quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Palavras de apresentação da revista "Cultura Entre Culturas", por Luiz Pires dos Reys, ontem na FNAC-Chiado

Pede-me Paulo Borges, director da Cultura Entre Culturas, para que aqui dê a público as palavras proferidas ontem por Luiz Pires dos Reys, director de arte, membro do Conselho de Direcção e colaborador, por ocasião de mais uma sessão de apresentação da revista, desta vez na FNAC-Chiado, em Lisboa. 
À mesa da sessão, a que presidiu o director da publicação, Prof. Paulo Borges, estiveram presentes igualmente o Prof. António Cândido Franco (Univ. de Évora) e o editor, Dr. António Baptista Lopes, responsável da Âncora Editora. Do evento aqui publicaremos, muito em breve, registo fotográfico.

A seguir transcrevemos, pois, os parágrafos iniciais da comunicação acima referida, podendo, quem deseje ler o texto na íntegra, fazê-lo através do link seguinte: 
 


"Quero deixar desde já claro que não venho aqui hoje apresentar revista nenhuma. Lamento, mas “Cultura Entre Culturas” não é uma …revista.
Uma revista é, por definição – eu diria quase, por definhação –, aquele tipo de objecto, cultural ou não, que (como a própria palavra procura, embora desastrada e algo uroboricamente, dizer) cuida de rever, passar em revista alguma coisa de algum assunto.
Entendendo revista neste sentido, no sentido do media que revê o actual ou o acontecido há pouco, receio que devamos concluir que uma revista é coisa o seu quê funerária, posto que regista e trata e fala do que já não existe senão na memória, ainda que recente nos factos e ainda que verificável nos seus efeitos.
Mas, só pela âncora da memória, pelas emoções que nela tenhamos plasmado ou pelos pensamentos que ela haja suscitado em nós, tais factos permanecem realmente: não já o advento deles, não mais o seu evento. Esses desapareceram já, no fumo do tempo, como em tudo o que faz, ou não, história: e tudo a faz, ainda que mínima. São, pois, puros fantasmas e espectros remanescendo em nós: na memória – sensitiva, emocional ou intelectiva.
Por outro lado, o que pode ser re-visto do que quer que seja de entre – o entre cada coisa e cada outra coisa, o entre cada ser e cada outro ser, o entre cada pessoa e cada outra pessoa, o entre cada acto e cada outro acto, o entre cada tema e cada outro tema, e o entre todos uns e todos os outros – o que pode ser re-visto do que quer que seja de entre, repito, não tem, na verdade, entre-campo ou entre-domínio alguns que lhes seja fundo e fundamento próprios, ou que sequer haja enquanto puro entre-meio ou simples de per-meio. 
O entre é propriamente o que não ex-siste: ou porque ainda não suscitou manifestação entre as margens que de si a si apelam diálogo e encontro, ou porque não haverá nada disso de manifestar-se. Ele é, deste modo, o que não é pertença de ninguém e a todos, no entanto, é de comum e livre e permanente acesso."

[...]

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

HOJE, 3ª feira, 25, 18.30, FNAC - CHIADO - apresentação do nº2 da Cultura ENTRE Culturas



O nº 2 da revista Cultura ENTRE Culturas será apresentado no dia 25 de Janeiro, pelas 18.30, na FNAC - Chiado, pelo Prof. Dr. António Cândido Franco (Univ. Évora), bem como pelo Director, Paulo Borges, e pelo Director artístico, Luiz Pires dos Reys.

Este número tem como tema "Encontro Ocidente-Oriente" e publica ensaio, poesia, fotografia e pintura.

Colaboradores nacionais: Carlos João Correia, Paulo Borges, Rui Lopo, Ricardo Ventura, Duarte Braga, Maria Sarmento, Ethel Feldman, Sylvia Beirute, Donis de Frol Guilhade, Flávio Lopes da Silva, Miguel Gullander, Miguel Real e Abdul Cadre. Colaboradores estrangeiros: pintor Rômulo de Andrade (Brasil), fotógrafo João Paulo Farkas (Brasil), Dzongsar Khyentse Rinpoche (Butão), monge e cientista Matthieu Ricard (França-Nepal), professores Françoise Bonardel (Sorbonne - França) e Giangiorgio Pasqualotto (Universidade de Pádua - Itália), poeta Vicente Franz Cecim (Brasil), psicólogo Sam Cyrous (Uruguai-Brasil).

