiago de Compostela).

Assinaturas:

Pedidos à editora: 1 Ano (2 números) / 2 Anos (4 números) Portugal: € 30.00 / € 55.00; Europa: € 35.00 / € 65.00; Extra-Europa: € 40.00 / € 75.00.
Pagamento: cheque ou transferência bancária

Âncora Editora - Avenida Infante Santo 52 - 3º esq. 1350-179 Lisboa
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"As latências querem sair à luz, tornar-se, actualizando-se, estados de consciência"

Muito antes da psicanálise, o Yoga mostrou a importância do papel desempenhado pelo subconsciente. O dinamismo próprio do inconsciente é, segundo o Yoga, o obstáculo mais sério que o yogui terá de superar. Isto porque as latências querem sair à luz, tornar-se, actualizando-se, estados de consciência. A resistência que o subconsciente opõe a todo o acto de renúncia e de ascese, a todo o acto que poderia ter por efeito a libertação do Si, é, digamos assim, o sinal do medo sentido pelo subconsciente à simples ideia de que a massa das latências ainda não manifestadas possa falhar o seu destino, ser aniquilada antes de ter tido tempo de emergir e actualizar-se.

Mircéa Eliade, Patañjali e o Yoga, Relógio D'Água Editores, 2000, p.62

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

A síntese superativa de capitalismo e socialismo numa economia de mercado ecológico-social

"Mais além da economia planificada e da economia de mercado capitalista (na qual primam os interesses do capital e se descuidam as exigências do trabalho e da natureza), é preciso trabalhar na linha de uma economia de mercado de corte social e ecológico em que se busque o equilíbrio entre os interesses do capital e os interesses sociais e ecológicos, isto é, trabalhar na linha de uma economia de mercado ecológico-social"

- Hans Küng, Proyecto de una ética mundial, Madrid, Trotta, 2006, p.30.