A revista publica ainda poesia e textos de Raimon Pannikar, Rumi, Longchenpa, Simeão, o Novo Teólogo, T. S. Eliot e Vergílio Ferreira, bem como dois textos do recentemente falecido pensador António Telmo, entre eles o último que escreveu e deixou inédito.

Uma revista de Todo o Mundo.

arevistaentre.blogspot.com

O próximo número é dedicado a Fernando Pessoa, com um caderno especial sobre Fernando Pessoa e o Oriente, contendo muitos inéditos transcritos do espólio.

À venda nas melhores livrarias do país e na Livraria Couceiro (Santiago de Compostela).

Assinaturas:

Pedidos à editora: 1 Ano (2 números) / 2 Anos (4 números) Portugal: € 30.00 / € 55.00; Europa: € 35.00 / € 65.00; Extra-Europa: € 40.00 / € 75.00.
Pagamento: cheque ou transferência bancária

Âncora Editora - Avenida Infante Santo 52 - 3º esq. 1350-179 Lisboa
tel + 351 213 951 223 fax + 351 213 951 222
e-mail: ancora.editora@ancora-editora.pt
web http://www.ancora-editora.pt

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

"O índio pode salvar a América"

Porque não uma escola de Pensamento Índio, construída segundo padrões índios e orientada por instrutores índios? Porque não uma escola de arte tribal?
Porque razão a América não se há-de conhecer a si mesma? Porque não há-de estar consciente da sua identidade? Em resumo, porque razão a América não deve ser preservada?
Havia ideias e práticas na vida dos meus antepassados que não foram ultrapassadas pela civilização actual. Havia na nossa cultura elementos benéficos e influências que podiam dilatar qualquer vida. O facto de quase toda a opinião pública precisar de ser alertada sobre isto não é motivo de desânimo. Durante muitos séculos o espírito humano laborou sob a ilusão de que o mundo era plano e milhares de homens acreditaram que os céus eram suportados pela força de um Atlas. O espírito humano ainda não está livre do raciocínio falacioso; ainda não se tornou num espírito aberto e os seus recessos mais profundos ainda não foram varridos de erros.
Mas agora chegou o tempo de inverter uma ordem destrutiva, e é bom que outras raças fiquem a saber que a cultura aborígene da América não era desprovida de beleza. E ainda mais, ao negar-se ao índio os seus direitos e heranças ancestrais, a raça branca está a roubar-se a si mesma. Porém, a América pode ser revitalizada e rejuvenescida se reconhecer uma escola do pensamento nativo. O índio pode salvar a América.

Lutero Urso Em Pé, A Escola de Pensamento Índio, in Miguel Castro Henriques (org. e trad.), O Sopro das Vozes Textos de Índios Americanos, Assírio e Alvim, p.233

domingo, 23 de janeiro de 2011

Entre tudo e nada: alguma coisa

«Penso
Que o silêncio é imenso.
Entanto,
Se um grilo canta no silêncio,
O seu ínfimo canto
Vence-o.»
- Carlos Queirós, «Breve tratado de não-versificação»

"Ninguém tem necessidade de ir para qualquer outro lado. Todos nós já lá estamos; só falta sabermos que de facto assim é"



"Ninguém tem necessidade de ir para qualquer outro lado. Todos nós já lá estamos; só falta sabermos que de facto assim é. Se eu soubesse realmente quem sou, deixaria de proceder como a pessoa que julgo ser e, se eu deixasse de proceder como a pessoa que suponho ser, saberia quem sou. O que de facto sou - isto se o maniqueu que eu julgo ser me deixar descobrir o que realmente sou - a reconciliação do sim e do não, subsistindo em aceitação total e na abençoada experiêencia do Não-Dois. Em matéria de religião, todas as palavras são obscenas. Toda a criatura que discorre eloquentemente acerca de Buda, de Deus ou de Cristo, merecia que lhe desinfectassem a boca com fenol.

Em virtude da sua aspiração a perpetuar unicamente o sim em todos os pares de coisas antagónicas, o maniqueu que julgo ser não poderá jamais realizar-se na natureza das coisas; condena-se a si próprio a uma frustração incessantemente repetida; a conflitos incessantemente repetidos com outros maniqueus igualmente ambiciosos e frustrados.

Conflitos e frustrações - eis o tema de toda a história e de quase todas as biografias. "Mostrar-te-ei a tristeza" - eis uma frase realista do Buda. Mas ele mostrou igualmente o termo dessa tristeza - o autoconhecimento de cada um, a abençoada experiência do Não-Dois"

- Aldous Huxley, A Ilha, Lisboa, Livros do Brasil, 1999, pp.48-49.

sábado, 22 de janeiro de 2011

Quando tua boca beber o leite do seio materno
Julgares ser o Deus menino e tua mãe imaculada
nota as palavras que o vento te roubou
mostrando-te o vazio que procuravas no intervalo

ténue fronteira inexistente
não ajas como uma sombra,
não sejas devoto da perspectiva;
sê um corpo com bússola de vento

"De todas as coisas que fiz, numa vida comprida como a minha, a melhor foi fazer amor, [...] porque através de um corpo está todo o universo"



- Da esquerda para a direita: Délio Vargas, Artur do Cruzeiro Seixas, Paulo Borges, Alexandre Vargas e António Cândido Franco.

"De todas as coisas que fiz, numa vida comprida como a minha, a melhor foi fazer amor, fazer amor com pessoas, tocar com as mãos um corpo, porque através de um corpo está todo o universo. Isso é o mais importante, muito mais do que a pintura, a arte, os intelectuais, os livros, essas coisas todas" - Artur do Cruzeiro Seixas (citação de memória), no final de um video ontem projectado no Botequim da Graça, na apresentação do livro de António Cândido Franco, Teixeira de Pascoaes nas palavras do surrealismo em português.

Uma noite histórica, acima documentada, com a presença do próprio Cruzeiro Seixas, que será entrevistado e publicará obras suas no nº4 da Cultura ENTRE Culturas.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

3ª feira, 25, 18.30, FNAC - CHIADO - apresentação do nº2 da Cultura ENTRE Culturas



O nº 2 da revista Cultura ENTRE Culturas será apresentado no dia 25 de Janeiro, pelas 18.30, na FNAC - Chiado, pelo Prof. Dr. António Cândido Franco (Univ. Évora), bem como pelo Director, Paulo Borges, e pelo Director artístico, Luiz Pires dos Reys.

Este número tem como tema "Encontro Ocidente-Oriente" e publica ensaio, poesia, fotografia e pintura.

Colaboradores nacionais: Carlos João Correia, Paulo Borges, Rui Lopo, Ricardo Ventura, Duarte Braga, Maria Sarmento, Ethel Feldman, Sylvia Beirute, Donis de Frol Guilhade, Flávio Lopes da Silva, Miguel Gullander, Miguel Real e Abdul Cadre. Colaboradores estrangeiros: pintor Rômulo de Andrade (Brasil), fotógrafo João Paulo Farkas (Brasil), Dzongsar Khyentse Rinpoche (Butão), monge e cientista Matthieu Ricard (França-Nepal), professores Françoise Bonardel (Sorbonne - França) e Giangiorgio Pasqualotto (Universidade de Pádua - Itália), poeta Vicente Franz Cecim (Brasil), psicólogo Sam Cyrous (Uruguai-Brasil).

A revista publica ainda poesia e textos de Raimon Pannikar, Rumi, Longchenpa, Simeão, o Novo Teólogo, T. S. Eliot e Vergílio Ferreira, bem como dois textos do recentemente falecido pensador António Telmo, entre eles o último que escreveu e deixou inédito.

Uma revista de Todo o Mundo.

arevistaentre.blogspot.com

O próximo número é dedicado a Fernando Pessoa, com um caderno especial sobre Fernando Pessoa e o Oriente, contendo muitos inéditos transcritos do espólio.

À venda nas melhores livrarias do país e na Livraria Couceiro (Santiago de Compostela).

Assinaturas:

Pedidos à editora: 1 Ano (2 números) / 2 Anos (4 números) Portugal: € 30.00 / € 55.00; Europa: € 35.00 / € 65.00; Extra-Europa: € 40.00 / € 75.00.
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"As latências querem sair à luz, tornar-se, actualizando-se, estados de consciência"

Muito antes da psicanálise, o Yoga mostrou a importância do papel desempenhado pelo subconsciente. O dinamismo próprio do inconsciente é, segundo o Yoga, o obstáculo mais sério que o yogui terá de superar. Isto porque as latências querem sair à luz, tornar-se, actualizando-se, estados de consciência. A resistência que o subconsciente opõe a todo o acto de renúncia e de ascese, a todo o acto que poderia ter por efeito a libertação do Si, é, digamos assim, o sinal do medo sentido pelo subconsciente à simples ideia de que a massa das latências ainda não manifestadas possa falhar o seu destino, ser aniquilada antes de ter tido tempo de emergir e actualizar-se.

Mircéa Eliade, Patañjali e o Yoga, Relógio D'Água Editores, 2000, p.62

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

A síntese superativa de capitalismo e socialismo numa economia de mercado ecológico-social

"Mais além da economia planificada e da economia de mercado capitalista (na qual primam os interesses do capital e se descuidam as exigências do trabalho e da natureza), é preciso trabalhar na linha de uma economia de mercado de corte social e ecológico em que se busque o equilíbrio entre os interesses do capital e os interesses sociais e ecológicos, isto é, trabalhar na linha de uma economia de mercado ecológico-social"

- Hans Küng, Proyecto de una ética mundial, Madrid, Trotta, 2006, p.30.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

O "homem mais perfeito" versus o "super-homem"?

"Para o auto-sentimento cristão, o homem mais perfeito é o que com mais verdade possa dizer 'eu sou eu'; para a ciência, o homem mais perfeito é o que com mais justiça possa dizer 'eu sou todos os outros' "
(Álvaro de Campos, Ultimatum)

Nem cá mais verdade.
Nem cá mais justiça.

Para mim, nem uma coisa nem outra. Nem isto:
"O Super-homem será, não o mais forte, mas o mais completo! 
O Super-homem será, não o mais duro, mas o mais complexo!
O Super-homem será, não o mais livre, mas o mais harmónico!" 
(ibidem)

Nem cá completo. 
Nem cá complexo.
Nem cá harmónico.

Homem!
Apenas homem!
Se homem (haja que daí sobre)...

Convocatória

Precisa-se urgentemente de uma nova geração de amigos da realidade, que adorem ver as coisas como são, para além de todos os juízos e conceitos, e que amem imparcial e incondicionalmente todos os seres e tudo, homens, animais e todas as vidas invisíveis, o ar, a água, a terra, o fogo, o planeta, o inteiro universo.

Tu podes ser um deles! Precisamos urgentemente de ti!

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

ENTRE

Intervalo onde nos encontramos. Disseste-me que estaríamos Entre. Inventaste um espaço onde tudo seria possível. Amor que não se cansa. Limite que não se conhece. Uma janela - eterno Entre na paisagem.

Tudo em aberto- intervalo inventado por ti, agora finito.

Quando a unidade procura o vazio e quase chega lá, dita a física que esse encontro nunca se faz por mais próximo que seja, em absoluto não existe.

Dá-me então esse relativo, onde existimos sem forma e limite. Este que cresce quanto mais Entre estivermos.

No limite, vivemos fora dele, sempre a procurar o infinito.
No intervalo que acabaste por definir - ilusão de finito, deixámos de amar.

Aparece o o sol a dizer que é azul
Olho e vejo o espectro
Vem o cego, toca meu seio
diz que é preto
eu o sinto tão sem cor, agora!

Falas do elo que falta, e eu te respondo que é na ausência que vivem os meus textos. O silêncio entre a última e a próxima palavra - ali onde respira o que não deve ser dito.

Dá-me um beijo na boca
Intervalo que somos
Um no outro - agora
Entre um beijo e outro

Procura a semente, cultiva, colhe
Fruta da época - Entre uma estação
e outra

Mortas as maçãs do meu pomar
Sementes de novo
Ama enquanto for tempo
Morre dentro do tempo
Semente de novo

Intervalo que não se acaba
Entre - Sempre

"O homem na sua plenitude não é poderoso, mas perfeito"



- Rabindranath Tagore

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

SOL

O sol aparece sem dizer bom dia. Abraça quem dorme. Toma conta do dia. Nos dias de festa, fica até tarde.

Preguiçoso, adormece comigo na cama. Morre um homem. Nasce outra flor. Chove. Molha meu corpo de novo.
Nos dias de festa, o sol fica até tarde. Dorme comigo. Morre e nasce. Outra vez.

Nas estações de comboio chegavam homens de fora. Das prisões saíam heróis. Abraços que se prolongavam na canção da liberdade.
Não importa se gritavam sozinhos ou acompanhados, os seus pulmões descobriam caminho e entoavam sem medo:
- Camarada!


Homens que choram, sem vergonha do choro. Em cada abraço a memória da luta pela liberdade. Em cada sorriso, a esperança de um novo dia.

Da minha janela vejo o mar. Conto as ondas que se repetem na minha boca. Quando o sol aparece, abraça-me devagar. Peço a ele que fique e me aqueça, entre ir e voltar.
Os pescadores escolhem o melhor peixe. Os eleitos secam devagar, no sol. Voam morcegos nas noites quentes. Não escolhidos, voltam ao mar os peixes sobreviventes.
Morreu de morte matada. Escapou da fome. Regressou ao mar, o peixe que sobrou na rede do pescador. Cantou o galo pior sorte. Ensaguentado o touro explodiu.
Morrem os pobres - felizes antes de morrerem de fome. Desgraça assistida.

De noite conto as estrelas cadentes. Dançam sempre antes de morrer.

Johan Rockstrom: Let the environment guide our development | Video on TED.com

Johan Rockstrom: Let the environment guide our development | Video on TED.com

Johan Rockstrom sobre a necessidade de deixarmos o ambiente natural guiar o desenvolvimento humano e sobre a responsabilidade humana na gestão do planeta.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Uma ética global para um só mundo




"Se o grupo junto do qual nos queremos justificar for a tribo ou a nação, a nossa moral será provavelmente tribal ou nacionalista. Se, no entanto, a revolução nas comunicações tiver criado um público global, podemos sentir necessidade de justificar o nosso comportamento junto de todo o mundo. Esta alteração fornece a base material de uma nova ética que servirá os interesses de todos aqueles que vivem neste planeta, e fá-lo-á de uma forma que, apesar de muita retórica, nenhuma ética produziu até agora"

- Peter Singer, Um só mundo. A ética da globalização, Lisboa, Gradiva, 2004, pp.39-40.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

"aquele nada que é tudo"

"Oxalá por saber tanto
me apeteça ficar mudo
só então vendo sem ver
aquele nada que é tudo"

- Agostinho da Silva, Quadras Inéditas, p.88.

"Existe uma potência no espírito, que é só livre"

Eu disse algumas vezes que existe uma potência no espírito, que é só livre. Por vezes disse que ela é uma guarda do espírito; outras vezes que ela é uma luz do espírito; às vezes, que ela é uma centelha. Mas agora eu digo: ela não é nem uma coisa nem a outra, no entanto ela é algo mais elevado do que uma ou a outra, tal como o céu o é em relação à terra. Por isso nomeio-a eu agora de um modo mais nobre do que o fiz, apesar de ela escarnecer de tal nobreza e do seu modo, porque é superior a isso. Ela é livre de todos os nomes e despida de todas as formas, em absoluto livre e desprendida, como Deus em si mesmo é desprendido e livre. [...]

Mestre Eckhart, Tratados e Sermões, Paulinas Editora, 2009, p.192

Política

«We can see other people's behaviour, but not their experience. This has led some people to insist that psychology has nothing to do with the other person's experience, but only with his behaviour.
The other person's behaviour is an experience of mine. My behaviour is the experience of the other. The task of social phenomenology is to relate my experience of the other's behaviour to the other's experience of my behaviour. Its study is the relation between experience and experience: its true field is inter-experience.
I see you, and you see me. I experience you, and you experience me. I see your behaviour. You see my behaviour. But I do not and never have and never will see your experience of me. Just as you cannot "see" my experience of you. My experience of you is not "inside" me. It is simply you, as I experience you. And I do not experience you as inside me. Similarly, I take it that you do not experience me as inside you.
"My experience of you" is just another form of words for "you-as-I-experience-you", and "your experience of me" equals "me-as-you-experience-me". Your experience of me is not inside you and my experience of you is not inside me, but your experience of me is invisibkle to me and my experience of you is invisible to you.
I cannot experience your experience. You cannot experience my experience. We are both invisible men. All men are invisible to one another. Experience used to be called The Soul. Experience as invisibility of man to man is at the same time more evident than anything. Only experience is evident».
R. D. Laing, «The politics of experience», London, 1967.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

A realidade, comovida, agradece mas fica no mesmo sítio. (Mário Cesariny)



A realidade, comovida, agradece
mas fica no mesmo sítio
(daqui ninguém me tira)
chamado paisagem

[…]

Ela sabe que os pintores
os escritores
e quem morre
não gostam da realidade
querem-na para um bocado
não se lhe chegam muito pode sufocar

Mário Cesariny,
Poema VII de “A Cidade Queimada”, in Titânia e a Cidade Queimada (excerto),
Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1977, pág. 92 e seg.

"Baila a vida em liberdade / Sobre o nada em que me deito"

"Tudo o que faço e não faço
Sem eu o fazer é feito
Baila a vida em liberdade
Sobre o nada em que me deito"

- Agostinho da Silva, Quadras Inéditas

domingo, 9 de janeiro de 2011

DESTINO E MORTE DAS PALAVRAS EM VERGÍLIO FERREIRA
Por, Isabel Rosete


«Mas como dizer aquilo mesmo que julgamos dizer, o que em palavras comuns enunciamos? (...) Como dizer «morte» à superfície deste vocábulo «morte»? (...) Mas o mesmo vocábulo esgotou sem esgotar toda a rede infinita que o prende. Escrevo a palavra «morte» e como admitir que nela tenha esgotado a perturbação que me toma, até porque nem sempre me toma? Escrevo a palavra «luz» e como conceber que ela ilumina toda a minha alegria para que outrém ou eu próprio a reconheça?» .
                                                                                                   Vergílio Ferreira

Quando falamos neste homem de Melo, de ar calmo e absolutamente sereno, olhando para o mundo ao mesmo tempo que olha para o interior de si mesmo, não podemos deixar de o conceber como uma excepção. No seio da literatura portuguesa assumiu a difícil e ingrata vocação de denunciar a morte da palavra, da arte do homem no pensamento contemporâneo.

Remou contra a maré como os profetas e a sua voz isolada, apesar do anúncio primeiro da morte de Deus e depois da morte do Homem, não se cansou, porém, de afirmar o valor do homem e a grandeza das suas manifestações, mas também de valorizar a dúvida, que o tornou particularmente incomodo no meio da intelectualidade portuguesa.

É neste contexto, que devemos entender a imagem a que o escritor recorreu, aquando da entrega do Prémio APE, em 1998: « Escrevi algures que numa carroça quem tem menos problemas é o cavalo. Mas precisamente por isso foi a sorte do cavalo que normalmente e no fundo o homem para si pretendeu. Alguém que tome conta de nós, alguém, alguma coisa, que tome sobre si o que é o peso do nosso excesso».

De resto, o que evocará Vergílio Ferreira que não esteja já na profunda admiração pela sua obra? A sua vida pertenceu-lhe inteira em cada livro. A sua vida (e também a sua morte) está toda, inteira, na sua obra.

Digamos que o autor escreveu uma única e grande obra que atravessa todos os seus livros, pelo que entenderemos todos os sinais que deixou em cada um deles como um lamento por um mundo que desaparecia lentamente, e por uma relação perdida entre os homens e a felicidade.

Este homem sombrio que às vezes escrevia com acentos graves de pitonisa que nos anuncia catástrofes inconcebíveis, este perscrutador de mistérios e negrumes, nunca foi capaz de aceitar pacificamente esta verdade tão simples: que só a força intrínseca da sua obra, a um tempo, fremente e sólida, o podia salvar.

Ora, aquela “inverosimilhança” que o autor de Aparição atribuiu à morte cobra, de facto, um outro sentido. Tudo na sua luz se transfigura: a voz do amigo desaparecido, os seus gestos, o rosto que nos serve de espelho de uma vida, e até os seus textos que foram a sua verdadeira vida e com ela se confundiam.

Textos sempre ligados ao sonho e à paixão que os criou, coligidos com uma espécie de solidão de ninguém, como a das estrelas. Em última análise, pensamos, é assim que muitos autores o imaginam e poucos os terão transposto para esse espaço invulnerável onde o rumor da vida e das fridas que dela supuram já não se ouvem ou não sangram, como na alma deste escritor que nos ficou «para sempre».

Vergílio Ferreira quis, menos do que se defender do que se abrigar de tudo e de si mesmo, confundir-se com a voz da solidão, que cedo o habitou com um excesso, que nem a obra toda glosando-a com uma obsessão intensa, pôs cobro. «Só» é uma pequena grande palavra que caracteriza toda a sua vida e toda a sua obra, quiçá a vida e as obras de todos os seres humanos. «Só», o mais curto dos nomes, que deu à radical vivência da condição humana, como ele a sentiu e viveu, o mesmo brasão do amor fraterno.

Sentimos em cada acto da escrita vergiliana um ostensivo culto da tristeza, qual incansável reiteração da evidência das evidências, co-essencial à nossa existência como finitude. E em torno desse «lugar-comum» ergueu uma elegia fulgurante, quiçá narcisista, ou se preferirmos, complacente música sobre a sua finitude, a sua morte e não sobre a intrínseca e anónima mortalidade, como defenderia Beckett.

Sobre toda a obra vergiliana encontramos o fantasma da própria morte do escritor, tal como Rilke o invocou. E por esta via, está naturalmente presente, suportando sobre a sua realidade da sombra, o peso e o esplendor do que chamamos mundo e vida.

Se enveredarmos por outra postura hermenêutica, talvez seja uma injustiça, encerrar a sua temática da solidão metafísica do homem, no mero círculo da subjectividade. Em termos de ficção, a Morte comparece, desde as suas primeiras palavras, como o acontecimento empírico, de espécie única, que realmente é.

Se retirarmos o fantasma da morte do nossos horizonte, não há ficção, pois toda a ficção não é senão o resultado dessa necessidade intrínseca de contornar o problema, de integrar simbolicamente a morte na realidade que ela subverte pela sua irrupção. Ora essa morte foi durante muito tempo, nos romances de Vergílio Ferreira, a morte dos próximos: do Pai e da Mãe.
...
Continua em - http://isabelrosetevergilioferreira.blogspot.com/

Isabel Rosete

sábado, 8 de janeiro de 2011

"Será, por exemplo, mais grave casar-se do que entrar no eléctrico?"




"Acha você que temos de estabelecer distinções entre os momentos graves e os não graves da vida? Será, por exemplo, mais grave casar-se do que entrar no eléctrico? […] Todos os nossos actos podem ser igualmente graves e só porque são actos: tudo é consequência de tudo, nenhum elemento se perde nesta máquina do mundo; tudo o que façamos se reflecte no que vem, é já mesmo o que vem. Como havemos de dizer que tal acção é grave, séria, que outra o não é?"

- Agostinho da Silva, Sete Cartas a um Jovem Filósofo [1945], in Textos e Ensaios Filosóficos I, p. 243.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

amor inventado

Atravessei a rua, sem ver
Pisei no chão, descalça
Abracei o estranho, cega
Ri sem motivo, feito criança
Embriagada amei
teu corpo no meu
meu beijo no teu
acordo, recordo, invento
parte quem nunca chegou
amor inventado

A ética global segundo Hans Küng




"Quais são as fontes de uma ética global? Resposta: todo o intuito de formulação de ma ética global há-de colher o seu conteúdo "dos recursos culturais, ideias, experiências emocionais, recordações históricas e experiências espirituais dos povos". Apesar das diferenças das culturas, há certas temas que aparecem em quase todas as tradições culturais e que podem servir de inspiração para uma ética global.

A primeira fonte constituem-na as grandes tradições culturais, especialmente "a ideia da vulnerabilidade humana e o consequente impulso ético de minorar o sofrimento, na medida do possível, e garantir a cada indivíduo a sua segurança"

- Hans Küng, Una ética mundial para la economía e la política, Madrid, Trotta, 1999, p.239 (citações do Report of the World Commission on Culture and Development, "Our Creative Diversity", Paris, 1995).

Esta perspectiva deva ser completada, superando o seu antropocentrismo, pela igual consideração dos seres não-humanos e da natureza. Só assim se poderá falar de uma ética global.

O nº1 da revista Cultura ENTRE Culturas publica uma conferência inédita deste pensador, que faz parte da sua Comissão de Honra.

POESIA

Quando crescer vou ser poeta
contar da flor que nasce
daquela que agora morre
Quando crescer farei poesia
da poesia de cada encontro
Quando crescer, bastará fechar os olhos
abraçar tudo que vejo
Instante que amo e largo
Intervalo sem tempo
Poema que assiste a vida

DESENHO

Passei o dia à janela. Olhando de dentro para fora. Cada forma uma forma. Desenho-as mentalmente. Por onde começa a letra? Com o dedo imagino que nasce de cima para baixo. Encontro o fim e volto ao mesmo. Um desenho que nunca acaba. Como se o mundo fosse só essa curva que gosto. Redonda.

As cores conto-as aos pares. Viajo no espectro, encontro a matemática de cada elemento. Na unidade, procuro o par. Sustento. Reparto. Parto. Desenho que não se acaba, senão quando me canso.

Atravessa o cego com a bengala no ar - o buraco está no chão.
Trinta e seis justos Deus escolheu - sábios ignorantes a vaguear sem destino.
Redonda é a forma - vizinha do fim. Perfume doce em cada manhã.

Parto, reparto, sustento, respiro.
Encontra o cego a migalha de pão - largada no chão.
Do lado de fora, vejo a janela da minha casa. Embaciada.
Invento o começo - sem cor. Sem destino.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Padre António Vieira e o regresso do mundo ao vegetarianismo paradísiaco

“Pois se do princípio do mundo até o dilúvio [que se contaram 1650 anos] os animais viviam em paz entre si, e os que hoje feros e domésticos naquele tempo pasciam no mesmo campo pacífica e concordemente, sem se perseguirem, nem se comerem: que muito será que torne o mundo a ver na sua última idade o que viu na primeira ? e [sic] que na renovação da terra e dos ares que considerámos acima se restitua também o temperamento dos animais à constituição antiga com que, sem nenhum milagre nem mudança essencial da natureza, o instinto e apreensão da fantasia os leve aos frutos e às ervas como hoje os convida às carnes ?”

– Padre António Vieira, Apologia das Coisas Profetizadas, p.292.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Padre Antônio Vieira

Quero
Amar o teu corpo nu
Em todos os seus pedaços
Que em ti vagueiam,
Dis-persos.

Quero
Consumir todo o teu néctar,
Em cada orgasmo libertado.

Quero
Sugar-te as entranhas
Como um animal no cio,
Libidinalmente ansioso,
Insatisfeito pelo desejo intenso
Que, em nada, se consome.

Amo-te por e em todos os teus poros
Por onde transpiras uma sensualidade,
Única e irresistível.

És uma tentação permanente!
És a tentação que não se apaga
Da minha memória!

És a tentação, lúcida,
De todos os meus desejos e queres,
Insaciáveis, neste turbilhão libidinal
Que sempre me move!

Isabel Rosete, 14/05/2010

Leonardo Boff e o novo paradigma holístico



"O marco sociopolítico dessa libertação integral é a democracia ampliada e enriquecida. Essa democracia haverá de ser biocracia, democracia sociocósmica, ou seja, uma democracia que esteja centrada na vida, que parta da vida humana mais humilhada, que inclua os elementos da natureza tais como as montanhas, as plantas, as águas, os animais, a atmosfera e as paisagens como novos cidadãos participantes do convite humano e aos humanos como participantes do convite cósmico. Só então haverá justiça ecológica e societária com uma paz assegurada no planeta Terra"
- Leonardo Boff, Ecologia: grito da Terra, grito dos pobres [tradução castelhana: Ecología: grito de la Tierra, grito de los pobres, Madrid, Trotta, 2006, pp.144-145].

"Com a era ecológica atravessamos os umbrais de uma nova civilização. Esta só chegará a consolidar-se se tiverem lugar transformações fundamentais nas mentes das pessoas e nos padrões de relação com o universo na sua totalidade. Um novo paradigma exige uma nova linguagem, um novo imaginário, uma nova política, uma nova pedagogia, uma nova ética, uma nova descoberta do sagrado e um novo processo de individuação (espiritualidade)" - Ibid., p.149.